Como Ser Antirracista

Ibram X. Kendi · Capítulo 18 de 21

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Como Ser Antirracista

Sexualidade

CAPÍTULO 15

 

SEXUALIDADE

 

RACISMO QUEER: Um conjunto poderoso de políticas

racistas que leva à desigualdade entre raça-sexualidade,

substanciada por ideias racistas sobre raça-sexualidade.

 

ANTIRRACISMO QUEER: Um conjunto poderoso de políticas

antirracistas que leva à igualdade entre raça-sexualidade,

substanciada por ideias antirracistas sobre raça-sexualidade.

 

O ( ) distingue grupos de raça-

sexualidade, raciais (ou sexuais) na intersecção da raça e

sexualidade. Homossexuais são uma sexualidade. Latinos

são uma raça. Homossexuais latinos são raça-sexualidade. Uma

política homofóbica produz desigualdades entre heterossexuais e

homossexuais. Uma política racista produz desigualdades entre

grupos raciais. O racismo queer produz desigualdades entre

raças-sexualidades. Ele gera uma situação em que 32% das

crianças criadas por casais negros de pessoas do mesmo sexo

vivem na pobreza, comparadas a 14% de crianças criadas por

casais brancos de pessoas do mesmo sexo, 13% de crianças

criadas por negros heterossexuais e 7% de crianças criadas por

brancos heterossexuais. Para crianças criadas por casais de

mulheres que vivem na pobreza, a disparidade é igualmente

ampla. Essas crianças de casais homossexuais negros têm

maior probabilidade de viver na pobreza, porque seus pais têm

mais probabilidade de serem pobres do que casais negros e

brancos heterossexuais.

A homofobia não pode ser separada do racismo. Eles têm sido

interseccionados há séculos. O médico inglês Havelock Ellis é

conhecido por popularizar o termo “homossexual”. Em seu

primeiro tratado médico sobre homossexualidade, Studies in the Psychology of Sex (1897) [“Estudos sobre a Psicologia do Sexo”,

em tradução livre], ele escreveu sobre “a questão do sexo — com

as questões raciais que repousam nela”. Ele considerou a

homossexualidade uma anormalidade fisiológica congênita, o

mesmo que pensava sobre a criminalidade na época. Ellis

adorava o pai da criminologia, o médico italiano Cesare

Lombroso, que alegava que os criminosos não são criados, mas

nascem, e que pessoas não brancas são criminosas por

natureza. Em 1890, Ellis publicou um popular resumo dos

escritos de Lombroso.

Ellis passou vários anos defendendo a não criminalização da

homossexualidade branca. Seguindo estudiosos racistas, Ellis

usou a anatomia comparativa de corpos femininos para

evidenciar as diferenças biológicas entre as sexualidades. “No

que se refere aos órgãos sexuais, parece possível”, escreveu

Ellis, “falar mais definitivamente de mulheres invertidas do que

homens invertidos”. Na época, médicos racistas compararam o

clitóris “unido” das “mulheres ariano-americanas” que “ocorre em

civilizações superiores” e o clitóris “livre” “em negras” que ocorre

em “animais altamente domesticados”. Médicos homofóbicos

supuseram que lésbicas “invertidas” “terão um clitóris

anormalmente proeminente em praticamente todas as

circunstâncias”, escreveu o médico prisional da cidade de Nova

York, Perry M. Lichtenstein. Ideias racistas que sugerem que

pessoas negras são mais hipersexuais do que pessoas brancas

e ideias homofóbicas que sugerem que homossexuais são mais

hipersexuais do que heterossexuais se interseccionam para

produzir o racismo homossexual de raça-sexualidade mais

hipersexual, o negro homossexual. Sua marca biológica

imaginada: o clitóris anormalmente proeminente que “ocorre

especialmente em mulheres não brancas”, acrescentou

Lichtenstein.

 

melhor amigo na Temple. Nós dois tínhamos a

pele marrom, usávamos dreads e tínhamos saído de orgulhosas

HBCUs. Eu geralmente fazia amizade com pessoas

descontraídas e calmas como ele. Ele geralmente fazia amizade com pessoas ousadas e tolas como eu. Ambos éramos curiosos

por natureza, mas Weckea era a pessoa mais inquisitiva que

conheci. Ele queria saber tudo, e quase conseguia. E a única

coisa que ele parecia gostar tanto quanto uma boa ideia era uma

boa risada. Ele era alguns anos mais velho do que eu, e não

demorou para que eu admirasse seu intelecto, no jeito que eu

admirava Kaila e Yaba.

Chegamos à Temple no mesmo grupo — Weckea, eu e outra

estudante, Raena. Estávamos sempre juntos.

Em um raro dia em que Raena e eu almoçávamos juntos sem

Weckea, estávamos sentados ao ar livre, perto do campus,

provavelmente apreciando a agradável chegada da primavera,

acredito que em 2006. Ambos estávamos prestes a comer. Mas

primeiro as fofocas, conversa fiada, e então, do nada: “Você sabe

que o Weckea é gay, certo?” Ela mal me olhou enquanto falava.

Seus olhos estavam fixos na comida que devorava.

“Não, eu não sabia,” respondi, com a voz incerta.

“Bem, tudo bem se ele não lhe contou, certo?”

“Certo.” Desviei o olhar. Carros buzinavam. Pessoas

passeavam. Uma ambulância estava se aproximando. Era para

mim?

Olhei para Raena, cabeça baixa, comendo. Imaginando por que

ela tinha me contado isso. Não vi um rosto amistoso de

preocupação enquanto me remexia na cadeira. Vi um vazio, se

não um ar de satisfação. Estaria ela tentando terminar minha

amizade com Weckea?

Nenhum de nós tinha muito a dizer depois disso. Ela cumpriu

sua missão. A homossexualidade de Weckea fazia sentido, agora

que pensava no assunto. Ele nunca tinha falado sobre namorar

alguma garota. Quando lhe perguntei, ele mudou de assunto. Eu

atribuí o fato ao seu forte senso de privacidade. Ele descrevia

mulheres como bonitas ou nem tanto, mas nunca de uma forma

sexual, o que atribuí ao seu conservadorismo. Ele não era tão

conservador, afinal.

Eu pensava em homens negros gays tendo sexo sem proteção

o tempo todo. Mas Weckea não parecia louco por sexo ou

descuidado. Pensei nessa hipersexualidade e descuido que fazia com que tantos homens negros gays contraíssem HIV. Pensei

errado. Homens negros gays têm menor probabilidade de fazer

sexo sem proteção do que homens brancos gays. Eles têm

menos probabilidade de usar drogas como poppers ou cristal

durante o sexo, o que aumenta o risco de contrair HIV.

Eu já tinha conhecido outros homens negros gays no FACES,

um grupo de modelos ao qual me juntei na FAMU. Mas os

homens negros gays no grupo (ou, melhor ainda, os que eu

imaginei serem gays) tinham o que pensei ser um quê feminino:

o jeito de andar, a constituição física, como se esforçavam para

me cumprimentar tocando as mãos. Eles acionavam o meu

gaydar. Tudo no grupo de modelos acionava o gaydar dos meus

amigos. Meu trabalho de modelo terminou sendo a única coisa

sobre que meus amigos zoavam mais do que meus olhos

alaranjados. Mas eles achavam que olhos alaranjados também

eram “gay”.

Supus que homens negros gays exibissem feminilidade. Não

sabia que alguns homens gays, como Weckea, exibiam

masculinidade e realmente preferem homens que exibem

feminilidade como parceiros. Não sabia (e feministas como Kaila

e Yaba estavam me ensinando) sobre o gênero ser uma

performance autêntica; que o jeito como homens e mulheres

costumam agir não está ligado à sua biologia; e que homens

podem autenticamente desempenhar feminilidade com tanta

eficiência quanto mulheres podem autenticamente desempenhar

masculinidade. Autenticamente, querendo dizer que eles não

estão atuando, como a noção transfóbica supõe. Eles estão

sendo quem são, desafiando as convenções de gênero da

sociedade. Aprendi isso, de uma vez por todas, por meio de outra

boa amizade em Temple, com uma lésbica bofinho negra do

Texas. Eu conversava com Monica sobre mulheres de um jeito

que não podia fazer com Weckea. Nós sentíamos atração pelas

mesmas mulheres. Quando passamos a brincar e contar nossas

experiências românticas, minhas conversas com Monica não

pareciam muito diferentes das conversas com meus amigos

heterossexuais da FAMU.

introspectivos. Por que Weckea

não me contou? Por que ele não se sentia à vontade em partilhar

sua sexualidade comigo? Talvez ele pressentisse minha

homofobia — na verdade, ele provavelmente a percebeu em

minha retórica. Ele ouvia com atenção. Parecia nunca esquecer

nada.

Em anos subsequentes, Weckea se orgulhava em exibir seu

“gaydar”, apontando as pessoas dentro do armário ou enrustidas

na Temple. Mas Weckea era igualmente competente para

identificar homofobia e tomar as devidas precauções. Devia estar

se protegendo — e à nossa nova amizade — da minha

homofobia. Agora eu tinha uma escolha: minha homofobia ou

meu melhor amigo. Não poderia ter os dois por muito tempo.

Escolhi Weckea e o início de nossa longa amizade. Escolhi o

início do resto de minha permanente luta contra a homofobia

originada em minha criação, a permanente luta de ser um

antirracista queer.

O antirracismo queer iguala todas as raças-sexualidades,

lutando para eliminar as desigualdades entre as raças-

sexualidades. Não podemos ser antirracistas se formos

homofóbicos ou transfóbicos. Devemos continuar a “afirmar que

todas as vidas negras importam”, como o cofundador do

movimento Black Live Matters, Opal Tometti, disse certa vez.

Todas as vidas negras incluem as pobres mulheres negras

transgênero, talvez as mais violadas e oprimidas de todos os

grupos interseccionais. A expectativa média de vida de uma

mulher negra transgênero nos Estados Unidos é de 35 anos. A

violência racial que enfrentam, a transfobia que enfrentam

enquanto tentam viver livremente é inimaginável. Comecei a

aprender sobre sua luta de liberdade a partir de histórias

pessoais da ativista transgênero Janet Mock. Mas me abri para

sua luta naquele dia em que escolhi salvar minha amizade com

Weckea.

Sou um negro heterossexual cisgênero — “cisgênero” significa

que minha identidade de gênero corresponde ao sexo com que

nasci, em contraste com pessoas transgênero, cuja identidade de

gênero não corresponde ao sexo com que nasceram. Ser antirracista queer é compreender os privilégios de ser cisgênero,

de minha masculinidade, de minha heterossexualidade, de suas

intersecções. Ser antirracista queer é servir de aliado para as

pessoas transgênero, as pessoas intersexo, a mulheres, as não

conformes de gênero, as homossexuais, as suas intersecções, o

que significa ouvir, aprender e ser levado por suas ideias de

igualização, por suas campanhas em prol de políticas igualitárias,

por seu poder de luta por oportunidades iguais. Ser antirracista

queer é perceber que as políticas que protegem mulheres negras

transgênero são tão essencialmente importantes quanto as

políticas que protegem a ascensão política de homens brancos

homossexuais. Ser antirracista queer é ver a nova onda de leis

de liberdade religiosa e identidade eleitoral em estados

republicanos como tolhedora de direitos de pessoas queer. Ser

antirracista queer é ver a homofobia, o racismo e o racismo queer

— não a pessoa queer, não o espaço queer — como o problema,

como anormal, como não natural.

 

estavam lá — Yaba e Kaila —

sentadas a uma das mesas perto da entrada do Gladfelter Hall,

às vezes com Danielle e Sekhmet, colegas do curso. Geralmente

encontrava essas mulheres em um intervalo para um cigarro ou

almoço ou jantar do trabalho em conjunto no laboratório de

informática do Gladfelter. Elas estavam concluindo seus

doutorados em estudos afro-americanos, chegando ao fim de

uma jornada que eu estava começando na Temple.

Sempre que Kaila e Yaba estavam sentadas ali — sempre que

elas estavam em qualquer lugar — sua presença era

inconfundível, memorável e inspiradora. Eu poderia ir à guerra

com elas ao meu lado. Aprendi com elas que não sou um

defensor das pessoas negras se não defender claramente

mulheres negras, se não defender claramente negros queer. As

duas exerceram sua influência nos eventos de nosso

departamento. Quando nosso departamento trouxe palestrantes

para um evento público, elas vieram. Quando alunos da pós-

graduação partilharam suas pesquisas em um evento, elas

vieram. Quando houve uma conferência de estudos negros fora da cidade, lá estavam elas. Quando estavam presentes, sempre

que surgiam ideias patriarcais, ideias homofóbicas ou ideias

racistas, digamos que elas faziam questão de avançar sobre elas

como piranhas em busca da refeição diária. Eu lhes assistia,

perplexo, admirado com seus ataques intelectuais. Eu os chamo

de ataques, mas na verdade eram defesas, defendendo a

feminilidade negra e a humanidade dos negros homossexuais.

Elas eram respeitosas e controladas se o vitimizador era

respeitoso e controlado com elas. Mas eu os chamo de ataques

porque me sentia pessoalmente atacado. Elas atacavam meu

racismo de gênero em relação às mulheres negras, meu racismo

queer em relação aos negros queer.

Desejei nunca cair em suas garras.

Li avidamente todos os autores que elas mencionavam em suas

conversas públicas e em nossos bate-papos privados. Devorava

Audre Lorde, E. Patrick Johnson, bell hooks, Joan Morgan,

Dwight McBride, Patricia Hill Collins e Kimberlé Crenshaw como

se minha vida dependesse disso. Minha vida dependia disso. Eu

queria superar meu racismo de gênero, meu racismo queer. Mas

tinha que estar disposto a fazer pelas mulheres e homossexuais

negros o que eu vinha fazendo por homens negros e

heterossexuais negros, o que significava antes de tudo aprender

mais — e então defendê-los como meus heróis tinham feito.

Elas eram a escuridão que me assustava. Eu queria fugir

sempre que saía do elevador, virava a esquina e via Yaba e

Kaila, sempre que me aproximava do prédio e elas estavam lá.

Elas jogavam sorrisos e cumprimentos calorosos quando eu

passava não depressa o suficiente, obrigando-me a

desajeitadamente retribui-los. Às vezes, elas me paravam para

um bate-papo. Com o passar do tempo elas permitiram que eu

participasse de conversas mais sérias, deixando-me angustiado.

É melhor nos desafiarmos obrigando-nos a ficar diante de

pessoas que nos intimidam com seu brilhantismo e críticas

construtivas. Não pensei nisso. Queria fugir. Elas não me

deixavam fugir e hoje sou grato por isso.

Essas mulheres eram tudo que não deveriam ser, em minha

mente patriarcal e homofóbica. Pessoas queer são orientadas por sexo, não ideias. Pessoas queer são anormais. Feministas

odeiam homens. Feministas querem supremacia feminina. Mas

essas feministas negras obviamente gostavam de mim, um

homem. Elas eram tão ideológicas quanto eram sexuais e

normais. Elas não falavam de mulheres dominando os homens.

Falavam de igualdade, liberdade de gênero, mutualidade,

complementaridade e poder. Suas piadas e ataques não

conheciam gênero ou sexualidade. Quando muito, eram mais

rígidas em relação às mulheres. Elas eram mais duras com

queers como Raena. Elas sacavam pessoas como ela antes de

Weckea e eu.

Ninguém as incitava mais do que “mulheres patriarcais” —

realmente mulheres patriarcais brancas se escondendo atrás de

patriarcas brancos racistas. Eu só consigo imaginar o que elas

pensaram anos depois, observando Kayla Moore defendendo

seu marido, o candidato ao senado norte-americano pelo

Alabama, Roy Moore, acusado de pedofilia e assédio sexual, a

quem perguntaram no decorrer da campanha em 2017 quando a

América tinha sido grande. “Eu acho que era grande na época

em que as famílias eram unidas — apesar de termos tido a

escravidão”, disse ele. “Nossas famílias eram fortes, nosso país

tinha direção.” Isso foi muito antes de termos tantas mulheres

atacando publicamente as mulheres que denunciavam #MeToo

(eu também). Mulheres patriarcais, como um termo, não faziam

sentido para mim na época, como o termo “homossexuais

homofóbicos”. Somente homens podem ser patriarcais, sexistas.

Somente heterossexuais podem ser homofóbicos. O feminismo

homossexual radical negro daquelas duas mulheres separaram

homofóbico de heterossexual, sexista de homens e feminista de

mulheres, como eu mais tarde separei racista de pessoas

brancas e antirracista de pessoas negras. Elas tinham um

problema com homofobia, não com heterossexuais. Elas tinham

um problema com patriarcado, não com homens. Crucialmente,

sua caçada a todos os homofóbicos, não importa sua identidade

sexual, mostrou-me que ideias, políticas e poder homofóbicos

eram seu problema fundamental. Elas falavam de pessoas queer

que defendiam a homofobia com a mesma veemência com que falavam sobre heterossexuais construindo um mundo de amor

queer. Falavam de mulheres que defendiam o sexismo com tanta

intensidade quanto homens construindo um mundo feminista.

Talvez elas tivessem a mim em mente. Porque me revelaram

esse mundo feminista onde o amor homossexual está casado

com o amor heterossexual, em harmonia. Mas esse mundo me

assustava, assim como elas. Iluminado por elas, contudo, eu

aprendi — e acabei querendo ajudá-las a criar esse novo mundo.

Sou eternamente grato pelo discurso negro pós-

graduado/estudante ter sido dominado por negras queer

feministas e não por negros patriarcais homofóbicos. Elas foram

meus primeiros modelos de feminismo negro, de antirracismo

queer, de feminismo antirracista. Elas reconheceram meu

patriarcado homofóbico e me obrigaram a reconhecê-lo. Sua

força me obrigou a ir além, desesperado que eu estava em ficar

fora do caminho de seus ataques, um desespero que se

transformou em curiosidade sobre o feminismo negro e a teoria

queer em si, uma curiosidade que se transformou em desejo de

ser um antirracista de gênero, de ser um antirracista queer, de

não falhar com as pessoas negras — todas as pessoas negras.