Contos para a Infância
O chapellinho encarnado
--Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então imaginam que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanço nem um momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animaes, ás colinas, aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incendios, tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralherias. Nem hoje acabára, se lhes quizesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.»
Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a olhar para o ar, e viram um pintasilgo, em cima d'um ramo.
--Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar comnosco?»
--Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintasilgo. Todo o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além d'isso que tomar parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operario com o meu chilrear, e tenho que adormecer as creanças com uma outra cantiga, que á noite e de madrugada celebre a bondade do Creador. Ide-vos embora, preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incommodar os habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.»
Os pequenos aproveitaram a lição, e comprehenderam que o prazer só é ligitimo, quando é a recompensa do trabalho.
O chapellinho encarnado
Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avósinha, que passava o tempo a imaginar o que poderia agradar á neta, deu-lhe um dia um chapéo de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéo novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do chapellinho encarnado.
A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia legua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita:
--Tua avó está doente, e não pôde vir vêr-nos. Eu fiz estes doces, vae levar-lh os tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a garrafa, não andes a correr, vae devagarinho e volta logo.»
--Sim, mamã, respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.»
Atou o seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita, que nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum.
--Bons dias, chapellinho encarnado.»
--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»
--Onde vaes tão cedo?»
--A casa da minha avó que está doente.»
--E levas-lhe alguma cousa?»
--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe dar forças.»
Dize-me onde mora a tua, avó, que tambem a quero ir ver.»
--É perto, aqui no fim da floresta. Ha ao pé uns carvalhos muito grandes, e no jardim ha muitas nozes.»
--Ah! tu é que és uma bella noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava de te comer.» Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que quantidade de plantas medicinaes que se encontram!»
--O senhor, é com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita, visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma que fizesse bem a minha avó.»
--Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta tambem, e aquella.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas venenosas. A pobre creança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.
--Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»
E poz-se a correr em direcção da casa da avó, emquanto que a pequerrucha se entretinha em apanhar as plantas que elle tinha indicado.
Quando o lobo chegou á porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está ahi?»
--É o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»
--Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.»
Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma bocada a pobre velha inteira, e depois, vestindo o fato que ella costumava usar, deitou-se na cama.
Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada d'encontrar a porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter fechada.
O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrivel.
--Ai! avósinha, disse a creança, porque tens tu as orelhas tão grandes?»
--É para te ouvir melhor, minha filha.»
--E porque estás com uns olhos tão grandes?»
--É para te vêr melhor.»
--E para que estás com os braços tão grandes?»
--É para te poder abraçar melhor.»
--E Jesus! para que tens hoje uma bôca tão grande e uns dentes tão agudos?»
--É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se á pobre pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a resonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e que ouviu aquelle barulho, disse comsigo: A pobre velha está com um pesadelo, está peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa.» Entra, e vê o lobo estendido na cama.
--Olá, meu menino, diz elle: ha muito tempo que te procuro.»
Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse elle, não vejo a dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe cuidadosamente a barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e saltou para o chão, gritando: