Contos para a Infância

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 30 de 88

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Contos para a Infância

Querer é poder

Pegou na candeia, que estava suspensa n'uma das traves do celleiro, e approximou-a do trigo.

--Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a tudo!»

Mas no mesmo instante, da palha, que elles receiavam ver inflammar-se, de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. Á vista d'um tal milagre os camponezes maravilhados cairam de joelhos.

--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como um pobre mendigo, serás recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te enriquece.»

Dito isto desappareceu.

E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão alto como a egreja.

O camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e seus filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, ninguem os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera enormemente, entrou no celleiro, e, recordando-se do milagre que o enriquecêra, imaginou que tambem elle o poderia fazer. Agarrou na candeia, approximou-a d'um feixe de palha, communicou-se o fogo, ardeu a casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miseria mais absoluta.

 

Querer é poder

--Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver por experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima é verdadeira.

Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador d'uma grande cidade.

--Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos que vivo tranquillo e solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas vezes--Quem procura sempre encontra, e quem porfia mata caça. Tomei uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.

O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.

O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma semana, sempre com a mesma vontade inabalavel, até que o rei ouviu fallar o rapaz da sua louca pretensão. Surprehendido com uma idéa tão extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:

--Que um homem distincto pela gerarchia, pela coragem, pela sciencia, pensasse em casar com uma princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes são os teus titulos? Para seres o marido de minha filha é necessario que te distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um diamante d'um valor incalculavel. Aquelle que o encontrar obterá a mão de minha filha.

O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do rio; logo de manhã começava a tirar agua com um balde pequeno, e deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e horas, punha-se a resar.

Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receiando que chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.

--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»