Contos para a Infância

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 9 de 88

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Contos para a Infância

O talisman

 

 

Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, mas com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negocios com uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção da sua casa.

«Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu collega, qual é a razão porque a sorte nos trata de um modo tão differente? Vendemos as mesmas mercadorias, a minha loja está tão bem situada como a tua, e apezar d'isso, emquanto tu ganhas, eu não faço senão perder. E não é porque eu seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado algumas vezes se não terás tu por acaso algum precioso talisman.»

«Effectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pae um talisman de uma virtude incomparavel. Trago-o ao pescoço, e ando assim com elle todo o dia por toda a casa, do celleiro para a adega, e da adega para o celleiro. E o caso é que tudo me corre perfeitamente.»

«Olé meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa reliquia preciosa de que tanto necessito; pódes ter a certeza de que t'a restituo.»

«Pois vem buscal-a ámanhã de manhã.»

Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente, apresentou-lhe este uma avellã, através da qual tinha tinha passado um fio de seda.