Como Ser Antirracista
Sucesso
CAPÍTULO 17
SUCESSO
O B Watkins falou sobre racismo como se fosse uma doença. Preocupei-me com esse
conceito. Não era fundamental, eterno ou revolucionário o
bastante naquela décima primeira noite do Mês da História Negra
em 2010. Quando chegou o momento de perguntas e respostas,
levantei o braço na última fila, e Caridad sorriu.
Caridad e eu ficamos sussurrando a maior parte da palestra.
Nesse momento, eu senti a confiança se agitando em minha
cabeça. Dias antes, o professor Asante me entregara o diploma
de doutorado na cerimônia de titulação da Temple. O adolescente
que detestava a escola tinha terminado o doutorado em 2010, e
se comprometeu com o ensino para a vida toda.
Caridad provavelmente foi uma das que me levou à palestra em
SUNY Oneonta, nossa faculdade estadual no vilarejo de
Oneonta, no norte do estado de Nova York. Perdoem-me por
chamar Oneonta de vilarejo. Brancos habitantes de área rurais
vizinhas a chamavam de “a cidade”.
Em Oneonta, a branquitude me cercava como nuvens vistas da
janela de um avião, o que não significou que não encontrei
colegas brancos simpáticos e atenciosos. Mas foi Caridad e todo
o seu feminismo e antirracismo porto-riquenho que me tomou
pelo braço quando cheguei como bolsista, em 2008, e me levou
para mais perto quando decidi ficar, em 2009.
Estávamos destinados a ficar tão próximos quanto nossas
cadeiras. Preenchi o posto na história negra deixado vago por
Ralph, marido de Caridad durante 18 anos. Um câncer
metastático levara o corpo negro de Ralph em 2007. Ela
provavelmente não conseguia olhar para mim sem me ver no
lugar de Ralph.
Seu marido perdeu a luta contra o câncer, mas a vida de
Caridad como mulher afro-latina lhe impusera suas próprias lutas
— por paz, por tranquilidade. Mas ela era uma lutadora, incansável e resistente, como antirracistas devem ser para ter
sucesso.
. escura que tememos. Onde o poder e as
políticas antirracistas predominam. Onde oportunidades iguais e,
portanto, resultados, existem entre grupos iguais. Onde pessoas
culpam políticas, não pessoas, por problemas sociais. Onde
quase todos têm mais do que eles têm hoje. Onde o poder
racista vive nas margens, como o poder antirracista faz hoje.
Onde ideias antirracistas são o senso comum, como ideias
racistas são hoje.
Nem o fracasso, nem o sucesso estão escritos. A história de
nossa geração se baseará no que estivermos dispostos a fazer.
Estamos dispostos a enfrentar uma luta exaustiva contra o poder
e as políticas racistas? Estamos dispostos a transformar o poder
antirracista que temos dentro de nós no poder antirracista em
nossa sociedade?
Caridad estava, o que fortaleceu minha força de vontade.
Caridad compreendia que, mesmo que seus alunos lutassem
contra ideias racistas, racistas de gênero, racistas queer e
racistas de classe, eles também tinham dentro deles a
capacidade de aprender e mudar. Ela não libertou o poder
antirracista dentro deles com ataques ideológicos. Suas aulas
eram mais como fortes abraços ajustados às experiências de
cada aluno, levando à autorreflexão. Ela levava seus alunos
negros e latinos — que lutavam contra os próprios
condicionamentos culturais antiafricanos — para Gana todos os
anos, onde se viam entusiasticamente imersos em sua
ancestralidade africana no final da viagem. Enquanto isso, eu
lutava para sobreviver nas intersecções. Os impulsos de meu
passado de intolerância constantemente ameaçavam me levar de
volta à colonização do poder racista. Caridad estendeu os braços
de Kaila, Yaba e Weckea ao meu redor, garantindo que eu não
voltasse aos meus velhos pensamentos quando deixei Temple.
“ o racismo como uma doença, você não
acha que ele é mais como um órgão?”, perguntei ao palestrante. “O racismo não é essencial para o funcionamento dos Estados
Unidos? O sistema do racismo não é essencial para a vida dos
Estados Unidos?”
Todas essas perguntas importantes não serviram de isca para
Boyce Watkings defender seu conceito de doença. Que pena.
Queria que ele caísse em minha armadilha. Eu não era
exatamente o tipo intelectual. Eu me fechava para novas ideias
com as quais não me sentia bem. O que significava que eu
escolhia os conceitos de racismo que se encaixavam em minha
ideologia e autoidentidade.
Pedir aos antirracistas para mudar seu ponto de vista sobre o
racismo pode ser tão desestabilizador quanto pedir a racistas que
mudem seu ponto de vista sobre as raças. Antirracistas podem
ser tão doutrinários em sua visão do racismo quanto os racistas
em sua visão do não racismo. Como podem os antirracistas pedir
aos racistas que abram suas mentes e mudem quando nós
temos a mente fechada e somos avessos a mudanças? Eu
ignorava minha própria hipocrisia, como as pessoas costumam
fazer quando isso significa desistir do que lhes é caro. Desistir de
minhas concepções de racismo significava desistir de minha
visão sobre o mundo e sobre mim mesmo. Eu não o faria sem
lutar. Eu investiria contra qualquer um que me “atacasse” com
novas ideias, a menos que eu o temesse ou respeitasse como eu
temia e respeitava Kaila e Yaba.
racismo de um livro que li durante o curso
de pós-graduação. Quando Hillary Clinton e Bernie Sanders
falaram sobre “racismo institucional” na campanha presidencial
de 2016, quando os ativistas que fizeram manifestações em seus
eventos falaram sobre “racismo institucional”, estavam usando,
de forma consciente ou não, a formulação cunhada em 1967 pelo
ativista do Black Power Kwane
Toure e pelo cientista político Charles Hamilton em Black Power:
The Politics of Liberation in America [“Black Power: A Política de
Liberação na América”, em tradução livre].
“O racismo é tanto manifesto quanto dissimulado”, explicaram
Toure e Hamilton. “São necessárias duas formas intimamente relacionadas; indivíduos brancos agindo contra indivíduos negros
e atos de toda a comunidade branca contra a comunidade negra.
Nós o chamamos de racismo individual e racismo institucional. O
primeiro consiste em atos manifestos de indivíduos… O segundo
tipo é menos explícito, muito mais sutil, menos identificável em
termos de indivíduos específicos cometendo os atos.” Eles
distinguiram, por exemplo, o racismo individual de “racistas
brancos” que bombardeiam uma igreja negra e matam crianças
negras do racismo institucional de “quando, na mesma cidade —
Birmingham, Alabama —, 500 bebês negros morrem a cada ano
por causa da falta de alimentação, moradia e instalações
médicas adequadas”.
Este é, como pensei após uma primeira leitura, o sistema
sombrio que nos mantém oprimidos e inertes. Os atos do sistema
são dissimulados, assim como as ideias racistas das pessoas
são implícitas. Eu não conseguia compreender o sistema ou
defini-lo com precisão, mas eu sabia que ele estava lá, como o ar
poluído em nossa atmosfera, envenenando pessoas negras em
benefício das pessoas brancas.
Mas e se a atmosfera do racismo também estiver poluindo a
maior parte das pessoas brancas? E se o racismo estiver
atuando de forma contrária para um punhado de pessoas negras,
que encontram o ar fresco da riqueza e do poder em atmosferas
racistas? Enquadrar o racismo institucional como atos de “toda a
comunidade branca contra toda a comunidade negra” é
responsável pelas formas com que as pessoas brancas se
beneficiam de políticas racistas quando comparadas a seus
pares raciais. (Brancos pobres se beneficiam mais do que negros
pobres. Mulheres brancas se beneficiam mais que mulheres
negras. Gays brancos se beneficiam mais que gays negros.) Mas
esse enquadramento de pessoas brancas contra pessoas negras
não leva em consideração que pessoas negras não são
prejudicadas da mesma forma pelo racismo ou que alguns
indivíduos negros exploram o racismo para impulsionar sua
própria riqueza e poder.
Mas eu não me importava. Eu pensava que tinha compreendido
tudo. Pensava no racismo como um sistema inanimado, invisível e imortal, não como uma doença viva, reconhecível e mortal de
células cancerosas que poderia ser identificada, tratada e
aniquilada. Eu considerava o sistema tão essencial aos Estados
Unidos quanto a Constituição. Às vezes, eu achava que as
pessoas brancas operavam o sistema dissimuladamente, e o
manipulavam para benefício de toda a comunidade branca à
custa de toda a comunidade negra.
O constructo do racismo institucional dissimulado abre os olhos
dos norte-americanos para o racismo e, ironicamente, também os
fecha. Separar o racismo individual manifesto do institucional
dissimulado encobre as escolhas de políticas específicas que
causam desigualdades raciais, políticas feitas por pessoas
específicas. Encobrir as políticas e os legisladores específicos
nos impede de identificá-los e substituí-los. Ignoramos
legisladores e políticas racistas enquanto atacamos, zangados, o
monstro abstrato do “sistema”.
Os responsáveis pela morte de 500 bebês todos os anos em
Birmingham “devido à falta de alimentação, moradia e
instalações adequadas” não eram menos evidentes do que os
“terroristas brancos” que mataram quatro garotas negras em uma
igreja em Birmingham em 1963. Do mesmo jeito que os
investigadores conseguiram descobrir exatamente quem foram
os responsáveis pelas bombas naquela igreja, podem
perfeitamente descobrir quais políticas causam a morte de 500
bebês todos os anos e exatamente quem as implantou. Do
mesmo jeito com que as pessoas aprenderam a ver abuso
racista saindo das bocas de indivíduos racistas, podem aprender
a ver desigualdades raciais surgindo de políticas racistas. Todas
as formas de racismo são manifestas se nossos olhos
antirracistas estiverem abertos para enxergar as políticas racistas
por trás da desigualdade racial.
Mas não enxergamos. Nossos olhos foram fechados por ideias
racistas e a inconfessa ligação entre o antirracista institucional e
o pós-racialista. Eles se unem na ideia de que o racismo
institucional, muitas vezes, não é visto e não pode ser visto.
Porque ele é dissimulado, diz o antirracista institucional. Porque
ele mal existe, diz o pós-racialista.
Existe uma ligação semelhante entre o preconceito implícito e o
pós-racialismo. Eles se unem na noção de que as ideias racistas
estão enterradas na mente. Porque são implícitas e
inconscientes, diz o preconceito implícito. Porque estão mortas,
diz o pós-racialismo.
não poderiam prever como seus conceitos de
racismo manifesto e dissimulado seriam usados por pessoas no
quadro ideológico para transformar o racismo em algo oculto e
irreconhecível. Compreensivelmente, Toure e Hamilton estavam
focados na distinção do individual e do institucional. Estavam
reagindo às mesmas forças moderadas, liberais e
assimilacionistas que todos esses anos depois ainda reduzem o
racismo a atos individuais de homens da Klan, políticos adeptos
de Jim Crow, republicanos do Tea Party, usuários da palavra com
C, atiradores nacionalistas brancos e políticos trumpianos.
“Indivíduos ‘respeitáveis’ podem se absolver da culpa individual:
eles nunca plantariam uma bomba em uma igreja; eles nunca
apedrejariam uma família negra”, escreveram Toure e Hamilton.
“Mas eles continuam a apoiar agentes e instituições políticas que
poderiam e de fato perpetuam políticas institucionalmente
racistas.”
O termo “políticas institucionalmente racistas” é mais concreto
do que “racismo institucional”. O termo “políticas racistas” é mais
concreto do que “políticas institucionalmente racistas”, visto que
“institucional” e “políticas” são redundantes. Políticas são
institucionais. Ocasionalmente, porém, ainda uso os termos
“racismo institucional”, “racismo sistêmico”, “racismo estrutural”, e
“manifesto” e “dissimulado”. Eles são como a minha primeira
língua de racismo. Mas, quando nos damos conta de que velhas
palavras não transmitem com clareza e exatidão o que queremos
descrever, deveríamos buscar novas palavras. Tenho
dificuldades em explicar concretamente o que significa “racismo
institucional” ao pequeno empresário do Oriente Médio, ao
trabalhador negro, ao professor branco, ao enfermeiro latino, ao
operário asiático, ao vendedor indígena, que não fazem cursos
sobre racismo, não leem os livros sobre racismo, não frequentam palestras sobre racismo, não assistem a programas especiais
sobre racismo, não ouvem os podcasts sobre racismo, não
participam de manifestações contra o racismo.
Tento ter em mente as pessoas comuns quando uso “políticas
racistas” em vez de “racismo institucional”.
Legisladores e políticas formam sociedades e instituições, não
o contrário. Os Estados Unidos são uma nação racista porque
seus legisladores e políticas têm sido racistas desde o início. A
convicção de que legisladores podem ser superados, que
políticas racistas podem ser mudadas e que as mentes racistas
de suas vítimas podem ser modificadas só é questionada por
aqueles dedicados a preservar legisladores, políticas e hábitos
de pensamento racistas.
O racismo sempre foi terminal e curável. Racismo sempre foi
reconhecível e mortal.
moletom cinza com capuz. Era 26 de
fevereiro de 2012, uma monótona noite de domingo. Eu esperava
ansioso por meu primeiro livro, sobre ativismo negro estudantil no
final dos anos 1960, que seria publicado em duas semanas. O
adolescente de capuz esperava ansiosamente para saborear o
suco de melancia e os Skittles que comprara em um 7-Eleven
próximo. O garoto de 17 anos era tranquilo, descontraído, como
seu andar. Adorava LeBron James, hip-hop e South Park , e
sonhava em pilotar aviões algum dia.
Com mais de 1,80m e magro, Trayvon Martin caminhava
devagar na chuva de volta para a comunidade de Retreat at Twin
Lakes. Seu pai, Tracy Martin, namorava uma mulher que morava
no condomínio em Sanford, um subúrbio de Orlando, Flórida.
Tracy levara junto o filho para uma conversa, para fazê-lo
retomar o foco na faculdade, como seu irmão mais velho.
Trayvon tinha acabado de ser suspenso por levar uma pequena
quantidade de maconha à escola em Miami. Enquanto
adolescentes brancos faziam festas, bebiam, dirigiam, fumavam,
cheiravam e roubavam ao coro de “boys will be boys” [garotos
serão garotos], rapazes negros da cidade tinham tolerância zero
em um estado policiado.
Martin se desviava das poças no lento trajeto para casa. Ligou
para a namorada. Enquanto conversava, atravessou o portão da
frente (ou tomou um atalho) em direção ao grupo de casas cor de
areia de dois andares. Como em muitos bairros durante a Grande
Recessão, investidores compraram as propriedades cujos donos
não conseguiram pagar seus financiamentos, e agora as
alugavam. Com os inquilinos vieram rostos desconhecidos,
rostos transitórios e racistas que associavam a presença de
adolescentes negros com o “surto” de sete roubos a casas em
2011. Imediatamente, eles organizaram um grupo de vigilância
no bairro.
O organizador do grupo de vigilância nasceu um ano depois de
mim, filho de um veterano do Vietnã branco e uma imigrante
peruana. Criado perto de onde eu tinha me mudado com minha
família em
Manassas, Virgínia, George Zimmerman mudou-se para a Flórida
como eu, depois de terminar o ensino médio. Sua condenação
por agressão e acusações de violência doméstica mudaram seus
planos de se tornar policial. Mas nada abalou sua convicção de
que o corpo negro — e não o dele — era o criminoso em seu
meio.
Zimmerman decidiu dar uma volta. Ele pulou em sua
caminhonete, sua pistola 9mm licenciada guardada em um coldre
na cintura. Começou a dirigir. Notou um adolescente negro de
capuz andando pelo condomínio. Ligou para a polícia. A
presença do corpo negro, um crime. O crime histórico de ideias
racistas.
segundo livro fosse sobre ideias racistas,
assim como Zimmerman se concentrou no que poderia ter sido
qualquer corpo negro masculino quando notou o adolescente que
o presidente
Obama pensou “poderia ser meu filho”. Depois do meu primeiro
livro, sobre o Movimento do Campus Negro, eu planejava
pesquisar as origens dos alunos de Estudos Negros nos anos
1960. Então me dei conta de que os estudantes negros exigiam
estudos negros porque consideravam que todas as disciplinas existentes eram racistas. Que os acadêmicos liberais que
dominavam essas disciplinas se recusavam a identificar suas
ideias assimilacionistas como racistas. Que eles se identificavam
como não racistas, assim como os segregacionistas a quem
chamavam de racistas. Esses estudantes negros chamavam
ambos de racistas, redefinindo as ideias racistas. Eu queria
escrever uma longa história usando a redefinição de ideias
racistas dos estudantes negros. Mas a assombrosa tarefa me
assustou, assim como o olhar de Zimmerman assustou Martin.
Martin ligou para um amigo e disse que estava sendo seguido.
Apressou o passo. “Ei, tivemos alguns roubos no meu bairro”,
relatou Zimmerman à atendente da polícia. “E aqui tem um cara
muito suspeito. Ele parece não ter boas intenções, ou está
drogado ou coisa parecida… Um capuz escuro, cinza, na
verdade.” Ele perguntou quanto tempo levaria para um policial
chegar, porque “esses filhos da mãe, eles sempre escapam”.
Martin correu. Zimmerman saltou do veículo e o perseguiu, a
arma na cintura, o telefone na mão. A atendente lhe disse para
parar.
Zimmerman desligou o telefone e alcançou Martin, cerca de 12
minutos depois das 19h. Só uma pessoa viva sabe exatamente o
que aconteceu em seguida: Zimmerman, provavelmente lutando
para “prender” o “criminoso”. Martin, provavelmente, lutando para
se libertar do verdadeiro criminoso e salvar a vida. Zimmerman
apertou o gatilho e pôs fim à vida de Martin. Zimmerman alegou
legítima defesa à própria vida. O júri concordou em 13 de julho
de 2013.
, A Garza digitou “Black Lives Matters”
[Vidas Negras Importam] nas noites de luto, nos caixões negros
se empilhando à sua frente enquanto as pessoas gritavam todos
aqueles nomes de Trayvon Martin a Michael Brown, a Sandra
Bland, a Korryn Gaines. As mortes, as acusações, as negações,
as manifestações e mais mortes — tudo me deu forças todos os
dias para pesquisar para Stamped from the Beginning [“Selado
desde o Início”, em tradução livre].
No verão de 2012, eu estava encontrando e marcando cada
ideia racista que podia encontrar na história. Ideias racistas se
empilhavam à minha frente como lixo em um aterro. Dezenas de
milhares de páginas de pessoas negras sendo tratadas como
animais, bestas, demônios, estupradores, escravos, criminosos,
crianças, predadores, brutos, idiotas, prostitutas, malandros e
dependentes. Mais de 500 anos de ideias tóxicas sobre o corpo
negro. Dia após semana; semana após mês; mês após ano;
muitas vezes 12 horas por dia durante 3 anos terrivelmente
longos, percorri esse lixo, consumi esse lixo, absorvi sua
toxicidade, antes de liberar uma minúscula porção desse lixo em
suas páginas.
Ironicamente, todo esse lixo purificou minha mente, se não a
minha alma. Enquanto coletava esse lixo, compreendi que,
inadvertidamente, fizera o mesmo durante toda a vida. Parte eu
joguei fora depois de me olhar no espelho. Parte ficou. Como as
sacolas sujas ou os resquícios de “esses crioulos”; “pessoas
brancas são demônios”; “asiáticos servis”; “terroristas do Oriente
Médio”; “bairros negros perigosos”; “indígenas fracos”; “mulheres
negras raivosas”; “latinos invasores”; “mães negras
irresponsáveis” e “pais negros vagabundos”. A missão de revelar
e criticar a vida de ideias racistas dos Estados Unidos se tornou
uma missão de revelar e criticar minha vida de ideias racistas,
que se tornou uma missão de ser antirracista por toda a vida.
Para mim, ser antirracista são passos sucessivos.
Paro de usar frases como “Não sou racista” ou “Não posso ser
racista” para me defender ou negar.
Admito a definição de racista (alguém que apoia políticas
racistas ou expressa ideias racistas).
Confesso as políticas racistas que apoio e as ideias racistas
que expresso.
Aceito sua fonte (minha criação em uma nação que nos torna
racistas).
Reconheço a definição de antirracista (alguém que apoia
políticas antirracistas ou expressa ideias antirracistas).
Luto pelo poder e pelas políticas antirracistas em meus
espaços. (Conseguindo uma posição de formulador de políticas. Aderindo a uma organização ou protesto antirracista. Doando
meu tempo publicamente, ou doando recursos em particular para
legisladores, organizações e protestos antirracistas voltados para
mudar o poder e as políticas.)
Luto para permanecer nas intersecções antirracistas em que o
racismo se mistura a outras intolerâncias. (Eliminando distinções
raciais biológicas e comportamentais. Equiparando distinções
raciais em etnias, corpos, culturas, cores, classes, espaços,
gêneros e sexualidades.)
Eu me esforço para pensar com ideias antirracistas. (Vendo a
política racista por trás da desigualdade racial. Nivelando as
diferenças de grupos. Não sendo enganado para generalizar a
negatividade individual. Não sendo enganado por estatísticas ou
teorias deturpadas que culpam as pessoas pela desigualdade
racial.)
Ideias racistas me enganaram quase a vida inteira. Eu me
recusei a deixar que elas continuassem a fazer de mim um tolo,
um idiota, um escravo. Compreendi que não há nada errado com
nenhum grupo racial e tudo errado com indivíduos como eu que
pensam que há algo errado com qualquer grupo racial. É muito
bom purificar a mente.
Mas não purifiquei meu corpo. Mantive a maior parte do lixo
tóxico dentro de mim entre 2012 e 2015. Não falei muito sobre a
maior parte disso. Tentei encarar como uma brincadeira. Não
falei da dor de sentir as ideias racistas atacando meu corpo
negro durante séculos. Mas como eu poderia me preocupar com
meu corpo enquanto via policiais atacando o corpo negro quase
todas as semanas no meu celular? Como eu poderia me
preocupar com meu corpo quando racistas culpavam os mortos,
enquanto os entes queridos dos mortos choravam, se
enraiveciam e se entorpeciam?
Como eu poderia me preocupar com meu sofrimento enquanto
Sadiqa sofria?