Como Ser Antirracista

Ibram X. Kendi · Capítulo 5 de 21

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Como Ser Antirracista

Duelo de Consciências

CAPÍTULO 2

 

DUELO DE CONSCIÊNCIAS

 

ASSIMILACIONISTA: Aquele que expressa a ideia racista de

que um grupo étnico é inferior em termos culturais e de

comportamento, e apoia programas de enriquecimento

cultural ou comportamental para desenvolver esse grupo

étnico.

 

SEGREGACIONISTA: Aquele que expressa a ideia racista de

que um grupo étnico permanentemente inferior nunca poderá

ser desenvolvido e apoia políticas que segregam esse grupo

racial.

 

ANTIRRACISTA: Aquele que expressa a ideia de que grupos

étnicos são iguais e não precisam de desenvolvimento, e

apoia políticas que reduzem a desigualdade racial.

 

M se visto desde a viagem de ônibus para a Urbana ’70. O Natal de 1973 se aproximava. O Soul

Liberation fez uma apresentação na icônica Igreja

Presbiteriana Broadway, no Harlem, que se transformou em uma

reunião menor para os participantes da Urbana ‘70 em Nova

York. Meus pais foram. Velhos amigos apareceram, e alguns

novos. Depois que os acordes do Soul Liberation silenciaram,

meus pais finalmente se falaram de novo e a centelha finalmente

se acendeu.

Dias depois, meu pai ligou. Ele a convidou para sair. “Fui

chamada ao campo missionário”, respondeu minha mãe. “Viajo

em março.”

Meu pai e minha mãe foram perseverantes, mesmo depois que

ela partiu para lecionar em uma vila rural na Libéria, perto de Monróvia, durante nove meses. Oito anos depois, eles estavam

casados, ousando me chamar, seu segundo filho, “pai exaltado”,

quando cheguei a um mundo que não se dedicava à pratica de

exaltar pessoas negras. Logo antes dessa chegada, quando

minha mãe grávida comemorava seu 31o aniversário, em 24 de

junho de 1982, o presidente Reagan declarou guerra a esse filho

por nascer. “Precisamos combater o abuso de drogas com

aplicação de leis mais rígidas”, disse ele no Jardim das Rosas.

Naturalmente, não foi o abuso de drogas que foi combatido,

mas pessoas como eu, nascidas nesse regime de “aplicação de

leis mais rígidas”. As políticas mais rigorosas para crimes

relacionados a drogas — não um crescimento líquido da

criminalidade — fez a população carcerária norte-americana

quadruplicar entre 1980 a 2000. Embora criminosos violentos

costumem ser responsáveis por cerca de metade da população

prisional em qualquer época, mais pessoas foram encarceradas

por crimes relacionados a drogas do que por crimes violentos em

cada ano de 1993 a 2009. É mais provável que brancos vendam

drogas do que negros e latinos, mas a taxa de consumo é

semelhante entre os grupos étnicos. No entanto, afro-americanos

têm muito mais probabilidade de serem encarcerados por crimes

relacionados a drogas do que brancos. Negros não violentos

envolvidos em tráfico de drogas ficam presos por mais ou menos

o mesmo tempo (58,7 meses) que criminosos brancos violentos

(61,7 meses). Em 2016, brancos e latinos ainda eram super-

representados na população prisional em 56%, dobro de sua

porcentagem na população adulta norte-americana. Brancos

ainda foram sub-representados na população prisional em 30%,

cerca de metade de sua porcentagem da população adulta norte-

americana.

Reagan não iniciou essa suposta guerra, segundo relato da

historiadora Elizabeth Hinton. O presidente Lyndon B. Johnson

foi o primeiro a nos colocar em posição vulnerável quando

designou o ano de 1965 como “o ano em que os EUA

começaram uma guerra intensa, inteligente e eficiente contra a

criminalidade”. Meus pais frequentavam o ensino médio quando

a guerra contra o crime de Johnson transformou sua negligenciada guerra contra a pobreza em piada, assim como um

atirador fortemente armado zomba do cirurgião de trauma mal

equipado. O presidente Richard Nixon anunciou sua guerra

contra as drogas em 1971 para derrubar seus mais duros críticos

— negros e ativistas antiguerra. “Nós poderíamos prender seus

líderes, invadir suas casas, dispersar suas reuniões e atacá-los

noite após noite no noticiário noturno”, contou John Erlichman,

assessor para assuntos domésticos no governo Nixon, a um

repórter da Harper’s , anos depois. “Sabíamos que estávamos

mentindo sobre as drogas? Claro que sim.”

Os negros aderiram aos ataques, convencidos de que

traficantes de drogas assassinos, criminosos armados e ladrões

viciados em heroína estavam “jogando pelo ralo” “todas as

conquistas arduamente alcançadas pelo movimento de direitos

civis”, citando um editorial do Washington Afro-American, em

1981. Alguns líderes negros, se não a maioria, em um esforço de

parecer salvadores do povo contra essa ameaça, mudaram de

atitude e colocaram criminosos negros ao lado dos racistas

brancos como inimigos do povo.

Apelos aparentemente contraditórios para prender e salvar

negros se enfrentaram em legislaturas de todo o país, mas

também nas mentes dos norte-americanos. Líderes negros se

uniram a republicanos de

Nixon a Reagan, e a democratas de Johnson a Bill Clinton, para

exigir, e receber, mais policiais, penas de prisão mínimas

obrigatórias e mais severas e mais presídios. Mas eles também

exigiram o fim da brutalidade policial, mais empregos, escolas

melhores e programas de tratamento para dependentes

químicos. Esses pedidos foram recebidos com menor

entusiasmo.

Quando nasci, em 1982, a vergonha sobre o “Black on Black

crime” [Crime de Negros contra Negros] estava prestes a sufocar

o orgulho de uma geração pelo “Black is beautiful” [Negro é

lindo]. Muitos norte-americanos não negros olhavam para

dependentes químicos negros com repugnância — mas um

número imenso de negros olhava para os mesmos dependentes

com vergonha.

Meus pais nasceram em famílias pobres, um no projeto

habitacional ao norte, o outro na área rural ao sul. Ambos

estruturaram sua jornada da pobreza até a classe média nos

anos 1980 escalando os degraus da educação e do trabalho

árduo. Enquanto subiam, foram inundados por discussões

racistas sobre negros que se recusavam a subir, que estavam

irresponsavelmente presos à heroína e ao crack, que gostavam

de roubar e ficar criminalmente dependentes do dinheiro

arduamente ganho de norte-americanos em ascensão como eles.

Em 1985, a admirada advogada de direitos civis Eleanor

Holmes Norton usou o New York Times para declarar que a “a

solução… não é tão simples quanto atender necessidades e

oferecer oportunidades”, como os antirracistas defendiam. Ela

encorajou a “derrubada da subcultura complicada e predatória

dos guetos”. Ela pediu a pessoas, como meus pais, “originários

no gueto”, que salvassem os “homens e mulheres do gueto”,

incutindo neles os valores do “trabalho árduo, da educação, do

respeito pela família” e “conseguir uma vida melhor para seus

filhos”. Norton não apresentou provas empíricas para substanciar

sua posição de que certos negros do “gueto” careciam de alguns

desses valores.

Mas meus pais, assim como muitos outros da nova classe

média negra, absorveram essas ideias. A classe que desafiou

políticas racistas dos anos 1950 até 1970 agora começava a

desafiar outros negros nos anos 1980 e 1990. O antirracismo

parecia uma indulgência comparado ao comportamento

autodestrutivo que testemunhavam à sua volta. Meus pais

seguiram a orientação de Norton: eles me alimentaram com o

mantra de que a educação e o trabalho árduo me elevariam,

como tinham elevado a eles, e, no fim, elevariam a todos os

negros. Meus pais — mesmo a partir do interior de sua

consciência racial — eram suscetíveis à ideia racista de que era

a preguiça que mantinha os negros em posição inferior, e assim

deram mais atenção a criticar os negros do que às políticas de

Reagan, que destruía a escada que eles subiram e depois

puniam as pessoas por caírem.

A Revolução Reagan era simplesmente isto: uma revolução

radical para o benefício dos já poderosos. Ela enriqueceu ainda

mais os norte-americanos de alta renda, reduzindo seus

impostos e as regulamentações governamentais, aprovando

emendas orçamentárias suplementares para as forças armadas e

controlando o poder dos sindicatos. Setenta por cento de negros

com renda média disseram que viram “muita discriminação racial”

em 1979, antes de os revolucionários de Reagan reduzirem a

aplicação das leis de direitos civis e as regulações de ações

afirmativas, antes de limitar os subsídios para governos locais e

estaduais cujos contratos e empregos se tornaram caminhos

seguros para as residências urbanas unifamiliares da classe

média negra. No mesmo mês do aniversário de minha mãe em

1982, em que Reagan anunciou sua guerra contra as drogas, ele

cortou a rede de segurança dos programas de bem-estar federais

e do Medicaid [programa de saúde social dos Estados Unidos

para famílias e indivíduos de baixa renda e recursos limitados],

levando mais negros de baixa renda à pobreza. Sua “rígida

aplicação da lei” jogou mais negros nas garras de policiais

violentos, que mataram 22 negros para cada branco no início dos

anos 1980. Jovens negros tinham 4 vezes mais probabilidade de

ficar desempregados em 1985 do que em 1954. Mas poucos

associaram o aumento do desemprego ao aumento de crimes

violentos.

Há muito os norte-americanos vêm sendo treinados para

enxergar as limitações das pessoas, e não das políticas. Este é

um erro fácil de ser cometido: as pessoas estão na nossa frente.

Políticas estão distantes. Somos especialmente incapazes de ver

as políticas espreitando por trás das dificuldades das pessoas. E,

dessa forma, meus pais deixaram de ver os problemas das

políticas para ver os problemas das pessoas — e voltaram a se

esforçar para salvar e civilizar negros, em vez de libertá-los. A

teologia do civilizador tornou-se mais atraente para meus pais,

diante do aumento do uso do crack e dos danos que ele causou

aos negros, assim como fez com tantos filhos dos direitos civis e

do Black Power. Mas, de diversas formas, a teologia da libertação permaneceu seu lar filosófico, o lar em que me

criaram.

 

, pais ainda eram as pessoas empolgadas pela

teologia da libertação em Urbana. Minha mãe ainda sonhava em

viajar pelo mundo negro como uma missionária libertadora, um

sonho que seus amigos liberianos encorajaram em 1974. Papai

sonhava em escrever poesias libertadoras, um sonho que o

professor Addison Gayle incentivou em 1971.

Sempre me pergunto o que teria acontecido se meus pais não

tivessem permitido que seus receios justificáveis os impedissem

de buscar seus sonhos. Mamãe viajante ajudando a libertar o

mundo negro. Papai acompanhando-a e encontrando inspiração

para sua poesia de liberdade. Em vez disso, mamãe se

contentou com uma carreira em tecnologias da saúde. Meu pai

aceitou uma carreira em contabilidade. Eles ingressaram na

classe média norte-americana — um espaço, na época e hoje,

definido por sua desproporcional maioria branca — e começaram

a ver a si mesmos e ao seu povo não só através de seus olhos,

mas também “pelos olhos dos outros”. Eles se uniram a outros

negros que tentavam se encaixar nesse espaço branco enquanto

ainda tentavam ser eles mesmos e salvar seu povo. Eles não

usavam uma máscara, mas dividiram suas mentes em dois.

Essa dupla conceitual refletia o que W.E.B. Du Bois expressou

de maneira indelével em As Almas da Gente Negra , em 1903. “É

uma sensação peculiar, essa dupla consciência, essa sensação

de sempre olhar para si mesmo pelos olhos dos outros”,

escreveu Du Bois. Ele não iria “africanizar a América” tampouco

“branquear sua alma negra em uma inundação de norte-

americanismo branco”. Du Bois desejou habitar conceitos

opostos. Ser norte-americano é ser branco. Ser branco é não ser

negro.

O que Du Bois denominou consciência dupla pode ser chamado

mais precisamente de duelo de consciências. “As pessoas

sempre sentem essa dualidade”, explicou Du Bois, “uma norte-

americana, uma negra; duas almas, dois pensamentos, duas

lutas não reconciliadas; dois ideais em luta em um corpo escuro, cuja força persistente por si só evita que seja dilacerado”. Du

Bois também explicou como essa guerra estava sendo travada

em seu próprio corpo escuro, querendo ser um negro e querendo

“se misturar à massa de norte-americanos do mesmo modo que

irlandeses e escandinavos” faziam.

Esse duelo de ideias existia em 1903 e o mesmo duelo se

apossou de meus pais — e continua até hoje. O duelo dentro da

consciência negra parece ocorrer geralmente entre ideias

antirracistas e assimilacionistas. Du Bois acreditava no conceito

antirracista da relatividade racial, em que cada grupo racial se vê

com os próprios olhos e o conceito assimilacionista dos padrões

raciais, em que “se olha para si mesmo pelos olhos” de outro

grupo étnico — nesse caso, os brancos. Em outras palavras, ele

queria libertar os negros do racismo, mas também queria mudá-

los, salvá-los de seus “vestígios de barbárie”. Em 1903, Du Bois

argumentou que o racismo e “o baixo nível social de grande parte

da raça” foram “responsáveis” pela “degradação dos negros”. A

assimilação seria parte da solução para esse problema.

Ideias assimilacionistas são ideias racistas. Os

assimilacionistas podem posicionar cada grupo étnico como o

padrão superior a que outro grupo étnico deveria se comparar,

um modelo a ser alcançado. Os assimilacionistas normalmente

posicionam os brancos como o padrão superior. “Será que os

norte-americanos param para pensar que nesta terra há milhões

de pessoas de sangue negro… que, julgados por qualquer

padrão, atingiram a melhor medida do melhor tipo de cultura

moderna europeia? É justo, é digno, é cristão… menosprezar tal

aspiração?”, pergunta Du Bois em 1903.

 

ocorreu de modo diferente para meus

pais, que passaram a ser completamente orientados pela

autossuficiência negra. Em 1985, eles foram atraídos para a

Igreja Episcopal Metodista Africana Allen de Floyd H. Flake, no

sul de Queens. Flake e Elaine, sua esposa igualmente admirável,

transformaram Allen em uma megaigreja e um dos maiores

empregadores do setor privado por meio de seu reinado de

empreendimentos comerciais e de serviço social. De sua escola ao complexo de moradias para idosos ao centro de crise para

vítimas de violência doméstica, não havia barreiras para a igreja

de Flake. Era exatamente o tipo de ministério que naturalmente

fascinaria os descendentes de Urbana ‘70. Meu pai se uniu à

equipe ministerial de Flake em 1989.

Meu programa religioso preferido acontecia nos dias de Ação

de Graças. Chegávamos quando filas de pessoas cercavam o

edifício da igreja, que tinha um cheiro especialmente bom

naquele dia. O perfume dos molhos e calda de cranberry aquecia

o ar de novembro. Os aromas se multiplicavam em delícias

enquanto entrávamos na sala de confraternização onde ficavam

os fornos. Eu geralmente me posicionava na interminável linha

de produção dos servidores. Mal conseguia enxergar através da

comida, mas eu me esticava na ponta dos pés para poder sentir

um pouquinho de todas aquelas 5 mil pessoas. Eu tentava ser

tão gentil com elas quanto a torta de pêssego de minha mãe.

Esse programa de pessoas negras alimentarem pessoas negras

personificava o evangelho da autossuficiência negra com que os

adultos na minha vida estavam me alimentando.

A autossuficiência negra era uma espada de dois gumes. De

um lado, o repúdio à supremacia, ao paternalismo, a

governadores e salvadores brancos. Do outro, o amor pelo

paternalismo, por governadores e salvadores negros. De um

lado, a crença antirracista de que os negros são totalmente

capazes de governar a si mesmos e confiam em si mesmos. Do

outro, a ideia assimilacionista de que os negros deveriam focar o

esforço para melhorar de vida sem depender dos outros, largar o

crack, sair das esquinas, recusar a “caridade” do governo, como

se esses fossem os fatores parcialmente responsáveis por

manter suas rendas baixas. Esse duelo de consciências

alimentou o orgulho dos negros pela insistência de que não havia

nada de errado com o povo negro, mas também cultivou a

vergonha com a sugestão de que havia algo errado no

comportamento dos negros… bem, pelo menos com aqueles

outros negros. Se o problema estivesse em nosso

comportamento, então os revolucionários de Reagan não estavam impedindo os negros de crescer — nós estávamos nos

impedindo de crescer.

 

próprio duelo de consciências, entre o

segregacionismo e o assimilacionismo: o mercador de

escravizados e o missionário, o explorador pró-escravatura e o

civilizador antiescravatura, o eugenista e o “miscigenador”, o

aprisionador em massa e o desenvolvedor em massa, o Blue

Lives Matter (Vidas Azuis Importam, termo pró-polícia em

resposta ao Black Lives Matter, em defesa dos negros) e o Todas

as Vidas Importam, o nacionalista não racista e norte-americano

não racista.

Ideias assimilacionistas e segregacionistas são dois tipos de

ideias racistas, o duelo dentro do pensamento racista. As ideias

assimilacionistas brancas contestam ideias segregacionistas que

alegam que pessoas não brancas são incapazes de

desenvolvimento, de alcançar um padrão superior, de se tornar

brancas e, portanto, totalmente humanas. Assimilacionistas

acreditam que pessoas não brancas podem, de fato, se

desenvolver, tornar-se totalmente humanas, assim como pessoas

brancas. Ideias assimilacionistas reduzem pessoas não brancas

ao nível de crianças que precisam ser orientadas sobre como

agir. Ideias segregacionistas mostram as pessoas não brancas

como “animais”, usando a descrição de Trump para imigrantes

latinos — incapazes de aprender além de certo ponto. A história

do mundo classificado por raças é uma luta tripla entre

assimilacionistas, segregacionistas e antirracistas. Ideias

antirracistas se baseiam no princípio de que grupos étnicos são

iguais em todas as formas em que são diferentes; ideias

assimilacionistas se baseiam na noção de que certos grupos

étnicos são cultural ou comportamentalmente inferiores; e ideias

segregacionistas se originam da crença em uma distinção racial

genética e hierarquia fixa. “Estou inclinado a suspeitar que os

negros e todas as outras espécies de homens em geral (pois há

quatro ou cinco tipos diferentes) são naturalmente inferiores aos

brancos”, escreveu David Hume, filósofo do Iluminismo, em 1753.

“Nunca houve uma nação civilizada com compleição que não a branca… Tal diferença uniforme e constante não poderia ocorrer,

em tantos países e eras, se a natureza não tivesse feito uma

distinção original entre essas raças de homens.”

David Hume declarou que todas as raças são criadas desiguais,

mas Thomas Jefferson pareceu discordar, em 1776, quando

afirmou que “todos os homens são criados iguais”. Thomas

Jefferson, porém, nunca deu a declaração antirracista de que

todos os grupos étnicos são iguais. Embora ideias

segregacionistas sugiram que um grupo étnico seja

permanentemente inferior, as ideias assimilacionistas sugerem

que um grupo racial é temporariamente inferior. “Seria perigoso

afirmar que, igualmente cultivado por algumas gerações”, o negro

“não se tornaria” igual, escreveu Jefferson certa vez, de um modo

assimilacionista.

O duelo de consciências branco moldou dois tipos de políticas

racistas, refletindo o duelo de ideias racistas. Como os

assimilacionistas pressupõem uma hierarquia cultural e

comportamental, políticas e programas assimilacionistas estão

voltados para desenvolver, civilizar e integrar um grupo étnico

(para se distinguir de programas que elevam indivíduos). Como

os segregacionistas pressupõem a incapacidade de um grupo

étnico ser civilizado e desenvolvido, as políticas segregacionistas

estão voltadas para segregar, escravizar, encarcerar, deportar e

matar. Como os antirracistas pressupõem que os grupos raciais

já são civilizados, as políticas antirracistas estão voltadas para

reduzir desigualdades raciais e criar oportunidades iguais.

Em geral, os brancos têm defendido políticas assimilacionistas

e segregacionistas. Pessoas não brancas, em geral, têm

defendido políticas antirracistas e assimilacionistas. A “história do

negro norte-americano é a história desse conflito”, para citar Du

Bois — o conflito entre o assimilacionista e o antirracista, entre a

civilização em massa e a igualização em massa. No corpo negro

de Du Bois, no corpo negro de meus pais, no meu jovem corpo

negro, esse desejo duplo, esse duelo de consciências geraram

um conflito interior entre o orgulho negro e o anseio de ser

branco. Minhas próprias ideias assimilacionistas me impediram de notar as políticas racistas ficarem eufóricas durante a guerra

contra as drogas de Reagan.

 

brancas moldou, a partir de sua

posição de relativo poder, o conflito dentro da consciência negra.

Apesar da dura verdade de que os Estados Unidos foram criados

pelos brancos para os brancos”, como o segregacionista

Jefferson Davis afirmou no Senado em 1860, os negros muitas

vezes expressaram o desejo de ser norte-americanos e foram

encorajados nesse aspecto pela inegável história de progresso

antirracista da América, longe da escravatura e de Jim Crow.

Apesar das instruções frias de pessoas como Gunnar Myrdal,

vencedor do Prêmio Nobel, para “se tornar assimilados à cultura

norte-americana”, os negros também desejaram, como Du Bois

disse, continuar negros, desencorajados pela inegável história do

progresso da história racista dos Estados Unidos, da promoção à

violência da polícia e da supressão dos eleitores, a ampliar as

desigualdades raciais em áreas que vão da saúde à riqueza.

A história é repleta de duelos: a inegável história do progresso

antirracista, a inegável história do progresso racista. Antes e

depois da Guerra Civil, antes e depois dos direitos civis, antes e

depois da primeira presidência negra, a consciência branca vive

um duelo. O corpo branco define o corpo norte-americano. O

corpo branco segrega o corpo negro do corpo norte-americano.

O corpo branco instrui o corpo negro a integrar o corpo norte-

americano. O corpo norte-americano rejeita o corpo negro

integrado ao corpo norte-americano — e a história e a

consciência duelam outra vez.

O corpo negro, por sua vez, trava o mesmo duelo. O corpo

negro é instruído a se tornar um corpo norte-americano. O corpo

norte-americano é o corpo branco. O corpo negro luta para se

integrar ao corpo norte-americano. O corpo norte-americano

rejeita o copo negro. O corpo negro se separa do corpo norte-

americano. O corpo negro é instruído a se integrar ao corpo

norte-americano — e a história e a consciência duelam outra vez.

Mas há como se libertar. Ser antirracista é se emancipar do

duelo das consciências. Ser antirracista é subjugar a consciência assimilacionista e a consciência segregacionista. O corpo branco

não se apresenta mais como o corpo norte-americano; o corpo

negro não mais luta para ser o corpo norte-americano, sabendo

que não existe um corpo norte-americano, apenas corpos norte-

americanos, categorizados por raça pelo poder.