Como Ser Antirracista
Classe
CAPÍTULO 12
CLASSE
RACISTA DE CLASSES: Aquele que racializa as classes,
apoiando políticas de capitalismo racial contra essas classes
de raças e as justifica com ideias racistas sobre essas
classes de raças.
ANTICAPITALISTA ANTIRRACISTA: Aquele que se opõe ao
capitalismo racial.
E o curso de pós-graduação em
estudos afro-americanos na Temple University, me mudei
para o norte da Filadélfia no início de agosto de 2005. Hunting
Park, para ser exato, a alguns passos de distância da Allegheny
Avenue e do bairro de Allegheny West. Meu apartamento de um
quarto no segundo andar tinha vista para a North Broad Street:
pessoas brancas passando de carro, pessoas negras
caminhando, latinos virando à direita na Allegheny. Nenhuma das
pessoas do lado de fora do prédio, um cortiço pardacento ao lado
de um posto de gasolina da Exxon, podia imaginar que a
algumas janelas acima do andar térreo vazio estava o lar de uma
verdadeira vida humana. Suas janelas cobertas pareciam os
olhos fechados em um caixão.
Aparentemente, a morte também residia lá. Meus novos
vizinhos negros ouviam há anos que Hunting Park e Allegheny
West eram os bairros mais perigosos da Filadélfia — os mais
pobres, com as maiores taxas de crimes violentos.
Desfiz minhas malas no “gueto”, como as pessoas
irreverentemente chamavam minha nova vizinhança. O gueto se
expandiu no século XX enquanto engolia milhões de pessoas
negras que migraram do sul para cidades do oeste e do norte
como a Filadélfia. A fuga dos brancos os acompanhou. A combinação de programas de assistência social do governo —
na forma de subsídios, construção de estradas e garantia de
empréstimos —, com construtores muitas vezes racistas, criavam
novos empreendimentos urbanos e suburbanos ricos para os
brancos em fuga, ao mesmo tempo em que confinavam nativos e
novos migrantes negros nos tais guetos, agora superpopulosos e
destinados a extrair riqueza de seus residentes. Mas a palavra
“gueto”, ao se incorporar no vocabulário da classe média norte-
americana, não fez surgir a série de políticas racistas que
permitiram a fuga dos brancos e o abandono dos negros — em
vez disso, “gueto” começou a descrever um comportamento
negro não respeitável nas grandes avenidas do país.
“O gueto escuro é uma patologia institucionalizada; é uma
patologia crônica que se autoperpetua; e é uma tentativa vã dos
detentores do poder de confinar essa patologia para que não
espalhe seu contágio para a ‘comunidade em geral’”, escreveu o
psicólogo Kenneth Clark em seu livro de 1965, Dark Ghetto
[“Gueto Escuro”, em tradução livre]. “Patologia” significando um
desvio da norma. Pobres negros no “gueto” são patológicos,
anormais? Anormais comparados a quem? Que grupo é normal?
As elites brancas? As elites negras? Os brancos pobres? Os
latinos pobres? As elites asiáticas? O indígenas pobres?
Todos esses grupos — como o grupo de “negros pobres” — são
classes de raças distintas, grupos raciais na intersecção de raça
e classe. Pessoas pobres são uma classe, pessoas negras são
uma raça. Pessoas negras pobres são uma classe-raça. Quando
dizemos que pessoas pobres são preguiçosas, estamos
expressando uma ideia elitista. Quando dizemos que pessoas
negras são preguiçosas, estamos expressando uma ideia racista.
Quando dizemos que pessoas negras pobres são mais
preguiçosas do que brancos pobres, elites brancas e elites
negras, estamos falando da intersecção de ideias elitistas e
racistas — uma intersecção ideológica que forma o racismo de
classe. Quando Dinesh D’Souza escreve: “o comportamento da
classe inferior afro-americana… viola e escandaliza
flagrantemente códigos básicos de responsabilidade, decência e
civilidade”, ele está manifestando um racismo de classe.
Quando uma política explora pessoas pobres, é elitista. Quando
uma política explora pessoas negras, é racista. Quando uma
política explora pessoas negras pobres, explora a intersecção
das políticas elitistas e racistas — uma intersecção política de
racismo de classe. Quando racializamos as classes, apoiamos
políticas racistas contrárias a essas classes de raças e as
justificamos com ideias racistas, estamos nos engajando em
racismo de classe. Ser antirracista é igualar as classes-raças.
Ser antirracista é buscar as origens das disparidades econômicas
entre classes-raças iguais nas políticas, não nas pessoas.
O racismo de classe está tão disseminado entre os norte-
americanos brancos — que menosprezam os brancos pobres
como “lixo branco” — quanto nos Estados Unidos negro, onde
racistas negros degradam negros pobres como “esses crioulos”
que vivem no gueto. Construtos de “negros do gueto” (e “lixo
branco”) são as formas ideológicas mais óbvias de racismo de
classe. Pessoas patológicas criaram o gueto patológico, dizem os
segregacionistas. O gueto patológico criou as pessoas
patológicas, dizem os assimilacionistas. Ser antirracista é dizer
que condições políticas e econômicas nos bairros negros pobres
são patológicas, e não as pessoas. Condições patológicas estão
deixando moradores mais doentes e pobres enquanto lutam para
sobreviver e prosperar, enquanto inventam e reinventam culturas
e comportamentos que podem até ser diferentes, mas nunca
inferiores aos dos moradores de bairros mais ricos. Mas, se as
classes-raças de elite estão julgando as classes-raças pobres de
acordo com suas normas culturais e comportamentais, então as
classes-raças pobres parecerão inferiores. Quem quer que crie a
norma cria a hierarquia e posiciona sua própria classe-raça no
topo da hierarquia.
dark ghetto foi um estudo inovador sobre os negros pobres
durante a guerra do presidente Johnson contra a pobreza nos
anos de 1960, quando pesquisas sobre a pobreza estavam em
ascensão, como o trabalho do antropólogo Oscar Lewis. Lewis
declarou que filhos de pessoas empobrecidas, mais exatamente
pessoas pobres não brancas, eram criados com comportamentos que evitava que escapassem à pobreza, perpetuando gerações
de pobreza. Ele introduziu o termo “cultura da pobreza” em uma
etnografia de 1959 de famílias mexicanas. Ao contrário de outros
economistas, que exploravam o papel da política no “ciclo da
pobreza” — exploração predatória se movendo em sintonia com
renda e oportunidades insuficientes, que mantinham até mesmo
pessoas mais trabalhadoras na pobreza e tornavam a pobreza
algo caro — Lewis reproduziu a ideia elitista de que
comportamentos pobres mantêm pobres as pessoas pobres.
“Pessoas com uma cultura de pobreza”, escreveu Lewis, “são
pessoas que se encontram na marginalidade, que conhecem
somente os próprios problemas, suas condições locais, o próprio
bairro, seu próprio estilo de vida.”
Racistas brancos ainda arrastam a cultura da pobreza.
“Estamos diante do malogro da cultura no centro de nossas
cidades, especialmente em relação a homens que não
trabalham, e gerações de homens que nem mesmo pensam em
trabalhar, e não aprendem o valor e a cultura do trabalho”, disse
Paul Ryan, deputado federal por Wisconsin, em 2015. “Assim,
existe um problema real de cultura que precisamos solucionar.”
Ao contrário de Lewis e Ryan, Kenneth Clark apresentou a mão
oculta do racismo ativando a cultura da pobreza, ou o que ele
chamou de “patologia”. Na obra de Clark, ressurgiu o duelo de
consciências da tese da opressão-inferioridade. Primeiro a
escravidão, depois a segregação, e agora a pobreza e a vida no
“gueto” tornaram as pessoas negras inferiores, segundo essa
última atualização da tese. A pobreza tornou-se, talvez, a
injustiça mais duradoura e comum que se insere na tese de
opressão-inferioridade.
Segundo essa ideia, algo estava tornando pobres as pessoas
pobres. E era a assistência social. A assistência social
“transforma o indivíduo de um ser espiritual digno, esforçado,
autossuficiente em uma criatura animal dependente e
inconsciente dessa condição”, escreveu Barry
Goldwater, senador dos Estados Unidos, em The Conscience of
the
Conservative [“A Consciência dos Conservadores”, em tradução livre], em 1960. Goldwater e seus descendentes ideológicos
pouco ou nada falaram sobre pessoas ricas que dependem do
auxílio financeiro das heranças, redução de impostos, contratos
com o governo, acordos e resgates financeiros. Eles pouco ou
nada falaram sobre a dependência da classe média branca do
auxílio financeiro no New Deal 1 , a GI Bill 2 , subúrbios
subsidiados e redes de relacionamento exclusivas para brancos.
O auxílio financeiro para pessoas de classe média e alta ficaram
fora do discurso sobre “doações”, enquanto a assistência social
para negros pobres se tornou o verdadeiro opressor na versão
conservadora da tese de opressão-inferioridade. “A prova desse
fracasso está à nossa volta”, escreveu Kay Coles James,
presidente da Heritage Foundation em 2018. “Ser negra e filha de
um ex-beneficiário da assistência social me faz conhecedora do
mal não intencional que o auxílio causou.”
Kenneth Clark foi um cronista incansável das políticas racistas
que criaram o “gueto escuro”, mas ao mesmo tempo reforçou a
hierarquia classe-raça. Ele posicionou os negros pobres como
inferiores às elites negras como ele próprio, que também viveu
um longo tempo “entre os muros do gueto”, desesperadamente
tentando “escapar daquele tormento insidioso”. Clark considerava
os negros pobres menos estáveis do que os brancos pobres. “Os
brancos pobres e os moradores das favelas têm a vantagem…
da crença de que podem progredir economicamente e escapar
de sua situação”, escreveu. “O negro se acredita intimamente
confinado ao baixo status generalizado do gueto”. Obama
afirmou algo semelhante em seu discurso de campanha sobre
raças em 2008. “De todos os que lutaram e brigaram para
conseguir um pedaço do Sonho Americano, houve muitos que
não o conseguiram — os que foram derrotados no final, de um
jeito ou de outro, pela discriminação. Essa herança de derrota foi
passada às futuras gerações — àqueles rapazes e cada vez
mais jovens mulheres que vemos parados nas esquinas ou
definhando em nossas prisões, sem esperança ou perspectivas
para o futuro.” Não há evidência desse esterótipo do negro pobre
desesperançado, derrotado e desmotivado. Pesquisas recentes mostram, na verdade, que os negros pobres são mais otimistas
sobre suas perspectivas do que os pobres brancos.
Durante décadas, brancos pobres racistas enriqueceram seu
senso de identidade na esteira de ideias racistas, o que W.E.B.
Du Bois famosamente chamou de o “salário público e
psicológico” da branquitude. Posso não ser rico, mas pelo menos
não sou negro. Enquanto isso, elites negras racistas elevaram
seu senso de identidade na esteira das ideias racistas, o que
podemos chamar de o salário do elitismo negro. Posso não ser
branco, mas pelo menos não sou um desses crioulos.
As elites negras racistas encaram negros de baixa renda da
mesma forma que pessoas não negras racistas encaravam
pessoas negras. Nós pensamos que tínhamos mais do que altas
rendas. Pensamos que éramos pessoas superiores. Nós nos
víamos como o “Décimo Talentoso”, como Du Bois chamou as
elites negras das coberturas de seu racismo de classe, em 1903.
“A raça negra, como todas as raças, será salva por seus homens
excepcionais”, previu Du Bois. “Houve alguma nação na terra
justa de Deus civilizada de baixo para cima? Nunca; o que
sempre houve e sempre haverá, filtrado pela cultura, será de
cima para baixo.”
Percorri um longo caminho até 2005. Assim como o Décimo
Talentoso e o termo “gueto” no vocabulário racial dos Estados
Unidos. Nos 40 anos desde Dark Ghetto , de Clark, o escuro
casou-se com o gueto na capela da inferioridade e assumiu seu
próprio nome — o gueto agora era definitivamente escuro, e
chamá-lo de gueto escuro seria redundância. O gueto também se
tornou uma espécie de adjetivo — cultura do gueto, pessoas do
gueto — e um substantivo, carregado de ideias racistas,
desencadeando todos os tipos de crimes negros contra negros
nas comunidades negras pobres.
na Filadélfia, eu não me incomodava com o
que as pessoas pensavam sobre os negros pobres de meu
bairro. Chame-o de gueto, se quiser. Fuja, se quiser. Eu queria
fica ali. Viver os efeitos do racismo em primeira mão!
Via os negros pobres como produto do racismo, e não do
capitalismo, principalmente por que pensava que conhecia o
racismo, mas sabia que não conhecia o capitalismo. Mas é
impossível conhecer o racismo sem entender sua interligação
com o capitalismo. Como Martin Luther King disse em sua crítica
ao capitalismo, em 1967: “Por fim, significa compreender que o
problema do racismo, o problema da exploração econômica e o
problema da guerra estão todos conectados. Esses são os três
males que estão inter-relacionados.”
O capitalismo surgiu durante o que os teóricos de sistemas
mundiais chamam de “longo século XVI”, um período que
começa por volta de 1450 com as navegações de Portugal (e
Espanha) pelo desconhecido Atlântico. O Infante Dom Henrique,
de Portugal, deu origem a gêmeos siameses — capitalismo e
racismo — quando iniciou o comércio transatlântico de
escravizados africanos. Esses recém-nascidos encararam seus
irmãos mais velhos — sexismo, imperialismo, etnocentrismo e
homofobia — com um olhar terno de admiração. Os gêmeos
siameses desenvolveram diferentes personalidades nas
formações de novas classes e raças do mundo moderno. Como
os principais clientes dos comerciantes de escravizados
portugueses, primeiro em seu país natal e depois nas colônias
das Américas, a Espanha adotou e criou seus filhos em meio aos
genocídios de indígenas americanos, que lançaram os
seminários e cemitérios que criaram as bases sobre as quais o
império da Europa Ocidental no Atlântico se desenvolveu no
século XVI. A Holanda, a França e a Inglaterra ignoraram umas
às outras como tendo hegemonia sobre o comércio de
escravizados, criando seus gêmeos siameses até sua vigorosa
adolescência nos séculos XVII e XVIII. Os gêmeos siameses
entraram na vida adulta com a escravidão de indígenas, negros,
asiáticos e brancos, e trabalhos forçados nas Américas, que
impulsionaram as revoluções industriais de Boston a Londres e
permitiram o financiamento de impérios ainda maiores nos
séculos XVIII e XIX. As guerras quente e fria no século XX pelos
recursos e mercados, direitos e poderes enfraqueceram os
gêmeos siameses — mas eles acabariam ficando mais fortes sob a orientação dos Estados Unidos, da União Europeia, da China e
das nações-satélite ligadas a eles, colônias em tudo, exceto no
nome. Os gêmeos siameses estão novamente lutando para se
manter vivos e progredir como seus próprios filhos —
desigualdade, guerra e mudanças climáticas — que ameaçam
matá-los, e a todos nós.
No século XXI, a persistência das desigualdades raciais na
pobreza, no desemprego e na riqueza mostra o trabalho de uma
vida dos gêmeos siameses. A taxa de pobreza entre os negros
em 2017 chegou a 20%, quase o triplo da taxa entre os brancos.
A taxa de desemprego entre os negros tem sido pelo menos
duas vezes maior do que a dos brancos durante os últimos 50
anos. A defasagem salarial entre negros e brancos é a maior em
40 anos. O patrimônio líquido de famílias brancas é cerca de 10
vezes maior do que o de famílias negras. Segundo uma previsão,
espera-se que famílias brancas reúnam uma riqueza 86 vezes
maior do que famílias negras até 2020 e 68 vezes maior do que
famílias latinas. A disparidade só ficará pior se políticas de
habitação racistas, políticas de tributação que beneficiam os ricos
e o encarceramento em massa continuem inalteradas, segundo
previsores. Até 2053, espera-se que a riqueza média de famílias
negras atinja o ponto crítico de US$0, sendo que o mesmo
ocorrerá com famílias latinas duas décadas depois.
As desigualdades causadas pelo racismo e pelo capitalismo
não se restringem aos Estados Unidos. O crescimento capitalista
sem precedentes da África nas últimas duas décadas enriqueceu
investidores estrangeiros e um punhado de africanos, embora a
quantidade de pessoas que vivem em extrema pobreza esteja
aumentando na África subsaariana. Com a pobreza extrema
caindo rapidamente em outras regiões, analistas preveem que
cerca de 9 em 10 pessoas em condições de extrema pobreza
viverão na África subsaariana até 2030. Na América Latina,
pessoas de ascendência africana continuam
desproporcionalmente pobres. A defasagem global entre as
regiões mais ricas (e mais brancas) do mundo e as regiões mais
pobres (e mais negras) do mundo triplicou desde os anos 1960
— ao mesmo tempo em que a classe média não branca global
cresceu.
A mobilidade ascendente é mais alta entre os brancos e a
descendente é mais alta entre os negros. E a igualdade inexiste
na hierarquia de classes-raças nos Estados Unidos. No quintil de
renda mais alta, a riqueza média dos brancos é de cerca de
US$444.500, cerca de US$300 mil a mais do que para latinos e
negros de renda mais alta. Famílias de negros de renda média
têm menos riquezas do que famílias de renda média brancas,
cujas residências são mais valorizadas. A pobreza entre brancos
não é tão penosa quanto a entre negros. Negros pobres têm
maior probabilidade de viver em bairros onde outras famílias são
pobres, criando uma escassez de recursos e oportunidades.
Sociólogos se referem a esse fato como “carga dupla”. Negros
pobres na área metropolitana de Chicago têm probabilidade dez
vezes maior do que brancos pobres de morar em áreas de
pobreza profunda. Com a densa pobreza de negros e a de
brancos distribuída, a de negros é visível e cerca suas vítimas; a
pobreza dos brancos se mistura.
Atribuir essas desigualdades somente ao capitalismo é tão
pernicioso quando atribuí-las somente ao racismo. Acreditar que
essas desigualdades serão eliminadas por meio da eliminação do
capitalismo é tão pernicioso quanto acreditar que elas serão
eliminadas por meio da eliminação do racismo. Reduzir o racismo
em uma nação capitalista pode eliminar as desigualdades entre
os pobres negros e brancos, latinos e asiáticos de renda média e
brancos ricos e indígenas. Políticas antirracistas nos anos 1960 e
1970 reduziram essas desigualdades em alguns pontos.
Contudo, políticas antirracistas por si só não podem eliminar as
desigualdades entre asiáticos ricos e pobres ou brancos ricos e
“lixo branco” — as desigualdades entre classes-raças. À medida
que disparidades entre classes diminuíram nas últimas décadas,
as desigualdades econômicas dentro das raças aumentaram,
assim como as ideias racistas de classe que as justificam.
Políticas antirracistas não podem eliminar o racismo de classe
sem políticas anticapitalistas. O anticapitalismo não pode eliminar
o racismo de classe sem o antirracismo. Um exemplo claro é o persistente racismo afro-cubano enfrentado na Cuba socialista
depois que os revolucionários eliminaram o capitalismo em 1959,
conforme relatado pelo historiador Devyn Spence Benson. Os
revolucionários exigiram que os afro-cubanos se assimilassem
em uma Cuba pós-racial imaginada — “Não negros, cidadãos” —
construída em normas sociais cubanas brancas e ideias racistas,
depois que uma campanha de três anos contra o racismo
terminou abruptamente em 1961.
Espaços socialistas e comunistas não são automaticamente
antirracistas. Alguns socialistas e comunistas forçaram um
programa segregacionista ou pós-racial a fim de não alienar
trabalhadores brancos racistas. Por exemplo, delegados na
reunião inaugural do Partido Socialista da América (SPA) em
1901 se recusaram a aderir a uma campanha antilinchamento.
Líderes assimilacionistas de algumas organizações comunistas e
socialistas pediram a pessoas não brancas para deixar suas
identidades raciais e planos de batalha antirracista na porta,
censurando uma “política de identidades”. Talvez alguns desses
socialistas e comunistas não conheçam seus escritos ideológicos
sobre raças. “A descoberta do ouro e prata na América”,
escreveu Karl Marx certa vez, “a extirpação, a escravização e o
sepultamento em minas da população aborígene, o começo da
conquista e pilhagem das Índias Orientais, a transformação da
África em um território de caça comercial de peles negras,
sinalizou o promissor despertar da era da produção capitalista”.
Marx reconheceu o nascimento dos gêmeos siameses.
Nos anos de 1920, W.E.B. Du Bois começou a ler muito Karl
Marx. Quando a Grande Depressão afetou os negros pobres
mais do que os brancos pobres e ele viu no New Deal o mesmo
velho acordo do racismo do governo para trabalhadores negros,
Du Bois concebeu um anticapitalismo antirracista. O economista
da Howard University, Abram Harris, imerso em um marxismo
pós-racial que ignora a barreira racial de maneira tão obstinada
quanto qualquer racista que diz não ver cor da pele, pediu a Du
Bois que reconsiderasse sua intersecção de anticapitalismo e
antirracismo. Mas a realidade do que os eruditos hoje chamam de capitalismo racial — o nome singular dos gêmeos siameses
— fez Du Bois tomar uma decisão.
“O grau mais baixo e fatal de sofrimento” dos trabalhadores
negros “não vem do capitalismo, mas dos colegas trabalhadores
brancos”, declarou Du Bois. “A mão de obra branca… priva o
negro de seu direito de votar, nega-lhe educação, nega-lhe
afiliação a sindicatos, expulsa-o de casas e bairros decentes e
joga em cima dele os insultos públicos da flagrante discriminação
de cor.” Os Estados Unidos eram uma “aristocracia da classe
trabalhadora” branca, afirmou Du Bois. “Em vez de uma divisão
de classes horizontal, houve uma fissura vertical, uma separação
completa de classes por raça, ultrapassando as camadas
econômicas.” A faca que fez o corte vertical? O racismo, afiado
ao longo dos séculos. “Esse fato definitivo e incontroverso, que o
importado comunismo ignorou, não seria questionado.”
Mas Du Bois o questionou. Um anticapitalismo antirracista
poderia selar as fissuras de classe horizontais e fissuras verticais
de raça — e, o mais importante, suas intersecções — com
políticas raciais e econômicas igualitárias. Em 1948, ele
oficialmente abandonou a ideia de um Décimo Talentoso de
vanguarda de negros de elite e clamou por um “Cento
Orientador”. Du Bois ajudou a criar uma nova leva de
anticapitalistas antirracistas antes de serem enterrados ou
levados à prisão pelo pavor vermelho dos anos 1950, antes de
voltar à tona nos anos 1960. E novamente voltam à tona no
século XXI na esteira da Grande Recessão, o movimento
Occupy, o movimento Black Lives e as campanhas de socialistas
democratas, reconhecendo que “existe uma ligação indissociável
entre racismo e capitalismo”, citando o estudioso de Princeton,
Keeanga-Yamahtta Taylor. Eles estão vencendo eleições,
correndo para organizações anticapitalistas e expondo os mitos
do capitalismo.
Continuo usando o termo “anticapitalista” e não socialista ou
comunista para incluir as pessoas que pública ou privadamente
questionam ou detestam o capitalismo, mas não se identificam
como socialistas ou comunistas. Uso “anticapitalista” porque
defensores conservadores do capitalismo regularmente dizem que seus oponentes liberais e socialistas são contra o
capitalismo. Eles dizem que esforços para proporcionar uma rede
de proteção social para todas as pessoas são “anticapitalistas”.
Dizem que tentar impedir monopólios é “anticapitalista”. Dizem
que medidas para fortalecer sindicatos fracos e enfraquecer
proprietários exploradores são “anticapitalistas”. Dizem que
planos para normalizar a participação do trabalhador e
regulações que protegem os consumidores, trabalhadores e
ambientes dos grandes negócios são “anticapitalistas”. Dizem
que leis que taxam os ricos mais que a classe média,
redistribuindo riquezas surrupiadas e garantindo rendas básicas
são “anticapitalistas”. Dizem que guerras para acabar com a
pobreza são “anticapitalistas”. Dizem que campanhas para
remover a motivação de lucro de setores essenciais para a vida
como educação, saúde, utilidades, mídia de massa e
encarceramento são “anticapitalistas”.
Ao fazer isso, esses defensores conservadores estão definindo
o capitalismo. Eles definem o capitalismo como a liberdade de
explorar pessoas até sua ruína econômica; a liberdade de
destruir sindicatos; a liberdade de explorar consumidores,
trabalhadores e ambientes indefesos; a liberdade de valorizar os
lucros do trimestre em detrimento das mudanças climáticas; a
liberdade de prejudicar pequenos negócios e proteger
corporações; a liberdade de competir; a liberdade de não pagar
impostos; a liberdade de aumentar a carga tributária das classes
média e baixa; a liberdade de mercantilizar tudo e todos; a
liberdade de manter pobres os pobres e pessoas com renda
média lutando para continuar a ter uma renda média, e fazer os
ricos mais ricos. A história do capitalismo — um mundo de
conflitos, classes, comércio de escravos, escravização,
colonização, salários desanimadores e espoliação de terras,
recursos e direitos — confirmam a definição conservadora de
capitalismo.
Liberais que são “capitalistas ao extremo”, como se identifica a
senadora dos Estados Unidos Elizabeth Warren, apresentam
uma definição diferente de capitalismo. “Acredito em mercados e
nos benefícios que podem produzir quando funcionam”, declarou Warren quando lhe perguntaram o que essa identidade
significava para ela. “Adoro a concorrência que acompanha os
mercados que têm regras equilibradas… O problema é quando
as regras não são aplicadas, quando os mercados não atuam em
igualdade de condições e toda essa riqueza é desviada para uma
direção”, causando fraudes e ladroagem. “Ladroagem não é
capitalismo”, disse Warren. Ela propôs uma série de regulações e
reformas que seus oponentes conservadores classificam como
“anticapitalistas”. Eles dizem que outros países que adotam
essas normas não são capitalistas. Warren deveria ser aplaudida
por seus esforços de estabelecer e aplicar normas que acabam
com o roubo e a desigualdade de condições para, espera-se,
todas as raças-classes, não só a classe média branca. Mas, se
Warren obtiver êxito, então o novo sistema econômico funcionará
de forma fundamentalmente diferente do que já funcionou em
toda a história norte-americana. Ou o novo sistema econômico
não será capitalista ou o velho sistema que ele substituir não era
capitalista. Ambos não podem ser capitalistas.
Quando a senadora Warren e outros definem capitalismo dessa
forma — como mercados, normas de mercado, concorrência e
benefícios vencedores — estão distinguindo o capitalismo do
roubo, racismo, sexismo e imperialismo. Se esse é o capitalismo
deles, posso ver como eles podem continuar sendo capitalistas
ao extremo. Entretanto, a história não confirma essa definição de
capitalismo. Mercados, normas de mercado, concorrência e
benefício obtidos a partir de êxitos existiam muito antes do
surgimento do capitalismo no mundo moderno. O que o
capitalismo introduziu nessa combinação foi o roubo global,
condições racialmente desiguais, riqueza unidirecional que
cresce de modo sem precedentes. Desde o início da capitalismo
racial, quando os mercados operaram em condições de
igualdade? Quando os trabalhadores puderam competir
igualmente com os capitalistas? Quando pessoas negras
puderam competir igualmente com as brancas? Quando nações
africanas puderam competir igualmente com nações europeias?
Quando as regras não beneficiaram as nações ricas e brancas
em geral? A humanidade precisa de definições honestas de capitalismo e racismo com base na real história viva dos gêmeos
siameses.
O 1% mais rico detém hoje cerca de 50% da riqueza do mundo;
em 2008, no auge da Grande Recessão, detinha 42,5%. Os 3,5
bilhões de adultos mais pobres do mundo, compreendendo 70%
da população do mundo em idade ativa, possuem 2,7% da
riqueza global. A maioria desses adultos pobres mora em países
não brancos que foram sujeitos a séculos de comércio de
escravizados, colonização e apropriação de recursos, o que criou
a riqueza moderna do Ocidente. A extração de riquezas continua
hoje por meio de empresas estrangeiras que possuem ou
controlam recursos naturais essenciais no sul global, tomados
por meio da força com a ameaça de “sanções econômicas” ou
concedidos por políticos “eleitos”. O capitalismo racial torna
países como a República Democrática do Congo um dos países
mais ricos do mundo no subsolo e um dos países mais pobres do
mundo acima do solo.
Amar o capitalismo significa acabar amando o racismo. Amar o
racismo é acabar amando o capitalismo. Os gêmeos siameses
são dois lados do mesmo corpo destrutivo. A ideia de que o
capitalismo é meramente livres mercados, concorrência, livre
comércio, oferta e demanda e propriedade privada dos meios de
produção atuando em prol do lucro é tão fantasiosa e anti-
histórica quanto a ideia da supremacia branca de que chamar
algo de racista é a primeira forma de racismo. Definições
populares de capitalismo, como ideias populares racistas, não
vivem em uma realidade histórica ou material. O capitalismo é
essencialmente racista; o racismo é essencialmente capitalista.
Eles nasceram juntos das mesmas causas não naturais. Ou o
capitalismo racial viverá em outra época de roubos e
desigualdade gananciosa, especialmente se ativistas
ingenuamente lutarem contra os gêmeos siameses
separadamente, como se não fossem a mesma coisa.
. Eu me senti vivo quando
mudei para esse bairro negro. Senti que precisava viver perto de
pessoas negras a fim de estudar e estimular pessoas negras.
Não quaisquer pessoas negras: pessoas negras pobres. Achei
que negros pobres eram os representantes mais verdadeiros e
autênticos do povo negro. Tornei a pobreza urbana uma porta de
entrada para a casa supostamente assolada pelo crime e pela
pobreza da autêntica negritude.
Para Lerone Bennett Jr., o velho editor-executivo da revista
Ebony , minha identificação com a pobreza, tumultos,
criminalidade, sexo e jogatina no mundo urbano como o mais
autêntico mundo negro provavelmente o lembrou dos filmes de
blaxploitation 3 do final dos anos 1960 e início dos 1970. O
movimento Black Power da época, ao estilhaçar o padrão branco
de ideias assimilacionistas, colocou pessoas negras criativas em
uma missão para erigir os padrões negros, uma nova estética
negra. Os filmes de blaxploitation chegaram na hora certa, com
elencos negros, cenários urbanos, e heróis e heroínas negros:
cafetões, gângsteres,
prostitutas e estupradores.
Meus pais assistiram a Shaft (1971) e Super Fly (1972) quando
lançados. Contudo, sua formação cristã, mesmo em uma forma
liberal, os impediu de assistir Sweet Sweetback’s Baadasssss
Song, em 1971. O filme conta a história de um empregado de
bordel brutalizado por policiais de Los Angeles, mas que então os
espanca em retaliação, escapa de uma caçada policial em uma
comunidade pobre, usa sua destreza sexual para garantir ajuda
de mulheres e alcança a liberdade no México. “Fiz este filme para
a estética negra”, disse Melvin Van Peebles. “Críticos brancos
não estão acostumados com isso. O filme é vida negra, sem
condescendência.”
Eu queria experimentar a vida negra, sem condescendência.
Mudei para o lado norte de Filadélfia em 2005 levando sacolas
conflitantes de negritude: “Negro é Beleza” e “Negro é
Sofrimento”, para usar a frase de Lerone Bennett Jr. em sua
crítica para a Ebony do filme Sweet
Sweetback’s Baadasssss Song . Bennett detonou Van Peebles
por sua ode cinemática ao “culto da pobreza” negra, por imaginar
a pobreza como uma incubadora de sabedoria e alma”, por
“tolamente” identificar “a estética negra com barrigas vazias e prostitutas de grandes traseiros… Romantizar as lágrimas e a
agonia das pessoas”, escreveu Bennet, “é mostrá-las como seres
humanos inferiores”.
Achei que estava sendo tão verdadeiro, tão negro, ao escolher
esse apartamento naquele bairro. Na verdade, eu estava sendo
racista, vendo negros como seres humanos inferiores. Enquanto
outros tinham fugido de negros pobres por causa de um medo
racista de sua perigosa inferioridade, eu fugia de encontro aos
negros pobres na certeza racista da superioridade conferida por
seu perigo, sua autenticidade superior. Eu era o gentrificador
negro, uma criatura distinta do gentrificador branco. Se o
gentrificador branco muda para o bairro pobre negro para ser um
construtor, o gentrificador negro é aquele que volta para o bairro
negro pobre para ser construído.
Ser antirracista não é reconhecer negros pobres, tampouco
negros da elite, como os verdadeiros representantes do povo
negro. Mas na época eu acreditava que a cultura elevava, que as
elites negras, em todo seu materialismo, individualismo e
assimilacionismo, precisavam chegar ao “fundo” para ser
civilizadas. Eu entendia os negros pobres como simultaneamente
o fundo e a base da negritude. Queria que sua autenticidade me
atingisse, um homem negro mimado — nos dois sentidos — de
renda média. O rap feito por pessoas do “fundo” não era mais
suficiente para me manter preso na autenticidade.
Eu concordava totalmente com Black Bourgeoisie [“Burguesia
Negra”, em tradução livre] de E. Franklin Frazier, publicado em
1957. Ao situar as elites brancas como a norma, Frazier chama
as elites negras de inferiores: como traidores raciais mais
rápidos, consumidores mais conspícuos, politicamente mais
corruptos, mais exploradores, mais irracionais por admirarem
exatamente as pessoas que os oprimiam. Esse racismo de
classe invertido sobre as elites negras rapidamente se tornou
uma crença religiosa, juntando-se à crença sobre as massas
negras sendo mais patológicas. No best-seller Beyond the
Melting Pot [“Além do Caldeirão de Culturas”, em tradução livre],
escrito com Daniel Patrick Moynihan, em 1963, o sociólogo
Nathan Glazer argumentou que, ao contrário de outras classes médias, “a classe média negra contribui muito pouco… para a
solução dos programas sociais para negros”. Sem quaisquer
dados de apoio, Glazer posicionou a burguesia negra como
inferior, na escala da responsabilidade social, em relação a
outras burguesias. Naturalmente, essas ideias racistas estavam
eradas — uma década antes, Martin
Luther King Jr. e uma geração de jovens negros da elite da
burguesia negra começaram a épica luta pelos direitos civis, pela
justiça econômica e pela dessegregação. Minha geração de
jovens negros de elite lançou-se em nossa própria luta — para os
estudos negros, o espaço negro.
1 N. da T.: Programas implementados nos Estados Unidos pelo governo com o objetivo de recuperar e reformar a economia norte-americana, e assistir os prejudicados pela Grande Depressão.
2 N. da T.: Lei que proporcionou vários benefícios para veteranos que voltavam da Segunda Guerra Mundial.
3 N. da T.: Movimento cinematográfico norte-americano surgido no início da década de 1970. A palavra é um portmanteau de black (“negro”) e exploitation (“exploração”).