Como Ser Antirracista
Comportamento
CAPÍTULO 8
COMPORTAMENTO
RACISTA COMPORTAMENTAL: Aquele que responsabiliza
os indivíduos pelo comportamento percebido de grupos
raciais e responsabiliza grupos raciais pelo comportamento
dos indivíduos.
ANTIRRACISTA COMPORTAMENTAL: Aquele que confere
caráter fictício ao comportamento do grupo racial e real ao
comportamento do indivíduo.
A , um grupo inter-racial que chegou exatamente quando minhas velhas roupas da Avenida se
tornavam pequenas demais para meu corpo em crescimento.
Perdera a pureza do meu sotaque de Nova York e meu jump shot
, mas achei amigos vivos, ativos e divertidos como Chris, Maya,
Jovan e Brandon.
Meu rendimento escolar não se recuperou. Nunca me
incomodei muito com as aulas no Queens — eu cabulava aulas
na John Bowne para jogar baralho na cantina e desligava os
professores como se eles fossem um comercial ruim, fazendo
apenas trabalhos suficientes para continuar ligado ao basquete.
Definitivamente, não correspondia ao meu potencial acadêmico
— e, sendo um adolescente negro nos anos de 1990, minhas
deficiências não passaram despercebidas, tampouco deixaram
de ser julgadas. Os primeiros a notar o fato foram os adultos da
geração de meus pais e avós que me cercavam. Conforme
documentado pelo acadêmico da área jurídica, James Forman
Jr., a geração dos direitos civis geralmente evocava Martin Luther
King Jr. para nos envergonhar. “Martin Luther King foi bem-
sucedido ao enfrentar pessoas como Bull Connor para que, no
final, perdêssemos a luta pelos direitos civis para integrantes desorientados e mal-intencionados de nossa própria raça?”
perguntou o promotor de Washington, D.C., Eric Holder, em uma
comemoração do aniversário de MLK, em 1995. “Vocês estão
sacrificando a liberdade de todos”, disse Jesse Jackson a um
grupo de prisioneiros do Alabama naquele ano. “Vocês podem
superar isso se mudarem de atitude”, acrescentou. “Faço um
apelo a vocês. Suas mães fizeram um apelo a vocês. O Dr. King
morreu por vocês.”
O chamado “primeiro presidente negro” seguiu seu exemplo.
“Não é racista os brancos dizerem que não entendem por que as
pessoas aceitam gangues na esquina ou nos conjuntos
habitacionais, ou a venda de drogas nas escolas ou a céu
aberto”, disse o presidente Clinton em 1995. “Não é racista os
brancos afirmarem que a cultura da dependência do serviço
social, das gestações fora do casamento e de pais ausentes não
pode ser derrubada por programas sociais a menos que primeiro
haja mais responsabilidade pessoal.”
Os negros precisavam parar de usar a “carta do racismo”,
expressão usada por Peter Collier e David Horowitz para
designar “conversas sobre raça e racismo”, em 1997. O problema
era a irresponsabilidade pessoal.
De fato, fui irresponsável na escola. Faz sentido em termos
antirracistas falar sobre irresponsabilidade pessoal de indivíduos
como eu em todas as raças. Fiz besteiras. Poderia ter estudado
mais. Contudo, alguns amigos brancos também poderiam ter
estudado mais, e seus fracassos e irresponsabilidade não
macularam sua raça.
Meus problemas com irresponsabilidade pessoal foram
exacerbados — ou, talvez, até causados — pelas lutas adicionais
que o racismo acrescentou à minha vida escolar, de uma história
de professores desinteressados e racistas a escolas
superlotadas, aos ataques racistas diários a garotas e garotos
negros. Não há dúvidas de que eu poderia ter superado esse
racismo e continuado a avançar. Contudo, pedir a todos os
negros sem vocação atlética que se tornem corredores olímpicos,
e censurá-los por não conseguirem atender às expectativas, é
racista. Um dos malefícios do racismo é a forma como afeta negros comuns de quem se exige atos extraordinários
simplesmente para sobreviver — e, ainda pior, coloca o negro
que comete erros defronte ao abismo, enquanto o branco que
comete erros recebe empatia e uma segunda chance. Isso não
deveria representar surpresa: um dos valores básicos do racismo
para os brancos é tornar o sucesso disponível até para brancos
não excepcionais, enquanto o sucesso, mesmo moderado,
geralmente é reservado a negros extraordinários.
Como encaramos o meu jovem eu, o aluno de notas medíocres,
em termos antirracistas? A verdade é que eu deveria ser criticado
como aluno — eu não tinha motivação, era distraído e
indisciplinado. Em outras palavras, um mau aluno. Mas eu não
deveria ser criticado como um mau aluno negro . Eu
representava a minha raça tanto quanto meus companheiros de
classe brancos irresponsáveis representavam a deles. Faz
sentido em termos racistas falar sobre irresponsabilidade pessoal
como se ela se aplicasse a todo um grupo racial. O
comportamento do grupo racial é uma invenção da imaginação
racista. Comportamentos individuais podem moldar o sucesso de
indivíduos. Contudo, políticas determinam o sucesso de grupos.
E é o poder racista que cria as políticas que causam
desigualdades raciais.
Responsabilizar indivíduos pelo comportamento percebido dos
grupos raciais e responsabilizar grupos raciais inteiros pelo
comportamento de indivíduos são duas formas pelas quais o
racismo comportamental contagia nossa percepção do mundo.
Em outras palavras, quando acreditamos que o aparente sucesso
ou fracasso de um grupo racial afeta cada um de seus membros
individuais, aceitamos a ideia racista. Do mesmo modo, quando
acreditamos que o aparente sucesso ou fracasso de um indivíduo
afeta todo um grupo, aceitamos uma ideia racista. Essas duas
ideias racistas eram corriqueiras nos anos 1990. Norte-
americanos progressistas — os que se autoidentificavam como
“não racistas” — abandonaram o racismo biológico em meados
dos anos 1990. E foram além: a maioria abandonou o racismo
étnico, corporal e cultural. Mas ainda estavam ligados ao racismo comportamental. E carregaram essa tocha com firmeza até o
presente.
O mesmo racismo comportamental orientou muitos eleitores de
Trump, a quem esses mesmos progressistas “não racistas’ se
opuseram violentamente na eleição de 2016. Eles, também,
atribuíram qualidades a grupos inteiros — estes eram eleitores
cuja escolha política se relacionou à crença de que os negros
são mais grosseiros, preguiçosos, estúpidos e cruéis do que os
brancos. “A comunidade negra norte-americana… transformou as
grandes cidades dos EUA em favelas por causa da preguiça, do
uso de drogas e da promiscuidade sexual”, sugeriu o reverendo
Jamie Johnson, diretor de um centro religioso no Departamento
de Segurança Interna de Trump após as eleições. “Embora
líderes de direitos civis dos negros gostem de apontar um
sistema de justiça criminal supostamente racista para explicar por
que nossas prisões abrigam tantos negros, é óbvio, há décadas,
que o verdadeiro culpado é o comportamento deles”, argumentou
Jason Riley em 2016.
Sempre que alguém racializa o comportamento — descreve
algo como “comportamento negro” — está expressando uma
ideia racista. Ser antirracista é reconhecer que não existe algo
como comportamento negro muito menos comportamento
irresponsável negro. O comportamento negro é tão fictício quanto
genes negros. Não existem “genes negros”. Ninguém jamais
determinou um único “traço comportamental negro”. Por
exemplo, jamais se produziu uma única evidência de que os
negros são mais ruidosos, zangados, simpáticos, engraçados,
menos pontuais, mais imorais, religiosos ou dependentes; de que
os asiáticos são mais subservientes; de que os brancos são mais
gananciosos. Tudo o que temos são histórias de
comportamentos individuais. Porém histórias individuais são
apenas provas de comportamentos de indivíduos. Assim como a
raça não existe em termos biológicos, também não existe em
termos comportamentais.
Mas e quanto ao argumento de que grupos de negros no sul, ou
asiáticos-americanos em Chinatown, em Nova York, ou brancos
nos subúrbios do Texas parecem se comportar de modos que seguem práticas culturais coerentes e definidas? Antirracismo
significa separar a ideia de cultura da ideia de comportamento.
Cultura define uma tradição grupal que um grupo racial em
especial pode partilhar, mas não é compartilhado entre todos os
indivíduos desse grupo racial ou entre todos os grupos raciais.
Comportamento define o potencial e os traços humanos
peculiares que todos partilham. Os seres humanos são
inteligentes e preguiçosos, mesmo quando essa inteligência e
essa preguiça possam aparecer de modos diferentes em grupos
culturais racializados.
a questão de um jeito
diferente que os antirracistas, e até mesmo entre si. Nas décadas
antes da Guerra Civil, racistas comportamentais discutiam sobre
se era a liberdade ou a escravidão que causava um suposto
comportamento negro medíocre. Para teóricos pró-escravatura,
deficiências comportamentais negras originam-se da liberdade,
seja na África ou entre escravizados emancipados nos Estados
Unidos. Nos estados que “conservaram a antiga relação” entre a
supremacia branca e a escravatura negra, negros “melhoraram
grandemente em todos os aspectos — em quantidade, conforto,
inteligência e moral”, explicou John C. Calhoun, secretário de
Estado, a um crítico britânico em 1844. Essa posição pró-
escravatura se manteve até depois de sua abolição. Negros
livres “separados do espírito da sociedade branca” — seus
senhores civilizadores — degeneraram no “tipo original africano”,
com traços comportamentais que iam de hipersexualidade,
imoralidade, criminalidade e preguiça à má atuação como pais,
declarou Philip
Alexander Bruce em seu livro popular de 1889, The Plantation
Negro as a Freeman . [“O Negro das Plantações como Homem
Livre”, em tradução livre].
Em contraste, os abolicionistas, incluindo Benjamin Rush, em
1773, argumentavam: “Todos os vícios de que os negros são
acusados nas colônias sulistas e nas Índias Ocidentais, como o
Ócio, Deslealdade, Ladroagem, e outros, são descendentes
legítimos da escravidão.” Um ano depois, Rush fundou a primeira sociedade branca antiescravatura do país. Ao redigir o prefácio
da narrativa de Frederick Douglass sobre os escravos, em 1845,
o abolicionista William Lloyd Garrison declarou que a escravidão
degradava o povo negro “na escala da humanidade… Não faltou
fazer nada para mutilar seus intelectos, obscurecer suas mentes,
rebaixar sua natureza moral, obliterar todos os traços de seu
relacionamento com a humanidade”.
Abolicionistas — ou, melhor, assimilacionistas progressistas —
idealizaram o que chamo de tese de opressão-inferioridade. Em
seus bem-intencionados esforços de persuadir os norte-
americanos dos horrores da opressão, os assimilacionistas
argumentam que a opressão degradou os comportamentos de
pessoas oprimidas.
Essa crença se estendeu até o período após a escravidão. Em
seu discurso na reunião de fundação da Academia do Negro
Americano Alexander Crummell, em 1897, W.E.B. Du Bois
declarou: “O primeiro e maior passo em direção à criação do
atual atrito entre as raças… reside na correção da imoralidade,
do crime e da preguiça entre os próprios negros, que ainda
continua uma herança da escravatura.” Essa concepção de
escravidão como uma força desmoralizadora foi um reflexo da
concepção do historiador Jim Crow sobre a escravidão como
uma força civilizadora. Ambas as posições levaram os norte-
americanos em direção ao racismo comportamental: o
comportamento do negro desmoralizado pela liberdade — ou o
comportamento do negro liberto desmoralizado pela escravidão.
A mais recente expressão da tese de opressão-inferioridade é
conhecida como síndrome pós-traumática da escravidão, ou
SPTE. “Conflitos internos”, materialismo, má atuação como pais,
colorismo, derrotismo, raiva — esses comportamentos
“disfuncionais” e “negativos” “assim como muitos outros estão,
em grande parte, relacionados a adaptações transgeracionais
associadas a traumas passados da escravidão e opressão
contínua”, afirma a psicóloga Joy DeGruy, em seu livro de 2005,
Post Traumatic Slave Syndrome [“Síndrome Pós-traumática da
Escravidão”, em tradução livre]. (Algumas pessoas acreditam, com base em estudos incorretos, que essas adaptações
transgeracionais são genéticas.)
DeGruy alegou que “muitos, muitos” afro-americanos sofrem de
SPTE. Ela elaborou essa teoria com base em histórias e a
modelou como um transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Mas estudos mostram que um grande número de pessoas que
vive em ambientes traumáticos não desenvolve esse transtorno.
Pesquisadores constataram que, entre soldados que voltaram do
Iraque e do Afeganistão, as taxas de TEPT variavam entre 13,5 a
30%.
Naturalmente, indivíduos negros sofreram traumas devido à
escravidão e opressão contínua. Alguns indivíduos ao longo da
história exibiram comportamentos negativos relacionados a esse
trauma. DeGruy é uma heroína por conduzir os constructos do
trauma, do dano e da cura para a nossa compreensão da vida
negra. Mas existe uma linha tênue entre um antirracista que diz
que indivíduos negros sofreram traumas e um racista que diz que
os negros são pessoas traumatizadas. Existe uma linha
igualmente tênue entre um antirracista que diz que a escravidão
foi debilitante e um racista que afirma que os negros são um
povo debilitado. Os últimos constructos apagam passagens
inteiras da história: por exemplo, o caso de até a primeira
geração de negros emancipados, que saiu diretamente das
plantações para o exército da União, para a política, organização
do trabalho, Union leagues [organizações formadas para dar
apoio à União, durante e após a Guerra Civil], arte,
empreendedorismo, construção de clubes, igrejas, escolas e
comunidades — edifícios mais comumente dizimados pelas
mãos incendiárias do terrorismo racista do que por quaisquer
mãos autodestrutivas das deficiências comportamentais
originadas no trauma da escravidão.
No século XX, os cientistas sociais substituíram cada vez mais
a escravidão pela segregação e discriminação como a mão
opressora que devastava o comportamento negro. Os
psicanalistas Abram Kardiner e Lionel Ovesey mostraram essa
inquietação em seu livro de 1951, The Mark of Oppression: A
Psychosocial Study of the American Negro [“A Marca da Opressão: Um Estudo Psicossocial do Negro Norte-americano”,
em tradução livre]. “Não há um único traço de personalidade do
negro cuja origem não possa ser encontrada em suas difíceis
condições de vida”, escreveram. “O resultado final é uma vida
interior infeliz”, uma “autoestima” abalada, uma “autoaversão”
perniciosa, “a convicção de não ser digno de ser amado, a
diminuição da afetividade e a hostilidade incontrolável”.
Amplamente aceitas como fato científico, essas generalizações
abrangentes foram baseadas nas entrevistas dos autores com 25
respondentes.
conturbado nos anos 1990, eu
me sentia sufocado pela sensação de ser julgado, principalmente
pelas pessoas mais próximas: outros negros, especialmente
negros mais velhos que se preocupavam com toda a minha
geração. O juiz negro em minha mente não deixava espaço para
erros de indivíduos negros — eu não tinha que lidar apenas com
as consequências de meus erros pessoais, eu tinha o ônus
adicional de decepcionar toda a raça. Nossos erros eram
generalizados como os erros da raça. Parecia que os brancos
eram livres para se comportar mal, cometer erros. Mas se nós
falhássemos — ou falhássemos em ser duas vezes melhores —
então o juiz negro proferia uma sentença dura. Nada de indulto
ou liberdade condicional. Não havia meio-termo — éramos
discípulos de King ou bandidos matando o sonho de King.
Porém, naturalmente, embora isso possa ter parecido
verdadeiro em um senso social mais amplo, pais negros
respondiam como indivíduos. Meus próprios pais criaram meios-
termos escusatórios para os próprios filhos. Eu não deixei meus
pais orgulhosos. Mas eles não me trataram como um bandido,
tampouco me prenderam — eles continuaram tentando. Quando
eu estava no segundo ano do ensino médio na
Stonewall Jackson, meus pais insistiram para que eu assistisse
às aulas do International Baccalaureate (IB) e, embora eu não
alimentasse quaisquer expectativas especialmente elevadas para
mim, concordei. Entrei para o mundo hipócrita do IB, cercado por
um mar de alunos brancos e asiáticos. Esse ambiente só intensificou meu ódio pela escola, mesmo que agora por um
motivo diferente. Eu me sentia isolado, exceto por uma aula ou
outra com minha amiga Maya, uma adolescente negra que se
preparava para o Spelman College. Nenhum de meus colegas
brancos ou asiáticos vieram me salvar. Raramente abrindo a
boca ou erguendo a mão, eu me moldava de acordo com o que
imaginei que pensavam de mim. Eu me sentia como uma pessoa
em um bote furado enquanto eles passavam por mim todos os
dias a caminho de suas sessões padronizadas de preparação,
sonhos na Ivy League e competições em busca de elogios dos
professores. Eu me via pelos seus olhos: um impostor,
merecedor de invisibilidade. Meu afogamento no suposto mar da
inteligência avançada era iminente.
Internalizei minhas dificuldades acadêmicas como indicador de
algo errado não só com meu comportamento, mas com o
comportamento negro como um todo, visto que eu representava
a raça, tanto nos olhos deles — ou o que eu imaginei ver nos
olhos deles — e nos meus.
O chamado Nation’s Report Card [Relatório de Avaliação
Nacional do Progresso na Educação — NAEP] conta a mesma
história aos norte-americanos. Primeiro, ele publicou a pontuação
em matemática de alunos do nono e quinto anos, em 1990, o ano
em que entrei para o quarto ano. Alunos asiáticos do quinto ano
obtiveram 37 pontos; brancos, 32; e latinos, 21 a mais que os
negros no teste padronizado de matemática. Em 2017, as
disparidades na pontuação de alunos do quarto ano diminuíram
ligeiramente. A “defasagem de desempenho” em leitura entre
alunos brancos e negros do quinto ano também diminuiu entre
1990 e 2017, mas aumentou entre alunos brancos e negros do
terceiro ano do ensino médio. Em 2015, negros apresentaram a
menor média na pontuação do teste de aptidão escolar entre
todos os grupos raciais.
Quando eu era aluno no ensino médio, acreditava que testes
padronizados realmente mediam inteligência, e que, portanto,
meus colegas brancos e asiáticos eram mais inteligentes que eu.
Acreditava que eu era um idiota. Estava claro que precisava de
outra aula humilhante sobre como King morreu por mim.
...
ano da faculdade que era idiota por
pensar que eu era idiota. Estava me preparando para o último
teste padronizado importante, Graduate Record Exam, ou GRE,
de seleção para o mestrado/doutorado. Eu já tinha morrido com
mais de US$1 mil para um curso preparatório, alimentando a
indústria norte-americana de aulas particulares e preparatórios
para testes que rendeu US$12 bilhões em 2014 e tem previsão
de chegar a US$17,5 bilhões em 2020. Os cursos e professores
particulares estão concentrados nas comunidades asiáticas e
brancas, que, não é de surpreender, obtêm a maior pontuação
nos testes padronizados. Por exemplo, o curso preparatório para
meu GRE não foi ministrado em meu campus historicamente
negro. Tive que ir até um campus historicamente branco de uma
faculdade em Tallahassee.
Eu me sentava cercado por alunos brancos diante de uma
professora branca na Universidade Estadual da Flórida, em um
flashback do meu bote solitário na Stonewall Jackson. Eu me
perguntava por que era o único aluno negro na sala, sobre meu
privilégio econômico e o suposto privilégio econômico de meus
colegas. Estava curioso sobre outro estrato de alunos, que nem
estavam na sala, os que podiam pagar por aulas particulares
com essa professora.
A professora se gabava de que o curso melhoraria nossa
pontuação no GRE em 200 pontos, fato que ignorei no início —
parecia uma técnica de marketing improvável. Mas, a cada aula,
a técnica que fundamentava a confiança da professora ficava
mais clara. Ela não estava nos deixando mais espertos para
gabaritar o teste — ela estava nos ensinando como realizar o
teste.
No caminho para casa depois da aula, eu geralmente parava na
academia para levantar peso. Quando comecei os exercícios de
levantamento de peso, supus naturalmente que as pessoas que
levantavam os mais pesados eram as mais fortes. Minha
suposição estava errada. Erguer muito peso exigia uma combinação de força e boa forma; uma era baseada em
habilidade, a outra, no acesso a um bom treinamento e melhores
informações. Levantadores de peso bem treinados em excelente
forma levantavam mais peso do que levantadores igualmente ou
até mais bem dotados em pior forma.
Esse trajeto habitual do curso preparatório até a academia
deixava minha mente mais clara: a professora não estava nos
deixando mais fortes. Ela estava nos dando forma e técnica para
sabermos exatamente como levantar o peso do teste.
Isso revelava o método fraudulento de oferecer um produto e
entregar outro de qualidade inferior que fundamentava os testes
padronizados — exatamente o que os tornavam injustos: ela
ensinava como realizar testes padronizados que supostamente
medem força intelectual. Meus colegas de classe e eu
conseguíamos uma pontuação mais alta — 200 pontos, como
prometido — do que alunos mais pobres, que poderiam ter a
força intelectual equivalente, mas não tinham os recursos ou, em
alguns casos, até a consciência de adquirir uma forma melhor
por meio de cursos preparatórios caros. Por causa do modo
como a mente humana funciona — o chamado “erro fundamental
de atribuição” ou “viés de correspondência”, que nos motiva a
assumir crédito pessoal por qualquer sucesso — aqueles de nós
que se prepararam para o teste teriam uma pontuação maior e,
assim, acesso a melhores oportunidades, mas pensaríamos que
tudo isso era mérito próprio: que éramos melhores e mais
inteligentes do que os demais, e tínhamos até evidência
inquestionável e quantificável para apresentar. Vejam as nossas
notas! Conselheiros de admissão e professores suporiam que
éramos mais bem qualificados e nos admitiriam às suas
faculdades (ao mesmo tempo melhorando suas classificações
institucionais). E, como estamos falando de números objetivos e
inexpressivos, ninguém jamais pensaria que o racismo poderia
ter desempenhado um papel nessa situação.
O uso de testes padronizados para medir aptidão e inteligência
é uma das políticas racistas mais eficientes já criadas para
degradar mentes negras e excluir legalmente os corpos negros.
Degradamos mentes negras sempre que falarmos da “defasagem de desempenho acadêmico” com base nesses
números. A aceitação de uma defasagem de desempenho
acadêmico é somente o método mais recente de reforçar um
conceito racista mais antigo: a inferioridade intelectual negra. A
ideia de uma defasagem de desempenho significa que existe
uma disparidade no desempenho acadêmico entre grupos de
estudantes; nesta ideia está implícita a noção de que o
desempenho acadêmico medido por instrumentos estatísticos
como pontuação de testes e taxas de desistência é a única forma
de “desempenho” acadêmico. Existe uma implicação ainda mais
sinistra na conversa sobre defasagem de desempenho — que
disparidades no desempenho acadêmico refletem com exatidão
disparidades na inteligência em grupos raciais. O intelecto é o
elemento fundamental do comportamento, e a ideia racista de
uma defasagem de desempenho é o elemento fundamental do
racismo comportamental.
Lembre-se: acreditar em uma hierarquia racial é acreditar em
uma ideia racista. A ideia de uma defasagem de desempenho
entre raças — com brancos e asiáticos no topo e negros e latinos
no fundo — cria uma hierarquia racial, com implicações de que a
defasagem racial na pontuação de testes significa que algo está
errado com negros e latinos que se submetem aos testes, e não
com os testes. Desde o início, os testes, não as pessoas, sempre
foram o problema racial. Sei que é difícil aceitar essa ideia —
muitas pessoas bem-intencionadas tentaram “resolver” o
problema da defasagem de desempenho racial —, mas, quando
entendemos a história e as políticas que os fundamentam, tudo
fica claro.
A história da raça e dos testes padronizados começou em 1869,
quando o estatístico inglês Francis Galton — meio-primo de
Charles Darwin — elaborou a hipótese de que “o padrão
intelectual médio da raça negra fica a cerca de dois pontos
abaixo do nosso”, em Eugenia e Hereditariedade . Galton foi o
pioneiro da eugenia décadas depois, mas falhou em desenvolver
um mecanismo de testes que comprovasse sua hipótese racista.
Onde Galton falhou, France Alfred Binet e Theodore Simon
tiveram êxito, quando desenvolveram o teste de QI, em 1905, que o psicólogo de Stanford, Lewis Terman, revisou e entregou
aos norte-americanos em 1916. Esses testes “experimentais”
mostrariam “diferenças raciais imensamente significativas na
inteligência em geral, diferenças que não podem ser apagadas
por nenhum esquema de cultura mental”, disse o eugenista em
seu livro de 1916, The Measurement of Intelligence [“A Medida
da Inteligência”, em tradução livre].
O teste de QI foi ministrado pela primeira vez em uma escala
mais ampla a 1,7 milhões de soldados norte-americanos durante
a Primeira Guerra Mundial. O psicólogo de Princeton Carl C.
Brigham apresentou a defasagem racial da pontuação dos
soldados como prova da hierarquia racial genética em A Study of
American Intelligence [“Um Estudo da Inteligência Norte-
americana”, em tradução livre], publicado três anos antes de ele
criar o Teste de Aptidão Escolar (SAT na sigla em inglês), em
1926. Aptidão significa habilidade natural. Brigham, como outros
eugenistas, acreditava que o SAT revelaria a habilidade
intelectual natural dos brancos.
O físico William Shockley e o psicólogo Arthur Jensen levaram
essas ideias eugenistas para os anos 1990. Nessa época,
explicações genéticas — se não os testes e a defasagem de
desempenho em si — eram amplamente desacreditadas.
Segregacionistas que apontavam para genes inferiores tinham
sido superados no debate racista sobre o tema da defasagem de
desempenho por assimilacionistas apontando ambientes
inferiores.
Assimilacionistas liberais mudaram o discurso para “eliminar a
defasagem de desempenho”, intensificando o movimento de
testes nos anos 1990, quando surgiu a controvérsia do livro The
Bell Curve [“A Curva Normal”, em tradução livre], em 1994, sobre
se a defasagem poderia ser eliminada. “Parece altamente
provável que os genes e o ambiente têm algo a ver com as
diferenças raciais” na pontuação de testes, escreveram o
psicólogo de Harvard Richrd Herrnstein e o cientista político
Charles Murray nesse livro. A ideia racista de uma defasagem de
desempenho continuou no novo milênio por meio da Lei de
Nenhuma Criança Deixada para Trás, de George W. Bush, e a Corrida para o Topo e Núcleo Comum, de Obama — iniciativas
que aumentaram ainda mais o papel dos testes padronizados na
determinação do sucesso ou fracasso de estudantes e das
escolas que frequentavam. Por meio dessas iniciativas e
incontáveis outras, responsáveis por reformas educacionais
alardearam a “lacuna de desempenho” para ganhar atenção e
fundos para seus esforços igualitários.
Porém e se esses esforços bem-intencionados para fechar a
lacuna de desempenho estivessem abrindo a porta para ideias
racistas desde o início? E se diferentes ambientes levassem a
diferentes tipos de desempenho, e não a diferentes níveis de
desempenho? E se o intelecto de uma criança negra com maus
resultados nos testes em uma escola negra pobre for diferente —
e não inferior — ao intelecto de uma criança branca com bons
resultados nos testes em uma escola branca rica? E se
medíssemos a inteligência com base nos conhecimentos dos
indivíduos sobre o próprio ambiente? E se medíssemos o
intelecto pelo desejo de aprender do indivíduo? E se
compreendêssemos que a padronização de nossos currículos e
testes não é a melhor forma de garantir um sistema educacional
eficiente, e sim a padronização das oportunidades disponíveis a
todos os estudantes?
Na Pensilvânia, um recente estudo em âmbito estadual
constatou que, em qualquer nível de pobreza, os distritos com
proporção mais alta de alunos brancos recebem muito mais
recursos do que distritos com mais estudantes de outras etnias.
O subfinanciamento crônico das escolas negras no Mississipi é
algo terrível de ver. Faltam às escolas suprimentos e livros
básicos, comida saudável e água. A falta de recursos leva
diretamente à diminuição de oportunidades de aprendizagem.
Em outras palavras, o problema racial é a lacuna de
oportunidade, como reformistas antirracistas a tacham, não a
lacuna de desempenho.
...
, aqueles últimos dias de 1999 não
terminavam nunca. Eu estava sentado durante o intervalo da aula
de estudos sobre o governo. Enquanto minha mente vagueava,
meus olhos vaguearam e pararam em Angela, sentada atrás de
mim. Pele marrom, maçãs do rosto salientes e um temperamento
agradável, Angela parecia estar escrevendo atentamente.
“O que você está fazendo?”, perguntei.
“Estou escrevendo meu discurso”, disse ela com o sorriso
habitual, sem erguer os olhos do papel.
“Discurso para quê?”
“Para o concurso MLK. Não está sabendo?”
Balancei a cabeça e então ela me contou tudo sobre o concurso
de oratória Prince William County Martin Luther King Jr. Os
participantes da Stonewall Jackson apresentariam seus discursos
em dois dias. O vencedor iria para a competição do condado. Os
três finalistas discursariam na Capela Hylton no Dia de MLK, em
2000.
Ela me encorajou a participar. Primeiro, recusei. Mas, quando
ela terminou de falar, concordei. O tema do concurso era “Qual
seria a mensagem do Dr. King para o milênio?”, e o que saiu da
minha caneta foram todas as ideias racistas sobre o
comportamento da juventude negra que circulavam nos anos
1990 que, sem perceber, eu internalizara profundamente.
Comecei a escrever uma mensagem contra os negros que teria
enchido King de indignação — menos parecido com o próprio
King e mais com os discursos insultuosos sobre ele que ouvi
tantas vezes de adultos da geração de meus pais. Se ao menos
eu tivesse passado mais tempo ouvindo King em vez de todos
esses adultos que alegavam falar por ele. “Não devemos mais
nos envergonhar de ser negros”, diria-me King, como ele disse
aos negros reunidos em 1967. “Enquanto a mente estiver
escravizada, o corpo nunca poderá ser livre.”
Enquanto a mente achar que há algo errado com o
comportamento de um grupo racial, ela nunca poderá ser
antirracista. Enquanto a mente oprimir os oprimidos ao pensar
que seu ambiente opressivo retardou seu comportamento, a mente nunca poderá ser antirracista. Enquanto a mente for
racista, nunca poderá ser livre.
Ser antirracista é achar que não há comportamentos errados ou
certos — inferiores ou superiores — em quaisquer grupos raciais.
Sempre que o antirracista vir indivíduos se comportarem de
modo positivo ou negativo, ele verá exatamente isto: indivíduos
se comportando de modo positivo ou negativo, não
representantes de raças inteiras. Ser antirracista é desracializar o
comportamento, remover o estereótipo tatuado em cada corpo
racializado. O comportamento é algo feito por humanos, não
raças.
do discurso naquela noite. “Quero ouvir!”,
pediu Angela, animada, no dia seguinte, antes de nossa aula de
estudos sobre governo.
“Ouvir o quê?”, respondi, tímido virando-me, sabendo
exatamente o quê.
“Seu discurso!” Ela estava radiante. “Sei que está com você.
Quero ouvir!”
Sentindo-me obrigado, recitei meu discurso devagar. Quanto
mais eu lia, mais confiança sentia. As ideias racistas soavam
muito bem, como costuma ocorrer com ideias racistas. Quando
terminei, Angela estava eufórica.
“Você vai ganhar! Você vai ganhar!”, entoou com suavidade
quando a aula começava. Eu continuava me virando e pedindo-
lhe que parasse. Angela viu meu sorriso e não obedeceu.
Não dormi muito naquela noite. Entre retocar o discurso e
acalmar meus nervos e temores, havia muita coisa ocorrendo em
minha mente. Acabei caindo em um sono profundo, tão profundo
que não escutei o alarme. Quando acordei, percebi que tinha
perdido a competição. Aborrecido, mas também aliviado, fui até a
escola.
Angela esperou por mim no local da competição a manhã
inteira. Depois que o último participante tinha falado diante dos
juízes da
Stonewall, Angela exigiu que eles se reunissem de novo quando eu cheguei à escola e não aceitou um não como resposta —
assim como ela não aceitara um não de mim.
E, de fato, quando eu cheguei à escola, os juízes voltaram a se
reunir para mim. Ao ouvir tudo o que Angela tinha feito, uma
onda de gratidão afastou meus temores e nervosismo. Estava
determinado a dar o discurso de minha vida. E foi o que fiz. Eu
ganhei, com ideias racistas e tudo.
afastar a vergonha que eu sentia de mim e
da minha raça com relação às minhas dificuldades acadêmicas.
O juiz negro estava orgulhoso de mim. Eu estava mais do que
orgulhoso de mim. Mas minha insegurança racista começou a se
transformar em uma presunção racista. A transformação
realmente tinha começado quando decidi frequentar a
Universidade Agrícola e Mecânica da Flórida. “Parecia certo”,
disse às pessoas. Não revelei a ninguém, nem a mim mesmo,
por que essa universidade historicamente negra parecia a certa.
Na minha visita durante o verão de 1999, todos falavam
animadamente da universidade como a maior e pior faculdade e
universidade historicamente negra do país. A revista Time e a
Princeton Review a tinham considerado a Faculdade do Ano em
1997. Pela segunda vez em três anos, a Florida A&M tinha
passado Harvard no recrutamento de National Achievement
Scholars (os melhores entre os melhores alunos negros do
ensino médio). O presidente Frederick S. Humphries, com seu
1,95m de carisma, tinha pessoalmente recrutado muitos desses
estudantes, enquanto transformava sua universidade na maior
universidade historicamente negra do país.
Sempre que dizemos que algo simplesmente parece certo ou
errado, estamos fugindo de ideias mais profundas, talvez ocultas,
que revelariam nossos sentimentos. Mas, nesses lugares ocultos,
encontramos o que realmente pensamos se tivermos a coragem
de enfrentar nossas verdades cruas. Não olhei para dentro de
mim para ver por que a Florida A&M simplesmente parecia certa
— um motivo além de meu desejo de estar cercado pela
excelência negra. A verdade é que eu queria fugir do pessoal
negro malcomportado.
A Florida A&M se tornou para mim o melhor da negritude, sem
dúvida. Eu nunca teria imaginado o som arrebatador da negritude
em seu ponto máximo. Duas semanas depois de chegar ao
campus, eu o ouvi em toda a sua glória.