Contos para a Infância

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 22 de 88

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Contos para a Infância

Reconhecimento e ingratidão

Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem adorava sobre todas as coisas. Não se separava d'ella um só momento; mas um dia a pobre pequerrucha começou a soffrer, adoeceu e morreu. A desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um momento, á cabeceira da filha, julgou endoidecer de magua e de saudades. Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava acabrunhada, chorando no mesmo sitio em que a filha tinha morrido, abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a apparecer a ella, a sua querida filha, sorrindo com uma expressão angelica e trazendo nas mãos uma urna, que vinha cheia até ás bordas.

--«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ella, não chores mais. Olha, o anjo das lagrimas recolheu as tuas n'esta urna. Se chorares mais, transbordará, e as tuas lagrimas correrão sobre mim, inquietando-me no tumulo e perturbando a minha felicidade no paraiso.

A pequenina desappareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não affligir.

 

Reconhecimento e ingratidão

 

Os vossos filhos serão para vós como vós tiverdes sido para vossos paes. E é natural. As creanças veem diariamente o que fazem seus paes, e imitam-n'os. Justifica-se d'esta maneira o proverbio que diz,--que a benção ou a maldição d'um pae cae sobre a cabeça de seus filhos, terminando sempre por se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem ser meditados.

Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois d'algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas que trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O principe, que para as suas despezas d'administração e representação necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber, como se vivia com doze vintens diarios, andando-se ainda por cima satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu:

«Gasto diariamente comigo a terça parte d'essa quantia; outro terço é para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas economias.»

Era um novo enigma para o principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o d'este modo.

«Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que já não podem trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não teem força para isso. Aos primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha infancia; e espero que os segundos não me abandonem, quando os annos tiverem pesado sobre mim.»

O principe, ouvindo isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se da educação de seus filhos; e a benção que lhe deram os seus velhos paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando egualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação.

Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu d'uma maneira tão indigna com seu velho pae doente e aleijado, que este teve de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho ingrato recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma tarde foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ultima esmola, um par de lençoes, para cobrir a palha que lhe servia de leito. O mau filho escolheu os lençoes mais usados, e disse ao seu pequeno, de dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas notou que a creança ao partir tinha escondido um dos lençoes a um canto, atraz da porta.