Contos para a Infância

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 38 de 88

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Contos para a Infância

João Pateta

De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o no fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.

O soldado de chumbo lá estava perfilado, allumiado por um clarão sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as côres lhe tinham desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das suas viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a dançarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, sempre intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se uma porta, o vento arremeçou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que desappareceu no meio das lavaredas. O soldado de chumbo, já não era mais que uma pequena massa informe.

No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um objecto que tinha o feitio d'um pequeno coração de chumbo, e tudo o que restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha ennegrecido.

 

João Pateta

 

João era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco simplorio. A gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um dia sua mãe mandou-o á feira comprar uma foice. Á volta, começou a andar com a foice á roda, de maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a.

--Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr a foice em um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.»

--Perdão, mãe, respondeu humildemente João, para a outra vez serei mais esperto.»

Na semana seguinte mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que as não perdesse.

--Fique descançada. E voltou todo orgulhoso.»

--Então, João, onde estão as agulhas?»

--Ah! estão em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as comprei, ia a passar o carro do visinho carregado de palha; metti lá as agulhas, não podem estar em sitio melhor.»

--De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não ha meio de as tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapéo.»

--Perdão, respondeu João, para a outra vez, heide ser mais esperto.»

Na outra semana, por um dia de calor, João foi d'ali uma legua comprar uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua mãe, poz a manteiga dentro do chapéo e o chapéo na cabeça. Imagine-se o estado em que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.

A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia resolveu-se a mandal-o á feira vender duas gallinhas.

--Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera que te offereçam outro.»

--Está entendido, respondeu João.»

Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle. --Queres seis tostões por essas gallinhas?»

--Ora adeus! minha mãe recommendou-me, que não acceitasse o primeiro preço, mas que esperasse o segundo.»

--E tens muita rasão. Dou-te um cruzado.»

--Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em acceitar o primeiro, mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ella não tem que me ralhar.»

Depois d'isto, João foi condemnado a ficar em casa. Sua mãe sabia que mangavam com elle, e se riam d'ella. Uma manhã quiz fazer uma experiencia, e disse-lhe:

--Vae vender este carneiro á feira. Mas não te deixes enganar. Não o entregues senão a quem te der o preço mais elevado.»

--Está bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.»

--Quanto queres por esse carneiro?

--Minha mãe disse-me que o não vendesse senão pelo preço mais elevado.

--Quatro mil réis?»

--É o preço mais elevado?»

--Pouco mais ou menos.»

--É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepára a uma escada.

--Quanto?»

--Dez tostões:»