Como Ser Antirracista
Cor
CAPÍTULO 9
COR
COLORISMO: Uma coleção poderosa de políticas racistas
que leva a desigualdades entre negros de pele clara e negros
de pele escura, apoiada por ideias racistas sobre pessoas de
diferentes tons de pele negra.
ANTIRRACISMO DE COR: Uma coleção poderosa de
políticas antirracistas que leva à igualdade entre negros de
pele clara e negros de pele escura, apoiadas por ideias
antirracistas sobre pessoas de diferentes tons de pele negra.
M como uma escada velha. Meus braços balançavam devagar enquanto eu subia na mais alta das
sete colinas em Tallahassee, Flórida. Não estava cansado da
escalada naquele dia de setembro em 2000. Estava no campus
há algumas semanas e o espírito escolar já tinha me dominado e
esgotado, assim como às milhares de pessoas ao meu redor —
meus colegas Rattlers da Florida A&M University. Nós
chamávamos nossa escola de FAMU, pronunciado FAM-YU.
Olhei de novo o mostrador de placar do jogo de futebol
americano no Estádio Bragg. FAMU 39. MORGAN STATE 7. Mas
eu não tinha tempo de descansar meus braços e gritos fatigados.
Estava chegando a hora do intervalo.
Deveria ter poupado minha energia, mas, como era calouro,
não conseguia agir diferente. Nunca tinha visto uma
apresentação da Marching 100, o orgulho máximo da FAMU,
seguramente a melhor banda da história e certamente a mais
imitada do país. Sou suspeito para falar, mas veja os fatos.
William P. Foster tinha acabado de se aposentar depois de 52
anos criando o que a Sports Illustrated chamou de “a melhor
banda universitária do país”. Os integrantes da banda da FAMU subiram ao palco do Grammy Awards, em 2006. Mas nada se
comparava ao Super Bowl, em 2007, quando eu me gabava sem
parar e dançava terrivelmente enquanto meus amigos e eu
assistíamos à Marching 100 tocando para o Prince.
Contudo, em 2000, a Marching 100 me confundiu quando a vi
pela primeira vez no primeiro trimestre. Vestidos para o inverno
com calças grossas e uniformes de mangas longas nas cores
laranja, verde e branco, enfeitados com capas e chapéus altos,
eles me deixaram com calor só de vê-los torrar debaixo do sol da
Flórida. Eles dissipavam o calor como descontraídas jam
sessions entre os jogos. Mas nada me preparou para o que eu
veria no intervalo.
Meu colega de quarto, Clarence, estava ao meu lado. Clarence
e eu chegamos à FAMU de lugares diferentes, percorrendo
caminhos diferentes que convergiram em amizade. Ele: um titã
acadêmico de Birmingham,
Alabama. Eu: um acadêmico de segunda classe vindo do norte.
Minhas ideias ousadas e livres complementaram sua análise
metódica. Meu senso confuso de direção e de mim mesmo
abraçou sua clareza. Clarence considerava a FAMU um pit stop
em um caminho preestabelecido para uma faculdade de direito
importante, o direito empresarial e a riqueza. Eu considerava a
FAMU uma comunidade negra inclusiva para ser explorada e me
encontrar. Minhas explorações divertiam Clarence. Mas nada o
deliciava mais do que meus olhos.
A pele cor de avelã de Clarence combinava com os olhos da
mesma cor, uma cor rara no mundo, mas mais comumente
encontrada em pessoas com ascendência no sul e leste da
Europa, não afro-americana. Quando vi seus olhos claros pela
primeira vez, imaginei que fossem falsos. Acontece que seus
genes lhe proporcionaram o que eu tive que comprar.
Antes de chegar à FAMU, eu tinha começado a usar lentes de
contato “cor de mel” ou “alaranjadas”, como meus amigos as
chamavam. Era difícil não notar minhas lentes coloridas. Lentes
cor de avelã talvez fossem as mais populares entre os negros,
mas escolhi um tom ainda mais claro. Parecia certo brincar com
a cor de meus olhos. Conhecia alguns negros que usavam lentes azuis ou verdes, o que eu achava vergonhoso. Eu os via — mas
não a mim — como tentando parecer brancos.
Além de meus olhos alaranjados, Clarence não reparava no
corte de cabelo baixo, às vezes com um raspado progressivo nas
laterais e parte posterior da cabeça, e a onipresente escova para
alisar os fios crespos que lutavam para se levantar unidos e livres
antes do próximo corte “da hora”. Comecei a trançar meu cabelo
na faculdade, criava pequenas tranças torcidas ou deixava os
fios crespos armados, pouco me importando que os racistas
considerassem esses estilos os uniformes não profissionais de
bandidos. Minhas tranças representavam uma ideia antirracista.
Meus olhos cor de mel, uma rendição à assimilação. Juntos, eles
entrelaçavam as ideias assimilacionistas e antirracistas de meu
duelo de consciências.
Meus olhos cor de mel mostravam que eu lutava para ser
branco? De jeito nenhum. Eu estava simplesmente criando uma
versão mais bonitinha de mim mesmo, que estudos indicam ser a
explicação da maioria dos consumidores de lentes de contato
coloridas, cor de pele, cabelo ou traços faciais artificiais. Nunca
me fiz a pergunta antirracista. Por quê? Por que eu achava que
olhos mais claros ficavam melhor em mim? O que eu realmente
queria?
Eu queria ser negro, mas não queria parecer negro. Procurava
o novo ideal de beleza pós-racial, uma consequência do antigo
ideal de beleza branco. Clarear os olhos. Alisar os fios crespos.
Clarear a pele. Afinar ou ressaltar traços faciais. Tudo para
alcançar um ideal que não rotulamos como branco. Esse ideal de
beleza pós-racial é a clareza: a raça de olhos e pele mais clara,
cabelo mais liso, nariz mais afilado e nádegas e lábios não muito
volumosos, percebida como birracial ou racialmente ambígua.
O duelo de consciências do orgulho racista na própria raça e o
desejo assimilacionista de ser outra raça se misturam nesse ideal
paradoxal de beleza pós-racial. “Ele é simultaneamente inclusivo,
multicultural e novo, ao mesmo tempo em que continua
exclusivo, eurocêntrico e… antiquado.” É “beleza branca
repaginada com cabelos negros”, explica a socióloga Margaret
Hunter.
Eu não tinha ideia de que meus olhos claros personificavam a
forma mais recente de “colorismo”, termo cunhado pela
romancista Alice Walker, em 1983. O ideal de beleza pós-racial
oculta o colorismo e o encobre com um eufemismo. O colorismo
é uma forma de racismo. Para reconhecer o colorismo, devemos
primeiro reconhecer que pessoas claras e pessoas escuras são
dois grupos racializados distintos, moldados por suas próprias
histórias. Pessoas escuras — o grupo racial indeterminado de
peles mais escuras, cabelos crespos, nariz largo e lábios grossos
— atingem muitas raças, etnias e nacionalidades. Às vezes,
pessoas claras passam por brancas e podem até ser aceitas na
branquitude, de modo que os brancos possam permanecer a
maioria em países como os Estados Unidos, onde as tendências
demográficas ameaçam relegá-los a uma posição de minoria.
Alguns reformistas projetam pessoas claras como a chave
birracial para a harmonia racial, uma personificação do futuro
pós-racial.
O colorismo é uma coleção de políticas racistas que causam
desigualdades entre pessoas claras e pessoas escuras, e essas
desigualdades são substanciadas por ideias racistas sobre
pessoas claras e escuras. O colorismo, como todas as formas de
racismo, racionaliza as desigualdades com ideias racistas,
alegando que as desigualdades entre pessoas escuras e
pessoas claras não se devem a uma política racista, mas se
baseiam no que está errado ou certo em cada grupo de pessoas.
Ideias coloristas também são ideias assimilacionistas,
estimulando a assimilação — ou transformação em algo próximo
— ao corpo branco.
Ser antirracista é focar traços de cor tanto quanto traços raciais,
sabendo que traços de cor são especialmente prejudiciais para
pessoas escuras (ou retintas). Quando os ganhos de uma raça
multicolorida fluem desproporcionalmente para pessoas claras e
as perdas fluem desproporcionalmente para pessoas escuras,
desigualdades entre as raças refletem desigualdades dentro das
raças. Mas, como as desigualdades entre as raças ocultam as
desigualdades dentro das raças, negros retintos muitas vezes
falham em ver o colorismo que vivenciam regularmente. Assim, raramente protestam contra políticas que beneficiam pessoas
claras, um “paradoxo de cor da pele”, como descrito pelas
cientistas políticas
Jennifer L. Hochslind e Vesla Weaver.
Estudos mostram que o colorismo antiescuro segue a lógica do
racismo comportamental, associando comportamento à cor.
Crianças brancas atribuem positividade à pele mais clara e
negatividade à pele mais escura, um colorismo que se fortalece à
medida que crescem. Os brancos geralmente preferem políticos
de pele mais clara a políticos de pele escura. Afro-americanos
retintos estão desproporcionalmente em risco de sofrer de
hipertensão. Estudantes afro-americanos retintos alcançam
médias escolares muito mais baixas do que estudantes mais
claros. Talvez pelo fato de racistas norte-americanos alimentarem
expectativas mais altas em relação a estudantes claros, as
pessoas tendem a lembrar homens negros instruídos como
dotados de pele clara mesmo quando sua pele é escura. É por
isso que empregadores preferem homens negros claros a
homens negros escuros, independentemente de suas
qualificações? Até mesmo filipinos escuros têm salários menores
do que seus pares mais claros nos Estados Unidos. Imigrantes
de pele escura nos Estados Unidos, não importa seu local de
origem, costumam ter menos bens e renda do que imigrantes
claros. Quando chegam, os latinos claros recebem salários
maiores, e latinos escuros têm maior probabilidade de ser
empregados em locais de trabalho etnicamente semelhantes.
Filhos escuros e filhas claras recebem melhores cuidados dos
pais do que filhos claros e filhas escuras. A cor da pele influencia
a percepção de atração para mulheres negras com mais
frequência. À medida que o tom da pele clareia, os níveis de
autoestima entre mulheres negras aumenta, especialmente entre
as de renda baixa e média.
Afro-americanos escuros recebem penas de prisão mais duras
e longas. Criminosos brancos com traços faciais africanos
recebem sentenças mais duras do que seus pares de traços
totalmente europeus. Estudantes escuras têm probabilidade duas
vezes maior de serem suspensas do que estudantes brancas, enquanto pesquisadores não descobriram disparidades entre
estudantes brancas e claras. As desigualdades entre afro-
americanos claros e escuros podem ser tão amplas quanto as
desigualdades entre norte-americanos negros e brancos.
. Eu olhava para o mais longo Rattler
multicolorido se desenrolar. A Marching 100 deveria ter sido
chamada de Marching 400. Centenas de integrantes da banda
entraram no campo lentamente, um após o outro, em fileiras de
instrumentos, em uma passada ritmada. Fileiras marcharam em
passos curtos para trás do time da FAMU no nosso lado do
campo, para o outro lado do campo atrás do time da Morgan
State, e para as duas áreas de gol. As cores das linhas cobriram
o campo verde como faixas de tinta em uma tela. A cor da pele
não importava nessa procissão. Nunca deveria importar.
Assisti ao posicionamento das fileiras de címbalos, trombetas,
trombones, saxofones, clarinetes, trompa, flautas e aquelas
grandes tubas. Os instrumentos se agitavam ritmadamente em
sintonia com os corpos. O primeiro tempo acabou. Os jogadores
de futebol correram por entre as filas da fanfarra e saíram do
campo. Em vez de sair correndo para a lanchonete, as pessoas
correram para seus assentos e esperaram.
Alguns estudantes do sexo masculino não se importaram em
assistir à primeira apresentação da Marching 100 da temporada
e, em vez disso, vagaram pelo saguão coberto ou fora do
estádio, procurando novas companhias, desejando que elas
pudessem oferecer algo a mais que futebol. Se eles fossem
parecidos com meus amigos, então mulheres claras seriam suas
preferidas, e isso era visível nas palavras que disparavam.
“Negra feia”, chamavam as mulheres mais escuras. “Cabelo
pixaim.” Mas cabelo liso e comprido era “cabelo bom”.
“Ela é bonitinha… para uma garota escura” era o melhor que
alguns conseguiam dizer sobre mulheres retintas. Até mesmo
gays escuros ouviam: “Normalmente não saio com homens de
pele escura, mas…”
A primeira garota que namorei na FAMU era mais clara do que
eu, com a pele quase cor de caramelo. Cabelos lisos caíam sobre seu corpo miúdo. Eu gostava dela (ou gostava do fato de
ela gostar de mim?). Mas eu não gostava de como meus amigos
a enchiam de atenções e ignoravam sua colega de quarto e
melhor amiga de pele mais escura. Quanto mais meus amigos
ignoravam ou difamavam mulheres escuras, mais eu me
ressentia por gostar de uma garota clara. Depois de alguns
meses, dei um basta na situação. Terminei com a garota
repentinamente. Meus amigos pensaram que eu tinha perdido a
cabeça. Até hoje, eles consideram a garota clara a mais bonita
com quem namorei na FAMU. Depois dela, eles dizem, caí morro
abaixo para dentro do abismo negro.
Eles têm razão sobre a negritude — se não sobre o abismo.
Essa primeira namorada clara na faculdade acabou sendo a
última na FAMU. Jurei namorar somente mulheres retintas. Só
meu amigo Terrell não achou que eu tinha perdido a cabeça. Ele
também preferia mulheres escuras. Eu mal me dei conta de
minha hipocrisia racial: eu estava virando a hierarquia da cor de
cabeça para baixo, mas a hierarquia permanecia. Pessoas
escuras degradavam e distinguiam pessoas claras por nomes:
luz clara, amarelo intenso, bronzeada. “Você nunca é negro o
suficiente”, disse uma mulher clara, certa vez, à Oprah, sobre
seus sentimentos de rejeição. Pessoas claras constantemente
falam de sua luta em se integrar com pessoas escuras, para
provar sua negritude para pessoas escuras, como se as pessoas
escuras fossem os juízes e o padrão da negritude. A ironia está
no fato de que muitas pessoas escuras — como eu, por volta do
ano 2000 — se consideram juízes e padrão da negritude, ao
mesmo tempo em que placidamente desejam o padrão de
clareza ou branquitude.
Pessoas brancas e retintas rejeitam e invejam não retintos.
Pessoas brancas têm empregado historicamente a regra de uma
gota — que mesmo uma gota de sangue negro o torna negro —
a fim de excluir pessoas claras da branquitude pura. Pessoas
escuras empregam o que eu chamo de a regra das duas gotas —
duas gotas de sangue branco o torna menos negro — a fim de
excluir pessoas claras da negritude pura. Pessoas claras
empregam o que chamo de a regra de três gotas — três gotas de sangue negro significam que você é escuro demais — para
excluir pessoas escuras da clareza pura. As regras das “gotas”
da pureza racial eram miragens, assim como as próprias raças e
a ideia de sangue racial. Nenhum grupo racial era puro.
Quando as pessoas olham para a minha pele cor de chocolate,
meu nariz largo, meus lábios grossos e cabelos longos trançados
no meu primeiro ano na FAMU, mais ou menos na época em que
aposentei meus olhos alaranjados para sempre, elas não veem
um homem birracial. Elas não veem meu trisavô branco.
Nada foi dito sobre esse homem branco, exceto que engravidou
minha trisavó, que lhe deu uma criança clara chamada Eliza, em
1875. Nos anos de 1890, Eliza casou-se com Lewis, negro
retinto, que recentemente tinha chegado a Guyton, Geórgia,
vindo de Sylvania, Virgínia Ocidental. Em 1920, eles tiveram meu
avô Alvin. Eliza, Alvin e minha mãe, todos de pele clara, se
casaram com pessoas escuras.
Uma atração ancestral por pessoas escuras? Um desejo forte
de exonerar meu colorismo anticlaro. Eu tinha intenções
antirracistas, sem me dar conta de que, com as intenções
corretas, o carro do racismo só chega até um determinado ponto.
Ser antirracista não é reverter o padrão de beleza. Ser
antirracista é eliminar qualquer padrão de beleza baseado na cor
da pele e dos olhos, textura do cabelo, características do rosto e
do corpo partilhados por um grupo. Ser antirracista é diversificar
os padrões de beleza, como os de cultura ou inteligência, para
ver a beleza igualmente em todas as cores de pele, narizes
largos e afilados, cabelos lisos ou crespos, olhos claros ou
escuros. Ser antirracista é construir e viver uma cultura de beleza
que acentua, não apaga, nossa beleza natural.
“ ”, afirmou o missionário anglicano Morgan
Godwyn, em um panfleto antiescravagista, em 1680, “os
negros… têm sua pele e a si mesmos em alta conta, assim como
os europeus”. Johann Joachim Winckelmann, o chamado “pai” da
história da arte ocidental, esforçou-se, como seus colegas
intelectuais do Iluminismo, em diminuir o bom conceito de meus
ancestrais sobre si mesmos. Os africanos precisam aceitar o “conceito correto” de beleza, declarou Winckelmann em History
of the Art of Antiquity [“História da Arte da Antiguidade”, em
tradução livre] em 1764. “Quanto mais branco, mais bonito será o
corpo.”
A filosofia dos donos de escravos foi além: o corpo será
superior quanto mais branco for — um corpo escravizado estará
mais próximo de seu dono quanto mais branco ele for. Com
frequência, grandes proprietários de escravizados colocavam
pessoas claras na casa e as escuras nos campos, alegando que
as pessoas claras eram qualificadas para tarefas que requeriam
habilidade; e as pessoas escuras, para tarefas que exigiam maior
força física. Quanto mais escuro, mais animalesco é o corpo.
Donos de escravos criaram uma hierarquia que descia do branco
intelectualmente forte ao claro, depois ao escuro e, finalmente,
ao animal fisicamente forte. “A ferocidade e estupidez são
características dessas tribos nas quais os elementos peculiares
do negro são encontrados mais desenvolvidos”, disse um
escritor.
O pai norte-americano do colorismo é Samuel Stanhope Smith,
um velho teólogo que lecionou e depois foi reitor da Universidade
de Princeton nos primórdios dos Estados Unidos. No início de
1787, o jovem professor de Princeton proferiu seu discurso anual
ao grupo de acadêmicos mais notáveis do país, a Sociedade
Filosófica Americana. Ele falou para homens brancos que
redigiram a Constituição dos Estados Unidos naquele ano,
jurando usar “a luz genuína da verdade”. A luz racista de Smith:
“empregados domésticos… que ficam próximos às pessoas
(brancas)” têm “progredido muito antes dos demais em adquirir
características regulares e agradáveis.” Como “escravizados do
campo” vivem “longe de… seus superiores”, seus corpos
“geralmente são mal formados”, e seu cabelo crespo é “o que
está mais longe das leis comuns da natureza”. Em um livro de
1850, Peter Browne contou com sua incomparável coleção de
cabelos humanos para classificar o “cabelo” dos brancos e a “lã”
dos negros para assegurar que “o cabelo do homem branco é
mais perfeito do que o do negro”.
Alguns escravocratas consideravam as pessoas escuras mais
perfeitas do que a chamada mula humana, ou mulato. O “híbrido”
birracial é “um produto degenerado, não natural, destinado pela
natureza a causar sua própria destruição”, escreveu o médico do
Alabama, Josiah Nott, no Boston Medical and Surgical Journal
em 1843.
As ideias públicas dos escravocratas muitas vezes discordavam
de suas ideias racistas particulares, que normalmente
descreviam mulheres claras como mais inteligentes, gentis,
delicadas e mais bonitas do que as mulheres escuras.
Escravocratas pagavam muito mais por mulheres escravizadas
claras do que por suas equivalentes escuras. Desde muito antes
da existência dos Estados Unidos até muito depois que a
escravatura norte-americana terminou, homens brancos
consideravam essas “yaller gals ” (negras de pele muito clara) e
“Jezebels” como sedutoras, incapazes de admitir os séculos de
tentativas e estupros de fato.
Alguns abolicionistas definiram pessoas claras birraciais como
“mulatos trágicos”, aprisionados por sua “única gota” de “sangue
negro”. No best-seller de 1852, A Cabana do Pai Tomás , de
Harriet Beecher Stowe, os únicos quatro fugitivos são os quatro
cativos birraciais. Stowe contrasta o fugitivo George, “de traços
europeus delicados e um espírito elevado indomável”, com o
dócil “totalmente negro” chamado Tom. “Filhos de pais brancos…
nem sempre serão comprados, vendidos e comercializados”, diz
o proprietário de Tom.
Filhos libertos de pais brancos sempre terão “maior
probabilidade de se engajar ao grupo dos brancos”, afirmou
Edwin Clifford Holland, editor do Charleston Times , em 1822.
Talvez Holland tivesse a Brown Fellowship Society (organização
afro-americana de auxílio à comunidade de negros) em mente,
uma organização birracial de ajuda mútua dedicada à “pureza
social”, em Charleston. Ou talvez ele tenha previsto a criação de
barbearias somente para brancos e claros de propriedade de
pessoas claras em Washington, D.C., antes da Guerra Civil.
Quando a emancipação jogou todos os negros do país para a
liberdade, em 1865, as comunidades brancas construíram muros de segregação mais altos para manter os negros do lado de fora.
As comunidades claras, também, ergueram muros mais altos de
segregação para manter pessoas escuras do lado de fora. Para
manter o privilégio, os claros segregados segregaram ainda mais
seus irmãos e irmãs escuros, preservando as disparidades pré-
guerra entre pessoas claras e escuras. Depois da escravidão,
pessoas claras ficaram mais ricas do que as pessoas escuras, e
com maior probabilidade de obter empregos com bons salários e
boas escolas.
No final do século XIX, dezenas de cidades tinham sociedades
de “veia azul”, que impediam pessoas escuras “não brancas o
suficiente para mostrar veias azuis”, como Charles Chesnutt
relatou em um conto de 1898. Pessoas claras reproduziam o
teste do saco de papel, do lápis, da porta e do pente a fim de
barrar pessoas escuras nas igrejas, nos negócios, nos partidos,
nas escolas e nas faculdades e universidades historicamente
negras.
Mas esses segregadores ainda eram segregados pelos
brancos. Em 1896, o sapateiro Homer Plessy — do caso Plessy
versus Ferguson , que considerou constitucionais “acomodações
iguais, mas separadas” — foi aclamado em uma orgulhosa
comunidade clara em Nova Orleans. Mas o professor de
Mississippi Charles Carroll considerava o relacionamento sexual
inter-racial de humanos brancos e “bestas” negras como o mais
diabólico dos pecados. Homens claros naturalmente rebeldes
estupravam mulheres brancas, levando a linchamentos, Carroll
advertiu em seu livro de 1900, The Negro a Beast [“O Negro,
uma Besta”, em tradução livre]. Em 1901, George T. Winston,
diretor da Universidade Estadual da Carolina do Norte, discordou,
definindo pessoas escuras como cometendo “crimes muito mais
terríveis”. O sociólogo Edward Byron Reuter completou a posição
de Winston, declarando que pessoas birraciais eram
responsáveis por todas as realizações dos negros, em seu livro
de 1918, The Mulatto in the United States [“O Mulato nos Estados
Unidos”, em tradução livre]. Reuter tornou as pessoas claras uma
espécie de classe média racial, abaixo dos brancos e acima dos
escuros.
Reuter defendeu as pessoas claras da ira dos eugenistas que
procuravam “pureza da raça” e das pessoas escuras contestando
seu colorismo. No final de 1920, o famoso neto de um homem
birracial cansou-se de ativistas escuros, especialmente Marcus
Garvey e sua Associação de Melhoria Universal do Negro, que
crescia rapidamente. “Negros norte-americanos não reconhecem
a linhagem de cor dentro ou fora da raça, e eles acabarão por
punir o homem que tentar estabelecê-la”, declarou W.E.B. Du
Bois à revista The Crisis . Isso vindo de um homem que
provavelmente ouviu os versos de crianças negras: “Se você é
branco, está certo / Se você é amarelo, é maduro / Se você é
marrom, fique aqui/ Se você é negro, volte para trás.” Isso dito
por um homem que em seu próprio ensaio “Talented Tenth” [O
Décimo Talentoso, em tradução livre], em 1903, ouviu 21 líderes
negros, todos, com exceção de um, birraciais. Isso vindo de um
homem que ouviu pessoas claras dizerem repetidas vezes que
as massas escuras precisavam de “cuidados adequados na
aparência”, como expressado pela educadora da Carolina do
Norte, Charlotte Hawkins Brown, que tinha orgulho de sua origem
inglesa.
O reconhecimento de Du Bois de um país negro pós-cor depois
da eleição presidencial de Warren G. Harding, em 1920, divergia
do reconhecimento de John McWhorter de um país pós-racial
depois da eleição do presidente Barack Obama, em 2008.
Políticas racistas ou a inferioridade negra explicam por que os
brancos são mais ricos, saudáveis e mais poderosos do que os
negros hoje. Políticas racistas ou a inferioridade negra explicou
por que pessoas claras eram mais ricas, saudáveis e mais
poderosas que as escuras em 1920. Du Bois ignorou a existência
do colorismo, alegando que ele tinha sido “totalmente renegado
por todos os negros pensantes”.
Du Bois mudou o modo de pensar em 1930, aproximando-se do
deportado Garvey. Ele recolocou Garvey como o principal crítico
antirracista do ANPPC, que inicialmente se negou a defender os
escuros e pobres garotos de Scottsboro, injustamente acusados
de estuprar duas mulheres brancas no Alabama em 1931. Du
Bois não suportava o novo secretário-executivo da ANPPC, Walter White. O filho de olhos azuis e cabelo loiro de pais
birraciais tinha defendido a assimilação e acreditado que negros
“não misturados” eram “inferiores, infinitamente inferiores agora”.
Na revista The Crisis , em 1934, meses antes de deixar a
ANPPC, Du Bois disparou: “Walter White é branco.”
Empresários trabalharam duro para encontrar um meio para
que os negros, por meio da mudança da cor e do cabelo,
passassem por claros ou brancos, como Walter White fez em
suas primeiras investigações sobre linchamentos. Depois da
Primeira Guerra Mundial, a onda do conk — derivado do
congolene , um gel alisante derivado da água sanitária — passou
a ser moda entre homens e mulheres negros para alisar os
cabelos. “Eu tinha me juntado a essa multidão de homens e
mulheres negros nos Estados Unidos tentando ficar ‘bonitos’
pelos padrões dos brancos”, lembrou Malcolm X depois de
receber seu primeiro conk quando adolescente. Produtos para
clareamento receberam um impulso em 1938, depois da
descoberta de que o éter monobenzil da hidroquinona (HQ)
clareava a pele escura.
No início dos anos 1970, ativistas do Black Power inspirados
por
Malcolm X e Angela Davis — incluindo meus pais — libertaram
seus cabelos crespos. Nada mais de cortes raspados para
homens negros. Nada mais de cabelos lisos para mulheres
negras. Quanto mais alto o cabelo, melhor. Poucos homens
tinham um afro mais alto que meu pai. Pessoas escuras como
meu pai diziam em voz alta: “Sou escuro e tenho orgulho disso.”
tinham muito orgulho do tom escuro,
invertendo a hierarquia da cor como eu fiz na FAMU,
empregando a regra de duas gotas para repudiar a negritude das
pessoas claras mesmo quando elas adoravam os claros Malcolm
X, Angela Davis, Huey P. Newton e Kathleen Cleaver. E, por fim,
o ideal claro voltou com uma vingança, como se tivesse partido
algum dia. Em seu filme de 1988, Faça a Coisa Certa , Spike Lee
satirizou suas experiências no final dos anos de 1970 em
Morehouse, uma faculdade historicamente negra, como uma batalha entre os “wannabees ”, os mais claros, e os “jigaboos ”,
os mais escuros. Lentamente, meu pai cortou o afro acima das
orelhas e minha mãe alisou seus fios crespos na época em que
nasci.
Nos anos 1980, crianças claras eram adotadas primeiro, tinham
rendas mais altas e tinham menos probabilidade de ficarem
confinadas em habitações públicas ou prisões. “Quanto mais
clara a pele, mais leve a sentença” tornou-se um ditado popular
antirracista enquanto a era do encarceramento em massa surgiu
nos anos de 1990. Em 2007, Don Imus, da MSNBC, comparou
os jogadores de basquete escuros da
Rutger — “tem umas prostitutas de cabelo ruim ali” — aos
jogadores claros do Tennessee — “todos são bonitinhos”. Em
uma seleção para o elenco do filme Straight Outta Compton: A
História do N.W.A , a agência Sandi Alesse classificou os extras:
“GAROTAS A:… Precisam ter cabelo de verdade… GAROTAS B:
… Vocês precisam ter pele clara… GAROTAS C: Estas são
garotas afro-americanas… Tom de pele médio a escuro. Tipos de
personagens.”
Nessa época, o cantor Michael Jackson tinha preparado o
caminho do clareamento de pele percorrido pela rapper Lil’ Kim,
o jogador de beisebol Sammy Sosa e tantos outros. Produtos
para clareamento de pele movimentavam milhões para empresas
norte-americanas. Na Índia, cremes de “clareamento” renderam
US$200 milhões em 2014. Hoje, clareadores de pele são usados
por 70% das mulheres na Nigéria; 35% na África do Sul; 59% no
Togo e 40% na China, Malásia, Filipinas e Coreia do Sul.
Algumas pessoas brancas têm seu próprio “vício” em relação à
pele para atingir um ideal pós-racial: o bronzeamento. Em 2016,
os Estados Unidos elegeram o “homem laranja”, como NeNe
Leakes chama Trump, que supostamente usa uma cama de
bronzeamento todas as manhãs. Paradoxalmente, algumas
pessoas brancas bronzeadas menosprezam o clareamento de
pessoas negras, como se houvesse uma diferença. Pesquisas
mostram que pessoas consideram a pele bronzeada — uma
réplica da cor de pessoas claras — mais atraente do que a pele
naturalmente clara ou a pele escura.
. de músicos se juntaram e cobriram
todo o campo de futebol americano. O maior retângulo de seres
humanos que já vi. Cores laranja e verde. Não escuro e claro.
Arregalei os olhos, surpreso com o tamanho dos Rattlers da
FAMU. Em uma extremidade, sete chefes dos tambores,
distantes cinco metros um do outro, marcharam lentamente para
o centro do campo enquanto o apresentador Joe Bullard
anunciava seus nomes acima de nossos gritos. Eles pararam
quando chegaram ao centro do campo virados para nós.
Devagar, eles giraram. A fila de tambores tocou. Os chefes dos
tambores se sentaram e então se levantaram, conduzindo a
banda em um ritmo agitado e dançante. A galera delirou.
“Recebam a que se tornou conhecida como a banda dos
Estados Unidos”, disse Bullard enquanto a banda tocava e
marchava ao redor do campo, joelhos subindo até o peito com a
facilidade de cadeiras dobráveis.
“A innnn-crível, a maaagnífica, a banda número um dooooo
muuuundo. A faaantástica Florida A&M University Marching
Band!”
Os integrantes da banda pararam em filas retas e olharam para
nós. Eles beijaram seus instrumentos.
“Primeiro, o soooom!”
Daaaa… da, da, daaaaaaaa — os trompetes soaram a
introdução retumbante do filme da Twentieth Century Fox,
estourando nossos tímpanos.
Então, o show. Marchando, os integrantes da banda se
alternaram em formações intrincadas e tocavam canções de
Destiny’s Child, Carl Thomas e Sisqó, enquanto dezenas de
milhares de pessoas cantavam no o maior coro do mundo. As
baladas do R&B nos prepararam para o clímax — as canções de
rap. Sacudindo, torcendo, girando, saltando e se agitando em
uníssono, a banda e os dançarinos de apoio se transformaram
em um, enquanto a multidão cantava ao som do rap. Eu
esfregava os olhos, achando que eles estavam me enganando.
Eu não tocava nenhum instrumento e mal conseguia dançar.
Como todos aqueles estudantes de roupas pesadas podiam tocar
músicas fortes e dançar passos sofisticados em harmonia? Ludacris, Trick Daddy, Three 6 Mafia, Outkast — a banda tocou
esses rappers do sul antes de marchar para fora do campo ao
som da música tema de Good Times, sob nosso aplauso
ensurdecedor. Extremamente entusiasmado, não sei se alguma
vez aplaudi e bati os pés com mais força.
Terminado o intervalo, o êxodo das lanchonetes me assombrou.
As pessoas tinham vindo ver o que as pessoas tinham vindo ver.
Clarence. Entrei em nosso apartamento fora
do campus, todo agitado, como na primeira vez em que vi a
Marching 100. O silêncio envolvia a tarde. Louça suja se
empilhava na pia da cozinha. Clarence deveria estar no quarto,
finalizando o dever de casa.
A porta estava aberta; mesmo assim, bati, perturbando-o na
escrivaninha. Ele olhou para mim, surpreso. Tínhamos dividido o
quarto por quase dois anos. Clarence tinha se acostumado com
minhas interrupções no meio do dia. Ele se preparou para ouvir
minha mais recente epifania.