Como Ser Antirracista

Ibram X. Kendi · Capítulo 14 de 21

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Como Ser Antirracista

Negro

CAPÍTULO 11

 

NEGRO

 

DEFESA IMPOTENTE: A ideia ilusória, dissimulada,

enfraquecedora e racista de que as pessoas negras não

podem ser racistas porque as pessoas negras não têm poder.

 

E . Sempre que eu olhava para Mizel

Stewart, editor do Tallahassee Democrat , no segundo

semestre de 2003, via o ator alto, magro e de pele clara

Christopher Duncan. Sua energia tensa me lembrava Braxton, o

personagem de Duncan em The Jamie Foxx Show.

Eu me sentei. Ele girou na cadeira. “Vamos falar sobre este

artigo”, falou.

Ele disparou de uma crítica a outra, surpreso com minhas

defesas. Eu conseguia debater sem me aborrecer. Ele também.

Os negros eram problemáticos para mim, mas ele compreendeu

que o demônio branco assombrava minha mente.

Ele ficou em silêncio, claramente remoendo algo. Eu não ia

confrontá-lo, apenas me defender o mais respeitosamente que

podia. Ele tinha minha formatura nas mãos.

“Sabe, eu tenho um bom carro”, começou devagar, “e detesto

quando me fazem encostar e me tratam como se eu fosse um

desses crioulos”.

Respirei fundo, apertei os lábios e os umedeci, e mentalmente

me obriguei a ficar quieto. “Esses crioulos”, pairou no ar entre

nossos olhares inquisitivos. Ele esperou por minha resposta.

Fiquei em silêncio.

Eu queria me levantar, apontar e gritar: “Que raios você pensa

que é?” Teria interrompido sua resposta: “Está claro que você

não se considera um crioulo! O que os faz crioulos e você não?

Eu sou um ‘desses crioulos’”? Minhas aspas imaginárias se

agitavam sobre a cabeça dele.

Ele se distinguiu “daqueles crioulos”, racializou-os,

menosprezou-os. Dirigiu seu desdém não para os policiais que o

classificaram racialmente, que o maltrataram, mas para “aqueles

crioulos”.

 

constructo de “esses crioulos” [niggers ]

como o comediante Chris Rock em seu especial de 1996, na

HBO, Bring the Pain . Rock começou o show com uma

observação antirracista, imitando as reações de pessoas brancas

ao veredito de O. J. Simpson. Então ele se virou e falou sobre as

pessoas negras e “nossa guerra civil pessoal”. Ele escolheu um

lado: “Adoro pessoas negras, mas odeio crioulos.” Foi um refrão

familiar para mim — meu próprio duelo de consciências muitas

vezes se fixou na mesma fórmula, acrescentando depois da

eleição de 2000: “Eu adoro pessoas negras, mas odeio crioulos e

pessoas brancas.”

Embora artistas do hip-hop tenham reformulado “neguinho”

[nigga ] como um termo afetuoso, “crioulo” [nigger ] continuou

sendo um termo sarcástico dentro e fora de bocas negras. Rock

ajudou pessoas negras a recriar os grupos raciais dos “crioulos”

e atribuiu características ao grupo, como todos os criadores de

raças têm feito. “Crioulos” sempre impedem os negros de se

divertir, disse Rock. Crioulos são barulhentos. Crioulos estão

sempre falando, exigindo reconhecimento por tomar conta de

seus filhos e ficar fora da cadeia. “A pior coisa sobre os crioulos é

que eles adoram não saber”, provocou Rock. “Livros são como

kryptonita para um crioulo.” Ele rejeitou a alegação antirracista de

que “a mídia distorceu nossa imagem para parecermos maus”.

Esqueça isso! Foi culpa dos crioulos. Quando ele vai sacar

dinheiro, “não fico olhando por cima do ombro à procura da

mídia. Estou procurando crioulos”.

Rimos quando Chris Rock partilhou a grande verdade de que o

crioulo não é igual ao homem negro (uma remixagem da “grande

verdade de que o negro não é igual ao homem branco”,

manifesta pelo vice-presidente confederado, Alexander

Stephens, em 1861). Brancos racistas conseguiram nos ensinar

a generalizar as características individuais que vemos em uma pessoa negra em especial. Não estávamos vendo nem tratando

as pessoas negras como indivíduos, embora algumas delas

façam coisas ruins: criamos uma identidade de grupo, crioulos,

que, por sua vez, criaram uma hierarquia, como ocorre em toda

criação de raças. Acrescentamos a ousadia hipócrita de ficar

enfurecidos quando pessoas brancas nos chamam de crioulos

(Chris Rock parou de apresentar esse número quando viu

pessoas brancas rindo demais).

Não colocamos pessoas barulhentas que por acaso eram

negras em um grupo inter-racial de pessoas barulhentas — como

antirracistas. Racializamos o comportamento negativo e

associamos o barulho aos crioulos, como racistas brancos, como

racistas negros. Não colocamos pais negros negligentes em um

grupo inter-racial de pais negligentes — como antirracistas.

Racializamos o comportamento negativo e associamos a

negligência na criação de filhos aos crioulos, como racistas

brancos, como racistas negros. Não colocamos criminosos

negros em um grupo inter-racial de criminosos — como

antirracistas. Racializamos o comportamento negativo e

associamos a criminalidade aos crioulos, como racistas brancos,

como racistas negros. Não colocamos negros preguiçosos em

um grupo inter-racial de pessoas preguiçosas — como

antirracistas. Racializamos o comportamento negativo e

associamos a preguiça aos crioulos, como racistas brancos,

como racistas negros.

E, depois de tudo isso, nos autoidentificamos como “não

racistas”, como racistas brancos, como racistas negros.

Chris Rock assumiu a posição de muitos de nós norte-

americanos negros na virada do milênio, presos a duelos de

consciência entre as ideias assimilacionistas e antirracistas,

diferenciando-nos dos crioulos assim como racistas brancos se

diferenciavam de nós, crioulos. Sentíamos um tremendo orgulho

antirracista na excelência negra e uma imensa vergonha racista

em estar ligados aos crioulos. Reconhecemos a política racista

que enfrentamos e ignoramos a política racista que os crioulos

enfrentam. Olhamos para os crioulos como criminosos da raça, quando nossas ideias racistas antinegros eram o verdadeiro

crime de negros contra negros.

Em 2003, enquanto eu estava no escritório do editor negro,

53% de pessoas negras entrevistadas diziam que outros fatores

além do racismo geralmente explicavam por que pessoas negras

tinham empregos, renda e casas piores do que os brancos, um

aumento dos 48% de uma década antes. Somente 40% de

entrevistados negros descreveram o racismo como a origem

dessas desigualdades em 2003. Em 2013, no meio da

administração Obama, somente 37% de pessoas negras

apontaram o “racismo como principal” causa de desigualdades

raciais. Gritantes 60% de pessoas negras tinham se unido aos

83% de pessoas brancas naquele ano que encontraram outros

motivos além do racismo para explicar as persistentes

desigualdades raciais. A internalização de ideias racistas

provavelmente foi a razão.

Mentes negras despertaram para a contínua realidade do

racismo pela série de mortes televisionadas provocadas por

policiais e as frágeis exonerações que seguiram a eleição de

Obama, o movimento por Vidas Negras e, finalmente, a

ascensão racista de Donald Trump. Em 2017, 59% das pessoas

negras expressaram a posição antirracista de que o racismo é a

principal razão pela qual os negros não conseguem progredir

(comparados a 35% de brancos e 45% de latinos). Mas, mesmo

então, cerca de 1/3 de negros ainda expressava a posição racista

de que negros em dificuldades são geralmente responsáveis por

sua própria condição, comparados a 54% de brancos, 48% de

latinos e 75% de republicanos.

Está claro que uma grande porcentagem de pessoas negras

alimenta ideias racistas antinegros. Mas eu ainda queria acreditar

que o comentário sobre “aqueles crioulos” de Stewart era algo

fora do normal. Contudo, a verdade é que Stewart colocara um

espelho à sua frente. Eu tinha que enfrentar a realidade. Eu

detestava o que via. Ele estava dizendo o que eu pensava há

anos. Teve a coragem de dizê-lo. Eu o odiei por isso.

Em que suas críticas sobre as pessoas negras eram diferentes

das minhas, quando ambos as culpávamos por seus votos serem roubados ou as acusávamos de letargia e autossabotagem? Em

que nossas críticas sobre as pessoas negras eram diferentes das

críticas antinegros dos racistas brancos? Naquele escritório,

naquele dia, aprendi que, sempre que eu digo que algo está

errado com as pessoas negras, estou, ao mesmo tempo,

separando-me delas, essencialmente dizendo “aqueles crioulos”.

Quando faço isso, estou sendo racista.

 

pessoas brancas podiam ser racistas, e

que pessoas negras não podiam ser racistas porque pessoas

negras não têm poder. Pensava que latinos, asiáticos, pessoas

do Oriente Médio e indígenas não podiam ser racistas, porque

eles não tinham poder. Eu não tinha noção da história reacionária

dessa construção, de sua influência racista.

Essa defesa impotente, como a chamo, surgiu no rastro de

brancos racistas rejeitando políticas e ideias racistas no final dos

anos 1960. Em décadas posteriores, vozes negras críticas do

racismo branco se defendiam dessas acusações dizendo:

“Pessoas negras não podem ser racistas, porque pessoas negras

não têm poder.”

Silenciosamente, porém, essa defesa ampara as pessoas não

brancas em posições de poder para que não façam o trabalho do

antirracismo, visto que elas são aparentemente impotentes, já

que pessoas brancas detêm todo o poder. Isso significa que

pessoas não brancas são impotentes para limitar os efeitos de

políticas racistas e reduzir desigualdades raciais mesmo em suas

esferas de influência, os locais em que realmente têm algum

poder para realizar mudanças. A defesa impotente protege as

pessoas não brancas das acusações de racismo mesmo quando

estão reproduzindo políticas racistas e justificando-as com as

mesmas ideias racistas que as pessoas brancas a quem

chamam de racistas. A defesa impotente protege seus adeptos

da história de pessoas brancas empoderando pessoas não

brancas para oprimir pessoas não brancas, e de pessoas não

brancas de usar seu poder limitado para oprimir pessoas não

brancas para seu ganho pessoal.

Como qualquer outra ideia racista, a defesa impotente

subestima as pessoas negras e superestima as pessoas

brancas. Ela elimina o já escasso poder negro e expande o já

amplo alcance do poder branco.

A defesa impotente não considera pessoas em todos os níveis

de poder, de legisladores, como políticos e executivos que têm o

poder de instituir e eliminar políticas racistas e antirracistas, a

gestores de políticas, como dirigentes e médios gerentes

empoderados para executar ou recusar políticas racistas e

antirracistas. Cada pessoa tem o poder de protestar contra

políticas racistas e antirracistas, de promovê-las ou, de algum

modo modesto, impedi-las. Estados-nação, setores,

comunidades e instituições são administrados por legisladores,

políticas e gestores de políticas. “O poder institucional”, “poder

sistêmico” ou “poder estrutural” é a criação de políticas e poder

de gestão de pessoas, em grupos ou individualmente. Quando

alguém diz que pessoas negras não podem ser racistas porque

não têm “poder institucional”, elas estão ignorando a realidade.

A defesa impotente tira todo o poder dos legisladores e

gestores negros. A defesa impotente diz que mais de 154 afro-

americanos que serviram no Congresso de 1870 a 2018 não

tinham poder legislativo. Ela diz que nenhum dos milhares

políticos estaduais e locais negros tem qualquer poder de criar

leis. Ela diz que o juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos

Clarence Thomas nunca teve o poder de usar sua voz em favor

de propósitos antirracistas. A defesa impotente diz que mais de

700 juízes negros em tribunais estaduais e mais de 200 juízes

negros em tribunais federais não tiveram poder durante os

processos de julgamento e condenação que criaram nosso

sistema de encarceramento em massa. Ela diz que mais de 57

mil policiais negros não têm o poder de brutalizar e matar o corpo

negro. Ela diz que os 3 mil chefes de polícia, chefes adjuntos e

comandantes negros não têm poder sobre seus subordinados. A

defesa impotente diz que os mais de 40 mil professores negros

em faculdades e universidades nos Estados Unidos em 2016 não

tinham o poder de aprovar e reprovar alunos negros, contratar e

dar estabilidade a professores negros ou formar as mentes de pessoas negras. Ela diz que os 11 negros bilionários do mundo e

as 380 mil famílias negras milionárias nos Estados Unidos não

têm poder econômico para ser usado de formas racistas ou

antirracistas. Ela diz que os 16 CEOs negros que administraram

empresas Fortune 500 desde 1999 não tinham poder de

diversificar sua força de trabalho. Quando um homem negro

assumiu o mais poderoso cargo do mundo em 2009, suas

políticas muitas vezes foram justificadas por apologistas que

afirmaram que ele não tinha poder executivo. Como se nenhuma

de suas ordens executivas fosse cumprida, como se seus

procuradores-gerais não tivessem poder de evitar o

encarceramento em massa ou seu conselheiro de segurança

nacional não tivesse poder algum. A verdade é: pessoas negras

podem ser racistas porque pessoas negras têm poder, mesmo

que limitado.

Note que eu disse poder negro limitado e não nenhum poder. O

poder branco controla os Estados Unidos. Mas não

absolutamente. O poder absoluto precisa de controle total sobre

todos os níveis de poder. Todas as políticas. Todos os gestores

de políticas. Todas as mentes. Ironicamente, o único meio de o

poder branco conseguir poder total é convencendo-nos de que as

pessoas brancas já detêm todo o poder. Se aceitarmos a ideia de

que não temos poder, estaremos sujeitos ao tipo de controle

mental que, na verdade, nos tirará qualquer poder para resistir.

Como o pai do Mês da História Negra, Carter G. Woodson,

escreveu: “Quando você controla o pensamento de um homem,

não precisa se preocupar com suas ações. Você não precisa lhe

dizer para não ficar aqui ou ir para lá. Ele vai encontrar seu ‘lugar

adequado’ e ficará nele.”

Ideias racistas são criadas constantemente para aprisionar o

poder de resistência das pessoas. Ideias racistas fazem as

pessoas negras acreditar que as pessoas brancas detêm todo o

poder, elevando-as ao nível de deuses. Assim, segregacionistas

negros atacam esses deuses todo-poderosos como demônios

caídos, como fiz na faculdade, enquanto os assimilacionistas

cultuam seus todo-poderosos anjos brancos, lutam para se tornar um deles, a fim de angariar seus favores, reproduzindo suas

ideias racistas e defendendo suas políticas racistas.

Além dos inúmeros aniquiladores julgamentos antinegros do

juiz Clarence Thomas ao longo dos anos, talvez o mais grave

crime racista negro contra negro na história norte-americana

recente foi o que decidiu a eleição presidencial de 2004. George

W. Bush venceu a reeleição por uma margem estreita ganhando

em Ohio com a ajuda crucial de Ken Blackwell, ambicioso

secretário de Estado negro, que agiu simultaneamente como

copresidente da campanha de Bush em Ohio.

Blackwell dirigiu conselhos de condados para limitar o acesso

de eleitores às cédulas provisórias que garantiam que quaisquer

pessoas indevidamente removidas das listas de votação

pudessem votar. Ele ordenou que os formulários de registro de

eleitores fossem aceitos somente em caro papel cartão, uma

técnica dissimulada para excluir eleitores recém-registrados (que

ele sabia, quase com certeza, que tinham maior probabilidade de

ser negros). Sob a supervisão de Blackwell, os conselhos dos

condados estavam falsamente dizendo a ex-prisioneiros que não

poderiam votar. Os conselhos dos condados alocaram poucas

urnas eletrônicas para cidades largamente democratas. Eleitores

negros de Ohio esperaram em média 52 minutos para votar, 34

minutos a mais que eleitores brancos, segundo um levantamento

pós-eleitoral. Longas filas fizeram com que 3% dos eleitores

desistissem de votar, representando cerca de 174 mil votos em

potencial perdidos, mais do que a margem de vitória de 118 mil

de Bush. “Blackwell fez Katherine Harris parecer boazinha”, disse

o representante John Conyers depois de investigar a supressão

de eleitores em Ohio, referindo-se à secretária de Estado da

Flórida que confirmou Bush como vencedor da eleição de 2000.

Contudo, segundo a teoria de que pessoas negras não podem

ser racistas porque não têm poder, Blackwell não tinha o poder

de suprimir votos negros. Lembre-se: somos todos racistas ou

antirracistas. Como pôde Katherine Harris, da Flórida, ser uma

racista em 2000 e Blackwell antirracista em 2004?

Depois de concorrer sem sucesso ao governo de Ohio em 2006

e a presidente do Comitê Nacional Republicano em 2009, Blackwell juntou-se à Comissão Consultiva sobre Integridade

Eleitoral Presidencial de Trump em maio de 2017. A comissão foi

claramente criada, embora Trump nunca o admitisse, para

encontrar novos meios de eliminar o poder de voto de oponentes

de Trump, principalmente os eleitores mais leais do Partido

Democrata: os negros. Claramente, mesmo 13 anos depois,

agentes de Trump não tinham esquecido o trabalho racista

inovador de eliminação de eleitores negros para a reeleição de

Bush.

Com a popularidade da defesa impotente, criminosos negros

contra negros como Blackwell saem impunes com seu racismo.

As pessoas negras os chamam de Tio Tom [pejorativo, para

negros subservientes], traidores, Oreos, marionetes — tudo,

menos do nome certo: racistas. Pessoas negras precisam fazer

mais do que revogar seu ‘“cartão negro”, como o chamamos.

Precisamos colar o cartão de racista em suas testas para que

todos vejam.

A frase “Negros não podem ser racistas” reproduz a falsa

dualidade do racista e não racista promovida por racistas brancos

para negar seu racismo. Ela combina pessoas negras com

eleitores brancos de Trump que estão zangados por serem

chamados de racistas, mas que querem expressar posições

racistas e apoiar suas políticas racistas e, ao mesmo tempo, ser

identificados como não racistas, não importa o que digam ou

façam. De acordo com essa teoria, pessoas negras podem odiar

os crioulos, valorizar pessoas claras em detrimento das escuras,

apoiar políticas de imigração prejudiciais aos latinos, defender

mascotes de times anti-indígenas, apoiar proibições em relação a

muçulmanos do Oriente Médio e ainda escapar de acusações de

racismo. Segundo essa teoria, latinos, asiáticos e indígenas

podem temer corpos negros desconhecidos, apoiar políticas de

encarceramento em massa e ainda escapar de acusações de

racismo. Segundo essa teoria, posso olhar para pessoas brancas

como demônios e alienígenas e ainda escapar de acusações de

racismo.

Quando paramos de negar a dualidade racista e antirracista,

podemos fazer uma avaliação precisa de ideias e políticas raciais que apoiamos. Durante grande parte de minha vida, expressei

ideias racistas e antirracistas, apoiei políticas racistas e

antirracistas; fui antirracista em um momento, racista em muitos

outros. Dizer que pessoas negras não podem ser racistas é dizer

que todas as pessoas negras estão sendo antirracistas o tempo

todo. Minha própria história me diz que isso não é verdade. A

história concorda.

 

do racismo negro começou em 1526,

em Della descrittione dell’Africa (Descrição da África), de autoria

de um mouro do Marrocos sequestrado depois de visitar a África

subsaariana. Seus captores o apresentaram ao Papa Leão X,

que o converteu ao cristianismo, o libertou e lhe deu um novo

nome, Leo Africanus. A obra foi traduzida para vários idiomas

europeus e se tornou a mais influente sobre ideias racistas

antinegras do século XVI, quando os ingleses, franceses e

holandeses mergulhavam fundo no comércio de escravos.

“Negros… levam uma vida bestial, são totalmente destituídos do

uso da razão, de destrezas da mente e de todas as artes”,

escreveu Africanus. “Eles se comportam como se tivessem vivido

o tempo todo entre os animais selvagens da floresta.” Africanus

pode ter inventado suas viagens para a África subsaariana para

obter favores da corte italiana.

O inglês Richard Ligon pode ter inventado as histórias de A

True and Exact History of the Island of Barbadoes [“A História

Verdadeira e Exata da Ilha de Barbados”, em tradução livre]

publicado em 1657. Liderados por Sambo, um grupo de escravos

revelou um plano de rebelião. Eles recusaram as recompensas

de seu dono. Um dono confuso lhes pergunta o porquê, Ligon

conta. Foi “apenas um ato de justiça”, responde Sambo, segundo

Ligon. Seu dever. Eles são “suficientemente” recompensados

“pelo Ato”.

A escravidão era justificada na narrativa de Sambo, porque

algumas pessoas negras acreditavam que deveriam ser

escravizadas. O mesmo se aplica a Ukawsaw Gronniosaw, autor

da primeira narrativa sobre escravizados, em 1772. Nascido na

realeza nigeriana, Gronniosaw foi escravizado aos 15 anos por um mercador de marfim, que o vendeu a um capitão holandês.

“Meu dono gostava muito de mim e eu o amava profundamente”,

e “me esforçava para convencê-lo, em todos os meus atos, de

que meu único prazer era servi-lo bem”. O navio chegou a

Barbados. Um nova-iorquino comprou Gronniosaw e o levou para

casa, onde passou a acreditar que era “um homem negro

chamado Diabo, que vivia no inferno”. Gronniosaw foi vendido

novamente para um pastor, que o transformou de “um pobre

pagão” em cristão escravizado. Aparentemente, ele estava feliz

em escapar do Diabo Negro.

Donos de escravos apreciavam os pastores que pregavam o

evangelho da escravatura negra eterna, originado da leitura da

Bíblia, na qual todas as pessoas negras eram descendentes

amaldiçoados de Cam. Um carpinteiro negro livre de 51 anos

teve que primeiro eliminar essas ideias racistas em 1818 quando

começou a recrutar milhares de negros escravizados para se unir

à sua revolta de escravizados em Charleston, Carolina do Sul.

Denmark Vesey marcou a revolta para 14 de julho de 1822, o

aniversário da derrubada da Bastilha durante a Revolução

Francesa. O objetivo da revolta era acabar com a escravatura,

como na bem-sucedida Revolução Haitiana que inspirou Vesey.

Mas a revolta tinha que ser mantida em segredo, mesmo de

alguns escravizados. Não diga nada “àqueles homens que

esperam receber velhos casacos de presente de seus donos”,

diziam os tenentes comandantes de Vesey aos recrutadores.

“Eles vão nos trair.” Um recrutador não lhe deu atenção e contou

ao escravo doméstico Peter Prioleau, que imediatamente contou

ao dono em maio. No final de junho de 1822, os donos de

escravos tinham destruído o exército de Vesey, que estima-se

conter 9 mil integrantes. Vesey, enforcado em 2 de julho de 1822,

manteve uma atitude desafiadora até o fim.

A legislatura da Carolina do Norte emancipou Peter Prioleau no

dia de Natal de 1822, e lhe concedeu uma pensão anual vitalícia.

Em 1840, ele adquiriu sete escravos e viveu confortavelmente na

comunidade clara livre de Charleston. Mesmo quando era

escravizado, esse homem negro não quis se livrar de seu dono.

Ele usou seu poder para arruinar uma das mais bem organizadas revoltas de escravos na história dos Estados Unidos. Usou seu

poder para incorporar totalmente as características de seu dono,

para se tornar igual a ele: com seus escravizados, ideias racistas

e tudo o mais.

 

- W illiam Hannibal Thomas, um

homem negro do século XIX que queria ser aceito pelos brancos

como um deles. Mas, à medida que as leis de Jim Crow se

alastravam nos anos 1890, Thomas foi jogado cada vez mais

fundo na negritude. Ele finalmente utilizou a tática do interesse

próprio usado por racistas negros desde o início para garantir

apoio dos brancos: ele atacou pessoas negras como inferiores.

Quando The American Negro [“O Negro Americano”, em

tradução livre] foi publicado semanas antes de Up from Slavery

[“Depois da Escravidão”, em tradução livre], de Booker T.

Washington, em 1901, o New York Times colocou Thomas “ao

lado do Sr. Booker T. Washington,

a maior autoridade norte-americana na questão do negro”.

Os negros são um “tipo de ser humano intrinsecamente

inferior”, Thomas escreveu. A história do negro é o “registro de

uma existência sem lei”. Os negros são mentalmente retardados,

selvagens imorais, “praticamente incapazes de discernir o certo

do errado”, escreveu

Thomas. Noventa por cento das mulheres negras são “escravas

do prazer físico”. A “degradação social de nossas mulheres

libertas não tem paralelo na civilização moderna”. No final, a lista

de Thomas “de características negativas dos negros parecia

ilimitada”, conforme concluiu seu biógrafo.

Thomas acreditava estar entre a minoria de pessoas claras que

tinham superado sua herança biológica inferior. Contudo, esse

“remanescente resgatado” foi mantido “afastado de seus irmãos

brancos”. Mostramos, Thomas argumentava para os brancos que

a “redenção do negro é… possível e garantida por meio de uma

profunda assimilação do pensamento e dos ideais da civilização

norte-americana”. Para acelerar essa “assimilação nacional”,

Thomas aconselhou restringir os direitos de voto de negros

corruptos, policiamento intensivo de negros naturalmente criminosos e colocar todas as crianças negras sob a tutela de

guardiões brancos.

Pessoas negras rotularam William Hannibal Thomas como o

“Judas Negro”. Críticos negros destruíram sua credibilidade e

logo racistas brancos não puderam mais usá-lo e o jogaram fora

como um papel usado, como racistas brancos têm feito com

tantos racistas negros descartáveis ao longo dos anos. Thomas

encontrou trabalho como zelador, antes de morrer na

obscuridade em 1935.

Pessoas negras seriam traídas por criminosos negros repetidas

vezes no século XX. Nos anos de 1960, esperava-se que a

diversificação das forças policiais dos Estados Unidos aliviasse o

tormento da brutalidade da polícia contra vítimas negras. Fruto

de décadas de ativismo antirracista, uma nova leva de policiais

negros deveria tratar melhor cidadãos negros do que seus

colegas brancos. Porém, nos anos de 1960, logo surgiram

denúncias de que os policiais negros eram tão agressivos quanto

os brancos. Um relato dizia que “em alguns lugares, negros de

baixa renda preferem policiais brancos por causa da conduta

severa dos policiais negros”. Um estudo de 1966 constatou que

policiais negros tinham menor probabilidade de serem racistas

que os brancos, mas uma minoria significativa expressava ideias

racistas antinegros como: “Estou lhe dizendo que essas pessoas

são selvagens. São muito sujas.” Ou o policial negro que dizia:

“Sempre houve empregos para negros, mas esses f*%@#%$

são burros demais para se mexer e estudar. Eles só querem uma

saída fácil.”

Pintar o racismo policial de branco sob o pretexto de que

somente pessoas brancas podem ser racistas é ignorar o

histórico de policiais não brancos de enquadrar e matar “os

crioulos”. É ignorar que o policial assassino de Shantel Davis, no

Brooklyn, em 2012, era negro; que três dos seis policiais

envolvidos na morte de Freddie Gray, em 2015, eram negros;

que o policial assassino de Keigh Lamont Scott, em Charlotte, em

2016, era negro; e que um dos policiais assassinos de Stephon

Clark, de Sacramento, em 2018, era negro. Como podem os

policiais brancos envolvidos nas mortes de Terence Crutcher, Sandra Bland, Walter L. Scott, Michael Brown, Laquan McDonald

e Decybthia Clements ser racistas, mas seus colegas negros

serem antirracistas?

Para ser justo, um estudo com cerca de 8 mil policiais em 2017

deixa extremamente claro que policiais brancos têm

probabilidade muito maior de ser racistas do que os negros hoje

em dia. Quase todos (92%) os policiais brancos pesquisados

concordaram com a ideia pós-racial de que “nosso país fez as

mudanças necessárias para dar aos negros direitos iguais aos

dos brancos”. Apenas 6% de policiais brancos concordaram com

a ideia antirracista de que “nosso país precisa continuar a fazer

mudanças para dar aos negros direitos iguais aos dos brancos”,

comparados a 69% de policiais negros. Mas as disparidades

diminuem com referência a encontros policiais mortais. Policiais

negros (57%) têm apenas duas vezes mais probabilidade que

policiais brancos (27%) de dizer que “as mortes de negros

durante enfrentamentos com a polícia nos últimos anos são

sinais de um problema maior”.

A nova leva de políticos, juízes, chefes de polícia e policiais

negros nos anos 1960 e décadas subsequentes ajudou a criar

um novo problema. O aumento dos níveis de crimes violentos

tomou conta de vizinhanças carentes. Residentes negros

bombardeavam seus políticos e combatentes do crime com seus

temores racistas de criminosos negros em oposição a

criminosos. Nem os residentes, nem os políticos, nem os

combatentes do crime viam totalmente o problema da heroína e

do crack como uma crise de saúde pública ou o problema de

crimes violentos em vizinhanças pobres onde os negros viviam

como uma consequência da pobreza. As pessoas negras

pareciam estar mais preocupadas com outras pessoas negras

matando-as em guerras de drogas ou roubos que ocorriam aos

milhares todos os anos do que com o câncer, doenças cardíacas

e respiratórias que as matavam às centenas de milhares a cada

ano. Essas doenças não eram mencionadas, mas “Crimes de

negros contra negros atingiram um nível crítico que ameaça

nossa existência como pessoas”, escreveu o editor da Ebony ,

John H. Johnson, em uma edição especialmente dedicada ao tema. O crime de negros contra negros do racismo internalizado

tinha, de fato, atingido um nível crítico — esse novo foco na crise

do “crime negro” ajudou a alimentar o crescimento do movimento

a favor do encarceramento em massa que destruiria uma

geração.

O aumento do encarceramento em massa foi parcialmente

alimentado por pessoas negras que, mesmo quando adotavam

ideias racistas, o faziam ostensivamente para tentar salvar a

comunidade negra nos anos 1970. Porém os anos 1980

trouxeram uma forma mais premeditada de racismo, canalizada

por meio de administradores negros que Ronald Reagan nomeou

para seu gabinete. Sob a direção de Clarence Thomas de 1980 a

1986, a Comissão de Oportunidades de Emprego Iguais dobrou o

número de casos de discriminação indeferidos por “ausência de

causa”. Samuel Pierce, secretário de Reagan para o

Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano (HUD),

redirecionou bilhões de dólares em recursos federais alocados

para habitações sociais para interesses corporativos e doadores

republicanos. Sob vigilância de Pierce na primeira metade dos

anos 1980, a quantidade de unidades de casas populares em

vizinhanças não brancas caiu drasticamente. Pobres negros

enfrentaram uma crise na habitação nos anos 1980 que Pierce

agravou, mesmo tendo o poder de aliviá-la, abrindo caminho para

futuros secretários da HUD como o indicado de Trump, Ben

Carson. Esses eram homens que usavam o poder que lhes foi

conferido — não importa o quanto fosse limitado ou condicional

— de formas indiscutivelmente racistas.

 

encarávamos, tive uma conversa

acalorada — e uma conversão — em minha mente. Por fim, o

silêncio foi quebrado e o editor me dispensou. Recebi um

ultimato antes do final do dia: encerrar minha coluna sobre raça

para o Famuan ou ser demitido de meu estágio no Tallahassee

Democrat . Encerrei minha coluna absolutamente aborrecido,

como que encerrando uma parte de mim.

E comecei a encerrar uma parte de mim — para melhor.

Comecei a silenciar metade da guerra dentro de mim, o duelo entre o antirracismo e a assimilação a que W.E.B. Du Bois deu

voz, e comecei a abraçar a luta pela consciência única do

antirracismo. Escolhi uma segunda especialidade: estudos afro-

americanos.

Fiz o primeiro curso de história negra no segundo semestre de

2003, o primeiro de quatro cursos de história africana e afro-

americana que eu faria em três semestres com o professor da

FAMU David Jackson. Suas aulas precisas, detalhadas,

envolventes, mas de certa forma engraçadas, sistematicamente

me levaram de volta à história pela primeira vez. Eu tinha

imaginado a história como uma batalha: de um lado, o pessoal

negro, do outro, uma turma com “aqueles crioulos” e o pessoal

branco. Pela primeira vez, vi que era uma batalha entre racistas e

antirracistas.

Terminar uma confusão começou outra: o que fazer com a

minha vida. No último ano de graduação no final de 2004,

constatei que o jornalismo esportivo não me motivava mais. Pelo

menos não tanto quanto essa nova história emocionante que

estava descobrindo. Acabei abandonando a cabine de imprensa

por algo que os norte-americanos diziam ser uma cabine muito

mais “perigosa”.