Como Ser Antirracista

Ibram X. Kendi · Capítulo 8 de 21

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Como Ser Antirracista

Etnia

CAPÍTULO 5

 

ETNIA

 

RACISMO ÉTNICO: Um conjunto de políticas racistas

poderosas que levam à desigualdade entre grupos étnicos

racializados, substanciadas por ideias racistas sobre grupos

étnicos racializados.

 

ANTIRRACISMO ÉTNICO: Um conjunto de políticas

antirracistas poderosas que levam à igualdade entre grupos

étnicos racializados, substanciadas por ideias antirracistas

sobre grupos étnicos racializados.

 

N ele sempre estava nervoso. Contávamos piadas de camelos para outro menino

por causa de um afundamento que ele tinha no alto da

cabeça. Chamávamos uma menina de girafa sem dó por causa

das pernas compridas. “Você está grávido?”, perguntávamos ao

menino gordo. “Sabemos que você está grávida”, dizíamos à

menina gorda. Eles me deram o apelido de Bonk, por causa de

um personagem de videogame cuja única arma era a cabeça

inacreditavelmente grande que fazia um rítmico “Bonk. Bonk.

Bonk” quando atacava os inimigos.

Eu distribuía tantas piadas quanto os outros — o dissidente do

nono ano tinha se tornado um adolescente popular com uma

queda por piadas cruéis. Talvez minha capacidade de empatia

tivesse sido reavivada se eu tivesse entrado no ônibus para

participar da Marcha de Um Milhão de Homens, em Washington,

D.C., em outubro de 1995. Mas meu pai, cuidando de um irmão

doente, não nos levou.

E também nenhum de nós participou de outro evento

importante da época: o julgamento de O. J. Simpson, em Los

Angeles. Duas semanas antes da Marcha de Um Milhão de Homens, eu estava na minha classe do nono ano, esperando

pacientemente com meus colegas negros, ouvindo rádio. Quando

a declaração “inocente” cortou o silêncio como um cutelo,

saltamos de nossas carteiras, gritando, nos abraçando, querendo

chamar os amigos e pais para comemorar. (Infelizmente, não

tínhamos celulares.)

Em Manhattan, meu pai se reuniu com os colegas contadores

em uma sala de conferências lotada, abafada e silenciosa para

assistir ao veredito pela televisão. Após a leitura da decisão de

absolvição, meu pai e seus colegas negros saíram da sala com

sorrisos escondidos pelo semblante sério, deixando os colegas

brancos desconcertados para trás.

De volta à minha classe, entre abraços de alegria, olhei para

minha professora branca. Ela sacudiu o rosto vermelho enquanto

tentava conter as lágrimas, talvez dominada pela mesma

sensação esmagadora de impotência e desânimo que os negros

sentem tantas e tantas vezes. Sorri para ela — não me

importava. Eu queria que O. J. ficasse livre. Escutara as

conversas dos adultos negros à minha volta durante meses em

1995. Eles não achavam que ele era inocente de assassinato,

assim como não pensavam que era inocente de trair seu povo.

Mas eles sabiam que o sistema judicial também era culpado.

Culpado por livrar os policiais negros que espancaram Rodney

King, em 1991, e o comerciante coreano que matou Latasha

Harlins, uma garota de 15 anos, naquele mesmo ano, depois de

acusá-la falsamente de ter roubado suco de laranja. Mas o

veredito de O. J. não impediu a justiça de falhar quando se

tratava de corpos de pessoas negras — todos os tipos de negros.

Os nova-iorquinos confirmaram esse fato dois anos mais tarde,

quando policiais no interior de uma delegacia do Brooklyn

sodomizaram um imigrante haitiano de 30 anos chamado Abner

Louima com um cabo de vassoura, depois de espancá-lo

violentamente no caminho até a delegacia. E, dois anos depois

disso, o sistema judicial libertou outro grupo de policiais de Nova

York que dispararam 40 projéteis no corpo de Amadou Diallo, um

imigrante da Guiné desarmado, de 23 anos de idade. Não importava se essas pessoas não brancas tinham nascido ou não

Estados Unidos. No final, a violência racista era igual para todos.

Mas, na minha classe do nono ano, meus colegas afro-

americanos discriminavam. Kwame provavelmente sofria as

piadas mais maldosas. Ele era popular, engraçado, bonito,

atlético e legal — no entanto, sua etnia ganesa superava tudo.

Incansavelmente, fazíamos piadas sobre Kwame, como se ele

fosse Akeem, do reino de Zamunda, e nós o

Darryl, o insuportável namorado de Lisa, na comédia romântica

de 1988 Um Príncipe em Nova York. Afinal, vivíamos no Queens,

para onde Akeem tinha ido em busca de uma esposa e se

apaixonou por Lisa, no filme.

Em Um Príncipe em Nova York, Darryl, Lisa, Akeem e Patrice

(irmã de Lisa) estão nas arquibancadas, assistindo a uma partida

de basquete. “Usar roupas deve ser uma experiência nova para

você”, dispara Darryl olhando para Akeem. Lisa, aborrecida,

sentada entre os dois, muda de assunto. Darryl o retoma. “Que

tipos de jogos vocês jogam na África? Caça aos macacos?”

Darryl dá uma risadinha. Esperava-se que os espectadores afro-

americanos fizessem o mesmo e rissem de Akeem. De volta à

classe, parafraseamos as piadas de Darryl sobre africanos

bárbaros e animalescos para os Kwanes em nosso meio.

Essas eram piadas racistas cujo ponto de origem — o comércio

escravagista — não é nada engraçado. Quando negros fazem

piadas que desumanizam outros ramos da diáspora africana,

permitimos que essa história de horror reviva em nossos risos. O

racismo étnico é o roteiro ressuscitado do comerciante

escravagista.

A origem do racismo étnico pode ser encontrada no mercado da

oferta e da procura do comércio escravagista de mercadorias

humanas. Diferentes escravagistas preferiam diferentes grupos

étnicos na África, por acreditar que dariam melhores escravos. E

os melhores escravos eram considerados os melhores africanos.

Alguns fazendeiros franceses consideravam os congoleses

“negros magníficos”, visto que “tinham nascido para servir”.

Outros se uniram aos espanhóis e consideravam os cativos da

Senegâmbia “os melhores escravos”. Contudo, a maioria dos fazendeiros nos Estados Unidos considerava os grupos étnicos

da Costa do Ouro — atualmente Gana — como “os melhores e

mais fiéis de nossos escravos”, como relatado por Christopher

Codrington, governador e um dos mais ricos dono de terras de

Antígua.

Fazendeiros e comerciantes escravagistas colocavam os

angolanos em último lugar, considerando-os os piores escravos,

o mais baixo degrau na escada do racismo étnico, acima

somente dos animais. Nos anos de 1740, cativos da Costa do

Ouro eram vendidos por um preço cerca de duas vezes maior

que cativos de Angola. Talvez o baixo valor dos angolanos se

baseie no excesso de oferta: os angolanos eram mais

comercializados do que qualquer outro grupo étnico africano. Os

cerca de 20 cativos levados para Jamestown, Virgínia, em agosto

de 1619, que iniciaram a história dos africanos nos Estados

Unidos, eram angolanos.

Os fazendeiros não tinham problemas em inventar explicações

para seu racismo étnico. “Os negros da Costa do Ouro, Popa e

Uidá”, escreveu um francês, “nasceram em uma parte da África

muito árida”. Como resultado, “eles são obrigados a cultivar a

terra para sua subsistência” e “estão acostumados ao trabalho

duro desde a infância”, escreveu. “Por outro lado… negros de

Angola são trazidos daquelas partes da África… onde tudo

cresce quase espontaneamente.” Assim, “os homens nunca

trabalham e levam uma vida indolente e, em geral, são

preguiçosos e têm compleição frágil”.

É possível que meus amigos e eu seguíssemos um velho

roteiro quando se tratava do racismo étnico, mas nossas

motivações não eram as mesmas que a daqueles antigos

fazendeiros. Oculto em nossos risos em relação a Kwame e

Akeem provavelmente havia alguma raiva em relação aos

africanos continentais. “Os chefes africanos eram aqueles que

travavam guerras uns contra os outros e capturavam e vendiam

seu próprio povo”, contou o presidente de Uganda Yoweri

Museveni, em 1998, a uma multidão que incluía o presidente Bill

Clinton, reproduzindo o discurso habitual que faz parte da

memória afro-americana sobre o comércio escravagista. Eu ainda me lembro de uma discussão que tive com alguns amigos

na faculdade anos depois — eles me disseram para deixá-los em

paz com minha “merda africana”. Aqueles “africanos filhos da

mãe nos traíram”, disseram. Venderam o “próprio povo”.

A ideia de que os “chefes africanos” venderam o “próprio povo”

é uma memória anacrônica, que reveste nossas noções atuais

sobre raça de um passado étnico. Quando os intelectuais

europeus criaram a raça entre os séculos XV e XVIII, juntando

diversos grupos étnicos em raças monolíticas, não mudaram,

necessariamente, o modo como as pessoas se viam. Residentes

africanos nos séculos XVII e XVIII não olharam para os diversos

grupos à sua volta e, de repente, viram todos com um único

povo, uma mesma raça, como africanos ou negros. Africanos

envolvidos no comércio escravagista não acreditavam que

estavam vendendo o próprio povo — eles normalmente vendiam

pessoas que para eles eram tão diferentes quanto os europeus

que as esperavam na costa. Pessoas comuns na África Ocidental

— como pessoas comuns na Europa Ocidental — identificavam-

se em termos étnicos durante a vida do comércio escravagista.

Levou muito tempo para que a criação de raças lançasse sua

pesada sombra sobre todo o globo.

 

1990, o número de imigrantes não

brancos nos Estados Unidos cresceu, devido aos efeitos

combinados da Lei de Imigração e Nacionalidade de 1965, a Lei

de Refugiados de 1980 e a Lei de Imigração de 1990. Somadas,

essas leis encorajaram a reunificação familiar, imigração de

áreas de conflito e um programa de vistos de diversidade (loteria

de vistos) que aumentou a imigração oriundas de países fora da

Europa. Entre 1980 e 2000, a população de imigrantes latinos

saltou de 4,2 milhões para 14,1 milhões. Em 2015, imigrantes

negros eram responsáveis por 8,7% da população negra do país,

cerca do triplo de sua parcela em 1980. Como era um bebê do

início dos anos 1980, testemunhei esse crescimento de

imigrantes não brancos de perto.

Embora alguns afro-americanos ficassem cautelosos diante da

entrada de imigrantes do mundo negro, o mesmo não ocorreu com meus pais. Um casal haitiano com três garotos morava em

frente à nossa casa, e eu fiz amizade com Gil, o filho mais novo,

e seu primo, Cliff. Passei muitos dias na casa deles comendo

arroz e ervilhas, bananas-da-terra fritas e pratos à base de frango

cujos nomes não sei pronunciar. Aprendi um pouco de crioulo

haitiano. O pai de Gil era pastor em uma igreja haitiana em

Flatbush, Brooklyn, o coração da comunidade das Índias

Ocidentais. Muitas vezes ia com eles à igreja, servindo-me de

grandes porções de cultura haitiana-americana junto com o

sermão do dia.

Gil e Cliff ficaram próximos, mas os pais de Gil, não. Eles eram

gentis e prestativos, mas sempre havia uma distância entre nós.

Nunca me senti parte da família, apesar de todas as vezes que

me sentei à sua mesa. Talvez eles mantivessem distância por eu

ser afro-americano em uma época em que imigrantes haitianos

sofriam com nossa intolerância. Talvez não. Talvez eu esteja

fazendo uma tempestade em copo d’água. Mas essa sensação

se repetiu em outros encontros. Imigrantes do Caribe costumam

classificar afro-americanos como “preguiçosos, sem ambição,

incultos, inamistosos, dependentes do serviço social e destituídos

de valores familiares”, constatou Mary C. Waters em seu estudo

baseado em entrevistas sobre hábitos de imigrantes do Caribe.

Os afro-americanos costumavam categorizar caribenhos como

“egoístas, destituídos de consciência de raça, criados dos

brancos e donos de um inflado senso de superioridade”.

Cresci com diversos tipos de negros ao meu redor — não

conheci nada diferente. Mas estar cercado de imigrantes negros

era algo novo para a geração de meus pais e avós.

O afrouxamento das leis de imigração nos anos 1960 a 1990

teve a intenção de desfazer uma geração anterior de leis que

limitavam a imigração de não brancos aos Estados Unidos. A Lei

de Exclusão de Chineses, de 1882, foi estendida para uma lei

mais ampla, abrangendo uma “Zona Asiática Proibida”, em 1917.

A Lei de Emergência de Fixação de Quotas em 1921, e a Lei de

Imigração, de 1924, limitaram rigidamente a entrada de pessoas

da África e da Europa Oriental e Ocidental, e praticamente

proibiu a imigração de asiáticos até 1965. “Os Estados Unidos precisam continuar um país norte-americano”, disse o presidente

Calvin Coolidge quando assinou a lei de 1924. Naturalmente, na

época, “norte-americano“ incluía milhões de negros, asiáticos,

indígenas, pessoas do Oriente Médio e latinos (que foram, pelo

menos nos casos de mexicanos-americanos, repatriados à força

para o México às centenas de milhares). Mas Coolidge e seus

apoiadores no Congresso determinaram que apenas imigrantes

do noroeste europeu — Escandinávia, Ilhas Britânicas, Alemanha

— poderiam manter os Estados Unidos um país norte-americano,

ou seja, branco. Os Estados Unidos “eram uma terra poderosa

colonizada por europeus do norte, noruegueses e saxões”,

proclamou Ira Hersey, representante do Maine, sob aplausos,

durante debate sobre a Lei de Imigração de 1924.

Cerca de um século depois, o senador norte-americano Jeff

Sessions

lamentou o crescimento da população de não nativos. “Quando

os números atingiram um patamar muito alto em 1924, o

presidente e o Congresso mudaram a política. E a imigração

desacelerou significativamente”, disse ele a Steve Bannon, da

Breitbart, em 2015. “Então assimilamos até 1965 e criamos uma

classe média realmente sólida nos Estados Unidos com

imigrantes assimilados. E isso foi bom para o país.” Um ano

depois, como procurador-geral, Sessions começou a aplicar as

políticas anti-imigração da administração Trump contra latinos,

árabes e negros orientadas a tornar a América branca outra vez.

“Deveríamos ter mais pessoas de lugares como a Noruega”,

disse Trump aos legisladores em 2018. Aparentemente, já havia

muitas pessoas não brancas como eu.

 

retomou as políticas de imigração do

início do século XX — baseadas em ideias racistas do que

constitui um norte-americano —, com a intenção de voltar aos

anos de imigração que viram uma extraordinária diversificação

nos Estados Unidos, incluindo a nova diversidade na população

negra, que agora incluía africanos, caribenhos, além dos

descendentes de escravizados norte-americanos. Contudo, independentemente de onde vieram, todos foram racializados

como negros.

A verdade é que, depois que caem sob o olhar e o poder dos

criadores de raças, todos os grupos étnicos são racializados. Eu

sou descendente de escravizados norte-americanos. Meu grupo

étnico é afro-americano. Minha raça, como afro-americano, é

negra. Quenianos são racializados como um grupo étnico negro,

enquanto italianos são brancos, japoneses são asiáticos, sírios

são do Oriente Médio, porto-riquenhos são latinos, e choctaws

são indígenas norte-americanos. A racialização serve à principal

função da raça: criar hierarquias de valor.

Em toda a história, o poder racista produziu ideias racistas

sobre grupos étnicos racializados em sua esfera colonial e os

classificou — em todo o globo e em suas nações. A história dos

Estados Unidos oferece uma série de relacionamentos de poder

étnicos intrarraciais: anglo-saxões

discriminando católicos irlandeses e judeus; imigrantes cubanos

sendo privilegiados em detrimento de imigrantes mexicanos; a

construção do modelo de minorias que inclui pessoas do leste

asiático e exclui muçulmanos do sul da Ásia. Essa é uma história

que começou com os primeiros colonizadores europeus em

relação aos Cherokees, Chicksaws,

Choctaw, Creeks e Seminoles como as “Cinco Tribos Civilizadas”

de indígenas norte-americanos, comparadas a outras tribos

“selvagens”. Essa classificação de grupos étnicos racializados

dentro da classificação das raças cria uma hierarquia etnorracial,

uma escala de racismo étnico dentro de um esquema de racismo

maior.

Praticamos o racismo étnico quando expressamos uma ideia

racista sobre um grupo étnico ou apoiamos uma política racista

para um grupo étnico. O racismo étnico, como o próprio racismo,

aponta para o comportamento do grupo, e não as políticas, como

a causa de disparidades entre grupos. Quando imigrantes

ganeses nos Estados Unidos se unem aos norte-americanos

brancos e dizem que os afro-americanos são preguiçosos, eles

estão reciclando as ideias racistas dos norte-americanos brancos

sobre os afro-americanos. Isso é racismo étnico.

A cara do racismo étnico se mostra na forma de uma pergunta

persistente:

“De onde você é?”

Muitas vezes, pessoas que me veem pelas lentes do racismo

étnico me fazem essa pergunta. Seu racismo étnico supõe que

eu — professor universitário e escritor — não posso ser um

desses afro-americanos inferiores, preguiçosos e apagados.

“Eu sou de Queens, Nova York”, respondo.

“Não, não, de onde você é, mesmo?”

“Eu sou de Nova York, mesmo.”

Frustradas, as pessoas mudam ligeiramente a linha do

interrogatório. “De onde são seus pais?” Quando digo: “A família

do meu pai é de Nova York e a de minha mãe é da Geórgia”, elas

ficam sem ação, confusas. Quando acrescento: “Sou

descendente de africanos escravizados nos Estados Unidos”, as

perguntas param. Finalmente, elas têm que se resignar com o

fato de que sou afro-americano. Talvez o próximo passo seja me

olharem como extraordinário — não como aqueles afro-

americanos comuns e inferiores — para que possam sair em

silêncio com sua lente de racismo étnico intacta.

Às vezes, porém, elas não saem em silêncio. Às vezes, usam a

oportunidade para oferecer um discurso sobre meu grupo étnico,

como um ousado estudante de Gana no início de minha carreira

profissional no interior de Nova York. Ele proferiu um monólogo

para uma classe cheia de afro-americanos que falou de tudo,

desde nossa preguiça à nossa dependência da assistência

social. Apresentei dados que desmentiam seu racismo étnico —

por exemplo, o fato de que a maioria de norte-americanos que

depende da assistência social não é afro-americana e que a

maioria dos afro-americanos qualificados para receber os

benefícios da assistência social os recusa. Todavia, ele insistiu

obstinado com seu racismo étnico e continuou a falar enquanto

as risadinhas dos alunos afro-americanos lentamente se

transformaram em raiva (enquanto muitos dos filhos de

imigrantes negros permaneceram calados). Para acalmar meus

alunos afro-americanos, apresentei as ideias etnicamente

racistas que os afro-americanos expressam sobre imigrantes da África Ocidental, para mostrar-lhes que o absurdo do racismo

étnico é universal. O tiro saiu pela culatra. Todos começaram a

assentir com a cabeça diante da ladainha de estereótipos sobre

imigrantes africanos.

Ser antirracista é enxergar os grupos étnicos nacionais e

transnacionais como iguais em todas as suas diferenças. Ser

antirracista é contestar as políticas racistas que assolam grupos

étnicos racializados em todo o mundo. Ser antirracista é ver as

desigualdades entre todos os grupos étnicos racializados como

um problema político.

O estudante ganês me confrontou após a aula enquanto eu

recolhia meu material (sob os olhares penetrantes de alguns de

seus colegas afro-americanos que deixavam a sala). Quando ele

terminou seu segundo monólogo, perguntei se ele se

incomodaria em responder algumas perguntas. Ele concordou.

Eu realmente só queria que ele continuasse a falar mais algum

tempo, no caso de haver alunos zangados esperando por ele na

saída da sala. Brigas — ou pior — ocorriam, às vezes, entre

grupos étnicos negros em Nova York, assim como ocorreram um

século antes entre grupos étnicos brancos.

“Quais são algumas ideias racistas dos ingleses sobre os

ganeses?”, perguntei.

Ele me lançou um olhar vazio antes de disparar: “Eu não sei.”

“Sabe, sim. Diga alguns. Está tudo bem.”

Ele ficou em silêncio por um momento e então recomeçou a

falar, agora muito mais devagar e com menos calma do que nos

primeiros arroubos, aparentemente imaginando aonde aquilo iria

parar. Quando ele terminou de enumerar ideias racistas, eu falei

de novo.

“Mas essas ideias são verdadeiras?”, perguntei. “Os ingleses

são superiores ao ganeses?”

“Não!”, disse ele, orgulhoso. Eu também estava orgulhoso por

ele não ter internalizado essas ideias racistas sobre seu próprio

grupo étnico racializado.

“Quando os afro-americanos repetem ideias racistas britânicas

sobre ganeses, você defende seu povo?”

“Sim. Porque elas não são verdadeiras!”

“Então, essas ideias sobre afro-americanos: de onde você as

tirou?”

Ele pensou. “Minha família, meus amigos e minhas

observações”, respondeu.

“De onde você acha que seus colegas ganeses-americanos

tiraram essas ideias sobre afro-americanos?”

Dessa vez, ele pensou mais. Pelo canto do olho, viu outro aluno

esperando para falar comigo, o que pareceu apressar seu

pensamento — ele era um garoto educado, apesar de sua

compulsão por discursos. Mas eu não o apressei. O outro aluno

era jamaicano e ouvia atentamente, talvez pensando de onde os

jamaicanos tinham tirado suas ideias sobre os haitianos.

“Provavelmente, norte-americanos brancos”, disse ele, olhando-

me nos olhos pela primeira vez.

Ele parecia ter uma mente aberta, então continuei. “Assim, se

afro-americanos fossem a Gana, absorvessem as ideias

britânicas sobre os ganeses, e começassem a manifestar essas

ideias em Gana, o que o povo pensaria disso? O que você

pensaria disso?”

Ele sorriu, surpreendendo-me. “Entendi”, retrucou, começando

a sair da classe.

“Tem certeza?”, insisti, erguendo minha voz acima da cabeça

do estudante jamaicano.

Ele se virou para mim. “Sim, senhor. Obrigado, professor.”

Eu o respeitei por sua boa vontade de refletir sobre a própria

hipocrisia. E não queria ter uma reação exagerada quando ele

detonou os afro-americanos, porque eu sabia de onde ela vinha:

eu mesmo tinha estado lá. Quando conheci a história do racismo

étnico, de afro-americanos geralmente depreciando os africanos

como “bárbaros” ou rotineiramente chamando caribenhos no

Harlem nos anos 1920 de “caçadores de macacos” — ou quando

eu me lembrei dos meus próprios insultos a Kwame no nono ano

—, também tentei não fugir à hipocrisia. Como posso ficar

aborrecido com imigrantes da África ou América do Sul por

desprezar afro-americanos quando afro-americanos

historicamente desprezaram imigrantes da África e da América

do Sul? Como posso criticar seu racismo étnico e ignorar meu racismo étnico? Este é o principal padrão duplo no racismo

étnico: adorar a própria posição na escada acima de outros

grupos étnicos e detestar a própria posição abaixo das de outros

grupos étnicos. É furiosamente criticar as ideias racistas sobre o

próprio grupo, mas alegremente absorver as ideias racistas de

outros grupos étnicos. É falhar em reconhecer que ideias racistas

que consumimos sobre os outros vêm do mesmo restaurante e

do mesmo cozinheiro que usou os mesmos ingredientes para

fazer diferentes pratos depreciativos para todos nós.

 

a mostrar que a renda familiar

média de afro-americanos era muito mais baixa do que a de

negros nascidos em outros países, e que afro-americanos tinham

maiores taxas de pobreza e desemprego, vários comentaristas

se perguntaram por que imigrantes negros se saíam tão melhor

do que negros nascidos nos Estados Unidos. Eles mesmos

responderam suas perguntas: imigrantes negros são mais

motivados, mais dedicados e “mais empreendedores do que

negros nativos”, escreveu um comentarista na Economist, em

1996. Seu sucesso mostra “que o racismo não é responsável por

todas, nem pela maioria, das dificuldades encontradas pelos

negros nativos”.

Ideias etnicamente racistas, como todas as ideias racistas,

encobrem as políticas racistas aplicadas a nativos e imigrantes

negros. Sempre que imigrantes negros comparam suas

condições econômicas às de negros nativos, sempre que

concordam que suas histórias de sucesso mostram que norte-

americanos antirracistas estão superestimando políticas racistas

contra afro-americanos, eles estão apertando as algemas das

políticas racistas ao redor dos próprios pulsos. As comparações

dos imigrantes negros com nativos negros escondem as

desigualdades raciais entre imigrantes negros e imigrantes não

negros.

Apesar dos estudos que mostram que imigrantes negros são,

em média, o grupo de imigrantes mais instruídos nos Estados

Unidos, eles recebem salários menores do que imigrantes não

negros com conhecimento semelhante e têm a maior taxa de desemprego de qualquer grupo de imigrantes. Um racista étnico

pergunta: por que os imigrantes negros estão se saindo melhor

do que os afro-americanos? Um antirracista étnico pergunta: por

que imigrantes negros não estão se saindo tão bem quanto

outros grupos de imigrantes?

A razão pela qual os imigrantes negros geralmente têm um

nível educacional mais alto e condições econômicas melhores

que afro-americanos não está no fato de terem etnias

transnacionais superiores. A razão está nas circunstâncias da

imigração humana. Nem todos os indivíduos migram, mas os que

o fazem, no que é chamado de “autosseleção imigrante”,

normalmente são pessoas com uma excepcional motivação

interior para o sucesso material e/ou que possuem recursos

externos excepcionais. Em termos gerais, imigrantes negros,

latinos, asiáticos, europeus e do Oriente Médio são incrivelmente

resilientes e engenhosos — não porque são nigerianos, cubanos,

japoneses, sauditas ou alemães, mas porque são imigrantes. Na

verdade, imigrantes e migrantes de todas as raças costumam ser

mais resilientes e engenhosos quando comparados com os

nativos do próprio país e os nativos de seu novo país. Sociólogos

chamam isso de “vantagem migratória”. Como a socióloga

Suzzane Model explicou em seu livro sobre imigrantes

caribenhos, “os caribenhos não são uma história de sucesso de

negros, mas uma história de sucesso de imigrantes ”. Assim,

políticas como as de Calvin Coolidge a Donald Trump ,que

limitam a imigração aos Estados Unidos de países como a China,

Itália, Senegal, Haiti ou México, têm sido autodestrutivas para o

país. Com o racismo étnico, ninguém ganha, exceto o poder

racista no topo. Como em todo racismo, é esse o objetivo.

 

no nono ano. Na classe, eu

gritava: “Refu !” Um amigo gritava: “Gia !” Outro completava: “Do

!” E toda a classe de afro-americanos explodia em gargalhadas

quando nós três apontávamos para Kwame e entoávamos,

“Refu-gia-do! Refu-gia-do! Refu-gia-do!” O professor branco nos

dizia para ficar quietos com um sorriso malicioso estampado em seu rosto. Kwame quebrava seu silêncio para se defender com

piadas. O ciclo se repetia, um dia depois do outro.

Kwame não demonstrava ficar aborrecido com as brincadeiras.

Dessa forma, ele se parecia com Akeem, em Um Príncipe em

Nova York , um príncipe tão poderoso, tão sofisticado, tão

seguro, que era capaz de ignorar as piadas como um atleta de

elite que ignora uma multidão hostil. Kwame exibia um orgulho

que, talvez, inconscientemente, tentávamos abalar rebaixando-o.

Como a estudiosa Rosemary Traoré constatou no estudo de uma

escola de ensino médio urbana, “alunos africanos se

perguntavam por que seus colegas afro-americanos os tratavam

como cidadãos de segunda classe, enquanto afro-americanos se

perguntavam por que os alunos africanos (pareciam) se sentir ou

agiam como se fossem superiores a eles”. As tensões criadas

pelo racismo étnico não produziam vencedores, apenas confusão

e mágoa em ambos os lados.

Não me entendam mal. Kwame devolvia as piadas. Kwame e

os outros nunca me deixaram esquecer que eu tinha uma cabeça

enorme. Nunca soube o porquê; minha cabeça não era tão

grande — talvez um pouco desproporcional.

Mas um grande surto de crescimento no ensino médio se

aproximava.