Contos para a Infância

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 8 de 88

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Contos para a Infância

Como um camponez aprendeu o Padre Nosso

 

Tinha o coração duro, e não dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-lhe por penitencia resar sete vezes o Padre Nosso.

«Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.»

«Pois n'esse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a credito um alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da minha parte.»

No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.

«Como te chamas? perguntou-lhe o camponez.

«Padre--Nosso--Que--Estaes--No--Ceo, respondeu o pobre.»

«E o teu appellido?»

«Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.»

E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.

Ao outro dia chega segundo pobre.

«Como te chamas?

«Venha--A--Nós--O--Vosso--Reino.»

«E o teu appellido?»

«Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.»

E partiu com o seu alqueire de trigo.

Veiu terceiro pobre.

«Como te chamas?»

«Assim--Na--Terra--Como--No--Ceo.»

«E o teu appellido?»

«Dae-nos--Hoje--O--Pão--Nosso--De--Cada--Dia.»

E levou o seu alqueire.

Vieram ainda dois pobres successivamente, e passou-se tudo da mesma forma até chegar ao _Amen_.

Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.

«Então já sabes o Padre Nosso?»

«Não, sr. cura, sei só os nomes e appellidos dos pobres a quem emprestei o meu trigo.»

«Quaes são? tornou o padre.»

E o aldeão enumerou-lh'os a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha apresentado.

«Já vês, disse o confessor, que não era muito difficil aprender o Padre Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»