Como Ser Antirracista

Ibram X. Kendi · Capítulo 21 de 21

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Como Ser Antirracista

Sobrevivência

CAPÍTULO 18

 

SOBREVIVÊNCIA

 

S nos sentávamos no sofá creme arredondado em nossa nova casa em Providence. Mas

nossos nervos nos levaram para a sala de estar naquele dia

do fim de agosto de 2013.

Tínhamos nos mudado na semana anterior, recém-casados.

Tínhamos fugido e trocado nossos sobrenomes meses antes, em

uma aventura pitoresca captada na coluna “Bridal Bliss”, da

Essence . O vestido dourado, os acessórios vermelhos, os

enfeites de búzios e a aura régia de Sadiqa sentada em seu

trono em uma praia da península enquanto as ondas se

curvavam sobre o colorido pôr do sol foram sublimes.

Ainda empolgados com as fotografias, estávamos desabando

agora. De mãos dadas, esperamos pela ligação do radiologista

que realizou o ultrassom e a biópsia. Uma semana antes, Sadiqa

me contou sobre o nódulo. Ela não lhe deu muita importância,

provavelmente sabendo que 93% das mulheres com diagnóstico

de câncer de mama têm mais de 40 anos de idade. Ela tinha 34.

Mas ela cedeu aos meus pedidos de procurar um médico

naquele dia. O telefone tocou. Saltamos como se estivéssemos

vendo um filme de terror. No viva-voz, o médico disse que Sadiqa

tinha um câncer de mama invasivo.

Minutos depois, estávamos no andar superior. Sadiqa não

conseguiu e eu tive que ligar e contar à mãe, que já tinha perdido

uma filha, que a que lhe restava estava com câncer. Eu estava

no quarto de hóspedes quando ela começou a chorar, enquanto

Sadiqa chorava em nosso quarto, e eu chorava em minha mente.

O choro logo parou, mas a preocupação que envolvia e

sufocava minha mulher, não. Sadiqa analisou a luta que a

aguardava. Cirurgia para remover o nódulo. Quimioterapia para

evitar uma reincidência. Monitoramento rigoroso para identificar e

tratar uma reincidência.

Sadiqa tinha tempo antes da cirurgia. Decidimos congelar

embriões para o caso de a quimioterapia prejudicar seus ovários.

O processo estimulou perigosamente os ovários enchendo seu

abdômen com líquido, criando um coágulo de sangue. Dormimos

no hospital durante uma semana enquanto ela se recuperava.

Tudo antes da luta contra o câncer.

O coágulo sanguíneo tornou a cirurgia perigosa demais como

primeira intervenção. A quimioterapia viria primeiro, o que

significava três meses assistindo e sentindo sua angústia. Ela

apreciava comida, mas não conseguia sentir seu gosto. Teve que

enfrentar uma fadiga crônica para conseguir se exercitar. Tinha

acabado de completar 12 anos de treinamento médico, mas

agora, em vez de ver seus pacientes, tinha se tornado um deles.

Era como treinar duramente para uma maratona e ficar doente

depois de dar alguns passos na corrida. Mas ela continuou a

correr: uma quimioterapia, três cirurgias, outro ano de uma

quimioterapia menos tóxica. E ela venceu.

 

o câncer de Sadiqa do racismo

que eu estudava. Os dois consumiram minha vida nos meses

finais de 2013 e durante a melhor parte de 2014 e 2015. Meses

depois que Sadiqa sobreviveu ao câncer de mama estágio 2,

minha mãe foi diagnosticada com câncer de mama estágio 1. Ela

suportou a radiação e uma lumpectomia em 2015. Aqueles anos

foram todos sobre cuidar de Sadiqa, ajudar meu pai a cuidar de

minha mãe e — quando elas estavam dormindo, recebendo

visitas ou querendo ficar a sós — afastar-me do sofrimento dos

cânceres para a pilha de ideias racistas que tinha reunido.

Com o passar do tempo, a origem das ideias racistas se tornou

óbvia, mas eu tive dificuldade em reconhecê-la. A origem não

correspondia à minha concepção de racismo, minha ideologia

racial, minha identidade racial. Eu me tornei professor

universitário para combater ideias racistas por meio da instrução,

vendo a ignorância como a fonte de ideias racistas, vendo ideias

racistas como a fonte de políticas racistas, vendo a mudança

mental como a solução principal, vendo a mim mesmo, um

educador, como o principal solucionador.

Observar a coragem de Sadiqa em agredir seu corpo para

depois reconstruí-lo me inspirou a aceitar a fonte das ideias

racistas que descobri enquanto pesquisava toda a sua história —

mesmo destruindo meu modo de pensar anterior. Minha pesquisa

continuou a me apontar a mesma resposta: a origem das ideias

racistas não era a ignorância e o ódio, mas o interesse próprio.

A história das ideias racistas é a história de legisladores

poderosos criando políticas racistas por interesse próprio, e

então produzindo ideias racistas para defender e racionalizar os

efeitos de desigualdade de suas políticas, enquanto as pessoas

comuns consomem essas ideias racistas, o que, por sua vez,

desperta ignorância e ódio. Tratar a ignorância e o ódio e esperar

que o racismo encolha de repente parecia como tratar os

sintomas de câncer de um paciente e esperar que o tumor

encolhesse. O corpo político pode se sentir temporariamente

melhor devido ao tratamento — por tentar erradicar o ódio e a

ignorância —, mas, enquanto a causa subjacente permanece, os

tumores crescem, os sintomas voltam e as desigualdades se

espalham como células cancerosas, ameaçando a vida do corpo

político. A persuasão educacional e moral não é só uma

estratégia fracassada. É uma estratégia suicida.

 

a mudança de políticas e não a mudança

mental é descrita em meu livro seguinte, Stamped from the

Beginning . Depois que o livro foi publicado em 2016, iniciei uma

jornada para disseminar essa mensagem a partir de nossa nova

casa na Universidade da Flórida. Falei sobre políticas racistas

que levam a ideias racistas, e não o contrário, como geralmente

pensávamos. Falei sobre eliminar políticas racistas, se

quiséssemos algum dia eliminar ideias racistas. Falei e falei,

inconsciente de minha nova hipocrisia, que leitores e

participantes notaram. “O que você está fazendo para mudar as

políticas?”, continuavam a me perguntar em público e em

particular.

Comecei a me questionar. O que eu estou fazendo para mudar

as políticas? Como posso realmente pedir às pessoas para

focarem mudanças políticas, se eu não estou focado em mudanças políticas? Mais uma vez, tive que confrontar e

abandonar uma ideia querida.

Eu não precisava abandonar a pesquisa e a educação sobre

antirracismo. Eu precisava abandonar minha orientação em

relação à pesquisa e educação antirracista. Tinha que abandonar

o persuasor criado em mim, que me fazia pesquisar e educar em

nome de uma mudança de mentes. Tinha que começar a

pesquisar e educar para mudar políticas. A estratégia anterior

produz um estudioso público. A última, produz educação pública.

 

2017, me mudei para a American University, na

capital do país, para fundar e dirigir o Centro de Políticas e

Pesquisas Antirracistas. Minha pesquisa na história do racismo e

antirracismo revelou que os acadêmicos, especialistas em

políticas, jornalistas e ativistas têm sido cruciais para substituir a

política racista pela antirracista com sucesso.

Imaginei criar programas de bolsas residenciais e levar a

Washington times dos sonhos de acadêmicos, especialistas em

política, jornalistas e advogados, que seriam assistidos por

classes compostas de alunos do corpo estudantil mais

politicamente ativo do país. As equipes focariam as

desigualdades raciais mais críticas e aparentemente intratáveis.

Investigariam as políticas raciais que causam desigualdades

raciais, inovariam em políticas antirracistas corretivas,

divulgariam as políticas e pesquisas corretivas e se envolveriam

em campanhas para mudar esse trabalho com o poder

antirracista, em locais para instituir e testar essas políticas

corretivas antes de aplicá-las nacional e internacionalmente.

 

alguns dos passos que todos

podemos dar para eliminar a desigualdade racial em nossos

espaços.

 

Admita que a desigualdade racial é um problema de políticas

ruins, não de pessoas ruins.

 

Identifique desigualdades raciais em todas as suas

intersecções e manifestações.

Investigue e exponha políticas racistas que causem

desigualdade racial.

 

Invente ou encontre políticas antirracistas que possam eliminar

desigualdades raciais.

 

Descubra quem ou que grupo tem o poder de instituir políticas

antirracistas.

 

Dissemine e informe sobre políticas racistas explícitas e

políticas antirracistas corretivas.

 

Trabalhe com legisladores antirracistas solidários para instituir

políticas antirracistas.

 

Utilize o poder antirracista para obrigar ou afastar o poder de

legisladores racistas não solidários, a fim de instituir políticas

antirracistas.

 

Monitore rigorosamente as políticas antirracistas para garantir

que reduzam e eliminem desigualdades raciais.

 

Quando as políticas falharem, não culpe as pessoas.

Recomece e busque novos tratamentos antirracistas mais

eficientes até que funcionem.

 

Monitore rigorosamente os legisladores para evitar que novas

políticas racistas sejam instituídas.

 

Na noite de setembro em que revelei minha visão sobre o

Centro Antirracista para meus colegas na American University, o

terror racista também se revelou. Depois da apresentação,

durante minha aula noturna, um corpulento branco não

identificado de meia-idade vestido com trajes de trabalho colocou

cópias de bandeiras Confederadas com desenhos de bolas de

algodão no interior de vários prédios. Ele as colocou em quadros

de aviso do lado de fora de minha sala. O momento escolhido

não pareceu ser coincidência. Ignorei meus temores e continuei

no mesmo ritmo nos últimos meses de 2017. Esse não foi o único

fato que afastei do pensamento. Também ignorei minha perda de

peso e segui em frente. Começou a ficar irritante entrar e sair dos

banheiros sem produzir nada, e ainda sentir que tinha que voltar

minutos depois. Mas achei que tinha coisas mais importantes com que me preocupar. Afinal, nacionalistas brancos estavam

governando e aterrorizando os Estados Unidos e seu poder

estava se espalhando pelo mundo ocidental.

Não tive uma folga restauradora no feriado de Ações de

Graças. Estava de cama. Os vômitos começaram e pararam

durante o fim de semana. A diarreia com sangue, não. Tudo

piorou. No Natal, a situação tinha ficado grave. Cedi quando

Sadiqa insistiu que eu fosse ao médico.

Nem a enfermeira, nem Sadiqa acharam que fosse algo grave.

Eu tinha 35 anos, cerca de metade da idade média para a pior

possibilidade, câncer do cólon. Não exibia nenhum dos fatores de

risco para a doença, visto que eu me exercitava, raramente

bebia, não fumava, e era vegano desde que Sadiqa e eu

adotamos esse novo estilo a fim de evitar a reincidência de seu

câncer. Agendamos uma colonoscopia preventiva para 10 de

janeiro de 2018.

 

por causa da anestesia naquela manhã.

Limpar o cólon tinha sido uma tarefa que tomou a noite toda.

Sadiqa ajudou a me vestir na pequena sala de exames sombria.

Não havia janelas, cores vivas ou enfeites, apenas fotos do trato

intestinal nas paredes. A médica negra que realizou a

colonoscopia entrou na sala com uma expressão séria.

“Encontrei algo anormal”, disse, sentando-se. “Vi uma massa no

cólon sigmoide. É grande e friável, e está sangrando.” Olhei para

ela, confuso, não entendendo o que ela queria dizer. Sadiqa

olhou para ela, chocada, sabendo exatamente o que ela queria

dizer.

Ela disse que não conseguiu que o colonoscópio passasse da

massa, que obstruía o cólon. “É muito provável que seja

canceroso”, acrescentou.

A médica fez uma pausa quando minha confusão se

transformou em choque. Minha mente se apagou. Sadiqa teve

que falar por mim, realmente ouvir por mim. A médica disse para

fazer os exames de sangue naquele dia e uma tomografia no dia

seguinte para confirmar o câncer. Eu não sabia o que pensar ou

sentir. E assim eu não senti nem pensei, só fiquei em choque.

Em algum momento, vários minutos depois, talvez quando

alguém coletava meu sangue, pensei na professora Mazama.

Sobre quando contei a ela o diagnóstico de Sadiqa e perguntei:

“Por que ela?”

“Por que não ela?”, respondeu Mazama.

Por que não eu?

Pensei em Sadiqa, meus pais, e suas lutas contra o câncer. Por

que não eu ? Eles sobreviveram. Por que não seria eu a morrer?

 

...

 

S no centro de Washington e fomos até o

Busboys and Poets para encontrar minha mãe para o café da

manhã. Nós nos sentamos. Minha mãe nos aguardava havia

meia hora. Ela perguntou por que demoramos tanto. Eu ainda

estava mudo, olhando para baixo, para cima, para longe dos

olhos de qualquer pessoa. Sadiqa contou à mamãe sobre a

massa. Que provavelmente era câncer. “Certo, se for, vamos lidar

com isso”, respondeu minha mãe. Eu a fitei nos olhos, segurando

as lágrimas. “Vamos lidar com isso”, repetiu. Eu sabia que ela

falava sério. Sim, nós vamos , eu disse para mim mesmo,

absorvendo sua coragem.

Naquela noite, recebi mais coragem quando Sadiqa e eu

pressupomos que tínhamos descoberto o câncer cedo.

Provavelmente estágio 1 ou 2. Talvez 3. Não 4. Cerca de 88% de

pessoas diagnosticadas com câncer de cólon no estágio 4

morriam dentro de cinco anos.

No dia seguinte, eles confirmaram. Eu tinha câncer de cólon

metastático. Estágio 4. Talvez a gente não consiga lidar com isso

.

 

de câncer metastático. Estágio 4.

O racismo se disseminou a praticamente todas as partes do

corpo político, realizando intersecções com intolerâncias de todo

o tipo, justificando todos os tipos de desigualdades ao culpar as

vítimas; aumentando a exploração e o ódio descabido; incitando

tiroteios em massa, corridas armamentistas e demagogos que polarizam nações; derrubando órgãos essenciais à democracia e

ameaçando a vida da sociedade humana com guerras nucleares

e mudanças climáticas. Nos Estados Unidos, o câncer

metastático tem se espalhado, contagiado e ameaçado matar o

corpo norte-americano como quase fez antes de seu nascimento,

como quase fez durante a Guerra Civil. Mas quantas pessoas

olham para as desigualdades raciais no interior de seu corpo, as

desigualdades raciais em seus bairros, as desigualdades raciais

em suas instituições e categoricamente negam que suas políticas

são racistas? Elas categoricamente negam que a desigualdade

racial indica uma política racista. Categoricamente negam a

política racista enquanto usam ideias racistas para justificar a

desigualdade racial. Categoricamente negam o câncer do

racismo à medida que as células cancerosas se espalham, e

literalmente ameaçam suas próprias vidas e as vidas de pessoas,

espaços e lugares que lhes são caros. A concepção popular da

negação — como a estratégia popular da persuasão — é suicida.

 

toda sobre a negação, antes do diagnóstico,

depois do diagnóstico. Ainda não conseguia separar racismo e

câncer. Aguardava em salas de espera, entre consultas médicas,

exames e procedimentos, escrevendo um ensaio argumentando

que o batimento cardíaco do racismo é a negação, o batimento

cardíaco do antirracismo é a confissão. O artigo foi publicado no

New York Times no domingo, 14 de janeiro de 2018, três dias

após meu diagnóstico. Mas meu texto sobre a negação do

racismo não me impediu de negar a gravidade de meu câncer.

Eu não conseguia confessar que provavelmente eu morreria.

Secretamente, eu vinha tentando entender o racismo por meio

do câncer desde o diagnóstico de Sadiqa. Só que agora eu

começava a entender o meu câncer por meio de minha nova

concepção de racismo. Negar minha habilidade de ter êxito na

luta contra o câncer não era diferente daqueles que negam nossa

habilidade de ter êxito na luta pelo antirracismo. Negar é muito

mais fácil do que admitir, do que confessar.

Eu tenho câncer. O estágio mais grave. O câncer

provavelmente vai me matar. Eu posso sobreviver ao câncer, contrariando todas as expectativas .

Minha sociedade tem racismo. O estágio mais grave. O racismo

provavelmente vai matar minha sociedade. Minha sociedade

pode sobreviver ao racismo, contrariando todas as expectativas.

Eu me preparei para lutar. Olhei para além do que poderia me

prejudicar na luta para ver tudo o que me poderia trazer alegria.

Dançar pela vida com minha parceira sobrevivente e lutadora.

Assistir à minha filha negra de quase dois anos de idade crescer

e se transformar em uma mulher fenomenal. Transformar-me em

um ser melhor por meio do amor de minha família positiva,

amigos e mentores que conheço e não conheço. Engajar meus

leitores de mente aberta de Stamped from the Beginning . Criar o

Centro de Antirracismo e torná-lo uma fábrica intelectual de

políticas antirracistas. Testemunhar meu amado New York Knicks

finalmente vencer um campeonato da NBA. Escrever para a

Atlantic, nas mesmas páginas que W.E.B. Du Bois. Terminar este

livro e partilhá-lo com o mundo.

Assisti ao progresso do antirracismo surgindo em minha vida, à

sociedade antirracista surgindo na vida de minha neta, nossos

bisnetos se recusando a voltar à época racista quanto todas a

vítimas de todas as formas de intolerância que alimentam e são

alimentadas pelo racismo tinham muito menos recursos, muito

menos oportunidades de se fundir com sua humanidade, de se

fundir com a diferença humana, de se fundir com nossa

humanidade partilhada.

 

tomou a forma de planos de batalha.

Seis meses de quimioterapia. Se os tumores diminuíssem, a

chance de cirurgia. A chance de remover o resto dos tumores. A

chance de vida se não houvesse reincidência. Uma pequena

chance. Mas uma chance.

Às segundas-feiras, a cada três semanas, iniciando no final de

janeiro de 2018, recebi injeções quimioterápicas e comecei a

quimioterapia oral. Às terças-feiras, eu já me sentia como se

tivesse sido atacado por Smurf e sua turma. Eu mal conseguia

sair da cama. Mal conseguia escrever este livro. Mal conseguia

comer e beber. Mas me obriguei a sair da cama, a escrever, a ficar hidratado, porque quando não exercitava meu corpo e

minha mente, quando não consumia proteína, pensamentos e

líquidos suficientes, sentia os níveis de toxicidade aumentando

no meu corpo, exacerbando todos os sintomas.

Para continuar minha vida normal, eu tinha que sair e enfrentar

o frio rigoroso, não só para a academia, mas para reuniões,

palestras, para a vida. A químio me deixou muito sensível ao frio.

Um grau negativo lá fora parecia -20o C dentro de mim. Sempre

que eu respirava o ar frio, meus pulmões doíam. Sempre que eu

tomava líquidos gelados, minha garganta doía. Sempre que eu

tocava qualquer coisa fria, meus dedos doíam.

Em vez de ceder ao desconforto crônico ou pedir ao médico

para aliviar a químio, descobri meios de me sentir mais

confortável. Normalmente, a dor é essencial à cura. Quando se

trata de curar os Estados Unidos do racismo, queremos curá-lo

sem dor, mas sem dor não haverá progresso.

 

o suficiente para me levarem à mesa

de cirurgia no final do verão de 2018. Os cirurgiões removeram o

que tinha restado e tornaram a me costurar. Os patologistas

dissecaram o material retirado e não encontraram células

cancerígenas. Aparentemente, os seis meses de químio tinham

destruído todo o câncer. Meus médicos ficaram tão surpresos

quanto eu quando recebi o diagnóstico. Eu tinha uma boa chance

de me inserir entre os 12% de pessoas que sobrevivem ao

câncer de cólon em estágio 4.

 

metastático. Perdoem-me.

Não consigo separar os dois, e nem tento mais. E se a

humanidade conectasse os dois? Quantas pessoas de todas as

raças deixariam de morrer todos os anos de câncer se

lançássemos uma guerra contra a doença em vez de contra

corpos não brancos que nos matam em números muito

menores? Quantas opções melhores de prevenção e tratamento

os médicos teriam, se destinássemos ao tratamento e pesquisa

do câncer uma porção dos trilhões de dólares em tributos que gastamos para reduzir impostos dos mais ricos, para prender e

bombardear pessoas, e enviar tropas em situações de perigo?

E se tratássemos o racismo como tratamos o câncer? O que

historicamente tem sido eficiente no combate ao racismo é

análogo ao que tem sido eficiente no combate ao câncer. Estou

falando sobre os métodos de tratamento que me deram a chance

de viver e que dão a milhões de lutadores e sobreviventes contra

o câncer como eu, como você, aos nossos entes queridos, uma

chance de vida. Os métodos de tratamento que deram a milhões

de nossos parentes, amigos e ídolos que não sobreviveram ao

câncer uma chance de alguns dias, meses ou anos a mais de

vida. E se os humanos conectassem os planos de tratamento?

Saturar o corpo político com a quimioterapia ou imunoterapia

das políticas antirracistas que reduzem os tumores das

desigualdades raciais, que matam células cancerígenas não

detectadas. Remover quaisquer políticas racistas, do modo como

cirurgiões removem tumores. Garantir que haja margens limpas,

significando que não reste nenhuma célula cancerígena ou

desigualdade no corpo político, apenas as células saudáveis da

igualdade. Encorajar a consumo de alimentos saudáveis para o

pensamento e exercícios regulares para as ideias antirracistas,

para reduzir a probabilidade de uma reincidência. Monitorar o

corpo político rigorosamente, principalmente onde havia tumores

da desigualdade racial. Detectar e tratar precocemente uma

reincidência, antes que cresça e ameace o corpo político.

Mas, antes de poder tratar, precisamos acreditar. Acreditar que

nem tudo está perdido para você, para mim e para nossa

sociedade. Acreditar na possibilidade de que podemos lutar para

sermos antirracistas a partir de hoje. Acreditar na possibilidade

de que podemos transformar nossas sociedades para se

tornarem antirracistas de hoje em diante. O poder racista não é

divino. Políticas racistas não são indestrutíveis. Desigualdades

raciais não são inevitáveis. Ideias racistas não são inerentes à

mente humana.

Raça e racismo são constructos de poder do mundo moderno.

Por cerca de 200 mil anos, antes de raça e racismo serem

construídos no século XV, os humanos viam a cor de pele, mas não agrupavam as cores em raças continentais, não atribuíam

características positivas e negativas a esses tons de pele e

tampouco classificavam as raças para justificar a desigualdade

racial, para reforçar o poder e as políticas racistas. O racismo

não tem nem 600 anos de idade. É um câncer que descobrimos

cedo.

Dos cânceres conhecidos, o racismo é um dos mais fatais e

que mais rapidamente se espalha na humanidade. É difícil

encontrar um lugar em que as células cancerígenas não estejam

se dividindo e multiplicando. Não há nada que eu possa ver hoje

em nosso mundo, em nossa história, que me dê esperança de

que um dia antirracistas vencerão a luta, que um dia a bandeira

do antirracismo tremulará sobre um mundo de equidade. O que

me dá esperança é um simples truísmo. Quando perdemos a

esperança, certamente perderemos. Mas, se ignorarmos as

probabilidades e lutarmos para criar um mundo antirracista, então

daremos à humanidade uma chance de um dia sobreviver, uma

chance de viver em comunhão, uma chance de sermos livres

para sempre.

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