Como Ser Antirracista
Branco
CAPÍTULO 10
BRANCO
RACISTA ANTIBRANCO: Aquele que classifica
descendentes de europeus como biológica, cultural ou
comportamentalmente inferiores ou associa toda a etnia
branca ao poder racista.
E , em algum momento de março
de 2002. Clarence provavelmente pressentiu a iminência de
outra discussão. Éramos feitos sob medida para discutir um
com o outro. Extremamente cínico, Clarence parecia não
acreditar em nada. Extremamente crédulo, eu era suscetível a
acreditar em qualquer coisa, um crente mais que um pensador.
Ideias racistas adoram crentes, não pensadores.
“Então, o que você quer me contar?”, perguntou Clarence.
“Acho que compreendi os brancos”, respondi.
“O que é, agora?”
E FAMU tentando entender os negros.
“Nunca tinha visto tantos negros juntos com motivações
positivas”, escrevi em uma redação para a aula de Inglês Básico
em outubro de 2000. A frase parecia deslocada, perdida entre
“Nunca tinha ouvido uma apresentação da famosa ‘Marching
100’” e “Esse foi meu primeiro jogo de futebol universitário”. A
percepção, ainda mais deslocada. Como ignorei todos aqueles
negros que se reuniam com motivações positivas em todos os
lugares e espaços em que fui criado? Como me tornei um juiz
negro? Ideias racistas distorcem a realidade e modificam a
história, incluindo nossas histórias individuais.
Ideias racistas antinegros cobriam meus olhos de calouro como
as lentes de contato alaranjadas quando me mudei para o Gibbs
Hall na FAMU. Ao adentrar o saguão, à direita se via um
escritório de aspecto movimentado e desgastado. Um pouco mais à esquerda, um corredor que levava para o meu quarto;
uma curva acentuada à esquerda levava à sala de televisão,
onde nossa turma de fãs de basquete do alojamento geralmente
perdia amargas discussões para o exército de fãs de futebol
americano sobre o direito de assistir aos jogos.
Não havia discussões ou jogos na sala de televisão na noite de
7 de novembro de 2000. Mas nossas expressões de
espectadores ainda estavam lá. Eleitores novatos, assistíamos
ao desenrolar dos resultados das eleições, desejando que
nossos votos pudessem ajudar a manter o irmão do governador
da Flórida fora da Casa Branca. Negros da Flórida não tinham
esquecido o cancelamento dos programas de ação afirmativa por
Jeb Bush no início daquele ano. Votamos para salvar o resto do
país dos Bushes racistas.
A eleição dependia do vencedor na Flórida. A apuração
terminou e logo vimos o rosto vitorioso de Al Gore na tela. Fim de
jogo. Ficamos exultantes. Eu me juntei ao grupo alegre que saía
da sala de televisão. Marchamos até nossos quartos como fãs
saindo de um estádio depois do final da apresentação da
Marching 100 no intervalo. As pessoas tinham vindo ver o que
tinham vindo ver.
Na manhã seguinte, acordei e soube que George W. Bush tinha
conseguido, de algum modo, uma pequena dianteira de 1.784
votos na Flórida. Era uma margem muito estreita e os
representantes de Jeb Bush estavam fiscalizando a recontagem.
A injustiça da situação desabou sobre mim naquele novembro.
Minhas ideias racistas antinegros não serviram de consolo. Saí
do meu quarto naquela manhã para um mundo de angústia. Nas
semanas seguintes, ouvi e reli várias vezes histórias indignadas
e chorosas em primeira e segunda mão de alunos da FAMU e de
suas famílias em suas cidades natais que não conseguiram votar.
Queixas de cidadãos negros que se registraram, mas nunca
receberam seus títulos de eleitor. Ou seu local de votação tinha
mudado. Ou eles foram ilegalmente impedidos de votar sem o
título ou obrigados a deixar as longas filas quando do
encerramento da votação. Ou lhes disseram que, por serem
criminosos condenados, não poderiam votar. No início daquele ano, a Flórida expurgou 58 mil supostos criminosos das listas de
votação. Os negros eram somente 11% dos eleitores registrados,
mas eram 44% das listas de expurgo. E cerca de 12 mil dessas
pessoas expurgadas não eram criminosos condenados.
Os repórteres e funcionários de campanha pareciam mais
focados nos habitantes da Flórida cujos votos não foram
contados ou foram contabilizados para o candidato errado. O
condado de Palm Beach usou cédulas confusas que resultaram
na inutilização de 19 mil cédulas e, talvez, tenham feito com que
3 mil eleitores de Gore votassem em Pat Buchanan. O condado
de Gadsden, perto de Tallahassee, teve a maior porcentagem de
eleitores negros e a maior taxa de descarte de cédulas. Os
negros tiveram dez vezes mais probabilidade de ter os votos
rejeitados do que os brancos. A desigualdade racial não podia
ser explicada por níveis de renda ou educação ou pelo desenho
da cédula, segundo uma análise estatística do New York Times.
Isso deixa só uma explicação, que no início eu não consegui
admitir facilmente: racismo. Um total de 179.855 cédulas foram
invalidadas por funcionários eleitorais em uma disputa ganha por
537 votos.
Ted Cruz, na época com 19 anos, atuou na equipe jurídica de
Bush que se opôs às tentativas de recontagens manuais em
condados democratas, o que poderia ter conseguido dezenas de
milhares de votos para Gore, enquanto pressionaram por
recontagens manuais em condados republicanos, que resultaram
em 185 votos adicionais para Bush.
Assistindo ao desenrolar desse filme de terror, me recolhi,
assustado, durante dias após as eleições. Mas alguns de meus
colegas da FAMU não. Eles reuniram a coragem que não tive,
que todos os antirracistas devem ter. “A coragem não é ausência
de medo, mas a força de fazer o que é certo quando ele surge”,
segundo um filósofo anônimo. Alguns de nós ficam paralisados
pelo medo do que poderia nos acontecer se resistirmos. Em
nossa ingenuidade, temos menos medo do que poderia
acontecer conosco — ou já esteja acontecendo — se não
resistirmos.
Em 9 de novembro de 2000, corajosos líderes estudantis e
ligados ao governo da FAMU conduziram uma marcha silenciosa
de 2 mil estudantes do campus até a Assembleia Legislativa da
Flórida, onde realizaram um protesto passivo. Esse protesto
durou cerca de 24 horas, mas a caça às bruxas que realizamos
no campus durou semanas, se não meses. Caçamos os milhares
de estudantes da universidade que não votaram. Nós os
constrangemos com histórias de pessoas que marcharam para
que pudéssemos votar. Eu participei dessa caçada tola — que
parece se repetir sempre que uma eleição é perdida. A tentativa
de constrangimento ignora a verdadeira origem de nossa perda e
nosso sofrimento. O fato foi que os eleitores negros
compareceram em número suficiente para vencer, mas esses
eleitores foram mandados embora ou tiveram os votos
descartados. Muitas vezes, ideias racistas levam a essa inversão
psicológica idiota, em que responsabilizamos a raça vitimizada
por sua própria vitimização.
Quando a Suprema Corte dos Estados Unidos interrompeu a
recontagem na Flórida em 12 de dezembro de 2000, eu não via
mais o país como uma democracia. Quando Gore cedeu, quando
os democratas brancos abriram caminho para deixar Bush roubar
a presidência à custa da destruição de votos negros, fui atirado
de volta ao pensamento binário da Escola Dominical, onde me
ensinaram sobre o bem e o mal, Deus e o Diabo. Quando houve
a transição do governo Bush naquele inverno, eu fiz a transição
para odiar os brancos.
Os brancos se tornaram demônios para mim, mas eu precisava
descobrir por que tinham se transformado em demônios. Eu li
“The Making of Devil” [A Criação de um Demônio, em tradução
livre], um capítulo de Message to the BlackMan in America
[“Mensagem para o Homem Negro nos EUA”, em tradução livre],
de Elijah Muhammad, escrito em 1965. Muhammad liderou a
Nação do Islã Não Ortodoxa (NOI, da sigla em inglês) de 1934
até sua morte, em 1975. Segundo a teologia que adotou, mais de
6 mil anos atrás, em um mundo totalmente negro, um cientista
negro perverso de nome Yakub foi exilado juntamente com seus
59.999 seguidores em uma ilha no mar Egeu. Yakub arquitetou sua vingança contra os inimigos: “Criar na Terra uma raça
demoníaca.”
Yakub criou um regime brutal de reprodução seletiva na ilha —
o encontro da eugenia com o colorismo. Matou todos os bebês
escuros e obrigou as pessoas claras a procriar. Quando Yakub
morreu, seus seguidores continuaram, criando a raça parda a
partir da raça negra, a raça vermelha a partir da parda, a raça
amarela a partir da vermelha, e a raça branca a partir da
amarela. Depois de 600 anos, “na ilha de Patmos, não havia
nada além desses demônios loiros, de pele clara e olhos azuis
frios — selvagens”.
Pessoas brancas invadiram o continente e transformaram “o
que tinha sido um paraíso de paz na Terra em um inferno
destruído por brigas e discussões”. Autoridades negras
acorrentaram os criminosos brancos e os fizeram marchar para
prisões em cavernas na Europa. Quando a Bíblia diz que “Moisés
levantou a serpente no deserto”, os teólogos da NOI alegam que
“a serpente é o símbolo da demoníaca raça branca que Moisés
retirou das cavernas da Europa, ensinando-lhe civilização” para
dominar pelos próximos 6 mil anos.
Além da regra branca de 6 mil anos, esta história do povo
branco é sinistramente parecida com a história do povo negro
que aprendi aos poucos em escolas brancas de pensamento
racista. Racistas brancos imaginam os negros vivendo nas
savanas da África em vez de nas cavernas, até que Moisés, na
forma de escravizadores e colonizadores brancos, chegou como
civilizador. A escravidão e a colonização terminaram antes de o
povo negro — e a África — se tornar civilizado do mesmo modo
que os brancos. Os negros caíram na criminalidade e acabaram
linchados, segregados e encarcerados em massa por nobres
agentes da lei em nações brancas “desenvolvidas”. Nações
negras “em desenvolvimento” foram corroídas pela corrupção,
por conflitos étnicos e pela incompetência, mantendo-as pobres e
instáveis, apesar de todos os tipos de “ajuda” de antigos países
colonizadores na Europa. A história da NOI das pessoas brancas
foi a história racista de pessoas negras usando whiteface .
Segundo a mitologia da NOI, durante a Primeira Guerra
Mundial, Deus apareceu na Terra na forma de Wallace Fard
Muhammad. Em 1931, Fard enviou Elijah Muhammad em missão
divina para salvar a “Nação Perdida-Encontrada do Islã” nos
Estados Unidos — para reparar o povo negro com o
conhecimento da verdadeira história.
A primeira vez que li essa história, fiquei sentado no meu
quarto, suando, fascinado, assustado. Parecia que eu mesmo
havia escalado a árvore e comido o fruto proibido. Todos os
brancos que me maltrataram, desde a professora do quarto ano,
repentinamente voltaram à minha memória como uma locomotiva
soando seu apito no meio da floresta. Mas minha atenção
continuou focada em todos aqueles brancos que conduziram o
trem das eleições de 2000 na Flórida. Todos aqueles policiais
brancos intimidando os eleitores, fiscais de eleições brancos
rejeitando eleitores, oficiais estaduais brancos removendo
eleitores, advogados e juízes brancos defendendo a repressão
aos eleitores. Todos esses políticos brancos repetindo o
chamado de Gore para, “pelo bem de nossa unidade como povo
e a força de nossa democracia”, ceder a eleição a Bush. Os
brancos me mostraram que não se importavam realmente com a
unidade nacional ou a democracia, só com a unidade entre e
democracia para o povo branco!
Estou deitado no meu quarto, olhando para o teto,
silenciosamente enraivecido com os brancos que se recolheram
no deserto para tramar a presidência de Bush.
de Elijah Muhammad fazia muito
sentido para mim. Meio século antes, ela também fez sentido
para um jovem prisioneiro negro calculista, grosseiro e louco
apelidado de “Satan”. Um dia, em 1948, o irmão de Satan,
Reginald, sussurrou para ele durante uma visita: “O homem
branco é o demônio.” Quando ele voltou para sua cela em
Massachusetts, uma fileira de pessoas brancas apareceram
diante de seus olhos. Ele viu brancos lincharem seu pai ativista,
confinarem a mãe ativista em um asilo, separarem seus irmãos,
dizerem a ele que ser advogado “não era uma meta realista para um crioulo”, degradando-o nas ferrovias do leste, preparando
armadilhas para que a polícia o apanhasse, sentenciando-o de
oito a dez anos por roubo porque sua namorada era branca.
Seus irmãos e irmãs, livrando os pescoços machucados de uma
corda semelhante de racismo branco, já tinham se convertido à
Nação do Islã. Em pouco tempo, eles fizeram Satan voltar a ser
Malcolm Little, e Malcolm Little se tornou Malcolm X.
Malcolm X deixou a prisão em 1952 e rapidamente começou a
desenvolver a Nação do Islã de Elijah Muhammad, por meio de
sua oratória e organização poderosa. O repentino renascimento
da NOI chamou a atenção da mídia, e, em 1959, Louis Lomax e
Mike Wallace produziram um documentário para a televisão
sobre a NOI, o Ódio que o Ódio Produziu , que foi exibido na
CBS. Ele tornou Malcolm X um nome conhecido.
Em 1964, depois de deixar a Nação do Islã, Malcolm X fez a
peregrinação à Meca e mudou seu nome de novo, para el-Hajj
Makik
el-Shabazz, e se converteu ao islamismo ortodoxo. “Nunca
testemunhei” um “espírito avassalador de verdadeira fraternidade
como o praticado por pessoas de todas as cores e raças aqui
nesta Antiga Terra Santa”, escreveu para casa em 20 de abril.
Dias depois, ele começou a “abandonar algumas de minhas
conclusões anteriores (sobre brancos)… Você pode se
surpreender com essas palavras vindas de mim. Mas… eu
sempre fui um homem que tenta enfrentar os fatos e aceitar a
realidade da vida à medida que novas experiências e novos
conhecimentos se desenvolvem”. Em 22 de setembro de 1964,
Malcolm fez uma segunda conversão. “Eu rejeito totalmente a
filosofia racista de Elijah Muhammad, que ele rotulou de ‘Islã’
apenas para enganar e usar indevidamente pessoas crédulas,
assim como me enganou e usou indevidamente”, escreveu. “Mas
eu culpo a mim e a ninguém mais por ter sido tolo, e pelo dano
que minha estupidez em seu nome causou aos outros.”
Meses antes de ser assassinado, Malcolm X enfrentou um fato
que muitos de seus admiradores ainda se recusam a aceitar: os
negros podem ser racistas em relação aos brancos. A ideia da
NOI do demônio branco é um exemplo clássico. Sempre que alguém classifica pessoas de descendência europeia como
biológica, cultural ou comportamentalmente inferior, sempre que
alguém diz que há algo errado com os brancos como grupo,
alguém está articulando uma ideia racista.
A única coisa errada com os brancos é quando eles manifestam
ideias e políticas racistas, e depois negam que suas ideias e
políticas sejam racistas. Isso não é ignorar que os brancos
massacraram e escravizaram milhões de índígenas e africanos,
colonizaram e empobreceram milhões de pessoas de outras
etnias ao redor do mundo enquanto suas nações enriqueciam, ao
mesmo tempo em que criavam ideias racistas que culpam as
vítimas. Isso quer dizer que sua história de pilhagens não é
resultado dos genes ou culturas perversas dos brancos. Não
existem genes brancos. Precisamos separar as culturas bélicas,
gananciosas, intolerantes e individualistas do império moderno e
capitalismo racial (mais sobre isso depois) das culturas dos
brancos. Eles não são uma coisa só, como a resistência dentro
das nações brancas mostra, resistência reconhecidamente
temperada por ideias racistas.
Ser antirracista é nunca confundir a marcha global do racismo
branco com a marcha global das pessoas brancas. Ser
antirracista é nunca confundir o ódio antirracista pelo racismo
branco com o ódio racista pelos brancos. Ser antirracista é nunca
associar pessoas racistas a pessoas brancas, sabendo que há
antirracistas brancos e racistas não brancos. Ser antirracista é
ver as pessoas brancas comuns como as frequentes
vitimizadoras de pessoas de outras etnias e frequentes vítimas
do poder racista. As políticas econômicas de Donald Trump estão
voltadas para enriquecer o poder do homem branco — mas à
custa da maioria de seus seguidores brancos, e do resto de nós.
Precisamos enxergar a diferença entre o poder racista
(legisladores racistas) e os brancos. Durante décadas, o poder
racista contribuiu para estagnar salários, destruir sindicatos,
desregulamentar bancos e corporações, e deslocar recursos de
educação para prisões e orçamentos militares, políticas que
provocaram uma reação negativa junto às pessoas brancas. A
desigualdade econômica branca, por exemplo, subiu tanto a ponto de chamados “detentores de 99%” ocuparem Wall Street
em 2011, e o senador Bernie Sanders, de Vermont, lançar uma
campanha presidencial popular contra a “classe bilionária”, em
2016.
Naturalmente, pessoas brancas comuns se beneficiam de
políticas racistas, embora nem de longe quanto poderia o poder
racista e nem de longe quanto poderiam em uma sociedade
igualitária, na qual o eleitor branco médio teria tanto poder quanto
os homens brancos super-ricos para decidir eleições e políticas.
Na qual as escolas de negócios dos filhos poderiam se parecer
com as excelentes escolas preparatórias dos super-ricos de hoje.
Na qual assistência médica de qualidade poderia salvar milhões
de vidas brancas. Na qual eles não poderiam mais se defrontar
com os companheiros do racismo que os atacam: sexismo,
etnocentrismo, homofobia e exploração.
O poder racista, reunindo riqueza e recursos, é o que tem mais
a perder na construção de uma sociedade igualitária. Como
aprendemos, poder racista produz políticas racistas por interesse
próprio e então produz ideias racistas para justificá-las. Mas
ideias racistas também inibem a resistência a políticas
prejudiciais aos brancos, convencendo-os de que a desigualdade
está baseada em “fracasso pessoal” e não tem relação com as
políticas. O poder racista manipula pessoas brancas comuns a
resistir a políticas igualitárias, ensinando-lhes o que perderão
com políticas igualitárias e como essas políticas igualitárias são
contrárias aos brancos. Em 2017, a maioria das pessoas brancas
identificou discriminação antibrancos como um grave problema.
“Se você se candidatar a um emprego, eles parecem dar
preferência aos negros”, disse Tim Hershman de Ohio, de 68
anos, para um repórter da NPR. Os afro-americanos estão
recebendo doações injustas, “e está piorando para os brancos”,
disse Hershman. Hershman se queixou de perder uma promoção
para um finalista negro, mesmo que, na verdade, quem tenha
ficado com o emprego tenha sido um outro branco.
Alegações de racismo branco em resposta ao antirracismo são
tão antigas quanto os direitos civis. Quando o Congresso
aprovou a (primeira) Lei de Direitos Civis em 1866, tornou os negros cidadãos dos Estados Unidos, definiu seus direitos civis e
declarou que leis estaduais não poderiam “privar uma pessoa de
qualquer um desses direitos com base na raça”. O presidente
Andrew Johnson reestruturou essa lei antirracista como uma “lei
feita para agir em favor de pessoas não brancas contra a raça
branca”. Um século depois, racistas norte-americanos definiram
apoiadores da ação afirmativa como “racistas obstinadamente
leais à discriminação reversa”, citando o antigo advogado-geral
dos Estados Unidos, Robert Bork, no Wall Street Journal em
1978. Quando Alicia Garza digitou “Black Lives Matters” [“Vidas
Negras Importam”] no Facebook, em 2013, e quando essa carta
de amor se transformou em um movimento em 2015, o ex-
prefeito de Nova York, Rudolf Giuliani, chamou o movimento de
“inerentemente racista”.
Racistas brancos não querem definir a hierarquia ou as políticas
raciais que geram desigualdades raciais como racistas. Fazê-lo
definiria suas ideias e políticas como racistas. Em vez disso, eles
definem políticas não manipuladas em favor dos brancos como
racistas. Ideias que não centralizam vidas brancas são racistas.
Racistas brancos afetados que não podem imaginar suas vidas
não sendo o foco de qualquer movimento respondem a “Vidas
Negras Importam” [Black Lives Matters] com “Todas as Vidas
Importam” [All Lives Matters]. Policiais preparados para a batalha
que não conseguem imaginar perder o direito de classificar e
brutalizar racialmente respondem com “Vidas Azuis 1 Importam”
[Blue Lives Matter].
Racistas brancos comuns agem como soldados do poder
racista. Fica difícil para as pessoas não brancas não odiar
brancos comuns ao lidar todos os dias com essas tropas
terrestres que praticam abusos racistas. Ideias racistas
antibrancos geralmente são uma reação reflexiva ao racismo
branco. O racismo antibranco é, de fato, o ódio que o ódio
produziu, atraente para vítimas do racismo branco.
E, no entanto, o poder racista prospera com ideias racistas
antibrancos — mais ódio só torna seu poder maior. Quando
pessoas negras recuam do racismo branco e concentram seu
ódio nos brancos comuns, como eu fiz em meu primeiro ano da faculdade, elas não estão lutando contra o poder racista ou os
legisladores racistas. Ao perder o foco no poder racista, deixam
de contestar políticas racistas antinegros, o que significa que
essas políticas têm maior probabilidade de prosperar. Combater
os brancos em vez de o poder racista prolonga as políticas que
prejudicam a vida negra. No final, ideias racistas antibrancos, ao
tirarem todo ou parte do foco do poder racista, tornam-se
antinegros. No final, odiar pessoas brancas torna-se odiar
pessoas negras.
, odiar pessoas negras se torna odiar pessoas brancas.
Em 15 de outubro de 2013, trabalhadores revelaram uma placa
de 3,5m x 7m perto de uma estrada importante em Harrison,
Arkansas, conhecida naquela região como território da Klan. A
mesma placa apareceu em outdoors em estradas importantes do
Alabama ao Oregon. Motoristas que passavam viram as letras
escuras sobre um fundo amarelo: -
.
Robert Whitaker, que se candidatou a vice-presidente dos
Estados Unidos em 2016 pelo partido da Liberdade, popularizou
essa declaração em um texto de 2006 chamado de “O Mantra”.
Esse mantra tornou-se sagrado para a autoidentificada “multidão”
de supremacistas brancos que odeiam pessoas de outras etnias
e judeus, e temem o “programa contínuo de genocídio contra
minha raça, a raça branca”, como alegou Whitaker.
Os fatos mostram uma história diferente. Contrários ao
“mantra”, supremacistas brancos são os que apoiam políticas
que beneficiam o poder racista contra os interesses da maioria
do povo branco. Supremacistas brancos alegam ser pró-brancos,
mas se recusam a reconhecer que as mudanças climáticas estão
exercendo um efeito desastroso na terra que habitam. Eles se
opõem a programas de ação afirmativa, apesar de as mulheres
brancas serem suas principais beneficiárias. Supremacistas
brancos se revoltam contra o Obamacare mesmo quando 43%
das pessoas beneficiadas por esse seguro-saúde salvador de
vidas de 2010 a 2015 eram brancas. Eles saúdam os nazistas de
Adolf Hitler, mesmo que tenham sido os nazistas que iniciaram uma Guerra Mundial que destruiu a vida de mais 40 milhões de
brancos e arruinou a Europa. Eles agitam bandeiras
confederadas e defendem monumentos confederados, mesmo
que a Confederação tenha iniciado uma guerra civil que terminou
com a perda de mais de 500 mil norte-americanos brancos —
mais do que quaisquer outras guerras norte-americanas
combinadas. Supremacistas brancos adoram o que os Estados
Unidos costumavam ser, mesmo que eles estivessem — e ainda
estejam — fervilhando de brancos em dificuldades.
Supremacistas brancos culpam os não brancos pelas
dificuldades que os brancos enfrentam quando qualquer análise
objetiva de sua condição implica principalmente os Trumps ricos
e brancos que eles apoiam.
Supremacista branco é um código para antibranco, e a
supremacia branca nada mais é do que um programa contínuo
de genocídio contra a raça branca. Na verdade, é mais que isso:
supremacista branco é um código para anti-humano, uma
ideologia nuclear que representa uma ameaça existencial para a
existência humana.
ódio branco até o segundo ano da faculdade,
enquanto o ódio contra os islâmicos e os árabes enchia a
atmosfera dos Estados Unidos como uma nuvem escura depois
do 11/09. Muitos norte-americanos não viam problema em seu
crescente ódio pelos muçulmanos nos primeiros meses de 2002.
E eu não via problema no meu crescente ódio pelas pessoas
brancas. As justificativas eram as mesmas: “Eles são bandidos
violentos.” “Eles odeiam a nossa liberdade.”
Eu continuava lendo, tentando encontrar a origem do mal
branco. Encontrei a maioria das respostas na teoria de duas
origens do estudioso senegalês Cheikh Anta Diop, muito antes
de conhecer seu trabalho antirracista sobre a ancestralidade
africana dos antigos egípcios. A teoria de duas origens de Diop
sugere que o clima inóspito e a falta de recursos na origem do
norte alimentaram nos europeus comportamentos bárbaros,
individualistas, materialistas e bélicos, que levavam destruição ao
mundo. O clima ameno e a abundância de recursos na origem sul alimentaram comportamentos africanos de comunidade,
espiritualidade, equanimidade e paz, que levaram civilização ao
mundo.
Combinei o determinismo ambiental de Diop com a versão de
Michael Bradley do mesmo tema, sua teoria no livro The Iceman
Inheritance [“A Herança do Homem de Gelo”, em tradução livre],
de que a crueldade da raça branca é produto de sua criação na
era do Gelo. Mas eu ainda estava sedento por teorias biológicas.
Como concebemos o problema — e quem concebemos como
sendo o problema — molda as respostas que encontramos. Eu
estava procurando uma teoria biológica do motivo pelo qual os
brancos são ruins. Eu a encontrei em The Isis Papers [“Os
Artigos de Isis”, em tradução livre], da psiquiatra Frances Cress
Welsing.
“O profundo senso de inadequação numérica e inferioridade de
cor” da minoria global branca causa seu “incontrolável senso de
hostilidade e agressão”, escreveu Welsing. Os brancos estão se
defendendo da própria aniquilação genética. A pele carregada de
melanina “sempre ‘aniquila’… a ausente de cor, branca”.
Ironicamente, a teoria de Welsin reflete temores de aniquilação
genética que supremacistas brancos no mundo ocidental têm
expressado atualmente em seus temores de “genocídio branco”
— uma ideia com uma história profunda, como na obra de
eugenistas como Lothrop Stoddard e seu best-seller de 1920,
The Rising Tide of Color against White World-Supremacy [“A
Crescente Onda de Cor contra o Mundo da Supremacia Branca”,
em tradução livre].
Devorei Welsing, mas depois, ao saber que a melanina não me
deu nenhum superpoder negro, fiquei desanimado. Acontece que
é a regra racista de uma gota que tornou a identidade negra
dominante em pessoas birraciais, não qualquer distinção
genética ou um superpoder proporcionado pela melanina. Minha
busca continuou.
...
de Clarence naquele dia para discutir a
“teoria da confrontação de cores” de Welsing. Ou a teoria de
duas origens de Diop. Ele tinha rido dessas duas teorias muitas
vezes antes. Viera falar sobre outra teoria, a que finalmente
decifrava os brancos.
“Eles são alienígenas”, disse a Clarence, recostado ao batente
da porta, confiante, braços cruzados. “Acabei de ver um
documentário que apresentou as provas. É por isso que eles são
tão empenhados na supremacia branca. É por isso que eles
parecem não ter consciência. Eles são alienígenas.”
Clarence escutou, o rosto inexpressivo. “Você não pode estar
falando sério.”
“Muito sério. Isso explica a escravidão e a colonização. Isso
explica por que a família Bush é tão perversa. Isso explica por
que os brancos não estão nem aí. Isso explica por que eles nos
odeiam tanto. Eles são alienígenas!” Eu me afastei do batente e
entrei totalmente no modo discussão.
“Você está mesmo falando sério”, replicou Clarence com uma
risada. “Se está falando sério, então essa é a coisa mais idiota
que já ouvi na vida! Quer dizer, sério, não posso acreditar que
você seja tão ingênuo.” O riso se transformou em uma careta.
“Por que você passa tanto tempo tentando compreender os
brancos?”, perguntou, depois de uma longa pausa. Clarence
tinha feito essa pergunta antes. Eu sempre respondia da mesma
forma.
“Por que compreendê-los é a resposta! Os negros precisam
saber com que estão lidando!”
“Se você está dizendo. Mas me diga uma coisa: se os brancos
são alienígenas, por que brancos e negros podem se reproduzir?
Os humanos não podem se reproduzir com animais neste
planeta, mas os negros podem se reproduzir com alienígenas de
outro planeta? Ah, cara, cai na real!”
“Eu estou na real”, respondi. Mas realmente não tinha resposta.
Eu me virei, desajeitado, andei até meu quarto, caí na cama e
voltei a olhar para o teto. Talvez os brancos não fossem
alienígenas. Talvez eles tivessem se tornado assim aqui na Terra. Talvez eu precisasse ler mais Frances Cress Welsing. Olhei para
The Isis Papers no criado-mudo.
...
2003, Clarence se formou e decidi partilhar
minhas ideias com o mundo. Comecei minha carreira de escritor
sobre raças em uma coluna no jornal estudantil da FAMU, The
Famuan . Em 9 de setembro de 2003, escrevi um artigo
aconselhando aos negros a parar de odiar os brancos por serem
quem são. Na verdade, eu estava aconselhando a mim mesmo:
“Eu certamente entendo os negros que têm ficado envolvidos em
uma tempestade de ódio, porque eles não conseguiam escapar
dos fortes ventos da verdade sobre a mão destrutiva do homem
branco.” Envolvido por esse tornado, eu não consegui escapar à
ideia enganosa de que “os europeus são simplesmente uma
espécie diferente de seres humanos”, como escrevi, baseado nas
ideias de The Isis Papers . Os brancos são “apenas 10% da
população do mundo”, e eles “têm genes recessivos. Assim, eles
estão diante da extinção”. É por isso que eles estão tentando
“destruir meu povo”, conclui. “Os europeus estão tentando
sobreviver e não posso odiá-los por isso.”
O artigo circulou amplamente em Tallahassee, alarmando os
leitores brancos. Suas ameaças atingiram o objetivo. Meus
colegas de alojamento, Devan, Brandon e Jean, em tom de
brincadeira insistiram para que eu tomasse cuidado com a Klan.
O novo presidente da FAMU, Fred Gainus, me chamou à sua
sala para me repreender. Eu devolvi no mesmo tom, chamando-o
de criado de Jeb.
O editor do Tallahassee Democrat também me convocou ao seu
escritório. Eu precisava completar o estágio necessário para me
formar em jornalismo. Entrei em seu escritório, temeroso. Eu me
sentia prestes a enfrentar o encerramento, o encerramento de
meu futuro. E, de fato, algo se encerraria naquele dia.
1 N. da T. Azul (blue) é uma referência à cor dos uniformes dos policiais, um termo frequentemente usado para se referir à polícia.