Contos para a Infância
O ermitão
--«Mandei-a metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro, fechado com sete chaves, disse o rei.»
Antonio mostrou-lhe então a joia preciosa, e o rei ficou extraordinariamente espantado, e quiz saber como elle tinha adquirido semelhante thesouro.
Antonio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu intendente, e disse-lhe:
--«Homem preverso, com justo motivo te puzeram o nome de Ingratidão, porque és mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e pagaste com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será feita. Dou a Antonio as tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres enforcado.»
Admiraram todos a sentença do rei, e Antonio desempenhou as suas altas funcções com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos annos gloriosos.
O ermitão
Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente ao trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os seus pensamentos não se desviavam nunca da idéa de Deus. Depois de ter assim vivido durante muitos annos, uma noite lembrou-se de que já tinha merecido um logar glorioso no paraiso, e podia ser contado entre os santos mais notaveis.
Na noite seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe:
--Ha no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.
O ermitão, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:
--Irmão, dize-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e penitencias te tornaste agradavel a Deus.
--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabeça, santo padre, não zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei, pobre de mim, que sou um peccador. O que faço é andar de casa em casa a divertir os outros.»
O austero ermitão continuou a insistir:
--Estou certo que, no meio da tua existencia vagabunda, praticaste algum acto de virtude.»
--Em verdade não poderia citar nem um só.»
--Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente o teu patrimonio e o producto do teu officio?»
--Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e filhos tinham sido condemnados á escravidão para pagar uma divida. Essa mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. Recolhi-a em minha casa, protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuia para resgatar a sua familia, e levei-a á cidade, onde ella devia encontrar-se com seu marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?»