Contos para a Infância
Não quero
Comtudo o perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume; a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a arrancar a herva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na flor.
Caiu a noite; não estava ali ninguem, para trazer uma gotta d'agua á desditosa cotovia; Estendeu então as suas bellas azas, sacudindo-as convulsivamente, e poz-se a cantar uma cançãosinha melancolica; a sua cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e d'angustias cessou de bater. Vendo este triste espectaculo, o malmequer não pôde como na vespera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se para o chão, doente de tristeza.
Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto, rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram o cadaver dentro d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro de principe, e cobriram o tumulo com folhas de rosas.
Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava, esqueceram-se d'elle e deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de morto é que o choraram e lhe fizeram honrarias pomposissimas.
A relva e o malmequer lançaram-as para a poeira da estrada; d'aquelle que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou.
Não quero
Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito alto: «Não, dizia um com voz energica, não quero.» Parei e perguntei-lhe:--O que é que tu não queres, meu rapaz?--«Não quero dizer á mamã que venho da escola, porque é mentira. Sei que me hade ralhar, mas antes quero que me ralhe do que mentir.»--E tens razão, disse-lhe eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, emquanto que o outro pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora todo envergonhado.