Como Ser Antirracista

Ibram X. Kendi · Capítulo 17 de 21

Páginas do PDF

Como Ser Antirracista

Gênero

CAPÍTULO 14

 

GÊNER O

 

RACISMO DE GÊNERO: Um conjunto poderoso de políticas

racistas que leva à desigualdade entre raças-gêneros

substanciada por ideias racistas sobre raças-gêneros.

 

ANTIRRACISMO DE GÊNERO: Um conjunto poderoso de

políticas antirracistas que leva à igualdade entre raças-

gêneros substanciada por ideias antirracistas sobre raças-

gêneros.

 

N a imensa capacidade de seu intelecto, que

era até imediatamente mais evidente que sua figura alta e

robusta e sua maquiagem marcante. Ninguém ignorava Kaila.

Ela não ocultava nenhum aspecto de si mesma quando a conheci

na Temple. Não tinha autocensura. Não escondia no armário seu

feminismo lésbico em um espaço negro que poderia antagonizar

o lesbianismo e o feminismo. Não havia ambiguidade que

levasse a interpretações errôneas. Totalmente Joan Morgan, sem

dar a mínima a nada. Totalmente poetisa guerreira ligada a tudo

como sua ídola, Audre Lorde. Kaila era ela mesma, inteira, e seu

intelecto Laila Ali queria que o mundo desse voz aos problemas

com o que viam.

Kaila não tinha problema em lhe falar sobre você. Suas

lendárias imitações de estudantes e professores de estudos afro-

americanos eram tão engraçadas quanto fiéis. Eu sempre quis

que ela me imitasse, mas tinha medo e insegurança em saber o

que ela via.

Kaila dividia as atenções com Yaba, cujas gargalhadas

retumbantes e sonoras muitas vezes enchiam a sala. Suas trocas

de piadas eram tão dolorosas para as vítimas quanto as partidas

de Venus e Serena Williams para as bolas de tênis. Quando eu me sentava para uma longa conversa — ou, melhor, para ouvir e

aprender — minha boca parecia sempre estar aberta, rindo de

suas piadas ou admirando sua perspicácia. Elas ocupavam a

corte real dos alunos de pós-graduação em estudos afro-

americanos. Todos as temiam, respeitavam ou combatiam. Eu as

temia e respeitava, receoso e admirado demais para combatê-

las.

A negritude irreprimível de Yaba dominava nosso espaço “mais

negro que o seu”. Mais negro que o seu, não por causa de seus

traços ganeses, seu ar despretensioso de quem vive em Nova

Orleans ou suas combinações de trajes africanos e moda afro-

americana. Não porque ela dançava tão à vontade ao som das

culturas caribenhas quando ao da sua própria. Ela parecia ter um

conhecimento enciclopédico sobre pessoas negras: a pessoa

mais etnicamente antirracista em meu novo mundo. Tão

atualizada sobre a cultura popular negra norte-americana quanto

as políticas africanas, tão equipada para debater as

complexidades da ascensão de Beyoncé como a terceira

ascensão do feminismo negro, tão à vontade explicando as

origens do crioulo haitiano quanto os conflitos entre os Iorubás e

Igbos, da Nigéria, eu sempre me sentia muito ignorante perto

dela.

 

como racista, sexista e homofóbico. Não

exatamente alguém que essas duas mulheres considerariam

como amigo. Mas elas viram em mim o potencial que eu não via.

Minhas ideias sobre gênero e sexualidade refletiam as dos

meus pais. Eles não me criaram para não ser homofóbico.

Raramente falavam sobre gays e lésbicas. Mas muitas vezes as

ideias não precisam ser comunicadas. Seu silêncio negava a

existência da homossexualidade tão completamente quanto

integracionistas negavam a realidade dos espaços brancos

integrados.

Sobre gênero, a percepção de meu pai sobre a força masculina

não se originou da fragilidade percebida das mulheres. Talvez

porque minha mãe não deixava dúvidas sobre a sua força. Ela

levantava pesos desde quando me conheço por gente. Ela levava sacolas pesadas para dentro de casa, fazendo com que

os três homenzarrões com que vivia soubessem que mesmo

baixinha e franzina não era molenga. Papai sempre foi mais

emotivo e afetuoso do que minha mãe. Meu pai consolava meu

irmão e a mim quando nos machucávamos. Minha mãe nos

mandava aguentar firme como aquela vez em que entrei

chorando por ter quebrado o pulso. Ela mandou que eu voltasse

lá e terminasse o jogo de basquete.

Muitas vezes, meu pai brincava na igreja sobre minha mãe ser

a diretora financeira da família. Enquanto outros patriarcalistas

riam, meu pai ficava sério. Ela era. Em outras épocas, as ideias

sexistas de meu pai exigiram que ele fosse o líder e as ideias

sexistas de minha mãe que ela se submetesse. Ela o chamava

do chefe da casa. Ele aceitava o título.

Meus pais não foram rígidos em me educar como um

patriarcalista negro. Eu me tornei um patriarcalista negro porque

meus pais e o mundo à minha volta não foram rígidos em me

criar como um feminista negro. Nem meus pais nem eu fomos

criados em uma época que nos faria ensinar o feminismo negro

para um garoto negro, se é que houve uma época assim. Parecia

haver uma guerra de baixa intensidade travada entre os gêneros,

talvez mais claramente articulada em nossa cultura popular.

Nasci no ano de lançamento de A Cor Púrpura , de Alice Walker,

uma obra inspiradora sobre a arte feminista negra, mas que

muitos críticos negros viram como um ataque à masculinidade

negra. Entrei na adolescência no ano em que as mulheres

negras corriam às salas de exibição para uma excursão catártica

sobre os maus-tratos masculinos em Falando de Amor . Mas o

conflito mais profundo tinha raízes mais profundas, talvez

germinando em meados de 1965, quando a mídia teve acesso a

“A Família Negra: Um Caso de Ação Nacional”, um relatório do

governo escrito pelo secretário-assistente do Departamento de

Trabalho, Daniel Patrick Moynihan.

Quase 1/4 de famílias negras eram chefiadas por mulheres, o

dobro do índice de famílias brancas, advertiu Moynihan,

enquanto a mídia entrava em alvoroço com a família negra

“destruída”. “A comunidade negra foi obrigada a adotar uma estrutura matriarcal que… impõe uma carga impressionante ao

homem negro”, produzindo um “emaranhado de patologias”,

declarou Moynihan. Ele pediu uma ação nacional para empregar

e empoderar os homens negros, fragilizados pela discriminação e

pelas mulheres negras matriarcais. “Manter o negro ‘em seu

lugar’ pode ser traduzido como manter o negro do sexo

masculino em seu lugar: a mulher não era uma ameaça para

ninguém”, escreveu.

“As reverberações” do relatório de Moynihan “foram

desastrosas”, escreveu certa vez a historiadora Deborah Gray

White. Patriarcalistas racistas, de cientistas sociais brancos a

maridos negros, exigiram a submissão das mulheres negras para

elevar a raça. Um comando na revista Ebony tornou-se popular:

a “meta imediata da mulher negra atual deve ser estabelecer

uma sólida unidade familiar em que o pai é a pessoa dominante”.

Uma década mais tarde, patriarcalistas negros e cientistas

sociais brancos ainda alimentavam a ideia de que homens

negros estavam em pior situação que as mulheres negras. O

racismo tinha focado “ampla” e “claramente” o homem negro,

argumentou o sociólogo Charles Herbert Stember, em seu livro

de 1975, Sexual Racism: The Emotional Barrier to an Integrated

Society [“Racismo Sexual: A Barreira Emocional para uma

Sociedade Integrada”, em tradução livre]. Um país de espaços

integrados (brancos) não fora conquistado porque no cerne do

racismo estava a “rejeição sexual da minoria racial, a tentativa

consciente por parte da maioria de evitar coabitação inter-racial”,

escreveu ele. O ciúme sexual do homem branco em relação ao

homem negro era o ponto essencial.

Para um grande número de homens negros, o movimento Black

Power, que nasceu depois do relatório de Moynihan, se tornou

uma luta contra homens brancos pelo poder negro sobre

mulheres negras. Meu pai testemunhou essa luta de poder,

depois de ser criado por uma mãe solo negra que nunca chamou

a ele ou ao irmão de chefe da família, como outras mães solo

faziam. Um dia em 1969, meu pai tinha cantado em uma igreja

improvisada em uma sala comercial. Ele saiu para tomar ar e viu

um Pantera Negra atacando sua namorada. Em outro dia, no verão de 1971, papai e uma namorada antes de minha mãe se

aventuraram até o Templo da Nação do Islã no Harlem. A Nação

despertara o interesse de meu pai. Eles jantaram com um dos

pastores. A namorada de meu pai disse algo. O ministro deu-lhe

um tapa e disparou: “Mulheres não devem falar na presença dos

homens.” Meu pai saltou da cadeira e teve que ser contido e

levado à força para fora do templo.

Apesar de tudo, meus pais não puderam evitar se unir à força

inter-racial que vigiava a sexualidade das jovens mães negras.

Eles eram dois dos milhões de liberais e conservadores

chocados com a crescente porcentagem de crianças negras que

nascia em lares de mães solos nos anos de 1970 e de 1980 —

mesmo chocado, meu pai se saiu bem. O pânico em relação aos

números informados de lares com mães solos se baseou em

uma série de premissas falhas ou não testadas: que ter dois pais

ruins era melhor do que um bom, que a presença de um pai

negro abusivo é melhor para a criança do que sua ausência, que

ter uma segunda renda para a criança supera outros fatores, que

todas as mães solos eram negras, que nenhum desses pais

ausentes estava na prisão ou no túmulo, que mães negras nunca

escondiam a presença de pais negros na casa para manter o

auxílio da assistência social para a criança.

Em tempo para as eleições intermediárias em 1994, o cientista

político Charles Murray se certificou de que a quantidade de

crianças negras nascidas em famílias monoparentais “agora

atingiu 68%”. Murray culpou o “sistema de assistência social”.

Meus pais e outros liberais culpavam a irresponsabilidade sexual,

a desconsideração vergonhosa pelas oportunidades surgidas do

ativismo dos anos de 1960, transformando a pobreza em uma

patologia e uma desconexão com a abstinência pré-marital de

Cristo. Eles estavam todos errados, em vários níveis. A crescente

porcentagem de bebês negros nascidos em famílias

monoparentais não se devia a mulheres solteiras tendo mais

filhos, mas a mulheres negras casadas tendo menos filhos no

transcorrer do século XX. Minha mãe pôde ver essa redução em

sua família. A avó paterna casada de minha mãe teve 16 filhos

nos anos de 1910 e 1920. A mãe casada de minha mãe teve seis filhos nos anos de 1940 e 1950 Minha mãe teve dois filhos no

início dos anos de 1980 — assim como suas três irmãs casadas.

Meus pais e inúmeros norte-americanos estavam

desconectados da realidade racial e passaram a demonizar essa

classe de mães solos. Apenas feministas como Dorothy Roberts

e Angela Davis as defendiam.

 

, minha mãe adotava uma defesa

feminista. No início de agosto de 1976, na terça-feira antes do

sábado em que meus pais deveriam se casar. Repassando a

cerimônia, o pastor Wilfred Quinby recitou os votos cristãos do

casamento para meus pais. “Maridos, amem suas esposas, e

esposas, obedeçam a seus maridos.”

“Eu não vou obedecê-lo!”, exclamou minha mãe. “O quê!” O

pastor Quinby respondeu, chocado, virando-se para olhar meu

pai. “O quê?”, fez meu pai, virando-se para olhar minha mãe.

“O único homem a quem obedeci foi meu pai, quando eu era

criança”, ela quase gritou, encarando o meu atordoado pai. “Você

não é meu pai, e eu não sou uma criança!”

O tempo estava passando. Meu pai deveria recitar versos da

Bíblia sobre a submissão feminina e lutar pela ideia sexista? Sair

rastejando e procurar outra mulher que fosse submissa? Meu pai

fez uma escolha diferente: a única que poderia fazer seu

casamento durar mais de quatro décadas. Lentamente, ele

fechou a boca, devolveu os olhos às órbitas e ofereceu uma

solução justa.

“Que tal: vocês estão dispostos a obedecer um ao outro?”,

perguntou.

Minha mãe assentiu. Ela gostou do som de “um ao outro”,

integrando o conceito cristão de submissão com a equidade

feminista. Meus pais escreveram seus votos de matrimônio. O

pastor Quinby os casou.

 

ficado surpreso com a resistência de

minha mãe. Já fazia algum tempo, ela estava repensando o

sexismo cristão. Depois do casamento, minha mãe participou de

“conferências de conscientização” para mulheres cristãs no Queens. O que Kimberly Springer chama de “movimento

feminista negro” tinha finalmente atravessado as barreiras

sexistas das igrejas cristãs. Feministas negras rejeitaram o

conceito patriarcal negro prevalente de que o papel principal das

mulheres negras era se submeter aos seus maridos e produzir

mais bebês negros para a “nação negra”. Por meio de grupos

como a Aliança de Mulheres Negras (1970) e a Organização

Feminista Negra Nacional (1973), por meio de reuniões políticas

de mulheres negras em grupos de poder negro e de liberação de

mulheres, feministas negras lutaram contra o sexismo em

espaços negros e racismo nos espaços das mulheres. Elas

desenvolveram seus próprios espaços e uma consciência

feminista negra para a liberação de mulheres negras, para a

liberação da humanidade.

Ativistas homossexuais negros também têm sido

marginalizados depois de lançar o movimento de liberação gay

por meio da rebelião Stonewall, em Manhattan, em 1969.

Enfrentando a homofobia em espaços negros e o racismo em

espaços homossexuais, os homossexuais antirracistas criaram

seus próprios espaços. Talvez o espaço homossexual mais

antirracista da época tenha sido também o espaço feminista mais

antirracista da época. No verão de 1974, um grupo de mulheres

negras de Boston separou-se da Organização Feminista Negra

Nacional para formar o Coletivo Combahee River, que recebeu

esse nome por causa da ação liderada por Harriet Tubman para

libertar 750 negros escravizados às margens do rio Combahee.

Eles reviveram as políticas não adulteradas da general Tubman.

Em 1977, eles partilharam suas opiniões, em uma declaração

elaborada por Barbara Smith, Demita Frazier e Beverly Smith. A

Declaração do Coletivo Combahee River incorporou a liberação

dos homossexuais, o feminismo e antirracismo, talvez como

nenhuma outra declaração na história norte-americana. Elas não

queriam que mulheres negras fossem vistas como inferiores ou

superiores a nenhum outro grupo. “Ser reconhecidas como seres

humanos, igualmente humanas, é suficiente.

“Inicialmente, nossas políticas se originaram da crença

partilhada de que mulheres negras são inerentemente importantes”, escreveram. “Nenhum outro movimento

ostensivamente progressista considerou nossa opressão

específica como prioritária… Compreendemos que as únicas

pessoas que se importam o suficiente conosco para trabalhar

consistentemente por nossa liberação somos nós.” Maria

Stewart, a primeira feminista dos Estados Unidos conhecida por

discursar em público para uma plateia mista, considerou e

priorizou a opressão das mulheres negras em seus discursos

ousados no início dos anos de 1830 em Boston. Assim como

Sjourner Truth e Frances Harper, antes e depois da Guerra Civil.

Assim como Ida B. Wells e Anna Julia Cooper, no início dos anos

1900. Assim como Frances Beal, que audaciosamente proclamou

em 1968 que “as mulheres negras dos Estados Unidos podem

justificadamente ser descritas como ‘escravas de um escravo’,

vítimas do “duplo perigo” do racismo e do sexismo. Esse

documento sobre as posições se juntou a uma antologia de

peças em 1970 por mulheres como Nikki Giovanni, Audre Lorde

e uma jovem prodígio do Mississippi chamada Alice Walker. A

editora Toni Cade Bambara, uma acadêmica de literatura da

Rutgers, garantiu que The Black Woman [“A Mulher Negra”, em

tradução livre] refletisse melhor “as preocupações da mulher

contemporânea negra deste país”, incluindo “mostrar a verdade

sobre a matriarca e perversa negra vadia”.

Mas 1991 — o ano em que Anita Hill acusou o indicado à

Suprema Corte dos EUA, Clarence Thomas, de assédio sexual

— provou ser o ano crucial para estudiosas feministas negras.

Elas construíram uma terminologia que deu nome à opressão

específica enfrentada pelas mulheres negras, que feministas

negras de Maria Stewart, Anna Lulia Cooper a Angela Davis

vinham identificando há mais de um século. Nos bastidores do

que Thomas surpreendentemente chamou de “linchamento high-

tech” e a defesa de linha de frente das feministas negras de Hill,

a erudita afro-holandesa Philomena Essed trabalhou em um

projeto que ajudaria a definir o que estava acontecendo. Ela

publicou suas reflexões sobre as entrevistas detalhadas que

realizou com mulheres negras nos Estados Unidos e na Holanda

em Undestanding Everyday Racism [“Entendendo o Racismo do Dia a Dia”, em tradução livre]. “Ao discutir as experiências das

mulheres negras, trata-se de sexismo ou racismo?”, perguntou

Essed. “Esses dois conceitos se entrelaçam intimamente e em

certas circunstâncias se combinam em um fenômeno híbrido.

Assim, é útil falar de racismo de gênero .”

Em 1991, a crítica teórica de raças da UCLA, Kimberlé Williams

Crenshaw, explorou ainda mais essa noção de

“interseccionalidade”. Naquele ano, ela publicou “Mapeando as

Margens: Interseccionalidade, Políticas de Identidade e Violência

Contra Mulheres Não Brancas” no Stanford Law Review, com

base em seu discurso na Terceira Conferência de Mulheres Não

Brancas e a Lei, em 1990. “Os esforços feministas para politizar

experiências de mulheres e os esforços antirracistas para

politizar as experiências de pessoas não brancas frequentemente

continuaram como se as questões e as experiências que cada

uma detalha ocorressem em terrenos mutuamente excludentes”,

teorizou Crenshaw. “Embora o racismo e o sexismo facilmente se

interseccionem nas vidas de pessoas reais, eles raramente o

fazem em práticas feministas e antirracistas.”

O poder racista (e sexista) distingue raças-gêneros e grupos

raciais (ou de gênero) na intersecção de raça e gênero. As

mulheres são um gênero. Pessoas negras são uma raça.

Quando identificamos mulheres negras, estamos identificando

uma raça-gênero. Uma política sexista produz desigualdades

entre mulheres e homens. Uma política racista produz

desigualdades entre grupos raciais. Quando uma política produz

desigualdades entre raças-gêneros, é racismo de gênero.

Ser antirracista é rejeitar não só a hierarquia de raças, mas a de

raças-gêneros. Ser feminista é rejeitar não só a hierarquia de

gêneros, mas a de raças-gêneros. Ser um verdadeiro antirracista

é ser feminista. Ser uma verdadeira feminista é ser antirracista.

Ser antirracista (e feminista) é equiparar as diferentes raças-

gêneros, é encontrar as raízes das desigualdades entre raças-

gêneros iguais nas políticas de racismo de gênero.

O racismo de gênero provocou o crescente número de

esterilizações involuntárias de mulheres negras por médicos

eugenistas — 200 mil casos em 1970, subindo a 700 mil em 1980. O racismo de gênero produz a situação atual de mulheres

negras com alguma instrução superior ganhando menos que

mulheres brancas com apenas o ensino médio; mulheres negras

tendo que buscar instrução especializada para ganhar mais que

mulheres brancas apenas com diplomas de graduação; e a

riqueza média de mulheres brancas solteiras ser de US$ 42 mil

comparados a US$100 para mulheres negras solteiras. Mulheres

indígenas e negras experimentam níveis de pobreza mais

elevados que qualquer outro grupo de raça-gênero. Mulheres

negras e latinas ainda ganham menos, enquanto homens

brancos e asiáticos têm salários maiores. Mulheres negras têm

probabilidade três a quatro vezes maior de morrer de causas

relativas à gravidez do que mulheres brancas. Uma mulher negra

com pós-graduação tem maior probabilidade de perder o bebê do

que uma mulher branca com ensino médio incompleto. Mulheres

negras continuam tendo probabilidade duas vezes maior de ser

encarceradas do que mulheres brancas.

O racismo de gênero impacta mulheres brancas e grupos de

homens não brancos, quer eles o percebam ou não. A resistência

de mulheres brancas ao feminismo negro e à teoria

interseccional tem sido autodestrutiva, evitando que as

resistentes compreendam sua própria opressão. Em alguns

casos, a intersecção de racismo e sexismo oprime as mulheres

brancas. Por exemplo, noções sexistas de “mulheres reais” como

fracas e noções racistas de mulheres brancas como a mulher

idealizada se interseccionam para produzir a noção racista de

gênero de que o máximo da feminilidade é a mulher branca frágil.

Esse é o racismo de gênero que fez com que milhões de homens

e mulheres detestassem a mulher branca forte candidata à

presidência de 2016, Hillary Clinton. Ou, para dar outro exemplo,

o oposto de racismo de gênero da mulher negra não virtuosa

hiperssexualizada é a mulher branca virtuosa assexual, um

constructo racial que limitou e controlou a sexualidade da mulher

branca (enquanto manifestamente mancha a sexualidade de

mulher negra como não estuprável). O interesse do homem

branco em linchar estupradores negros de mulheres brancas se

deve tanto ao desejo de controlar a sexualidade das mulheres brancas quanto a sexualidade dos homens negros.

Patriarcalistas brancos racistas estavam recriando a era da

escravatura, tornando ilícito que mulheres brancas coabitassem

com homens negros ao mesmo tempo em que homens racistas

brancos (e negros) estupravam mulheres negras. A era da

escravidão permanece, em meio a gritos vãos de orgulho da raça

sufocados pelos gritos das sexualmente atacadas. O racismo de

gênero fundamenta o pensamento de que, quando alguém

defende agressores brancos como Trump e Brett Kavacaugh,

está defendendo as pessoas brancas; quando alguém defende

agressores negros como Bill Cosby e R. Kelly, está defendendo

pessoas negras.

A resistência masculina ao feminismo negro e à teoria da

interseccionalidade tem sido igualmente autodestrutiva, evitando

que os que resistem compreendam sua opressão específica. Em

alguns casos, a intersecção entre racismo e sexismo oprime

homens não brancos. Homens negros reforçam o conceito da

opressão reforçando certas ideias sexistas. Por exemplo, noções

sexistas de “homem real” como forte e noções racistas de

homens negros como não realmente homens se interseccionam

e produzem o racismo de gênero do homem negro fraco, inferior

ao máximo da masculinidade, o homem branco forte.

Noções sexistas de homens como naturalmente mais perigosos

do que as mulheres (visto que as mulheres são consideradas

naturalmente frágeis, necessitando de proteção) e noções

racistas de pessoas negras como mais perigosas do que

pessoas brancas se interseccionam e produzem o racismo de

gênero do hiperperigoso homem negro, mais perigoso do que o

homem branco, a mulher negra e (o ápice da fragilidade

inocente) a mulher branca. Nenhuma defesa é mais sólida do

que as frágeis lágrimas da inocente feminilidade branca.

Nenhuma acusação é mais sólida do que o caso da

inerentemente culpada masculinidade negra. Essas ideias de

racismo de gênero transformam todos os inocentes negros em

criminosos e todas as criminosas brancas como Casey Anthony,

mulher branca da Flórida que o júri absolveu, contra todas as

provas, de matar sua filha de três anos. Mulheres brancas se saem bem e homens negros passam anos em prisões por

condenações injustas. Depois que as prisões de homens negros

caíram 24% entre 2000 e 2015, eles ainda tinham probabilidade

6 vezes maior do que homens brancos, 25 vezes maior que

mulheres negras e 50 vezes maior que mulheres brancas de

serem encarcerados. Homens negros criados no topo da faixa de

1% de milionários têm tanta probabilidade de serem

encarcerados quanto homens brancos criados em famílias com

renda de US$ 36 mil.

 

“ antirracistas contemporâneos deixaram

de considerar identidades interseccionais, como mulheres não

brancas”, escreveu Kimberlé Crenshaw em 1991. Todos os

grupos raciais são uma coleção de identidades interseccionais

diferenciadas por gênero, sexualidade, classe, etnia, cor de pele,

nacionalidade e cultura, entre uma série de outros

identificadores. Mulheres negras foram as primeiras a reconhecer

sua identidade interseccionada. Feministas negras foram as

primeiras a teorizar a intersecção de duas formas de intolerância;

sexismo e racismo. A teoria da interseccionalidade hoje confere a

toda a humanidade a capacidade de compreender a opressão

interseccional de suas identidades, de latinos pobres a homens

negros, a mulheres brancas, a indígenas lésbicas, a

transgêneros asiáticos. A teoria para mulheres negras é uma

teoria para a humanidade. Não é de surpreender que feministas

negras tenham dito desde o início que, quando a humanidade

encarar a liberdade das mulheres negras com seriedade, a

humanidade se tornará séria sobre a própria liberdade.

Identidades negras interseccionais estão sujeitas ao que

Crenshaw descreveu como a intersecção do racismo e outras

formas de intolerância, como o etnocentrismo, colorismo,

sexismo, homofobia e transfobia. Minha jornada para ser

antirracista primeiro reconheceu a interseccionalidade do meu

racismo étnico e então meu racismo corporal, e depois meu

racismo cultural, e depois meu racismo de cor, e então meu

racismo de classe, e, quando entrei no curso de pós-graduação,

meu racismo de gênero e meu racismo homossexual.