Cruzadas

Cécile Morrisson · Capítulo 10 de 20

Páginas do PDF

Cruzadas

III. Tréguas e cruzadas na Terra Santa ⠀㄀㄀㤀㠀ⴀ㄀㈀㔀㐀): A coexistência com a dinastia dos ayubidas

zeloso que se apoderasse das terras daqueles que havia reprimido em função de sua heresia

que as mantivesse mediante juramento de vassalagem para com o papa. Com o apoio dessas

armas práticas e teóricas, os papas do século XIII utilizaram as cruzadas para a obtenção e

manutenção de um objetivo político essencial: garantir a independência secular do papado e

impedir o Império Romano-Germânico de controlar a Itália meridional e a Sicília, ao mesmo

tempo que aumentavam o patrimônio de São Pedro. Em 1229, mesmo que Frederico II tivesse

partido como cruzado para a Síria, o papa lançou contra ele um exército financiado pela taxa

sobre as rendas dos clérigos e o resultado das décimas recolhidas sobre os saques da cruzada

albigense, prometendo aos combatentes a remissão de seus pecados, mesmo que não a

indulgência total conferida aos cruzados. Dez anos depois, em 1239, a guerra travada entre o

papa e o imperador germânico se tornou uma verdadeira cruzada: ele prometeu aos soldados

os mesmos privilégios que receberiam caso partissem para a Terra Santa; convidou os

húngaros que haviam feito o voto e tomado a cruz que o cumprissem participando da cruzada

contra Frederico II, descrito como o anticristo pela propaganda eclesiástica. A luta alcançou

seu apogeu na mesma época em que Luís IX da França combatia no Egito e na Síria; as forças

francesas ficaram isoladas em sua luta pela Terra Santa, uma vez que Inocêncio IV (1243-

1254) apelara para os alemães e italianos que se unissem à “cruzada européia” contra o

imperador germânico. Mas os resultados assim obtidos foram efêmeros e pouco eficazes. Para

alcançar um sucesso mais duradouro, ele rapidamente se lembrou de decretar a aplicação do

princípio da “exposição da presa” que fora inventado por Inocêncio III.

 

III. Tréguas e cruzadas na Terra Santa (1198-1254): A coexistência com a dinastia dos

ayubidas

1. As tréguas – Com a morte de Saladino, suas possessões foram divididas, de acordo com

sua vontade, entre seus filhos e seu irmão al-Adil (Aladil), que conseguiu se fazer proclamar

sultão do Cairo (1200) e que exerceu, até sua morte, em 1218, uma autoridade moral sobre os

outros príncipes da dinastia dos ayubidas. A independência de fato destes últimos, suas

disputas interinas e o aparente esfacelamento da Síria não significaram em absoluto o retorno

à “anarquia muçulmana” do século XI. Durante o governo de Aladil e de seu filho e sucessor

al-Kamil (1218-1238), a proeminência do sultão do Cairo, a solidariedade familiar e a

influência da ortodoxia sunita favorecida pela família dos ayubidas contribuíram para

assegurar sua união perante os inimigos comuns.

Ocorre que, a essa altura, os estados cruzados haviam deixado de ser inimigos perigosos:

reduzidos a uma faixa costeira, empobrecidos tanto em dinheiro como em soldados, não

tinham condições de empreender uma política ofensiva somente por suas próprias forças. A

chegada de uma nova cruzada podia ameaçar mais perigosamente o Egito – o que efetivamente

aconteceu diversas vezes – mas seus interesses políticos e pessoais, naturalmente, incitavam o

sultão a permanecer em paz com os estados francos que, aliás, não o incomodavam em nada e

até mesmo contribuíam para assegurar a prosperidade de seu reino, garantindo estreitas

relações comerciais com os mercadores italianos (os tratados concluídos por Saladino foram

renovados com Pisa, em 1207, e com Veneza, em 1218, sem contar que três mil mercadores

francos habitavam em Alexandria em 1212.

A primeira metade do século XIII é, portanto, uma época em que a paz tem precedência

sobre a guerra; diferentemente do século XII, em que os cavaleiros da Terra Santa passavam o

tempo em cavalgadas e expedições militares, ao longo do século XIII, era necessário o

surgimento de novos cruzados recém-vindos do Ocidente para fazer com que os francos da

Síria, de má vontade, voltassem à ofensiva. As tréguas assinadas em 1198 por cinco anos e

meio; em 1204, por seis anos; em 1212 e em 1229 por dez anos, cinco meses e quarenta dias

não garantiam somente a não-beligerância, mas algumas vezes foram acompanhadas de

concessões muçulmanas: a devolução de Jaffa aos francos, em 1204, de Jerusalém e de outros

lugares em 1229 (sobre este tratado, veja adiante, na p. 70), além das praças-fortes de Safete e

Beaufort, em 1240.

 

2. A Quinta Cruzada (1217-1219) – Todavia, em 1210, Aladil mandou construir sobre o

monte Tabor uma fortaleza que dominava toda a planície de Acre; esse acontecimento foi

invocado pelo papa Inocêncio III para pregar, a partir de 1213, uma nova cruzada. As guerras

entre os reis da França e da Inglaterra e entre Frederico II do Império Germânico e seu rival, o

anti-imperador Otto IV, com as ações condenáveis que as acompanharam, favoreceram a

proclamação papal sobre o empreendimento da nova cruzada, cuja organização foi codificada

por um decreto importante emitido pelo Quarto Concílio de Latrão (1215). Poucos franceses

participaram da Quinta Cruzada, em razão da “cruzada” contra os albigenses, iniciada em

1209; os contingentes do duque da Áustria e do rei da Hungria não foram suficientes para

capturar a fortaleza de Tabor, assaltada em 1217. Os húngaros começaram a retornar a partir

de 1218; entretanto, aqueles que permaneceram na Palestina conseguiram retomar Cesaréia e

construíram, ao pé do monte Carmelo, a fortaleza do Castelo dos Peregrinos. Na primavera,

com a chegada de um a contingente importante de cruzados frísios e renanos (do norte da atual

Alemanha), decidiu-se atacar Damieta, no delta do Nilo, com a esperança de enfraquecer o

poder dos egípcios e retomar Jerusalém mais facilmente. De fato, a chegada de novos

cruzados italianos, franceses, ingleses e espanhóis, no outono de 1218, reforçou os sitiantes, e

o sultão Alcamil propôs aos latinos que levantassem o cerco em troca da devolução do antigo

território do reino de Jerusalém, com a exceção da Transjordânia, chegando mesmo a sugerir

que construiria praças-fortes à sua própria custa. Contudo, a oposição do legado papal Pelayo,

que pretendia dirigir a cruzada tanto temporal como espiritualmente, impediu que o rei de

Jerusalém, Jean de Brienne, aceitasse o tratado. Após a tomada de Damieta (5 de novembro de

1219), o legado conduziu o exército para o sul, com a intenção de conquistar todo o Egito: o

exército marchou sobre o Cairo, mas os cruzados foram bloqueados pela inundação que

provocou a ruptura dos diques do Nilo e foram a seguir forçados a abandonar Damieta,

evacuar o Egito e assinar uma trégua de oito anos. A cruzada “pontifícia” fracassou por culpa

do legado papal.

 

3. A (Sexta) Cruzada de Frederico II (1228-1229) – O papa, depois dessa derrota, só

podia contar com a ajuda de Frederico II, que havia tomado a cruz em 1215, mas fora

impedido de partir pela guerra com seu rival. Ambos tendo se reconciliado, Frederico foi

coroado imperador em Roma, no ano de 1220, casando-se em 1225 com Isabelle, filha da princesa Marie e de Jean de Brienne, o que lhe permitiu tornar-se o rei de Jerusalém no lugar

deste último, em virtude da aplicação estrita do direito feudal, mas contrariamente às

promessas que fizera a seu futuro sogro. Sua partida para a Síria, marcada para 1227, foi

adiada por motivo de doença; tomando este outro atraso como pretexto, o novo papa, Gregório

IX, excomungou o imperador e proclamou o interdito sobre suas terras. Em conseqüência,

Frederico II partiu para a cruzada na primavera de 1228. Desde antes de sua chegada, ele

havia entabulado negociações diplomáticas com o sultão Alcamil para a recuperação de

Jerusalém. Na época, o sultão se achava ameaçado por uma coalizão de seus primos ayubidas

da Síria, que se haviam aliado e eram apoiados pelos turcos corásmios, da região entre os

mares Negro e Cáspio. Mas, no momento de sua chegada, a situação se havia invertido: o

sultão de Damasco havia morrido, e Alcamil dividira suas possessões com seu irmão, vindo

da Djazirá, no norte do atual Iraque, que ficou com Damasco e entregou a Palestina a Alcamil.

Não obstante, depois de cinco meses de novas negociações, Frederico conseguiu assinar com

Alcamil o Tratado de Jaffa (11 de fevereiro de 1229): Jerusalém foi devolvida ao reino

latino, juntamente com Nazaré, Belém, os territórios de Lidda e Ramalá e até mesmo os feudos

setentrionais de Torona e de Sidon. A Cidade Santa foi declarada “cidade aberta”, e os

muçulmanos conservaram a posse do lugar do antigo templo, a chamada “esplanada das

mesquitas”, onde haviam sido construídas a mesquita de Omar e a mesquita de al-Aqsa (o

Domo da Rocha), enquanto os cristãos assumiram o controle do Santo Sepulcro. Em 17 de

março, Frederico II colocou a coroa do reino sobre sua própria cabeça, já que o Patriarca de

Jerusalém se recusou a efetuar a cerimônia da coroação. O reino de Jerusalém fora finalmente

restabelecido, mas em condições políticas tais que as dificuldades interiores entre os que

deveriam defendê-lo acabaram por lhe provocar novamente a ruína.

 

4. As guerras civis da Palestina e a nova perda de Jerusalém (1229-1244) – Durante o

primeiro quarto do século XIII, os conflitos internos haviam enfraquecido fortemente os

condados do norte. O principado de Antioquia há muito tempo era disputado pelo conde de

Trípoli, Bohémond IV, e pelo sobrinho-neto do rei da Armênia, mas em 1219 foi

definitivamente unido ao condado de Trípoli. O reino de Jerusalém, por outro lado, só sofrera

dificuldades menores sob Henrique de Champanha (1192-1197) e Amaury de Lusignan (1197-

1205), que haviam sido esposos sucessivos da Rainha Isabelle, viúva de Conrad de

Montferrat; e posteriormente sob Jean d’Ibelin, chamado de “o velho senhor de Beirute”, que

exerceu o cargo de bailio (de fato, regente) da filha de Isabelle, Marie (1205-1210). Esta foi

então casada com Jean de Brienne, que se tornou rei (1210-1212) e depois, por morte de sua

esposa, regente em nome de sua filha, Isabelle II, de 1212 a 1225 (veja o quadro genealógico,

na p. 73).

A passagem do reino para as mãos de Frederico II e o conflito que o opôs ao papado e aos

barões cruzados inauguraram um período de guerras civis incessantes, que não foram

interrompidas sequer pela ameaça dos piores perigos externos. Os detalhes das lutas

conduzidas pelos barões sírios e sobretudo por Jean d’Ibelin, regente de Chipre, com o apoio

dos templários, contra o representante do imperador, o marechal Ricardo Filangieri, derrotado

em Chipre em 1232 e definitivamente expulso de Tiro em 1243, foram relatados nas memórias

do jurista Felippo de Novara, partidário dos d’Ibelin, que intitulou sua narrativa de História da guerra entre o imperador Frederico e Messire Jean d’Ibelin . Dentro desse contexto, os

novos cruzados recém-chegados à Terra Santa hesitavam entre as políticas propostas pelos

dois partidos: em 1239, Teobaldo de Champanha retomou Jerusalém, que fora

temporariamente ocupada pelos egípcios tão logo expirara a trégua e, aceitando os conselhos

dos templários e de d’Ibelin, negociou com o sultão de Damasco a restituição das praças-

fortes da Galiléia, mas o tratado não foi concluído. Por sua vez, Ricardo de Cornualha, que

era aparentado com Frederico II, representando o imperador com o apoio dos Cavaleiros

hospitalários, negociou uma aliança com o Egito, obtendo do sultão do Cairo, as-Salih Ayub

(1240-1249), a renovação do tratado de 1229 e a restituição de territórios suplementares – a

região de Sidon, a Galiléia oriental, incluindo Tiberíades, e as regiões de Jaffa e de Ascalon

–, devolvendo ao reino de Jerusalém suas fronteiras de 1187. Após seu retorno para a Europa,

os barões guelfos, partidários do papa, entraram por sua vez em contato com o sultão de

Damasco, que se achava então ameaçado por as-Salih Ayub, e obtiveram dele a promessa de

restituições suplementares.

Mas o sultão do Egito apelou para as tropas dos corasmianos, que haviam sido expulsos da

Mesopotâmia pelo avanço dos mongóis. Os corasmianos conquistaram Jerusalém, que fora

deixada praticamente sem defesa e, juntamente com tropas vindas do Egito, aniquilaram o

exército formado pela aliança dos francos e dos aiúbidas de Damasco, nas proximidades de

Gaza (batalha de La Forbie, 17 de outubro de 1244). As-Salih Ayub retomou Ascalon e a

Galiléia oriental (1247), tornou-se o senhor de Damasco, estabeleceu sua soberania sobre

Homs e entrou em guerra pelo controle da Síria inteira com seu primo, o sultão de Alepo. O

sultão ayubida rompeu com as políticas de seus predecessores: ignorando a solidariedade

familiar, procurou impor sua autoridade por todos os meios a seu alcance e conduziu

ofensivas militares simultâneas contra seus parentes da Síria e contra os francos.

Desconfiando dos elementos tradicionais do exército ayubida – mercenários curdos livres e

escravos (mamelucos) cujos regimentos traziam o nome dos sultões que os haviam constituído

(Regimento Salahiya, fundado por Saladino; Regimento Kamiliya, criado por Alcamil etc.),

as-Salih Ayub cercou-se de um corpo de elite formado por uma guarda mameluca instaurada

por ele mesmo, denominada Bahriya as-Salihiya, ou “Guarda da Ilha do Nilo” (Bahr al-Nil,

em que era aquartelada) “do sultão as-Salih”.

No momento em que as-Salih inaugurou o regime dos mamelucos, que irá dominar todo o

período seguinte, os estados francos da Síria, já empobrecidos por suas perdas de territórios,

se demonstravam cada vez mais divididos. O filho de Frederico II, Conrado IV, tornou-se rei

de Jerusalém (1243), mas os barões se recusaram a prestar homenagem ao representante por

ele enviado e confiaram a regência à rainha-viúva de Chipre, Alice de Champanha, e depois a

seu filho, Henrique I. Essa regência era tão teórica que o reinado de Conrado IV e sua

autoridade pertenciam de fato aos bailios da família dos d’Ibelin (Balian e depois seu irmão

Jean), que dominaram a alta corte do reino, além de serem os senhores dos principais feudos,

tanto no continente como em Chipre. Tiro, que foi tomada aos partidários do imperador, foi

dada pelos d’Ibelin a um de seus parentes, Philippe de Montfort; os d’Ibelin possuíam ainda

as senhorias de Beirute, Cesaréia, Arsufe e Jaffa. A essa altura, o resto do território do reino

pertencia às ordens religiosas militares, embora em Antioquia, e mais ainda em Acre, as autoridades civis escolhidas pela comunidade dos nobres fossem todo-poderosas. Em termos