Contos para a Infância

Abílio Manuel Guerra Junqueiro · Capítulo 40 de 88

Páginas do PDF

Contos para a Infância

A rapariguinha e os phosphoros

Os anões, commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para o levarem. Um d'elles tropeçou n'uma raiz, e o caixão soffreu um balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e resuscitou. O joven principe levou-a para o seu castello, e casou com ella. O casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou todos os reis e rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha inimiga de Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia attrair todos os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha:

--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?»

E o espelho respondeu:

--Branca é mais formosa que tu.

A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes fossem descobertos, que morreu de repente.

Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus bemfeitores.

 

A rapariguinha e os phosphoros

 

Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo de dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escuridão passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente; quanto ao outro fugiu-lhe com elle um garotito, com a intenção de fazer d'elle um terço para o seu primeiro filho.

A pequenita caminhava com os pésinhos nús, arroxeados pelo frio; tinha no seu velho avental uma grande quantidade de phosphoros, e levava na mão um masso d'elles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido compradores, e por isso não apurára cinco réis.

Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos longor cabellos loiros, adoravelmente annelados em volta do pescoço; mas pensava ella porventura nos seus cabellos annelados?

As luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos manjares; era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava.

Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia, porque não tinha vendido os seus phosphoros. Além d'isso em sua casa fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas mãosinhas já quasi que as não sentia. Ai! como um phosphorosinho acceso lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um unico, e accendendo-o aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena lamparina. Que luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme brazeiro de ferro, cujo lume magnifico aquecia tão suavemente, que era um regalo.

A pequerrucha ia já a estender os pésitos para os aquecer tambem, quando a chamma se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma pontita de phosphoro consumido.

Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu a sua chamma tornou-se transparente como vidro. Olhando atravez d'esse muro, a pequerrucha viu uma sala com uma meza cobertta de uma toalha alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma gallinha assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exhalando um perfume delicioso. Oh surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do prato, e caíu no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca espetada no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de si a parede fria e tenebrosa.

Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se immediatamente sentada debaixo de uma magnifica arvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a que tinha visto no anno passado atravez dos vidros de um armazem sumptuoso.

Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões accesos, e as estampas coloridas, como as que ha ás portas das lojas, pareciam sorrir-lhe. Quando ia agarral-as com as duas mãos, apagou-se o phosphoro; todos os balões da arvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no ceo um longo rasto de fogo.

--É alguém que está a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.»

Accendeu ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe appareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e suavissimo.

--Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te vaes embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecerás como a panella de ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal.