Como Ser Antirracista
Cultura
CAPÍTULO 7
CULTURA
RACISTA CULTURAL: Aquele que cria um padrão cultural e
impõe uma hierarquia cultural entre grupos raciais.
ANTIRRACISTA CULTURAL: Aquele que rejeita padrões
culturais e iguala diferenças culturais entre grupos raciais.
M para assistir ao documentário de 1994,
Basquete Blues, um filme sobre os perigos que rondam dois
jovens em busca da chance extremamente improvável de
uma carreira lucrativa na NBA. A intervenção de meu pai
fracassou, assim como os sonhos dos garotos no filme. Para
mim, basquete era vida.
Era um dia frio do início do inverno em 1996, e eu estava
aquecido no vestiário depois do treino, vestindo-me e brincando
com os colegas do novo time júnior de basquete da John Bowne.
De repente, nosso técnico branco irrompeu no vestiário como se
algo estivesse errado. Paramos as brincadeiras enquanto ele
olhava desesperançado para nossos rostos escuros. Ele se
recostou a um armário como se estivesse preparando um
sermão.
“Todos vocês precisam tirar duas notas 7,0 e três 5,5 para
continuar no time. Certo? Certo?” Todos assentiram com um
gesto de cabeça ou olharam para ele, talvez esperando que
continuasse. Mas isso era tudo que ele tinha a dizer. Retomamos
nossas brincadeiras.
Não amei nem detestei o ensino fundamental. Contudo, alguns
meses no ensino médio me transformaram. Não consigo
identificar o que provocou meu ódio pela escola. A dificuldade em
diferenciar o policial assediador do professor assediador? Uma
elevada sensibilidade aos olhares de professores que viam meu corpo negro não como uma planta a ser cultivada, mas como
uma erva daninha a ser arrancada de sua escola e jogada em
sua prisão? No primeiro ano, consegui as notas necessárias para
continuar no time de basquete: dois 7,0 e três 5,5. Só o basquete
e a vergonha dos pais me impediam de abandonar a escola e
ficar em casa o dia todo como alguns outros adolescentes.
Quando eu subia nos ônibus públicos lotados depois da escola,
me sentia como um fugitivo. Na maioria dos dias, não havia sinal
de Smurf. Parando e andando, o ônibus se dirigia ao sul, até a
última parada — meu lar cultural longe de casa.
Chamávamos a artéria principal de Southsisde Queens de
Avenida, o lugar em que a Jamaica Avenue cruza com a 164th
Street. Nos finais de semana, eu saía da minha casa e corria
uma quadra pela 209th Street até a Jamaica Avenue e tomava
uma “van” para percorrer aqueles 30 quarteirões até a Avenida.
Um dólar, uma viagem, um motorista qualquer. Eu não sabia,
mas vans ou carros baratos semelhantes de propriedade
particular, lotados com corpos negros suados, satisfeitos,
cansados, revigorados e traumatizados, corriam por todos os
bairros em todo o mundo negro. Desde então, viajei nesses
produtos culturais rápidos em outras partes do mundo, de Gana à
Jamaica (o país insular, não a avenida). A viagem sempre me
traz de volta ao Queens.
Nada se comparava a chegar à Avenida. Algumas dezenas de
quarteirões repletas de lojas, o enorme distrito comercial era
repleto de adolescentes de olhos arregalados. Nunca sabíamos o
que veríamos — que kicks (tênis) estariam em oferta; que beef
(briga) estava se formando; o que os guads (garotos) e as
shorties (garotas) estariam rocking (vestindo). Desculpem o meu
ebonics — termo cunhado pelo psicólogo Robert Williams, em
1973, para substituir termos racistas como “Inglês Negro Não
Padronizado” ao se referir às gírias usadas pelos afro-
americanos. Preciso usar a linguagem da cultura a fim de
expressar a cultura.
Alguns norte-americanos desprezaram meu ebonics em 1996.
Nesse ano, o conselho da escola de Oakland reconheceu negros
como eu como bilíngues, e, em um ato de antirracismo cultural, reconheceu “a legitimidade e riqueza” do ebonics como idioma.
Eles decidiram usá-lo com os alunos “para facilitar a aquisição e
o domínio de conhecimentos da língua inglesa”. A reação foi
intensa. Primeiro, Jesse Jackson chamou o ato de “uma rendição
inaceitável, beirando o desastre. Estão fazendo nossas crianças
desaprenderem”.
Estavam mesmo? Isso nos ajuda a examinar as origens do
ebonics . Africanos escravizados criaram novas línguas em
praticamente todas as colônias europeias nas Américas,
incluindo o ebonics afro-americano, patois jamaicano, crioulo
haitiano, calunga brasileiro e cubano. Em cada um desses
países, o poder racista — aqueles no controle do governo, meio
acadêmico, educação e mídia — tem rebaixado as línguas
africanas como dialetos, como sendo francês, espanhol,
holandês, português ou inglês “errado”, “inadequado” ou “fora do
padrão”. Os assimilacionistas sempre insistiram que os africanos
nas Américas deveriam esquecer as línguas “erradas” de nossos
ancestrais e dominar as línguas aparentemente “corretas” dos
europeus. Mas qual era a diferença entre o ebonics e o suposto
inglês “padrão”? O ebonics nasceu nas raízes das línguas
africanas e inglês moderno assim como o inglês moderno se
originou do latim, grego e alemão. Por que o ebonics é inglês
errado e o inglês não é alemão errado? Por que o ebonics é um
dialeto do inglês, se o inglês não é um dialeto do latim? A ideia
de que as línguas negras fora da África são erradas é tão
culturalmente racista quanto a ideia de que as línguas dentro da
Europa são as corretas.
ao Holocausto nazista marginalizou o racismo
biológico, o racismo cultural tomou seu lugar. “Em praticamente
todas as suas divergências”, a cultura afro-americana “é uma
evolução distorcida ou uma condição patológica da cultura norte-
americana em geral”, escreveu Gunnar Myrdal em An American
Dilemma [Um Dilema Norte-americano, em tradução livre], seu
tratado histórico de 1944 sobre relações raciais, que foi chamado
de a “bíblia” do movimento de direitos civis. A obra de Myrdal
padronizou a cultura geral norte-americana (branca), depois julgou a cultura afro-americana como uma distorção ou
degeneração desse padrão. Quem quer que crie padrões
culturais cria hierarquia cultural. O ato de criar uma hierarquia e
um padrão cultural é o que cria o racismo cultural.
Ser antirracista é rejeitar padrões culturais e nivelar a diferença
cultural. Os segregacionistas dizem que grupos raciais não são
capazes de atingir seu padrão cultural superior. Os
assimilacionistas dizem que grupos raciais podem, com esforço e
intenção, atingir seus padrões culturais superiores. “É vantajoso
aos negros norte-americanos como indivíduos e como grupo
assimilar a cultura norte-americana” e “adquirir as características
apreciadas pelos norte-americanos brancos dominantes”,
Myrdal sugeriu. Ou, como o presidente Theodore Roosevelt
declarou, em 1905, a meta deveria ser assimilar “a raça
retrógrada… para que possa se apoderar da verdadeira
liberdade, enquanto a raça avançada é capacitada a preservar
ilesa a alta civilização forjada por seus antepassados”.
Até Alexander Crummell, o notável ministro episcopal que
fundou a primeira sociedade intelectual negra formal em 1897,
exortou seus colegas negros norte-americanos a assimilar. Ele
concordou com os norte-americanos racistas que classificavam
os africanos como fundamentalmente imitativos. “Essa qualidade
de imitação tem sido o grande preservador do negro em todas as
terras de servidão”, pregou Crummell em 1877.
imitando nada na Avenida —
pelo contrário. A cultura mais ampla é que avidamente nos
imitava e se apropriava de nós; nossa música, moda e língua
foram transformando a pretensa tendência dominante. Não nos
importávamos se norte-americanos mais velhos, mais ricos ou
mais brancos desprezavam nossas roupas fora do padrão, assim
como nosso ebonics fora do padrão. Éramos algo novo, recém-
tirado do plástico, como cantou o rapper
Jadakiss. Novos jeans baggy soltos no corpo. Novas camisas
abotoadas ou moletons de marca debaixo de nossas jaquetas
acolchoadas no inverno. Novas camisetas de times sobre nossos
shorts de brim folgados no verão. Correntes penduradas brilhando como nossos sorrisos. Piercings, tatuagens e cores
ousadas disseram ao mundo da tendência dominante o quanto
não queríamos imitá-los.
O novo significava não só ter os trajes mais incríveis, mas
encontrar novas maneiras de usá-los, na melhor tradição da
moda: experimentação, elaboração e precisão impecável. Botas
Timberland e tênis Nike Air Force 1 eram nossos produtos
preferidos na cidade de Nova York. Era como se todos — garotos
ou garotas — tivessem Tims (as botas da marca) cor de trigo nos
armários se pudessem comprar ou roubá-las. Nosso Air Force 1
preto tinha que ser mais preto do que as populações carcerárias.
Nosso Air Force branco tinha que ser mais branco do que a
polícia de Nova York. Tinha que ser macio como pele de bebê.
Nenhuma mancha. Nenhum vinco. Nós os mantínhamos pretos
ou brancos com toques regulares de tinta para calçados. Nós os
enchíamos com papel ou meias à noite para não formar vincos
na frente. E, chegada a hora de calçá-los pela manhã, muitos de
nós conhecíamos os truques para evitar os vincos o dia todo.
Calçar uma segunda meia até a metade do pé e dobrar a outra
metade por cima dos dedos para encher a parte da frente do
tênis. Doía como os jeans da Guess agarrados que as garotas
usavam. Mas quem ligava para a dor quando o novo
proporcionava tanta alegria?
Jason Riley, um colunista do Wall Street Journal, não nos via ou
aos nossos discípulos do século XXI como inovadores culturais
contemporâneos. “A cultura negra atual não só tolera a
delinquência e o vandalismo, mas os celebra a ponto de os
jovens negros terem adotado a moda das prisões na forma das
calças baggy bem abaixo da cintura e camisetas imensas.” Mas
havia uma solução. “Se os negros puderem fechar a lacuna da
civilização, é provável que o problema racial neste país se torne
insignificante”, alegou Dinesh D’Souza certa vez. “Civilização”,
muitas vezes, é um eufemismo cordial para racismo cultural.
de civilização,
representado de forma mais imediata pela escola. Adorava o que
consideravam disfuncional — a cultura afro-americana, que definia a minha vida fora da escola. Minha primeira experiência
com a cultura foi a igreja negra. Ouvir estranhos se identificarem
como irmãs e irmãos. Ouvir conversas sermonárias, todas
aquelas perguntas dos pregadores, as respostas dos
congregados. Corpos se movimentando nos coros como galhos
de uma árvore, acompanhando as nuances da solista. Mulheres
tomadas pelo Espírito Santo louvando e correndo pelos
corredores. Chapéus esvoaçantes cobrindo as perucas novas
das velhas senhoras que os guardavam para Jee-susss.
Funerais mais animados que casamentos. Observar minha mãe
tirar o pó de seu traje africano e, meu pai, de seus dashikis para
celebrações Kwanzaa, ainda mais animados que funerais.
Adoro estar em meio à cultura criada por meus ancestrais, que
encontraram formas de recriar as ideias e práticas de seus
ancestrais com o que estava disponível para eles nas Américas,
por meio do que a psicóloga Linda James Myers chama de
“manifestações físicas externas de cultura”. Essas manifestações
físicas externas que nossos ancestrais encontraram incluíram o
cristianismo, o idioma inglês, alimentos, instrumentos, moda e
costumes europeus populares. Estudiosos culturalmente racistas
imaginaram que, como os afro-americanos exibem
manifestações culturais externas da cultura europeia, “negros
norte-americanos… em cultura e linguagem” são
“essencialmente europeus”, citando o antropólogo Franz Boas,
em 1911. “É muito difícil encontrar qualquer coisa no sul
atualmente que possa ter origem direta na África”, declarou o
sociólogo Robert Park, em 1919. “Destituído de sua herança
cultural”, o ressurgimento do negro “como ser humano foi
facilitada por sua assimilação” da “civilização branca”, escreveu o
sociólogo E. Franklin Frazier, em 1939. Assim, “o negro é só um
norte-americano e nada mais”, argumentou o sociólogo Nathan
Glazer, em 1963. “Ele não tem valores e cultura para preservar e
proteger.” Na análise final, “nós não somos africanos”, disse Bill
Cosby à NAACP [Associação Nacional para o Progresso de
Pessoas Não Brancas], em 2004.
É difícil encontrar a sobrevivência e o renascimento de formas
culturais africanas com um olhar superficial. Esse olhar superficial avalia o corpo cultural por sua pele. Ele não enxerga
atrás, dentro, abaixo. Esse olhar superficial historicamente
esperava que religiões, idiomas, alimentos, moda e costumes
tradicionais africanos ocorressem nas Américas assim como
ocorrem na África. Quando não os encontraram, assumiram que
as culturas africanas tinham sido assimiladas pelas culturas
europeias “mais fortes”. Pessoas com visão superficial não têm
noção do que o psicólogo Wade Nobles chama de “a estrutura
profunda da cultura”, as filosofias e os valores que mudam as
formas físicas externas. É essa “estrutura profunda” que
transforma o cristianismo europeu em um novo cristianismo
africano, de ânimos elevados, perguntas e respostas, e louvor ao
Espírito Santo; ela transforma o inglês em ebonics , ingredientes
europeus em soul food 1 . O cultural africano sobreviveu nos
norte-americanos, criou uma cultura complexa e forte com formas
“externas” ocidentais “ao mesmo tempo em que conservou
valores internos (africanos)”, declarou o antropólogo Melville
Herskovits em 1941. O mesmo cultural africano instilou vida na
cultura afro-americana em que fui criado.
. estar rodeado por todos
aqueles negros — ou seria por toda aquela cultura? — se
movendo depressa e devagar ou só ficando parados ali. A
Avenida tinha um coro orgânico, uma interação dos sons fortes
das lojas e o dos porta-malas dos carros, dos adolescentes
passando, praticando suas rimas, às mensagens dos rappers nas
esquinas. Gil gostava de fazer freestyle ; eu ouvia e sacudia a
cabeça. O som do hip-hop estava por todos os lados.
“Cara, eles tremeram/ Porque não existe bandido pela metade/
Mortos de medo, com medo de olhar, eles tremeram.” “Shook
Ones” foi o hino do Queens em meados dos anos de 1990 para
os autoproclamados “assassinos oficiais de Queensbridge” — de
Mobb Deep. Eles prometeram fazer os ouvintes “saírem da
realidade”, e foi o que aconteceu comigo. Eu desprezava atores
adolescentes que escondiam seu medo debaixo de uma grossa
camada de verniz. Eles pareciam muito reais para policiais
racistas e forasteiros que, de qualquer forma, não conseguiam ver a diferença entre um corpo negro e outro. Mas nós
conseguíamos. “Ele não é um bandido, cara/ ele só é medroso.”
Eu ouvia as rimas retumbantes do melhor do Queens: Nas,
Salt-N-Pepa, Lost Boyz, A Tribe Called Quest, Onyx e LL Cool J,
com seu “Ei Amante, ei amante/ Isso é mais que uma paixão”; e
alguns caras do Brooklyn como Biggie Smalls, toda a Junior
M.A.F.I.A. e o novato Jay-Z; e a galera irada de Staten Island,
Wu-Tang Clan, aprendendo que “a vida é um inferno/ vivendo em
um mundo parecido com uma cela”; e o gênio do Harlem, Big L; e
o pessoal de fora da cidade, desde Queen Latifah ao fast-rapping
de Bone Thugs-N-Harmony — “Acorde, acorde, acorde é o
primeiro do mês” — a Tupac Shakur escrevendo uma carta para
a mãe. Eu me identifiquei quando Tupac confessou: “Eu andava
com bandidos, e apesar de eles venderem drogas/ Demostravam
o amor a um jovem irmão.”
O hip-hop tem o vocabulário mais sofisticado entre todos os
gêneros de música norte-americana. Li seus textos poéticos
vezes sem fim. Mas pais e avós não nos viam ouvindo e
memorizando palavras fortes de poesia oral, relatos urbanos,
pequenos contos, autobiografias, conquistas sexuais e fantasias
sobre aventuras. Eles viam — e ainda veem — palavras capazes
de desvirtuar minha mente. “Ao reforçar os estereótipos que há
muito prejudicam os negros, e ao ensinar jovens negros que uma
postura contenciosa e violenta é a resposta ‘autêntica’ a uma
sociedade presumidamente racista, o rap retarda o sucesso do
negro”, alegou certa vez o linguista John McWhorter. C. Delores
Tucker fez campanha contra o rap em meados dos anos de
1990. “Não se pode ouvir toda aquela linguagem e depravação
sem ser afetado por elas”, Tucker gostava de dizer — assim
como nossos pais e avós gostavam de dizer. A presidente do
Congresso Político Nacional de Mulheres Negras de 66 anos, a
venerável veterana do movimento de direitos civis, continuava a
repeti-lo, como uma batalha de rap de Biggie Smalls.
Queens, deixamos a Avenida para
trás, para começar uma nova vida no Sul. No final de um dia de
aula em algum ponto do segundo semestre de 1997, fui para o ginásio nervoso, para ver quem tinha conseguido entrar para o
time de basquete estudantil júnior da Stonewall Jackson High
School.
Fui até o ginásio sozinho. Eu detestava ficar sozinho o tempo
todo. Eu não tinha amigos na nova escola em Manassas,
Virgínia. Tinha chegado semanas antes à nossa nova casa, em
um bairro de subúrbio predominantemente branco. Manassas
não era o Extremo Sul, mas, inquestionavelmente, era o sul de
Jamaica, Queens. Fiquei acordado em toda a nossa primeira
noite ali, às vezes olhando pela janela, preocupado com que a Ku
Klux Klan aparecesse de repente. Por que a tia Rena teve que
mudar para esse lugar e atrair meus pais?
A notícia de que o garoto quieto, magro, de roupas largas, Air
Force 1s e Tims, com um sotaque esquisito e passos lentos, era
de Nova York, logo se espalhou. Garotas e garotos estavam
igualmente fascinados — mas não necessariamente se dispondo
a ser meus amigos. O basquete era meu único companheiro.
Abri a porta do ginásio, andei devagar pela quadra escura e
encontrei a lista de convocados. Confiante, procurei meu nome.
Não o vi. Atordoado, olhei de novo, acompanhando com o
indicador enquanto lia cada nome devagar. Não vi o meu.
Lágrimas se acumularam nos meus olhos. Eu me virei e me
afastei depressa, segurando o choro. Fui até o ônibus e me
larguei no banco como nunca tinha feito antes.
A tristeza de ter sido cortado foi superada por um sofrimento
mais profundo: não fazer parte do time afastara todas as
possibilidades de fazer amigos na nova escola. Eu estava
sofrendo, mas me controlei enquanto percorria a pequena
distância do ponto de ônibus até minha casa.
Quando abri a porta da frente, vi meu pai descendo a escada
de nossa casa de dois andares — entrei e caí em seus braços
surpresos. Sentamo-nos nos degraus, a porta da frente ainda
aberta. Chorei incontrolavelmente, assustando meu pai. Depois
de alguns minutos, me contive e disse: “Não entrei para o time”, e
em seguida recomecei a chorar e desabafei: “Agora, nunca vou
ter amigos!”
O basquete tinha sido minha vida. Tudo mudou quando aquelas
lágrimas finalmente secaram.
, acreditava intuitivamente no
multiculturalismo, ao contrário de sociólogos assimilacionistas
como Nathan Glazer, que naquele ano lamentou o conceito em
seu livro We Are All Multiculturalists Now [“Agora Somos Todos
Multiculturalistas”, em tradução livre]. Eu era contra ideias
racistas que menosprezam as culturas dos negros das cidades, o
hip-hop — e a mim. Eu sentia que ridicularizar as culturas negras
que conhecia — a cultura urbana, a cultura do hip-hop — era me
ridicularizar.
Contudo, ao mesmo tempo, como um negro urbano do norte,
eu desprezava as culturas de negros não urbanos,
principalmente sulistas, exatamente as pessoas por quem eu
estava cercado agora. Eu comparava sua amada música go-go
— então popular em Washington, D.C., e na Virgínia — com o
que eu considerava o suprassumo da música negra, o hip-hop do
Queens, e a menosprezava como C. Delores Tucker
menosprezava o hip-hop. Os caras na Virgínia não sabiam se
vestir. Eu detestava seus ebonics . Achava que os jogadores de
basquete eram incompetentes que eu tinha que tratar com
condescendência, o que me custou um lugar no time juvenil.
Naqueles primeiros meses, eu andava pela Stonewall Jackson
com uma arrogância muda. Desconfio que amigos em potencial
escutavam minhas pistas não verbais de esnobismo e
certamente se afastavam.
Quando nos referimos a um grupo como negro, branco ou de
outra identidade racial — sulistas negros em vez de sulistas —
estamos racializando esse grupo. Quando racializamos qualquer
grupo e então consideramos sua cultura inferior, estamos
articulando o racismo cultural. Quando eu defendia a cultura
negra em minha mente, eu estava tratando a cultura em seu
sentido geral, não em um senso específico. Eu sabia que era
errado dizer que os negros eram culturalmente inferiores. Mas fui
rápido em julgar culturas negras específicas praticadas por
grupos raciais negros específicos. Julgar a cultura que vi em Manassas em comparação aos padrões culturais da Nova York
negra não era diferente de a Nova York branca julgando a Nova
York negra em comparação aos seus próprios padrões culturais.
Isso não é diferente de a América branca julgar a América latina
em comparação aos padrões culturais da América branca. Isso
não é diferente de a Europa julgando o resto do mundo em
comparação a padrões culturais europeus que é onde o
problema começou, remontando à chamada era do Iluminismo.
“Que toda prática e sentimento que não estão de acordo com
os usos da Europa moderna sejam bárbaros, parece uma
máxima fundamental aplicada por muitos de nossos críticos e
filósofos”, escreveu o crítico do iluminismo escocês James
Beattie, em 1770. “Muitas vezes, suas observações fazem
lembrar-nos da fábula do homem e do leão.” Na fábula, um
homem e um leão viajavam juntos, discutindo sobre quem era
superior. Eles passaram por uma estátua que mostra um leão
estrangulado por um homem. O homem diz: “Veja, ali! Como
somos fortes e como subjugamos até mesmo o rei dos animais.”
O leão responde: “Esta estátua foi feita por um de vocês,
homens. Se nós, leões, soubéssemos erigir estátuas, você veria
o homem colocado sob a pata do leão.” Quem cria o padrão
cultural geralmente se coloca no topo da hierarquia.
“Todas as culturas devem ser julgadas em relação à sua própria
história, e todos os indivíduos e grupos em relação à sua história
cultural e, definitivamente, não pelo padrão arbitrário de uma
única cultura”, escreveu Ashley Montagu, em 1942, uma
expressão clara da relatividade cultural, a essência do
antirracismo cultural. Ser antirracista é ver todas as culturas e
suas diferenças como se estivessem no mesmo nível, como
iguais. Quando vemos a diferença cultural, vemos diferença
cultural — nada mais, nada menos.
Levei algum tempo. Meses de solidão — na verdade, quase
dois anos, se estivermos falando de fazer amigos verdadeiros.
Mas, gradualmente, comecei a respeitar a cultura afro-americana
do norte da Virgínia. Gradualmente, desci das nuvens de minha
presunção cultural racista. Mas eu não conseguia me erguer
além de minha insegurança racista comportamental.
1 N. da T.: Pratos de origem afro-americana.