Como Ser Antirracista
Espaço
CAPÍTULO 13
ESPAÇO
RACISMO DE ESPAÇO: Um conjunto poderoso de políticas
racistas que leva à desigualdade de recursos entre espaços
racializados ou à eliminação de certos espaços racializados,
substanciado por ideias racistas sobre espaços racializados.
ANTIRRACISMO DE ESPAÇO: Um conjunto de políticas
antirracistas poderosas que leva à igualdade racial entre
espaços racializados integrados e protegidos, substanciado
por ideias antirracistas sobre espaços racializados.
C espaço de estudos afro-americanos de
espaço negro — afinal, ele foi gerido principalmente por
corpos negros, pensamentos negros, culturas negras e
histórias negras. Naturalmente, os espaços na Temple University
geridos principalmente por corpos brancos, pensamentos
brancos, culturas brancas e histórias brancas não eram rotulados
de brancos. Eles escondiam a branquitude de seus espaços
atrás do véu da cegueira de cores da pele.
A pessoa mais proeminente em nosso espaço negro na Temple
transpassava esse véu implícito desde 1970, quando imprimiu o
primeiro Jornal de Estudos Negros . Molefi Kete Asante, que, em
1908, publicaria a obra de referência Afrocentricity
[“Afrocentricidade”, em tradução livre], criticando ideias
assimilacionistas e convocando pessoas negras afrocêntricas.
Segundo ele, havia muitas maneiras de ver o mundo. Contudo,
um grande número de pessoas negras “observava” o mundo a
partir de um “centro” europeu, que foi considerado como o único
ponto de onde ver o mundo — por meio de culturas europeias
disfarçadas de culturas do mundo, de religiões europeias
disfarçadas de religiões do mundo, de história europeia disfarçada de história do mundo. A rejeição do particularismo
europeu como universal é o primeiro estágio de nossa futura luta
intelectual”, escreveu o professor Asante. Em 1987, ele criou o
primeiro programa de doutorado em estudos afro-americanos do
país na Temple para travar essa luta, o programa em que
ingressei 20 anos depois
O braço direito de Asante em nosso departamento era a
professora Ama Mazama. Originária de Guadalupe e com
doutorado em linguística pela Sorbonne, em Paris, a professora
Mazama provavelmente era mais conhecida fora dos Estados
Unidos. Sem se incomodar, ela gostou de vir para os Estados
Unidos falar de sua pesquisa sobre o paradigma afrocêntrico, a
religião africana, a cultura e as línguas caribenhas, e o ensino
domiciliar afro-americano. Ela gostava das tradições africanas do
fundo da alma. E a mesma alma detestava ver pessoas africanas
cultuando tradições europeias. “Pretos”, dizia ela, aborrecida.
A professora Mazama falava com a mesma suavidade da túnica
africana que cobria seu corpo pequeno. Eu me lembro de ela
debater publicamente com um animado Maulana Karenga,
fundador do Kwanzaa 1 , com a mesma tranquilidade com que
falava com seus filhos que teriam aulas em casa mais tarde. Ela
me ensinou que o poder da declamação está no poder da palavra
proferida.
Ela fazia críticas do mesmo modo como as recebia:
serenamente. Recebia as divergências ideológicas com pessoas
queridas quase com prazer. Não concordávamos em tudo, mas
partilhávamos um grande amor pelo povo africano e pelo
enfrentamento acadêmico. Mazama era intelectualmente mais
confiante, destemida e clara do que qualquer outra pessoa que
conheci. Eu lhe pedi para ser minha orientadora de tese e ela
aceitou. Desejei que pelo menos algumas de suas qualidades
intelectuais passassem para mim.
Em meu primeiro curso com Mazama, ela falou sobre a
afirmação de Asante de que a objetividade era, de fato, uma
“subjetividade coletiva”. Concluiu: “É impossível ser objetivo.”
Era o tipo de ideia simples que mudou minha visão do mundo
imediatamente. Fazia todo o sentido para mim, enquanto eu lembrava as escolhas subjetivas que tinha feito como aspirante a
jornalista e acadêmico. Todavia, se a objetividade estava morta,
eu precisava de um substituto. Levantei a mão como um aluno de
ensino fundamental.
“Sim?”
“Se não pudermos ser objetivos, o que devemos tentar fazer?”
Ela me olhou enquanto pensava no que dizer. Uma mulher de
poucas palavras, não demorou muito.
“Simplesmente diga a verdade. É isso que devemos tentar
fazer. Dizer a verdade.”
- ocupavam parte do oitavo andar do
Gladfelter Hall na Temple University, que estoicamente fitava seu
imponente edifício gêmeo, Anderson Hall. Os dois arranha-céus
cheios de professores de renda média e alunos brancos se
elevava sobre os quarteirões da zona norte de Filadélfia
pontilhados de pessoas negras de baixa renda. Os seguranças
mal pagos da Temple pediam a todos que entravam no Gladfelter
Hall ou outro prédio do campus que mostrassem seus crachás da
universidade para evitar que esses dois mundos se
encontrassem. Brancos racistas viam perigo no “gueto” que
andava pelo campus. Eles se preocupavam em defender seu
espaço branco dentro do espaço negro na zona norte de
Filadélfia. Mas não conseguiam entender por que nos
preocupávamos em proteger nosso espaço negro dentro do
espaço branco na Temple. Eles rotularam os estudos negros de
“gueto”, como meu bairro na zona norte de Filadélfia, mas
insistiram que era um gueto criado por nós.
O caráter que definia o “gueto escuro” do Harlem, onde
Kenneth Clark morou e estudou no início dos anos 1960, e da
zona norte da Filadélfia, onde eu morei e vivi quatro décadas
depois, era a “doença insidiosa”, segundo Clark, a “delinquência
juvenil” e a “violência disseminada” — características que
existem em diferentes formas em todos os espaços racializados.
A ideia de um bairro negro perigoso é o conceito racista mais
nocivo. E é poderosamente enganadora. Por exemplo, pessoas
se desviam e estigmatizam bairros negros como ruas tomadas pelo crime onde se pode ter a carteira roubada. Mas desejam
mudar para bairros sofisticados brancos, onde vivem criminosos
brancos do colarinho branco e “banqsters”, como Thom
Hartmann os chama, que podem roubar todas as suas
economias. Os norte-americanos perderam trilhões durante a
Grande Recessão, que foi causada, em grande parte, por crimes
financeiros de uma enormidade assustadora. Estima-se que as
perdas provocadas por crimes de colarinho branco estejam entre
US$300 e US$600 bilhões por ano, segundo o FBI. Em
comparação, perto do auge do crime violento em 1995, o FBI
informou que os custos combinados de roubos e assaltos foi de
US$4 bilhões.
Norte-americanos racistas estigmatizam bairros negros inteiros
como locais de homicídios e violência mortal, mas não associam
da mesma forma vizinhanças brancas ao desproporcional
número de homens brancos que se envolvem em tiroteios em
massa. E eles nem mesmo veem a violência diária que ocorre
nas estradas que levam a maioria dos brancos moradores de
subúrbios a suas casas. Em 1986, durante a violenta epidemia
de crack, morreram 3.380 mais norte-americanos em acidentes
de trânsito relacionados ao álcool do que por homicídios. Isso
não quer dizer que espaços brancos ou espaços negros são mais
ou menos violentos — não tem a ver com criar uma hierarquia. A
questão é que, quando nos libertamos do racismo de espaço que
desracializa, normaliza e eleva espaços de elite brancos,
enquanto faz o contrário aos espaços negros, encontraremos o
bem e o mal, violência e não violência, em todos os espaços, não
importa se pobres ou ricos, negros ou não negros. Não importa o
efeito exercido pelos gêmeos siameses.
Assim como o poder racista racializa as pessoas, racializa o
espaço. O gueto. O centro da cidade. O terceiro mundo. Um
espaço é racializado quando um grupo racial domina o espaço ou
forma uma clara maioria nesse espaço. Um espaço negro, por
exemplo, é um espaço publicamente controlado por pessoas
negras ou um espaço onde uma maioria de pessoas negras se
encontra. Políticas de racismo de espaço usam um excesso de
recursos em espaços brancos e recursos escassos em espaços não brancos. Ideias de racismo de espaço justificam a
desigualdade de recursos por meio da criação de uma hierarquia
racial de espaço, elevando espaços brancos ao céu e reduzindo
os espaços não brancos ao inferno. “Temos uma situação em
que nos centros de nossas cidades, afro-americanos, hispânicos,
estão morando no inferno, porque é muito perigoso”, disse o
candidato Donald Trump durante um debate presidencial em
2016. Em uma reunião no Salão Oval em 2018 sobre imigrantes
negros e latinos, o presidente Trump perguntou: “Por que
deixamos todas essas pessoas de países nojentos virem para
cá?”
no oitavo andar de Gladfelter,
ninguém podia deixar de ver a sala de aula envidraçada
conhecida como o aquário. Dentro das paredes de vidro muitas
vezes se sentavam, em círculo, um grupo variado de “peixes”
geralmente negros — muitos dos quais tinham nadado para
Filadélfia vindos de faculdades e universidades historicamente
negras e ainda estavam encharcados de orgulho estudantil. Um
dia, antes da aula, um ex-aluno da Jackson State teve a audácia
de anunciar a Sonic Bloom como a melhor fanfarra do país. Ele
olhou para mim. Comecei a rir, uma risada profunda, comprida e
retumbante que disse tudo o que eu precisava dizer. Quase todos
nós estávamos nos gabando das bandas de nossas escolas,
feitos acadêmicos, histórias e ex-alunos. Até Ali, da Fisk
University. “Há mais doutores”, declarou Ali certo dia, “andando
por aí que frequentaram a Fisk do que de qualquer outra
universidade ou faculdade historicamente negra”. Todos
sabíamos que a Fisk fora renomada, mas atualmente pequenas
universidades ou faculdades historicamente negras (HBCU, na
sigla em inglês) particulares como ela estavam perdendo alunos,
receita, doações e respeito. “Estamos em 2006, não em 1906”,
disparou alguém. “Todos os doutores da Fisk poderiam
facilmente caber neste aquário”, gritou outra pessoa. “Quantos
estudantes vocês têm agora, 200?”
Piadas à parte, eu respeitava o orgulho de Ali pela Fisk e de
todos meus colegas pelas HBCUs, não importa o quanto eles pareciam estranhos. Eu não respeitava os que detestavam suas
HBCUs. E ninguém detestava sua HBCU mais do que a outra
única aluna da FAMU em nosso programa de pós-graduação.
Sempre que eu citava exemplos de excelência negra da FAMU,
Nashay os desmerecia. Ela se queixava da incompetência que
espreitava o campus da FAMU do mesmo modo como os alunos
da Temple se queixavam dos perigos que espreitavam fora de
seu campus. Certo dia, enquanto esperávamos a aula no
aquário, dei um basta. “Por que você sempre fala mal da FAMU?”
“Não ligue para isso.”
Insisti. Ela resistiu. Finalmente, ela falou.
“A FAMU fez confusão com meu histórico escolar.”
“O quê?”, perguntei, confuso.
“Pedi que me mandassem o histórico e eles erraram. Como se
pode ter pessoas incompetentes trabalhando no departamento
de históricos escolares?”
Ela se calou. A aula começou, mas não esqueci o assunto.
Como ela podia usar um único erro terrível de uma pessoa em
um escritório para condenar toda a universidade — minha
universidade — como sendo terrível? Mas eu mesmo já tinha
falado e ouvido tudo isso. Ouvi e culpei os administradores das
HBCUs pela escassez de recursos. Ouvi estudantes negros e
professores em faculdades e universidades historicamente
brancas (HWCUs, na sigla em inglês) dizer que eles nunca
poderiam frequentar uma HBCU, aqueles guetos mal
administrados. Ouvi professores e funcionários de HBCUs
falarem sobre escapar dos guetos escuros e trabalhar para
HWCUs.
Ouvi meu tio dizer, como uma ex-aluna da Dartmouth, Aisha
Tyler,
que as HBCUs não representam “o mundo real”. O argumento:
estudantes negros são mais bem atendidos aprendendo a
funcionar em uma nação de maioria branca ao frequentar uma
universidade de maioria branca. A realidade: uma grande
porcentagem — talvez a maioria — de norte-americanos negros
mora em bairros de maioria negra, trabalha em empresas de
maioria negra, frequenta igrejas de maioria negra e manda seus filhos para escolas de maioria negra. Quando as pessoas
afirmam que os espaços negros não representam a realidade,
elas estão falando a partir da visão de mundo de pessoas
brancas em relação a pessoas negras na minoria. Estão
conceituando o mundo real norte-americano como branco. Ser
antirracista é reconhecer que não existe um “mundo real”,
apenas mundos reais e múltiplas visões de mundo.
Ouvi pessoas dizerem: “Até mesmo as melhores faculdades e
universidades negras não se aproximam dos padrões de
qualidade de instituições respeitáveis”, como o economista
Thomas Sowell escreveu em 1974. A “descrição de Sowell
continua precisa”, escreveu Jason Riley no Wall Street Journal
em 28 de setembro de 2010. As HBCUs seletivas ficam para trás
em relação a “instituições de ensino estaduais respeitáveis como
a universidade do Texas, em Austin, sem falar de Stanford ou
Yale”.
Riley empunhou a conhecida arma que protege o racismo de
espaço e ameaça os espaços negros: comparar de modo injusto
espaços negros a espaços brancos significativamente mais ricos.
As doações para a HBCU mais rica, Howard, foram cinco vezes
menores do que as para a Universidade do Texas em Austin, em
2016, isso sem falar do fato de ser 36 vezes menor que as
doações de uma Stanford ou Yale. A disparidade da riqueza
racial produz a disparidade de doações. Em HBCUs públicas, a
disparidade de doações se estende às disparidades em
financiamentos estatais, visto que políticas racistas direcionam
mais recursos às HWCUs, como os atuais modelos estaduais
“baseados em desempenho”.
Recursos definem o espaço — recursos que são divididos pelos
gêmeos siameses. As pessoas criam espaço a partir de recursos.
Comparar espaços entre raças-classes é como reunir lutadores
de diferentes categorias de peso, o que esportes de combate
consideram desleal. Bairros negros pobres devem ser
comparados a bairros brancos igualmente pobres, não a bairros
brancos consideravelmente mais ricos. Pequenas empresas
negras devem ser comparadas a empresas brancas igualmente
pequenas, não a corporações brancas ricas. De fato, quando pesquisadores comparam HBCUs a HWCUs com meios e
estrutura semelhantes, as HBCUs costumam apresentar índices
mais altos de graduação de negros. Isso sem mencionar que
graduados negros em HBCUs têm, em média, mais probabilidade
de seus colegas negros em HWCUs de prosperar financeira,
social e fisicamente.
a enfrentar meu próprio racismo de espaço,
mas eu soube que a história dela era mais complicada.
Um agente de financiamento estudantil roubara milhares de
dólares dela quando aluna de um curso de graduação em uma
universidade branca, mas ela ainda tinha essa instituição em alta
conta. Um erro com o histórico escolar, e ela condenou sua
universidade negra. Que hipocrisia. Nessa época, eu não
consegui ficar zangado com ela sem ficar ainda mais zangado
comigo. Quantas vezes eu tinha individualizado o erro em
espaços brancos, culpando o indivíduo e não o espaço? Quantas
vezes eu tinha generalizado o erro no espaço negro — na igreja
negra ou em uma reunião negra — e culpado o espaço negro em
vez de o indivíduo? Quantas vezes eu tinha tido uma experiência
ruim em uma empresa negra e me afastei queixando-me não dos
indivíduos, mas dos negócios negros como um todo?
Os bancos continuam tendo duas vezes mais de chance de
aprovar empréstimos a empresários brancos do que a
empresários negros. Clientes evitam empresas negras como se
elas fossem o “gueto”, como se “o gelo do homem branco fosse
mais frio”, como antirracistas têm brincado há anos. Eu sabia
disso na época. Mas meu duelo de consciências ainda me fazia
pensar como o jovem escritor negro que escreveu Blavity , em
2017: “Em termos intelectuais, sei que às pessoas negras têm
sido negado o mesmo acesso a capital, treinamento e espaço
físico. Mas esse tratamento desigual justifica o mau
atendimento?” O bom atendimento, assim como qualquer outro
produto, não custa mais dinheiro? Como podemos reconhecer as
nuvens do racismo sobre os espaços negros e ficar assustados
quando chove em nossas cabeças?
Eu acreditava que o negro é maravilhoso, mas espaços negros,
não? Devo quase tudo que sou ao espaço negro. Bairros negros.
Igreja negra. Estudos negros. Eu era como uma planta que
menosprezava o solo que a nutriu.
de espaço é longa. É uma história norte-
americana que começa com a solução de Thomas Jefferson para
o “problema do negro”. Civilize e emancipe o negro. Mande o
negro para a África “para levar de volta ao seu país de origem as
sementes da civilização”, como propôs Jefferson em uma carta
em 1811. Mas o negro geralmente não queria voltar e resgatar a
África “da ignorância e do barbarismo”. Não queremos ir para as
“regiões selvagens da África”, negros livres da Filadélfia
resolveram em 1817. Enquanto isso, donos de escravizados
condenavam as regiões selvagens dos negros livres. Um escritor
de uma publicação do sul, De Bow’s Review, buscou pelo mundo,
por meio de uma série de artigos em 1859 e 1860, uma
comunidade “moral, feliz voluntariamente esforçada de negros
livres”, mas concluiu que “não existe tal comunidade na face da
Terra”.
Em 12 de janeiro de 1865, em meio à Guerra Civil, o general
William T. Sherman e o secretário de guerra dos Estados Unidos,
Edwin M. Stanton, encontraram-se com 20 líderes negros em
Savannah,
Geórgia. Depois que seu porta-voz, Garrison Frazier, disse que
precisavam de terras para ser livres e “colher os frutos de nosso
trabalho, e cuidar de nós mesmos”, Stanton perguntou se eles
“prefeririam viver… espalhados entre os brancos ou em colônias
entre os seus?”.
“Viver entre os nossos”, respondeu Frazier, “pois há preconceito
no sul contra nós, que levará anos a ser superado”.
Quatro dias depois, o general Sherman emitiu a Ordem de
Campo Especial no 15 para punir proprietários de terras
Confederados e livrar seus acampamentos militares dos fugitivos.
Pessoas negras receberam uma mula do exército e “não mais
que 40 acres” nas planícies costeiras da Carolina do Sul e da Geórgia. “O gerenciamento único e exclusivo das obrigações
ficará a cargo das pessoas libertas”, ordenou Sherman.
Horace Greeley, o mais proeminente editor de jornal da época,
achou que a ordem de Sherman privou os negros “da vantagem
de professores e vizinhos brancos, que poderiam levá-los a
compreender e apreciar uma civilização superior da qual tinham
sido privados até agora como escravizados”. Negros livres do sul
“como seus pares do norte” serão “auxiliados pelo contato com a
civilização branca”, escreveu Greeley em seu New-York Tribune
em 30 de janeiro de 1865.
As pessoas negras rejeitavam a estratégia integracionista. Em
junho de 1865, cerca de 40 mil negros tinham se fixado em 400
mil acres de terra antes que proprietários confederados, ajudados
pela nova administração Johnson, começarem a recuperar “suas”
terras.
A estratégia integracionista — a colocação de corpos brancos e
não brancos nos mesmos espaços — tinha a intenção de
remover o barbarismo das pessoas não brancas e o racismo das
pessoas brancas. A estratégia integracionista espera que corpos
negros se curem com a proximidade dos brancos que ainda não
pararam de lutar contra eles. Depois de suportar a violência da
escravatura, Frazier e seus irmãos estavam cansados. Eles
queriam se separar, não dos brancos, mas do racismo branco. A
separação nem sempre é segregação. O desejo antirracista de
se separar dos racistas é diferente do desejo segregacionista de
se separar do negros “inferiores”.
Sempre que pessoas negras se reúnem entre si
voluntariamente, integracionistas não veem espaços de
solidariedade negra criados para separar pessoas negras do
racismo. Eles veem espaços de ódio branco. Eles não veem
espaços de solidariedade cultural, de solidariedade contra o
racismo. Eles veem espaços de segregação contra pessoas
brancas. Integracionistas não veem esses espaços como o
movimento de pessoas negras em prol de pessoas negras.
Integracionistas pensam neles como um movimento para se
afastar de pessoas brancas. Então, eles equiparam esse
movimento com o segregacionismo branco para se afastar das pessoas negras. Os integracionistas equiparam os espaços para
a sobrevivência dos corpos negros com espaços para
sobrevivência da supremacia branca.
Quando integracionistas usam a segregação e a separação de
modo intercambiável, eles estão usando o vocabulário de Jim
Crow. Segregacionistas confundiram as linhas divisórias entre
segregação e separação ao projetar suas políticas como
posicionadas “na plataforma de acomodações iguais para cada
raça, mas separadas”, para citar o editor do jornal de Atlanta,
Henry W. Grady, em 1885. A Suprema Corte do Estados Unidos
sancionou esse véu explícito na decisão do caso Plessy versus
Ferguson , em 1896. Separado, mas igual abrangia as políticas
segregacionistas que desviaram recursos para espaços
exclusivamente brancos. Em 1930, o estado segregacionista do
Alabama gastou US$37 para cada estudante branco,
comparados a US$7 para cada estudante negro; a Geórgia,
US$32 a US$7; e a Carolina do Sul, US$53 a US$5. O ensino
médio não estava disponível para meus avós maternos na
Geórgia nessa época.
“Igual”, considerado o alvo fácil da resolução “separado, mas
igual”, acabou sendo um terrível inimigo para ativistas de direitos
civis — era praticamente impossível conseguir recursos iguais
para instituições negras. O Fundo de Defesa Legal da ANPPC
mudou a tática para retirar “separado”. Advogados retomaram o
antigo pressuposto “integracionista de que a separação
obrigatória das duas raças marca a raça negra com um sinal de
inferioridade”, o que o juiz associado Henry Billings Brown
chamou de “falácia” em sua decisão no caso Plessy versus
Ferguson .
No histórico caso Brown versus Conselho de Educação de
1954, o advogado da ANPPC, Thurgood Marshall, tentou provar
a premissa usando a nova ciência social integracionista. Marshall
pediu aos psicólogos Kenneth e Mamie Clark que repetissem
seus famosos testes das bonecas para o caso. Diante de
bonecas com diferentes cores de pele, a maioria das crianças
negras preferia bonecas brancas, o que os Clarks viram como
prova do negativo dano psicológico da segregação. Cientistas sociais brancos argumentaram que o dano poderia ser
permanente. A Suprema Corte dos Estados Unidos concordou
unanimemente. “Separar (crianças não brancas) de outras da
mesma idade e qualificações somente por causa da raça gera
uma sensação de inferioridade em relação ao seu status na
comunidade, que pode afetar seus corações e mentes de um
jeito que dificilmente será desfeito”, escreveu o chefe de justiça
Earl Warren.
O juiz Warren não considerou que as escolas brancas
estivessem exercendo um efeito prejudicial nas crianças brancas.
Ele escreveu que “a segregação de crianças brancas e não
brancas em escolas públicas exerce um efeito prejudicial nas
crianças não brancas”. Retarda “sua educação e
desenvolvimento mental”, explicou Warren. “Nós concluímos que,
no campo da educação pública, não há lugar para a doutrina do
‘separado, mas igual’. Instalações educacionais separadas são
inerentemente desiguais.”
O que de fato tornou as escolas desiguais foram os recursos
extraordinariamente desiguais oferecidas a elas, não o simples
fato da separação racial. A decisão dos juízes da Suprema Corte
nos casos Plessy e Brown reconheceu a mentira segregacionista
de que as “escolas negras e brancas envolvidas se nivelaram”,
para citar o juiz Warren. Em 1973, quando as desigualdades de
recursos entre escolas públicas ficaram óbvias demais para
serem negadas, a Suprema Corte determinou, no caso Distrito
Escolar Independente de San Antonio versus Rodriguez, que
alocações de imposto predial que geram desigualdades nas
escolas públicas não violam a cláusula de proteção igual da lei
da Constituição dos EUA.
...
1973 concretizou a única
solução decorrente da decisão do caso Brown em 1954:
transportar corpos negros em ônibus de espaços negros
prejudiciais para espaços brancos dignos. Como “existem
escolas negras e instruções e instrutores preparados, então não há nada diferente, exceto pela presença de pessoas brancas”,
escreveu uma indignada Zora Neale Hurston no Orlando Sentinel
em 1955. Particularmente, Martin Luther King Jr. também
discordou. “Defendo a integração em ônibus e em todas as áreas
de acomodação e deslocamento públicos… acho que a
integração em nossas escolas públicas é diferente”, disse King a
dois professores negros em Montgomey, Alabama, em 1959.
“Pessoas brancas encaram as pessoas negras como inferiores…
Pessoas com uma visão tão limitada da raça negra não podem
ter carta branca e ser incumbidas da integridade e
desenvolvimento intelectual de nossos meninos e meninas.”
King teve um pesadelo que acabou se tornando realidade.
Estudantes não brancos ocupam a maioria das carteiras das
salas de aula na escolas públicas atualmente, mas são
ensinados por um corpo docente de 80% de pessoas brancas
que geralmente têm, mesmo que inconscientemente, baixas
expectativas em relação a alunos não brancos. Quando
professores negros e brancos olham para o mesmo aluno negro,
professores brancos têm 40% menos probabilidade de acreditar
que ele terminará o ensino médio. Estudantes negros de baixa
renda que têm pelo menos um professor negro no ensino
fundamental têm 29% menos probabilidade de abandonar a
escola, 39% menos probabilidade no caso de meninos de renda
muito baixa.
O pesadelo de King é produto do duelo de decisões do caso
Brown . O tribunal acertadamente minou a legitimidade dos
espaços segregados brancos que acumulam recursos públicos,
excluem todos os não brancos e são totalmente dominados por
pessoas e culturas brancas. Mas o tribunal também reforçou a
legitimidade de espaços brancos que reúnem recursos públicos,
que incluem alguns não brancos e que são, em geral, se não
totalmente, dominados por pessoas e culturas brancas. Maiorias
brancas, poder branco e cultura branca dominam o segregado e
o integrado, tornando ambos espaços brancos. Contudo, o véu
implícito alega que não existem espaços brancos integrados ou
até mesmo espaços negros integrados que sejam carentes de
recursos, incluindo alguns não negros, e que sejam em geral, embora não totalmente, dominados por pessoas e culturas
negras. O tribunal julgou espaços negros, segregados ou
integrados, inerentemente desiguais e inferiores.
Depois do caso Brown, o espaço integrado branco passou a
definir a espaço ideal integrado em que corpos não brancos
inferiores poderiam ser desenvolvidos. O espaço negro integrado
tornou-se um espaço segregado de fato, onde corpos inferiores
negros foram deixados para trás. A integração tornou-se “uma via
de mão única”, observou um jovem advogado de Chicago em
1995. “A minoria assimilou a cultura dominante, e não o
contrário”, escreveu Barack Obama. “Somente a cultura branca
poderia ser neutra e objetiva. Somente a cultura branca poderia
ser não racial”. A integração (à branquitude) tornou-se progresso
racial.
“ educação integrada fez toda a diferença
na vida das crianças negras”, escreveu o professor de Berkeley,
Califórnia, David L. Kirp no New York Times em 2016, ao falar
sobre o novo ponto baixo na história da montanha-russa da
integração. A porcentagem de estudantes negros do sul que
frequentava escolas brancas integradas saltou de zero em 1954
para 23% em 2011. A “defasagem de desempenho acadêmico”
seguiu uma montanha-russa semelhante, reduzindo-se com a
integração de escolas brancas, antes de voltar a aumentar,
provando que “alunos afro-americanos que frequentavam escolas
integradas mostraram melhores resultados acadêmicos que os
deixados para trás em escolas segregadas”, argumentou Kirp.
Testes padronizados “provaram” que alunos brancos e espaços
brancos eram mais inteligentes. Mas e se a diferença na
classificação somente diminuiu porque, à medida que mais
alunos negros integraram as escolas brancas, mais alunos
receberam a mesma educação e preparação para os testes?
Integracionistas se ressentiram do aumento no que eles
chamam de escolas segregadas. “Como muitos brancos que
cresceram nos anos 1960 e 1970, sempre pensei que a
integração fosse a principal meta de melhores relações raciais”,
escreveu Tamar Jacoby, membro do Manhattan Institute, em 1998. “A palavra tinha um quê de magia”, mas agora
“poucos de nós falamos sobre ela”. Não estamos buscando o
“sonho incapaz de distinguir tom de pele” de Martin Luther King
de “uma nação mais ou menos neutra em termos de raças”.
A transformação integracionista de King como impossibilitada
de distinguir tons de pele e racialmente neutra apaga o
verdadeiro King. Ele não viveu para integrar pessoas e espaços e
negros ao esquecimento branco. Se tivesse, então por que
construiu apartamentos de baixa renda em Atlanta “usando
apenas operários, arquitetos, advogados e instituições negros”,
como anunciou com orgulho em 1967? Por que ele insistiu com
as pessoas negras que parassem de “ter vergonha de ser
negras”, de investir em seus próprios espaços? A criança de um
bairro, uma igreja, uma faculdade ou organização negros viveu
para garantir acesso igual a acomodações públicas e recursos
iguais para todos os espaços racializados, uma estratégia
antirracista com tanta possibilidade de salvar a cultura quanto
sua não violência salvava corpos.
Com o linchamento de corpos negros, os segregacionistas são,
no final, mais perigosos para os corpos negros do que os
integracionistas. Com o linchamento das culturas negras, os
integracionistas são, no fim, mais perigosos para os corpos
negros do que os segregacionistas. Pense na conclusão lógica
da estratégia integracionista: cada raça sendo representada em
cada espaço dos Estados Unidos segundo sua porcentagem na
população nacional. Uma pessoa negra (12,7%) só veria outra
depois de ver cerca de 8 não negros. Um latino (17,8%) só veria
outro depois de ver cerca de 7 não latinos. Um asiático (4,8%) só
veria outro depois de ver 19 não asiáticos. Um indígena (0,9%)
veria outro só depois de ver 99 não indígenas. Norte-americanos
brancos (61,3) sempre veriam mais brancos à sua volta do que
não brancos. Eles ganhariam tudo, da expansão de espaços
integrados brancos à gentrificação branca de todas as
instituições, associações e vizinhanças não brancas. Não haveria
mais ventres para gerar culturas não brancas. Somente ventres
de espaços brancos de assimilação. Todos nos tornaríamos “apenas homens brancos” com “peles” diferentes, para citar o
historiador Kenneth Stampp, em 1956.
Os norte-americanos têm visto a conclusão lógica da estratégia
segregacionista, da escravidão a Jim Crow ao encarceramento
em massa e muros nas fronteiras. A conclusão lógica da
estratégia antirracista é acesso aberto e igual a todas as
acomodações públicas, acesso aberto a todos os espaços
brancos integrados, espaços do Oriente Médio integrados,
espaços negros integrados, espaços latinos integrados e
espaços asiáticos integrados que recebem recursos iguais
apesar de culturalmente diferentes. Todos esses espaços se
unem a espaços cívicos do poder político, econômico e cultural,
das Câmaras de Representantes aos conselhos das escolas aos
conselhos editoriais dos jornais onde nenhuma raça predomina,
onde o poder antirracista predomina. Isso é diversidade, algo que
os integracionistas valorizam apenas no nome.
A estratégia antirracista funde dessegregação com uma forma
de integração e solidariedade racial. Dessegregação: eliminar
todas as barreiras a todos os espaços racializados. Ser
antirracista é apoiar a integração voluntária de corpos atraídos
pela diferença cultural e a humanidade partilhada. Integração:
recursos, e não corpos. Ser antirracista é defender a igualdade
de recursos pela contestação de políticas racistas que produzem
desigualdade de recursos. Solidariedade racial: identificar, apoiar
e proteger abertamente espaços raciais integrados. Ser
antirracista é equiparar e alimentar a diferença entre grupos
raciais.
Contudo, a estratégia antirracista vai além da concepção
integracionista que alega que espaços negros nunca podem ser
iguais aos espaços brancos, que acredita que os espaços negros
exercem um “efeito prejudicial sobre pessoas negras, citando o
juiz chefe Warren no caso Brown . Meu espaço de estudos
negros deveria exercer um efeito prejudicial em mim. Foi
exatamente o oposto. Meus professores certificaram-se disso,
como dois alunos negros, respondendo perguntas que eu nunca
imaginei fazer.
1 Kwanzaa é um feriado pan-africanista inspirado nas tradições africanas, que acontece anualmente de 26 de dezembro a 1º de janeiro e tem como objetivo congregar pessoas negras na valorização da comunidade, das crianças e da vida.