Contos para a Infância
O primeiro peccado de Margarida
Accendeu o rosto do masso, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e os phosphoros espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua avó tinha sido tão formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas alegres, no meio d'este deslumbramento, voáram tão alto, tão alto, que já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraiso.
Mas quando rompeu a fria madrugada, encontráram a pequerrucha, entre os dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos labios... morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia de Anno Bom veiu alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus phosphoros, a que faltava um masso, que tinha ardido quasi inteiramente.--Quiz aquecer-se, disse um homem que passou.» E ninguem soube nunca as lindas coisas que ella tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua velha avó no dia do Anno Novo.
O primeiro peccado de Margarida
Chamava-se Margarida, e estavam á espera d'ella no céo, porque Deus tinha dito:--É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe póde acontecer alguma desgraça, vou trazel-a um d'estes dias para o paraiso.»
Margarida era uma virgem candida, matinal como a aurora, fresca como ella; todos os dias ao acordar resava as orações, que sua mãe lhe tinha ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha joias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.
Depois d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.
E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella canção d'amor e de gloria, que já emballára muitos berços, e que podia sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.
N'uma tarde de verão, estava ella sentada á porta de casa fiando linho, á hora em que as estrellas começam a apparecer, uma a uma no firmamento.
Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por alli uma das suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com um vestido novo. Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o collar d'ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o que inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.
O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de Margarida, a roda cessára o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das mãos.
Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de si um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de velludo preto, com uma pluma vermelha, da côr do fogo. O cavalleiro saudou-a respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora, perguntou-lhe:
--Qual é o caminho da cidade?»
Margarida estendeu a mão para lh'o indicar, e o forasteiro inclinando-se tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava como uma estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello do que o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se então com um sorriso estranho e diabolico.
N'isto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de Margarida, e pediu-lhe uma esmola.
Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre desgraçado.
O cavalleiro então, soltando um grito de colera, ia lançar-se sobre Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda disfarçado--cobriu-a com as azas. E o cavalleiro, isto é Satanás, que tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.