Como Ser Antirracista
Definições
CAPÍTULO 1
DEFINIÇÕES
RACISTA: Alguém que apoia uma política racista por meio de
ações ou inações, ou expressando ideias racistas.
ANTIRRACISTA: Alguém que apoia uma política antirracista
por meio de ações ou expressando ideias antirracistas.
O o palco da arena da Universidade
de
Illinois, sacudindo seus dashikis e cabelos afro que se
erguiam como punhos cerrados — uma visão incrível para ser
contemplada pelos 11 mil universitários na plateia. O Soul
Liberation não se parecia nada com os grupos brancos de terno
que entoaram hinos por quase dois dias depois do aniversário de
Jesus em 1970.
Alunos negros conseguiram convencer a InterVarsity Christian
Fellowship, o primeiro organizador do movimento evangélico nos
EUA, a dedicar a segunda noite da conferência à teologia negra.
Mais de 500 participantes negros de todo o país estavam
presentes quando o Soul Liberation iniciou a apresentação. Dois
desses estudantes negros eram meus pais.
Eles não estavam sentados juntos. Dias antes, viajaram no
mesmo ônibus durante 24 horas, que pareceram 42, de
Manhattan à região central de Illinois, atravessando os estados
da Pensilvânia, Ohio e Indiana. Cem negros nova-iorquinos
dirigiram-se à InterVarsity’s Urbana ‘70.
Minha mãe e meu pai se conheceram no feriado de Ações de
Graças semanas antes, quando Larry, um aluno de contabilidade
do Baruch College de Manhattan, ajudou a organizar um evento
de recrutamento para Urbana ‘70 em sua igreja em Jamaica,
Queens. Carol era uma das 30 pessoas que apareceram — ela voltara para o Queens do Nyack
College, uma pequena faculdade cristã a cerca de 70 quilômetros
ao norte da casa de seus pais em Far Rockaway. O primeiro
encontro foi banal, mas Carol notou Larry, um estudante
excessivamente sério com um imenso cabelo afro, o rosto
escondido por uma barba volumosa; e Larry notou Carol, uma
moça pequena de 19 anos, com sardas sobre a pele cor de
caramelo, apesar de apenas terem trocado algumas palavras. Os
dois, separadamente, decidiram ir a Urbana ‘70 quando
souberam que Tom Skinner pregaria e que o Soul Liberation se
apresentaria. Aos 28 anos de idade, Skinner estava ficando
famoso como um jovem evangelista da teologia negra da
libertação. Ex-membro de uma gangue e filho de um pastor
batista, ele alcançava milhares de pessoas por meio de seu
programa de rádio e suas excursões, em que pregava lotando
locais icônicos, como o Teatro Apolo, no Harlem, bairro em que
nasceu. Em 1970, Skinner publicou seu terceiro e quarto livros,
How Black Is the Gospel? [“O Evangelho É Negro?”, em tradução
livre] e Words of Revolution [“Palavras da Revolução”, em
tradução livre].
Carol e Larry devoraram os dois livros como se fossem uma
canção de James Brown ou uma luta de Muhammad Ali. Carol
descobriu
Skinner por meio de seu irmão mais novo, Johnnie, que estudava
na mesma faculdade que ela. A ligação de Larry era mais
ideológica. Na primavera de 1970, ele se matriculou na aula “The
Black Aesthetic” [A Estética Negra], ministrada por Addison Gayle
Jr., lendário estudioso literário da Baruch College. Pela primeira
vez, Larry leu Da Próxima Vez, o Fogo , de James Baldwin, e
Native Son [“Filho Nativo”, em tradução livre], de Richard Wright,
as peças intensas de Amiri Baraka e o manifesto revolucionário
proibido The Spook Who Sat by the Door [“O Fantasma à
Espreita”, em tradução livre], de Sam Greenlee. Foi um
despertar. Depois da aula de Gayle, Larry começou a procurar
um meio de conciliar a fé com sua recém-descoberta consciência
negra. A busca o levou a Tom Skinner.
a apresentação com seu popular hino,
“Power to the People”. Os corpos dos estudantes negros que
tinham se aproximado da frente da arena começaram a se mover
quase em sincronia ao som do ressoar da bateria e do pesado
baixo e, juntamente com as palmas cadenciadas, geraram o
rhythm & blues de um revival rural do sul.
A onda de ritmo contagiou os milhares de corpos brancos na
arena. Logo eles, também, estavam de pé, movendo-se e
cantando ao som pungente do poder negro.
Cada acorde do Soul Liberation pareceu aumentar a
expectativa para a apresentação do principal orador da noite.
Quando a música terminou, chegara a hora: Tom Skinner, de
terno escuro e gravata vermelha, postou-se atrás do púlpito, e
com a voz séria começou sua lição de história.
“A igreja evangélica… apoiou o status quo . Ela apoiou a
escravatura; apoiou a segregação; pregou contra qualquer
tentativa de os homens negros se sustentarem por seus próprios
meios.”
Skinner contou como passou a cultuar o Jesus Cristo branco da
elite, que purificava as pessoas por meio de “regras e
regulamentos”, um salvador que pressagiou a visão de Richard
Nixon sobre a lei e a ordem. Mas, um dia, Skinner se deu conta
de que entendeu tudo errado. Jesus não estava no Rotary Club e
não era policial. Era um “revolucionário radical, com pelos no
peito e sujeira debaixo das unhas”. O novo conceito de Skinner
sobre Jesus nasceu e se comprometeu a uma nova leitura do
evangelho. “Qualquer evangelho que não… fale da questão da
escravatura” e da “injustiça” e da “desigualdade” — qualquer
evangelho que não queira ir até onde as pessoas estão famintas
e pobres e as libertar em nome de Jesus Cristo — não é o
evangelho.”
Na época de Jesus, “havia um sistema em funcionamento,
assim como hoje”, declarou Skinner. Mas “Jesus era perigoso.
Ele era perigoso porque estava mudando o sistema”. Os
romanos prenderam esse “revolucionário”, “o pregaram em uma
cruz”, o mataram e enterraram. Mas, três dias depois, Jesus
“ressuscitou” para nos dar seu testemunho hoje. “Proclamem liberdade aos cativos e preguem libertação do mundo das trevas
aos prisioneiros da escuridão”, e “saiam pelo mundo e digam aos
homens presos mental, espiritual e fisicamente: ‘O libertador
chegou!’”.
A última frase ecoou pela multidão. “O libertador chegou!” Os
estudantes praticamente saltaram de seus assentos em ovação
— vestindo o manto desse novo evangelho. Os libertadores
chegaram. Meus pais foram profundamente receptivos ao
chamado de Skinner para a libertação evangélica e participaram
de uma série de convenções negras ao longo da semana da
conferência, que reforçaram seu chamado todas as noites. Em
Urbana ‘70, meu pai e minha mãe se viram deixando a igreja
civilizada, conservadora e racista da qual faziam parte. Eles
foram salvos pela teologia negra da libertação e se uniram à
igreja sem igreja do movimento Black Power. Nascido nos dias
de Malcolm X, Fannie Lou
Hamer, Stokely Carmichael e outros antirracistas que
confrontaram segregacionistas e assimilacionistas nos anos de
1950 e 1960, o movimento da solidariedade negra, do orgulho
cultural negro e da autodeterminação política e econômica negra
extasiaram todo o mundo negro. E então, em 1970, o poder
negro extasiou meus pais. Eles pararam de pensar em salvar e
começaram a pensar em libertar o povo negro.
Na primavera de 1971, minha mãe voltou ao Nyack College e
ajudou a formar a união dos estudantes negros, uma organização
que desafiou a teologia racista, as bandeiras dos Confederados
nas portas dos dormitórios e a escassez de programação e de
alunos negros. Ela começou a usar vestidos e amarrar lenços de
estampas africanas em seu cabelo afro que deixava crescer. Ela
sonhava em viajar para sua pátria-mãe como missionária.
Papai voltou à sua igreja e deixou seu famoso coral de jovens.
Ele começou a organizar programas que faziam perguntas
provocativas: “O cristianismo é a religião do homem branco?” “A
igreja negra é relevante para a comunidade negra?” Ele começou
a ler a obra de James Cone, o estudioso pai da teologia da
libertação negra e autor do influente Black Theology & Black Power [“Teologia Negra e Black Power”, em tradução livre], em
1969.
Um dia, na primavera de 1971, meu pai juntou coragem para ir
até o Harlem e assistir à aula de Cone no Union Theological
Seminar. Cone falou sobre seu novo livro, A Black Theology of
Liberation [“A Teologia Negra da Libertação”, em tradução livre].
Depois da aula, meu pai falou com o professor.
“Como o senhor define um cristão?”, perguntou meu pai com
seu jeito sério.
Cone olhou para ele com a mesma seriedade e respondeu: “Um
cristão é alguém que luta pela libertação.”
A definição operacional de James Cone de um cristão
descreveu o cristianismo dos escravizados, não o cristianismo
dos escravistas. Ouvir essa definição foi um momento de
revelação na vida de meu pai. Minha mãe teve uma revelação
semelhante em sua união de estudantes negros — que o
cristianismo tratava de luta e libertação. Meus pais agora tinham,
separadamente, chegado a um credo com que moldar suas
vidas, para ser o tipo de cristão que Jesus, o revolucionário, os
inspirou a ser. Essa nova definição de uma palavra que eles já
tinham escolhido como sua identidade fundamental naturalmente
os transformou.
ainda em curso para ser um antirracista
começou em Urbana ’70. A mudança de meus pais reverberou
em seus dois filhos ainda não nascidos — essa nova definição de
vida cristã tornou-se o credo que serviu de alicerce para as suas
vidas e a de seus filhos. Não consigo dissociar a luta religiosa de
meus pais para serem cristãos de minha luta secular para ser um
antirracista. E a principal atitude para nós foi definir nossos
termos de modo que pudéssemos começar a descrever o mundo
e nosso lugar nele. Definições nos ligam a princípios. Essa é uma
questão séria: se não realizarmos o trabalho básico de definir o
tipo de pessoas que queremos ser em uma linguagem estável e
consistente, não poderemos trabalhar para atingir metas estáveis
e consistentes. Alguns dos passos mais importantes que dei para
me tornar antirracista foram os momentos em que cheguei a definições básicas. Ser antirracista é estabelecer definições
lúcidas de racismo/antirracismo, políticas racistas/antirracistas,
ideias racistas/antirracistas, pessoas racistas/antirracistas. Ser
racista é constantemente redefinir o racismo de modo a exonerar
as mudanças nas políticas, ideias e subjetividades.
Assim, vamos estabelecer algumas definições. O que é
racismo? É a união de políticas racistas e ideias racistas que
produzem e normalizam desigualdades raciais. Certo, então, o
que são políticas e ideias racistas? Temos que defini-las
separadamente para compreender por que estão unidas e por
que interagem tão bem uma com a outra. Na verdade, vamos
recuar um pouco e pensar na definição de outra frase importante:
desigualdade racial.
A desigualdade racial ocorre quando dois ou mais grupos
étnicos não se encontram em condições de igualdade. Um
exemplo de desigualdade racial: 71% das famílias brancas
moravam em casas próprias em 2014, comparadas a 45% de
famílias de latinos e 41% de famílias negras. Igualdade racial é
quando dois ou mais grupos sociais estão em pé de relativa
igualdade. Um exemplo de igualdade racial seria se houvesse
porcentagens relativamente comparáveis de todos os grupos
étnicos vivendo em casas próprias nos anos 1940, 1970 ou, ao
menos, 1990.
Uma política racista é qualquer medida que produza ou
sustente desigualdade racial entre grupos raciais. Uma política
antirracista é qualquer medida que produza ou sustente
igualdade racial entre grupos étnicos. Por política, eu me refiro a
leis, normas, procedimentos, processos, regulamentações e
diretrizes escritas e não escritas que orientam as pessoas. Não
existem políticas não racistas ou neutras em relação à raça.
Cada política, em cada instituição, em cada comunidade, em
cada nação, produz ou sustenta desigualdade ou igualdade racial
entre grupos raciais.
Políticas raciais têm sido descritas por outros termos: “racismo
institucional”, “racismo estrutural” e “racismo sistemático”, por
exemplo. Mas esses termos são mais vagos do que “política
racista”. Quando eu os uso, me vejo tendo que explicar imediatamente o que significam. “Política racista” é mais tangível
e rigoroso, e tem maior probabilidade de ser compreendido pelas
pessoas, incluindo suas vítimas, que podem não ter o benefício
de uma ampla fluência em termos raciais. “Política racista” diz
exatamente qual é o problema e onde ele se encontra. “Racismo
institucional”, “racismo estrutural” e “racismo sistemático” são
redundantes. O racismo em si é institucional, estrutural e
sistêmico.
“Política racista” também define melhor a essência do racismo
do que “discriminação racial”, outra expressão comum.
“Discriminação racial” é uma manifestação imediata e visível de
uma política racial subjacente. Quando alguém discrimina uma
pessoa de um grupo racial, está adotando uma política ou tirando
vantagem da falta de uma política protetiva. Todos temos o poder
de discriminar. Apenas alguns poucos privilegiados têm o poder
de criar políticas. Focar a “discriminação racial” desvia nosso
olhar dos agentes centrais do racismo: política e legisladores
racistas, ou o que eu chamo de poder racista.
Desde os anos 1960, o poder racista tem se apropriado da
expressão “discriminação racial”, transformando o ato de
discriminação com base na raça em um ato inerentemente
racista. Mas se a discriminação racial for definida como tratar,
considerar ou fazer diferença a favor ou contra um indivíduo com
base na raça, então, a discriminação racial não é inerentemente
racista. A questão determinante é se a discriminação está
criando igualdade ou desigualdade. Se a discriminação criar
igualdade, é antirracista. Se criar desigualdade, é racista. Alguém
que reproduz desigualdade por meio do auxílio permanente para
que um grupo étnico super-representado obtenha riqueza e
poder é totalmente diferente de alguém que desafia essa
desigualdade por meio do auxílio temporário para que um grupo
étnico sub-representado obtenha riqueza e poder relativos até
que a igualdade seja atingida.
A única solução para a discriminação racial é a discriminação
antirracista. A única solução para a discriminação passada é a
discriminação presente. A única solução para a discriminação
presente é a discriminação futura. Como disse o presidente Lyndon B. Johnson, em 1965: “Não se pega uma pessoa durante
anos debilitada por correntes e a liberta, a coloca na linha de
largada de uma corrida e diz: ‘Você está livre para competir com
todos os outros’, e ainda acredita, de fato, que foi totalmente
justo.” Como Harry Blackmun, juiz da Suprema Corte dos
Estados Unidos escreveu em 1978: “Para solucionar a questão
do racismo, precisamos antes considerar a raça. Não há outra
maneira. E, para tratar algumas pessoas da mesma forma, é
preciso tratá-las de modo diferente.”
Os defensores racistas da discriminação racial concebida para
manter as desigualdades raciais antes dos anos de 1960 são
hoje os oponentes racistas da discriminação antirracista,
concebida para derrubar essas desigualdades raciais. O
movimento racista mais ameaçador não é o esforço improvável
da direita alternativa em direção a um nacionalismo étnico
branco, mas o esforço regular norte-americano em direção a um
nacionalismo étnico “neutro”. Na verdade, a construção da
neutralidade étnica alimenta a vitimização nacionalista branca ao
apresentar a noção de que qualquer política que proteja ou
promova norte-americanos não brancos em direção à igualdade
é uma “discriminação reversa”.
É assim que o poder racista pode chamar as políticas de ação
afirmativa que conseguem reduzir as desigualdades raciais de
“conscientes de raça” e testes padronizados que produzem
desigualdades raciais de “neutros em relação à raça”. É assim
que ele pode responsabilizar o comportamento de grupos raciais
inteiros pelas desigualdades entre grupos raciais diferentes e
ainda afirmar que suas ideias “não são racistas”. Mas não
existem ideias não racistas, apenas ideias racistas e
antirracistas.
Assim, o que é uma ideia racista? Uma ideia racista é qualquer
ideia que aponte um grupo étnico como inferior ou superior a
outro, em qualquer aspecto. Ideias racistas defendem que
inferioridades e superioridades em grupos étnicos explicam as
desigualdades raciais na sociedade. Como Thomas Jefferson
suspeitou uma década depois de declarar a independência
branca: “Os negros, quer originalmente uma raça distinta ou diferenciada pelo tempo e pelas circunstâncias, são inferiores
aos brancos nas dotações do corpo e da mente.”
Uma ideia antirracista é qualquer ideia que indique que os
grupos étnicos são iguais em todas as suas aparentes diferenças
— que não há nada certo ou errado com qualquer grupo étnico.
Ideias antirracistas defendem que políticas racistas são a causa
de desigualdades raciais.
Compreender as diferenças entre políticas e ideias racistas e
antirracistas permite-nos voltar às nossas definições
fundamentais. O racismo é uma coleção poderosa de políticas
racistas que levam à desigualdade racial e são substanciadas por
ideias racistas. O antirracismo é uma coleção poderosa de
políticas antirracistas que levam à igualdade racial e são
substanciadas por ideias antirracistas.
...
sólida de racismo e
antirracismo, poderemos começar a entender o mundo
categorizado por raças que nos cerca, que está diante de nós.
Meus avós maternos, Mary Ann e Alvin, mudaram-se com a
família para a cidade de Nova York nos anos 1950, na última
etapa da Grande Migração, feliz por afastar os filhos dos
violentos segregacionistas da Geórgia e do trabalho na colheita
de algodão sob o sol cada vez mais quente do estado.
Pensando bem, eles também estavam afastando a família dos
efeitos das mudanças climáticas. A política climática de não fazer
nada é uma política racista, visto que o afetado pela mudança
climática é predominantemente o sul não branco, mais do que o
norte mais branco, mesmo que o norte global mais branco esteja
contribuindo mais para sua aceleração. A terra está sendo
submersa e as temperaturas estão subindo da Flórida a
Bangladesh. Secas e escassez de alimentos estão afligindo
pessoas no leste e sul da África, uma região que já abriga 25%
da população malnutrida do mundo. Catástrofes ambientais
causadas pelo homem que prejudicam desproporcionalmente
pessoas não brancas não são incomuns; por exemplo, cerca de 4 mil regiões dos EUA — principalmente pobres e não brancas —
têm taxas de envenenamento por chumbo mais altas que Flint,
Michigan.
Pertenço à geração seguinte a dos colhedores de algodão que
trabalhavam em troca de alguns trocados sob o clima quente em
Guyton, perto de Savannah. Foi lá que enterramos minha avó,
em 1993. Lembranças de sua calma reconfortante, sua incrível
capacidade de cultivar plantas e seus grandes sacos para lixo
com presentes de Natal povoavam nossas mentes enquanto
voltávamos para Nova York de seu funeral de carro. No dia
seguinte, meu pai aventurou-se até Flushing, Queens, para
visitar sua mãe, também chamada Mary Ann. Ela tinha uma pele
retinta maravilhosa, um sorriso envolvente e um senso de humor
incrível.
Quando meu pai abriu a porta de seu apartamento, ele sentiu
um cheiro forte vindo do forno aceso, e também outros odores.
Ao não ver a mãe, ele correu pelo corredor até seu quarto nos
fundos. Foi ali que encontrou a mãe, como se estivesse
dormindo, mas morta. Sua luta contra o Alzheimer, uma doença
mais prevalente entre afro-americanos, terminara.
Talvez não haja privilégios brancos mais significativos do que a
própria vida. Os brancos vivem cerca de 3,5 anos mais que os
negros nos Estados Unidos, o que é apenas a mais gritante de
uma série de disparidades de saúde, começando desde a
infância, quando crianças negras morrem duas vezes mais que
as brancas. Mas pelo menos minhas avós e eu nos conhecemos,
convivemos, nos amamos. Nunca conheci meu avô paterno.
Nunca conheci meu avô materno, Alvin, morto pelo câncer três
anos antes de meu nascimento. Nos Estados Unidos, afro-
americanos têm probabilidade 25% maior de morrer de câncer do
que brancos. Meu pai sobreviveu a um câncer de próstata, que
mata duas vezes mais negros que brancos. O câncer de mama
causa a morte desproporcional de mulheres negras.
Três milhões de afro-americanos e 4 milhões de latinos
garantiram seguro-saúde por meio da Lei de Proteção e Cuidado
Acessível ao Paciente (Obamacare), reduzindo a taxa de
pessoas não seguradas em cerca de 11% antes de o presidente Obama deixar o cargo. Contudo, desconcertantes 28,5 milhões
de norte-americanos continuaram sem seguro, um número
prestes a aumentar depois que o Congresso revogou a lei, em
2017. E está ficando mais difícil para pessoas não brancas
votarem para tirar do cargo os políticos que criam essas políticas
destinadas a abreviar suas vidas. A política de votação racista
evoluiu da privação de direitos pelas leis de Jim Crow à privação
de direitos pelo encarceramento em massa e pelas leis de
identificação eleitoral. Às vezes, esses esforços são tão
flagrantes que são derrubados: a Carolina do Norte promulgou
uma dessas leis específicas de identificação eleitoral, mas, em
julho de 2016, o Tribunal de Apelações para o Quarto Circuito a
derrubou, decidindo que suas várias provisões “visam afro-
americanos com precisão quase cirúrgica”. Mas outras
permaneceram e foram bem-sucedidas. A rígida lei de
identificação eleitoral de Wisconsin suprimiu cerca de 200 mil
votos — novamente visando principalmente eleitores não
brancos — na eleição de 2016. Donald Trump venceu nesse
estado decisivo por 22.748 votos.
Estamos cercados pela desigualdade racial, tão visível quanto a
lei, tão oculta quanto nossos pensamentos privados. A pergunta
para cada um de nós é: de que lado da história nos
encontramos? Um racista é alguém que apoia uma política
racista com suas ações ou falta delas ou expressando uma ideia
racista. Um antirracista é alguém que apoia uma política
antirracista com suas ações ou expressando uma ideia
antirracista. “Racista” e “antirracista” são como etiquetas de
nomes removíveis colocadas e recolocadas com base no que
alguém está fazendo ou não, apoiando ou expressando em cada
momento. Elas não são tatuagens permanentes. Ninguém se
torna racista ou antirracista. Podemos apenas nos empenhar em
ser um ou outro. Podemos inconscientemente lutar para ser
racista. Podemos conscientemente lutar para ser antirracista.
Como combater um vício, ser antirracista exige
autoconhecimento, autocrítica constante e autoanálise contínua.
Ideias racistas definiram nossa sociedade desde seu início e
podem parecer tão naturais e óbvias a ponto de serem banais, mas ideias antirracistas continuam sendo difíceis de serem
compreendidas, em parte porque vão contra a corrente da
história dos EUA. Como Audre Lorde disse em 1980: “Todos
fomos programados para reagir às diferenças humanas com
medo e aversão, e para lidar com essa diferença de uma entre
três formas: ignorá-la e, se não for possível, copiá-la, se
acharmos que é dominante; ou destruí-la, se acharmos que é
inferior. Mas não dispomos de padrões para nos reconhecermos
como iguais apesar das diferenças humanas”. Ser antirracista é
uma opção radical diante dessa história, e exige uma
reorientação radical de nossa consciência.