Contos para a Infância

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 10 de 88

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Contos para a Infância

A alma

O nosso homem pòl-a immediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a casa com o talisman. Observou então a completa desordem que por toda a parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na cozinha o pão, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos cavallos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal escripturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remedio, comprehendendo que o dono da casa nunca póde ser substituido por terceira pessoa na direcção dos seus negocios.

Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman, agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado.

 

A alma

 

«Mamã, nem todas as creanças que morrem vão para o Paraizo. O outro dia vi levar para o cemiterio um menino que tinha morrido; o seu papá e as suas duas irmãsinhas acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me fazia pena. Iam a chorar porque aquelle menino tinha sido mau, não é verdade?»

«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, emquanto choravam seus paes e suas irmãs, já estava vivendo feliz no Paraizo.»

«A alma? mamã; não sei o que é; não comprehendo bem.»

«Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas pequerruchas.»