Contos para a Infância

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 24 de 88

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Contos para a Infância

Boa sentença

--É a voz da innocencia, disse o pae.

--Ha ali uma creança que diz que o sultão vae em cuecas.

«Vae em cuecas! vae em cuecas!» exclamou o povo finalmente.

O sultão ficou muito afflicto porque lhe pareceu que realmente era verdade. Entretanto tomou a energica resolução de ir até ao fim, e os camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda imaginaria.

 

Boa sentença

 

Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil réis d'alviçaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:

--Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste adiantados os cem mil réis d'alviçaras: estamos pagos por conseguinte.»

O bom camponez, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:

--Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o ultimo encontrou não póde ser o mesmo a que o primeiro se julga com direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que encontraste, e guarda-o até que appareça o individuo que perdeu sómente setecentos mil réis. E tu, o unico conselho que passo a dar-te, é que tenhas paciencia até que appareça alguem que tenha achado os teus oitocentos mil réis.