Como Ser Antirracista

Ibram X. Kendi · Capítulo 19 de 21

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Como Ser Antirracista

Fracasso

CAPÍTULO 16

 

FRACASSO

 

ATIVISTA: Aquele que tem um histórico de poder ou

mudança política.

 

A Temple University começou a se encher. Corpos se abraçando. Sorrisos, conversa fiada e atualização

das novidades. Tudo me aborrecia enquanto sentava,

levantava e tornava a me sentar à mesa do professor, desejando

começar nossa reunião da União de Estudantes Negros na hora.

Era início de setembro de 2007. Ríamos e conversávamos na

Filadélfia, mas, naquele dia, na Louisiana, a vida de seis

adolescentes estava por um fio. Tínhamos elaborado uma

campanha para libertá-los. Estava preparado para apresentá-la a

fim de garantir que os organizadores a executassem. Nem

desconfiava que estávamos condenados a falhar.

Compreender por que o racismo vive é compreender a história

do fracasso do antirracismo — por que pessoas falharam em

criar sociedades antirracistas. Compreender o fracasso de

soluções e estratégias é compreender suas origens: o fracasso

de ideologias raciais.

Concepções incorretas sobre raça como um constructo social

(em oposição a um constructo de poder), de história racial como

uma marcha singular de progresso racial (em oposição a um

duelo de progresso antirracista e racista), do problema da raça

como enraizada na ignorância e no ódio (em oposição ao

poderoso interesse próprio) — todos se juntam para produzir

soluções fadadas ao fracasso. Termos e frases como “Não sou

racista”, e “Neutro em relação à raça”, e “Pós-racial”, e “Não vejo

cor de pele”, e “Só uma raça, a raça humana”, e “Só racistas

falam sobre raça”, e “Pessoas negras não podem ser racistas”, e

“Pessoas brancas são más” estão sujeitos a fracassar em

identificar e eliminar o poder e as políticas racistas. Estratagemas que desprezam a interseccionalidade estão fadados a falhar com

os grupos raciais mais degradados. Programas civilizadores

fracassarão, visto que todos os grupos raciais já estão no mesmo

nível cultural. Programas de enriquecimento comportamental,

como mentoria e programas educacionais, podem ajudar os

indivíduos, mas estão sujeitos ao fracasso junto aos grupos

raciais, porque são impedidos de se concretizar por más

políticas, não por mau comportamento. Curar sintomas, em vez

de mudar políticas, está fadado ao fracasso em curar a

sociedade. Desafiar os gêmeos siameses separadamente está

fadado ao fracasso em tratar a desigualdade econômico-racial. A

integração gentrificadora está fadada ao fracasso junto às

culturas não brancas. Todas essas ideias estão fadadas ao

fracasso porque têm fracassado reiteradamente no passado.

Contudo, por algum motivo, seu fracasso parece não ter

importância. Elas continuam sendo as concepções, estratégias e

soluções mais populares para combater o racismo, porque se

originam nas ideologias raciais mais populares.

Esses reiterados fracassos têm um preço. A história racial não

se repete inofensivamente. Em vez disso, sua devastação se

multiplica quando uma geração após outra repete as mesmas

estratégias, soluções e ideologias fracassadas, em vez de

enterrar fracassos passados nos esquifes das gerações

passadas.

 

encontravam-se

regularmente em uma convenção nacional, achando que a

solução para a escravatura residia na continuação de “nosso

cuidado parental” em relação aos negros livres, como declararam

em 1805. Abolicionistas brancos dispunham sobre o

comportamento negro como se a “libertação de seus irmãos

tivesse que depender, em algum modo, da boa conduta negra”,

como declarou a convenção em 1804.

O juiz branco fez nascer o juiz negro. “A redução do preconceito

e o melhoramento da condição de milhares de nossos irmãos

ainda cativos dependem grandemente de nossa conduta”,

escreveram Samuel Cornish e John Russwurm em 16 de março de 1827, em um dos editoriais de lançamento do Freedom’s

Journal , o primeiro jornal afro-americano.

Cresci com essa mesma estratégia fracassada mais de 150

anos depois. Gerações de corpos negros foram criadas pelos

juízes da “persuasão de elevação”. Os juízes amarram toda a

raça negra nas costas do corpo negro, empurram o corpo negro

sobrecarregado nos espaços brancos, ordenam o corpo negro

sobrecarregado a agir sempre de uma maneira íntegra para

convencer o racismo branco a se afastar e punem a conduta do

negro pobre constrangendo-os por reforçar o racismo, por

desonrar a raça. Durante toda a minha vida, senti o peso de ter

que ser perfeito diante de pessoas brancas e negras julgando se

sou um bom representante da raça. Os juízes nunca me deixam

simplesmente ser — ser eu mesmo, ser meu eu imperfeito.

 

E , naquele dia do outono de 2011. Sadiqa e

eu namorávamos havia meses. Eu olhava para essa irmã da

Spelman e pérola da Geórgia como futura esposa: apaixonado

por sua afabilidade tanto quanto por sua elegância, por sua

perspicácia tanto quanto por seu senso de humor descontraído;

por seu amor pelas pessoas negras tanto quanto por seu amor

por salvar vidas como médica. Ela também tinha sido criada em

uma família negra de classe média por pais de idade semelhante

que a iniciaram e aperfeiçoaram no movimento. Ela também tinha

sido ensinada que sua escalada ao sucesso elevava a raça. Ela

também tentava ser uma boa representante da raça.

Jantávamos perto da janela no Buddakan, um restaurante de

comida asiática em Old City, Filadélfia. Na parede oposta, uma

enorme estátua de Buda encontrava-se sentada em um pequeno

estrado praticamente ao nível da mesa, diante de um fundo

vermelho que gradualmente convergia em um centro preto. Olhos

fechados. Mãos entrelaçadas. Em paz. Sem incomodar ninguém.

Certamente, não Sadiqa. Mas a estátua atraiu um sujeito branco,

obeso, de meia-idade, cabelos castanhos. Visivelmente

embriagado, ele subiu no palco e começou a acariciar o Buda

diante da plateia de risonhos amigos embriagados em uma mesa

próxima. Eu aprendera havia muito tempo a ignorar atitudes grotescas de pessoas brancas embriagadas fazendo coisas que

fariam pessoas negras serem presas. A diversão inofensiva

branca é a ilegalidade negra.

O riso alto atraiu o olhar de Sadiqa. “Meu Deus!”, disse ela

baixinho. “O que esse cara está fazendo?”

Ela voltou a atenção ao prato, deu uma garfada e olhou para

cima enquanto engolia. “Pelo menos, ele não é negro.”

Eu me espantei, mas imediatamente me reconheci — meus

próprios pensamentos — no rosto de Sadiqa.

“Como você se sentiria se ele fosse negro?”, perguntei a ela e a

mim mesmo.

“Eu ficaria realmente constrangida”, respondeu ela, falando por

mim e por tantos outros como nós presos na armadilha da

persuasão da elevação. “Porque não precisamos de mais

ninguém piorando nossa imagem.”

“Diante de pessoas brancas?”, perguntei.

“Sim. Isso faz com que nos desprezem. Torna-os mais racistas.”

Pensávamos embasados em um falso continuum , de mais

racista para menos racista a não racista. Acreditávamos que o

bom comportamento negro deixaria as pessoas brancas “menos

racistas”, mesmo quando nossas experiências nos diziam que

isso geralmente não acontecia. Mas, naquela noite, pensamos no

assunto juntos e partilhamos algumas críticas à persuasão da

elevação pela primeira vez.

Hoje, as poucas críticas seriam muitas. Criticaríamos

abolicionistas brancos paternalistas invocando a persuasão de

elevação. Argumentaríamos contra a suposição de que a conduta

do negro pobre é responsável pelas ideias racistas brancas,

significando que as ideias racistas brancas sobre a conduta do

negro pobre são válidas. Criticaríamos o juiz branco que exonera

pessoas brancas da responsabilidade de abandonar suas ideias

racistas; pessoas negras com mobilidade ascendente desviando-

se da responsabilidade de mudar políticas racistas por imaginar

que estão elevando a raça ao elevar a si mesmas; a quase

impossibilidade de executar a persuasão de elevação com

perfeição, visto que pessoas negras são humanamente

imperfeitas. Notaríamos que, quando brancos racistas veem pessoas negras se comportando bem em público, eles os veem

como extraordinários, ou seja, não como aquelas pessoas negras

normalmente inferiores. Lembraríamos o que a história nos

ensina: que, quando uma política racista derruba pessoas

negras, o juiz ordena que se elevem, só para serem derrubadas

novamente por políticas e terror racista.

Sadiqa e eu saímos do restaurante, mas continuamos a falar

sobre a ideologia da persuasão de elevação profundamente

enraizada em nós — para criticá-la, criticar a nós mesmos e fugir

dela em direção à liberdade. Após todos esses anos, embora os

juízes possam nos apanhar a qualquer momento, admiro a

liberdade de Sadiqa em ser Sadiqa. Eu me sinto livre para

demonstrar minhas imperfeições. Eu só represento a mim

mesmo. Se os juízes tiram conclusões sobre milhões de pessoas

negras com base em minhas ações, então eles, e não eu, não as

pessoas negras, têm um problema. Eles são responsáveis por

suas ideias racistas; não eu. Sou responsável por minhas ideias

racistas; não eles. Ser antirracista é permitir que eu seja eu

mesmo, completo e imperfeito.

 

Garrison não permitia ao corpo

negro ser seu eu imperfeito. “Vocês não adquiriram a estima, a

confiança e o apoio dos brancos, proporcional ao seu aumento

de conhecimento e aperfeiçoamento moral?”, perguntou Garrison

a uma multidão de negros não muito tempo depois da fundação

do jornal Liberator, em 1831. A persuasão de elevação se

encaixa em sua ideologia de que a melhor forma de “realizar o

importante trabalho de redenção nacional” da escravidão era “por

meio da ação do poder moral” e da verdade e da razão. A crença

de Garrison na “persuasão moral” e o que podemos chamar de

“persuasão educacional” também se encaixa em sua criação

pessoal por uma devota mãe batista, sua criação profissional por

um editor que acreditava que jornais servem para “instrução”, sua

criação abolicionista pelo cruzado da moral Benjamin Lundy.

A persuasão de elevação, moral e educacional falharam

vergonhosamente em impedir o assustador crescimento da

escravidão na era do “Rei Algodão” antes da Guerra Civil. Contudo, o sucesso, aparentemente, não importa quando uma

estratégia se origina em uma ideologia. A persuasão moral e

educacional focam a persuasão de pessoas brancas, o apelo à

sua consciência moral por meio do horror e à sua mente lógica

por meio da educação. Mas e se as ideias racistas tornarem as

pessoas ilógicas? E se persuadir as pessoas brancas comuns

não for persuadir legisladores racistas? E se legisladores racistas

tiverem consciência dos resultados prejudiciais de suas políticas?

E se os legisladores racistas não tiverem moral nem consciência,

menos ainda consciência moral, parafraseando Malcolm X? E se

nenhum grupo na história conquistou a liberdade por meio do

apelo à consciência moral de seus opressores, parafraseando

Assata Shakur? E se interesses econômicos, políticos ou

culturais próprios impulsionarem os legisladores racistas, e não a

imoralidade odiosa nem a ignorância?

“Se eu pudesse salvar a União sem libertar nenhum escravo, eu

o faria, e se eu pudesse salvá-la libertando todos os escravos, eu

também o faria”, escreveu o presidente Abraham Lincoln em 20

de agosto de 1862. “O que eu faço sobre a escravidão e a raça

de cor, eu faço porque acredito que isso ajude a salvar a União”.

Em 1o de janeiro de 1863, Lincoln assinou a Proclamação da

Emancipação como uma “medida de guerra necessária”. Depois

de vencer a Guerra Civil, os racistas republicanos (para se

diferenciar dos menos numerosos republicanos antirracistas)

votaram para criar o Freedmen’s Bureau, reconstruir o sul e

estender os direitos civis e privilégios eleitorais para criar a base

Republicana do Sul e manter as pessoas negras no sul, bem

longe dos brancos do norte, que “não queriam ter nada a ver com

os negros”, como disse o senador do Illinois, Lyman Trumbull, um

dos principais responsáveis pela lei.

O “partido do homem branco”, como Trumbull identificou o

Partido Republicano, ficou “cansado” de alienar seus

constituintes racistas ao defender militarmente o negro de

terroristas racistas que arrancaram republicanos do poder do sul

em 1877. Os republicanos deixaram os negros do sul para trás,

virando as costas às “atrocidades” de Jim Crow por cerca de um

século. “A celeridade por motivos egoístas, e não o direito referente às reivindicações de nossa humanidade comum,

governou nossas ações”, lamentou Garrison em um discurso no

centenário do Dia da Independência, em 1876.

 

26 1934, W.E.B. Du Bois avaliou o sucesso da

persuasão educacional com olhar crítico, assim como Garrison

avaliou a persuasão moral antes dele: “Durante anos, acreditava-

se na teoria de que a maioria dos líderes negros… que os

Estados Unidos brancos não sabiam ou compreendiam a

permanente provação do negro.” Du Bois fala por si, acreditando

“que o mal supremo era a estupidez” no início de sua carreira.

“Da mesma forma, nas últimas duas décadas, temos lutado por

livros e periódicos, por discursos e apelos, por vários métodos de

agitação, para colocar os fatos essenciais diante do povo norte-

americano. Hoje não há dúvidas de que os norte-americanos

conhecem os fatos; e ainda assim permanecem indiferentes e

insensíveis.”

Gunnar Myrdal ignorou a convocação de Du Bois em 1934 para

que o povo negro focasse a conquista do poder em vez da

persuasão das pessoas brancas. O problema do racismo residia

na “surpreendente ignorância” dos norte-americanos brancos,

Myrdal advertiu em An American Dilemma [“Um Dilema

Americano”, em tradução livre], em 1944. “Não há dúvidas, na

opinião do escritor, de que a esmagadora maioria de pessoas

brancas nos Estados Unidos estaria preparada para dar ao negro

uma condição muito melhor se conhecesse os fatos.”

A história popular nos mostra que a maioria de brancos norte-

americanos proporcionou aos negros melhores condições — as

normas de dessegregação, a Lei de Direitos Civis (1964) e a Lei

dos Direitos de Voto (1965) — quando conheceram os fatos.

“Gunnar Myrdal tinha sido surpreendentemente profético”,

segundo uma história cativante do movimento de direitos civis.

Não totalmente. Já em 1946, o secretário de Estado, Dean

Acheson, advertiu a administração Truman de que a “existência

da discriminação contra grupos minoritários nesse país exerce

um efeito adverso em nossas relações” com nações

descolonizadoras asiáticas, africanas e latino-americanas. A administração Truman repetidamente advertiu a Suprema Corte

dos Estados Unidos sobre esses efeitos adversos durante casos

de dessegregação no final dos anos 1940 e início dos 1950,

conforme documenta a historiadora Mary L. Dudziak. Isso sem

mencionar o abuso racista enfrentado por diplomatas africanos

nos Estados Unidos. Em 1963, o secretário de Estado Dean

Rusk advertiu o Congresso durante a deliberação sobre a Lei dos

Direitos Civis que “ao nos envolvermos nessa luta mundial,

ficamos seriamente prejudicados pela discriminação racial ou

religiosa”. Setenta e oito por cento dos norte-americanos brancos

concordaram, segundo uma pesquisa da Harris Poll.

O poder racista deu início à legislação de direitos civis por

interesse próprio. O poder racista a barrou por interesse próprio

quando um número suficiente de nações africanas, asiáticas e

latinas passaram à esfera de influência dos Estados Unidos,

quando um novo Jim Crow não mais afetava adversamente a

política externa norte-americana, quando as pessoas negras

começaram a exigir e obter o que o poder raramente abre mão:

poder. Em 1967, Martin Luther King Jr. admitiu: “Erramos e nos

enganamos em nosso país, e isso levou os norte-americanos

negros no passado a buscar suas metas por meio do amor e da

persuasão moral, destituídos de poder.” Mas nossa geração

ignora as palavras de King sobre o “problema do poder, uma

confrontação entre as forças do poder que exigem mudança e as

forças do poder dedicadas à preservação do status quo ”. Da

mesma forma que a geração de King ignorou a advertência

sensata de Du Bois. Do mesmo modo, a geração de Du Bois

ignorou a advertência sensata de Garrison. O problema da raça

sempre teve em seu centro o problema do poder, não o problema

da imoralidade ou da ignorância.

A persuasão moral e educacional defende o pressuposto de

que as mentes racistas devem mudar antes da política racista,

ignorando a história que diz o contrário. Observe o aumento do

apoio branco para escolas e bairros dessegregados décadas

após as políticas mudarem nos anos 1950 e 1960. Observe o

aumento do apoio branco a casamentos inter-raciais décadas

após a política ter mudado em 1967. Observe o aumento do apoio ao Obamacare após sua aprovação em 2010. Legisladores

racistas inflam o medo de políticas antirracistas por meio de

ideias racistas, sabendo que, se as políticas forem

implementadas, os temores que elas disseminam nunca se

concretizarão. Quando os temores não se concretizarem, as

pessoas baixarão a guarda e aproveitarão os benefícios. Quando

for claramente beneficiada, a maioria dos norte-americanos

apoiará e defenderá as políticas antirracistas que antes temeu.

Lutar por mudanças mentais e morais após a política ser

mudada significa lutar junto ao crescimento dos benefícios e da

dissipação dos temores, possibilitando que o poder antirracista

tenha êxito. Lutar por mudanças mentais e morais como um pré-

requisito para a mudança política é lutar contra os temores e a

apatia crescentes, praticamente impossibilitando que o poder

antirracista tenha êxito.

O problema original do racismo não foi resolvido pela

persuasão. O conhecimento só é poder se for utilizado para a

luta pelo poder. Mudar mentes não é um movimento. Criticar o

racismo não é ativismo. Mudar mentes não é ativismo. Um

ativista produz poder e mudança política, não mudança mental.

Se uma pessoa não tem um histórico de poder ou mudança

política, então essa pessoa não é um ativista.

 

começar a reunião da União de

Estudantes Negros, eu já tinha deixado a mudança mental de

lado. Queria ser um ativista. Queria abandonar a vida acadêmica.

Queria libertar “Os Seis de Jena”.

 

Em 10 de setembro de 2006, um dia depois de estudantes

negros se sentarem sob uma “árvore branca” na Jena High

School, estudantes brancos penduraram cordas de forca em

seus galhos. O superintendente da escola apenas suspendeu os

autores brancos da “brincadeira”, o que não ajudou a refrear a

violência racial posterior contra alunos negros na pequena cidade

de Jena, na Louisiana. Mas, dias depois que alunos negros

espancaram um aluno branco em 4 de dezembro de 2006, os

Seis de Jena, como ficaram conhecidos, foram presos. Jesse

Ray Beard respondeu como menor de idade. Robert Bailey Jr., Mychal Bell, Carwin Jones, Bryant Purvis e Theo Shaw foram

acusados por tentativa de assassinato. “Quando vocês forem

condenados, pedirei a pena máxima permitida por lei”, prometeu

o promotor Reed Walters, referindo-se a até 100 anos de prisão.

Enquanto eu estava sentado à mesa do professor, sentia a

audiência de sentença de Mychal Bell, em 20 de setembro, se

aproximando como o cutelo de um açougueiro. Um júri formado

por brancos já o tinha considerado culpado de uma acusação

menor, lesão corporal em segundo grau, o que o sujeitava a uma

pena de até 22 anos de sua vida.

Uma energia sombria se instalou na sala de aula, como a

escuridão do lado de fora. Nossa meta, os dirigentes da União de

Estudantes Negros disseram uns aos outros, era libertar os Seis

de Jena. Porém estávamos dispostos a fazer algo? Estávamos

dispostos a arriscar nossa liberdade pela liberdade deles? Não,

se nosso principal propósito fosse fazer com que nos

sentíssemos melhor. Formulamos, ocupamos e doamos para

programas de enriquecimento cultural e comportamental para

nos sentirmos melhor, achando que eles estão ajudando grupos

raciais, quando estão somente ajudando (ou prejudicando)

indivíduos, quando somente mudanças políticas ajudam grupos.

Chegamos às manifestações empolgados, como se nossos

músicos preferidos estivessem tocando no palco dos

palestrantes. Convencemo-nos de que estávamos fazendo algo

para resolver o problema racial quando, na verdade, fazíamos

algo para satisfazer nossos sentimentos. Vamos para casa

realizados, como se tivéssemos jantado em nosso restaurante

favorito. E essa realização é efêmera, como a euforia provocada

pelas drogas. Os problemas de desigualdade e injustiça

persistem. Eles fazem nos sentirmos constantemente mal e

culpados. Então, constantemente fazemos algo para nos sentir

melhor, enquanto nos convencemos de que estamos tornando a

sociedade melhor, mas isso não acontece.

E se, em vez de um ativismo de sentimentos, tivéssemos um

ativismo de resultados em que priorizássemos a igualdade, e não

nossa culpa e angústia? E se focássemos nossos recursos humanos e fiscais para mudar o poder e as políticas de modo a

melhorar a sociedade, não só nossos sentimentos?

 

. Interrompi as conversas e os sorrisos e

comecei a apresentar a Campanha 106 para libertar os Seis de

Jena. Comecei com a Fase 1: mobilizar pelo menos 106

estudantes em 106 campus no Médio Atlântico para uma

manifestação local até o final de setembro e angariar recursos

para um fundo de defesa dos Seis de Jena. Apresentei a Fase 2:

colocar esses 106 estudantes de 106 campus em caravanas que

se reuniriam em Washington, D.C., em 5 de outubro de 2007.

Descrevi o cenário. “Maravilhosas longas filas de dezenas de

carros lotados de estudantes nas estradas e avenidas dirigindo

em direção à capital da nação vindos de todas as direções, da

Pensilvânia, Delaware, Maryland, Virgínia Ocidental e Carolina

do Norte.” Voltei-me, mas não encarei meu público. Olhei para a

bela imagem que se formava a partir de meus lábios. “Milhares

de carros com cartazes nas janelas — ‘Libertem os Seis de Jena’

— buzinando para motoristas que passam, que retribuiriam o

sinal em solidariedade (ou repúdio).

“Vocês conseguem ver?”, perguntei, empolgado, algumas

vezes.

Eles conseguiam. Para alguns, uma imagem horrível.

“Caravanas de automóveis não são ilegais?”, perguntou uma

mulher, claramente assustada.

“Quê? Não! As pessoas saem em caravanas o tempo todo”,

respondi.

Continuei a falar, descrevendo a cena, linda e feia. “Quando as

caravanas chegarem a D.C., todos estacionarão os carros no

centro da Constitution Avenue e se unirão em uma marcha

informal até o Departamento de Justiça. Milhares de carros

estarão parados na Constitution Avenue e ruas adjacentes

enquanto apresentamos nossos seis pedidos de liberdade à

administração Bush. Quando eles vierem com os guinchos,

estaremos prontos para furar seus pneus. Quando as unidades

policiais começarem a proteger os guinchos, responderemos com

reforços de carros. Quando eles bloquearem a Constitution Avenue, encheremos outra rua com nossos carros. Quando, e

se, eles fizerem barricadas em todas as ruas do centro da

cidade, esperaremos e voltaremos ao centro de Washington

sempre que tirarem as barricadas. Nós nos recusaremos a sair

dos carros até que a administração Bush pressione o governador

da Louisiana para pressionar as autoridades de Jena para

retirarem as acusações dos Seis de Jena.”

“Isso é ilegal. Eles vão nos jogar na prisão”, retrucou alguém

com um olhar de medo.

Eu deveria ter parado, mas dei continuidade ao meu fracasso,

mal me importando com o fato de que, quanto mais eu falava,

mais medo eu disseminava — quanto mais medo eu

disseminava, mais eu alienava as pessoas da Campanha 106.

“É claro que poderemos ir para a prisão”, devolvi, sentindo-me

como eu mesmo. “Mas eu não me importo! Já estamos em uma

prisão. É isso que os Estados Unidos significam: prisão.”

Usei a frase de Malcolm X fora de contexto. Mas quem se

importava com o contexto quando o choque e o assombro

soavam tão radicais aos meus autoproclamados ouvidos

radicais? Quando ataquei pessoas bem-intencionadas que

mostravam um impulso normal de medo, que usavam a

terminologia racial incorreta, que faziam a pergunta incorreta —

ah, eu pensava que era muito radical. Quando minha retórica

implacável fez participantes dos encontros e reuniões da União

dos Estudantes Negros fugirem, quando meus escritos

implacáveis fizeram os leitores fugirem, ah, eu achei que era

muito radical. Quando, na verdade, se tudo o que as minhas

palavras faziam era soar radicais, então elas eram tudo, menos

radicais. E se medíssemos o radicalismo das palavras pelo

quanto radicalmente elas transformam pessoas de mente aberta,

por como a palavra liberta o poder antirracista interior? E se

medirmos o conservadorismo das palavras pela intensidade com

que elas mantêm as pessoas iguais, mantêm as pessoas

escravizadas por suas ideias e temores racistas conservando sua

sociedade desigual? Em uma época em que pensei que era

muito radical, eu era o mais conservador. Era um fracasso. Fracassei em compreender os temores de meus pares da União

dos Estudantes Negros.

O medo é mais ou menos como a raça — uma miragem. “O

medo não é real. Ele é produto de nossa imaginação”, como diz o

personagem de Will Smith ao filho em um de meus filmes

preferidos, Depois da Terra . “Não me entenda mal, o perigo é

muito real, mas o medo é uma escolha.”

Para sermos antirracistas, temos que ser destemidos como

Harriet Tubman. Para sermos antirracistas, temos que ser

corajosos. Coragem é a força de fazer o que é certo diante do

medo, como nos diz o filósofo anônimo. Eu ganho discernimento

sobre o que é certo nas ideias antirracistas. Eu ganho força com

o medo. Enquanto muitas pessoas têm medo do que poderá

ocorrer se resistirem, eu tenho medo do que poderia ocorrer se

eu não resistir. Tenho medo da covardia. A covardia é a

incapacidade de reunir a força para fazer o que é certo apesar do

medo. E o poder racista tem instilado o terror da covardia em nós

há gerações.

Para segregacionistas como o senador Ben “Pitchfork” Tillman,

o presidente Theodore Roosevelt cruzou a linha da cor de pele

quando jantou com Booker T. Washington em 16 de outubro de

1901. “O ato do presidente Roosevelt em entreter esse crioulo

exigirá que matemos milhares de crioulos no sul antes que eles

reaprendam qual é seu lugar.” Ele não estava brincando.

Em 8 de julho de 1876, um jovem Tillman se unira a uma turba

branca faminta de poder que assassinou pelo menos sete

milicianos negros que defendiam o poder negro na cidade negra

de Hamburg, Carolina do Sul. Durante todo o ano eleitoral, os

Red Shirts [Camisas Vermelhas] de Tillman ajudaram os

supremacistas brancos a violentamente assumir o controle na

Carolina do Sul. Tillman usou seu envolvimento com o Massacre

de Hamburg como um distintivo de honra para assumir o governo

da Carolina do Sul, em 1890, e o senado dos Estados Unidos,

em 1895, fazendo a apologia do linchamento. “O propósito de

nossa visita a Hamburgo foi espalhar o terror”, declarou Tillman

na Reunião dos Camisas Vermelhas, em 1909. Enquanto ideias racistas pretendem nos tornar ignorantes e cheios de ódio, o

terror racista pretende nos deixar temerosos.

 

sozinho. Andei até a estação de trem ao

lado do campus, imaginando nas longas escadas rolantes que

levavam à estação de metrô que os membros da União dos

Estudantes Negros que votaram contra a Campanha 106 deviam

ser ignorantes sobre racismo, assim como as pessoas brancas

que apoiavam o encarceramento dos Seis de Jena. Decidindo

durante o trajeto no barulhento trem até a zona norte da Filadélfia

que o “mal supremo era a ignorância” e “o bem supremo era a

educação”. Decidindo, enquanto estava estendido no sofá

olhando para o espelho no teto, que uma vida de persuasão

educacional teria maior impacto do que qualquer outra vida que

eu poderia escolher.

Voltei correndo para o caminho iluminado da persuasão

educacional na mesma noite em que fracassei em persuadir

meus pares da União dos Estudantes Negros. Fracassei em

mudar mentes (que dirá a política). Mas em todo meu

esclarecimento, não me vi como um fracasso. Vi meus pares

como o fracasso. Não vi no espelho a minha “doutrina do

fracasso”, a doutrina de fracassar para criar mudanças e evitar as

falhas.

Quando fracassamos em abrir as mentes fechadas dos

consumidores de ideias racistas, culpamos sua incapacidade de

aceitar novas opiniões e não nossa decisão tola de perder tempo

ressuscitando mentes fechadas. Quando nossos ataques

violentos a consumidores de mente aberta de ideias racistas

falham em transformá-las, culpamos seu ódio e não nosso ódio

impaciente e alienador que nutrimos por eles. Quando as

pessoas falham em consumir nossas ideias antirracistas

complexas, culpamos sua estupidez e não nossa estúpida falta

de clareza. Quando transformamos pessoas e não lhes

mostramos um caminho de apoio, culpamos sua falta de

comprometimento e não nossa falta de orientação. Quando o

político que apoiamos não muda as políticas racistas, culpamos a

intratabilidade do racismo e não nosso apoio ao político errado. Quando fracassamos em obter apoio para um protesto, culpamos

os temerosos e não nossa apresentação alienante. Quando o

protesto fracassa, culpamos o poder racista e não nosso protesto

cheio de falhas. Quando nossa política não produz igualdade

racial, culpamos as pessoas por não aproveitarem a nova

oportunidade, não nossa solução política imperfeita. A doutrina

do fracasso evita o espelho da autocensura. A doutrina do

fracasso gera fracasso. A doutrina do fracasso gera racismo.

E se o racismo constantemente criticasse nossas próprias

ideias? E se culpássemos nossas ideologias e métodos,

estudássemos nossas ideologias e métodos, aperfeiçoássemos

nossas ideologias e métodos repetidas vezes, até funcionarem?

Quando finalmente pararemos a insanidade de fazer a mesma

coisa e esperar resultados diferentes? A autocrítica possibilita

mudança. Mudar mostra flexibilidade. O poder antirracista precisa

ser flexível para se equiparar à flexibilidade do poder racista,

impulsionado somente pela fome de poder para moldar a política

a seus interesses injustos. O poder racista acredita em quaisquer

meios necessários. Nós, seus desafiadores, geralmente não o

fazemos, nem mesmo os que se inspiram em Malcolm X. Nós

nos importamos mais com a pureza moral, ideológica e financeira

de nossas ideologias, estratégias, captação de recursos, líderes

e organizações. Nós nos importamos menos em gerar resultados

justos para pessoas em situações difíceis, alegando que estamos

purificando-nos para as pessoas em situação difícil, ao mesmo

tempo que nossa purificação mantém as pessoas em situação

difícil. Quando criticamos o privilégio e a inação do poder racista,

mostramos nosso privilégio e inação ao criticar cada estratégia

eficiente, justificando por fim nossa inação a partir da situação

confortável do privilégio. Somos tudo, menos flexíveis, muitas

vezes nos limitando por ideologias limitadas, por estratégias

fracassadas de mudança racial.

E se avaliássemos os métodos, líderes e organizações pelos

resultados nas políticas de mudanças e igualdade? E se as

soluções de estratégias e de políticas não se originassem de

ideologias, mas de problemas? E se os antirracistas fossem impelidos somente pela fome de poder para moldar as políticas

de acordo com seus interesses justos?

 

...

 

C 106, os dirigentes da União dos

Estudantes Negros elaboraram um plano diferente. Fizeram algo

que não temiam. Nós marchamos ruidosamente pela North Broad

Street e nos reunimos no campus em 20 de setembro de 2007.

Naquele dia, milhares de nós pensamos que estávamos

protestando, quando estávamos, na verdade, nos manifestando,

de Filadélfia a Jena.

Usamos os termos “manifestação” e “protesto”

intercambiavelmente, por nossa conta e risco, como usamos

intercambiavelmente os termos “mobilização” e “organização”.

Um protesto é organizar pessoas para uma campanha

prolongada que obriga o poder racista a mudar as políticas. Uma

manifestação é mobilizar pessoas temporariamente a fim de

divulgar um problema. Oradores, cartazes, posts e hashtags

virais informam um problema. Manifestações são, não é de se

surpreender, o meio preferido dos que usam a persuasão.

Manifestações incomodam o poder assim como crianças que

choram por algo que nunca conseguirão incomodam os pais. A

menos que o poder não possa econômica, política ou

profissionalmente suportar o ônus da publicidade ruim — como

não pôde durante a Guerra Fria, não pôde durante a época de

eleições e não pôde declarar insolvência —, normalmente o

poder ignora as manifestações.

As manifestações mais eficientes (bem como os esforços

educacionais mais eficientes) ajudam as pessoas a encontrar o

poder antirracista em seu interior. O poder antirracista em seu

interior é a habilidade de encarar meu próprio racismo no espelho

do meu passado e presente, encarar meu próprio antirracismo no

espelho do meu futuro, encarar meus próprios grupos raciais

como iguais a outros grupos raciais, encarar o mundo de

desigualdade racial como anormal, encarar meu próprio poder de

resistir e superar o poder e as políticas racistas. As manifestações mais eficientes (bem como os esforços

educacionais mais eficientes) proporcionam métodos para que as

pessoas apliquem seu poder antirracista, apliquem seus recursos

humanos e financeiros, canalizando participantes e seus fundos

para organizações, protestos e campanhas tomadoras de poder.

A angariação de fundos nos bastidores das manifestações dos

Seis de Jena garantiu melhores advogados de defesa, que, em

26 de junho de 2009, conseguiram reduzir com tranquilidade as

acusações para simples agressão, com declaração de culpa, a

nenhum tempo na prisão para os acusados.

Tão importante quanto encontrar o poder antirracista interior e o

apoio financeiro, as manifestações podem oferecer apoio

emocional para os protestos contínuos. Os comícios noturnos

nas igrejas de

Montgomery, Alabama, agitadas pelas palavras cheias de

coragem de Martin Luther King Jr., sustentaram aquelas

corajosas mulheres negras que primeiramente boicotaram os

ônibus públicos e secaram esse fluxo de receita para a cidade

durante todo o ano de 1956.

Os protestos mais eficientes criam um ambiente no qual mudar

a política racista atende aos interesses próprios do poder, como

dessegregar negócios porque os protestos passivos estão

afastando os clientes, aumentar salários para retomar a

produção, dar aumentos a professores para continuar o ensino,

aprovar uma lei para atrair uma força bem organizada para

doadores e eleitores. Mas é difícil criar esse ambiente, visto que

o poder racista faz leis que tornam ilegais a maioria de ameaças

de protestos. Organizar e protestar é muito mais difícil e mais

impactante do que mobilizar e manifestar. Tomar o poder é muito

mais difícil do que protestar contra o poder e manifestar-se contra

seus excessos.

Só as manifestações tinham pouca chance de libertar os Seis

de Jena. Um juiz negou fiança para um dos rapazes no dia

seguinte às manifestações. A notícia chocou e alienou alguns de

meus pares da União de Estudantes Negros em relação ao

ativismo. Afinal, quando participamos ou organizamos

manifestações pensando que são protestos, pensando que podem mudar o poder e as políticas, e não vemos as mudanças

acontecerem, é difícil não se tornar cético. É difícil não pensar

que o Golias do racismo nunca poderá ser derrotado. É difícil

pensar em nossas estratégias, soluções, ideologias e

sentimentos como os verdadeiros fracassos. É difícil pensar que

realmente temos todas as ferramentas para o sucesso.