Cruzadas

Cécile Morrisson · Capítulo 15 de 20

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Cruzadas

III. A organização militar das cruzadas ⠀攀昀攀琀椀瘀漀猀Ⰰ 挀漀洀愀渀搀漀Ⰰ 攀猀琀爀愀琀最椀愀Ⰰ 琀琀椀挀愀猀)

recepção das ordens de pagamento: este é o primeiro exemplo de desconto de duplicatas

conhecido na história econômica européia. Durante o câmbio se acrescentava o juro do

empréstimo, e se calculou que os genoveses ganhavam da França cerca de 20% em cada

operação. Já na Segunda Cruzada, os templários haviam emprestado a Luís VII, durante sua

estada na Síria, somas que lhes eram pagas em Paris e, a partir da metade do século XII, os

“peregrinos” depositavam somas em dinheiro nas tesourarias das residências européias dos

templários e recebiam somas correspondentes na Terra Santa. As riquezas de que a Ordem do

Templo dispunha dos dois lados do Mediterrâneo lhe permitiam evitar a sempre arriscada

transferência real da moeda por via marítima. Desse modo, as cruzadas com certeza

favoreceram o desenvolvimento das práticas bancárias e principalmente deram origem pela

primeira vez e já em grande escala ao uso da caixa de compensação para a regulação dos

pagamentos internacionais.

 

III. A organização militar das cruzadas

(efetivos, comando, estratégia, táticas)

Não se podem comparar as pequenas tropas de algumas centenas de homens conduzidas por

grandes senhores que se haviam tornado cruzados com as passagens mais importantes, que

agrupavam muitas dezenas de milhares de cavaleiros e infantes. O estudo dos cronistas da

Primeira Cruzada nos leva a estimar os efetivos chegados em Constantinopla na ordem de

doze mil cavaleiros, acompanhados por cerca de cem mil soldados a pé (os “sargentos”, como

eram chamados os soldados de infantaria), além de quinze mil não-combatentes, um conjunto

considerável, que fora reduzido de dois terços quando de sua chegada a Jerusalém. Os

tratados concluídos depois para o transporte de tropas nos informam melhor sobre os efetivos

engajados. Felipe Augusto leva consigo 650 cavaleiros e 1.300 escudeiros. Ricardo Coração-

de-Leão conduz um número equivalente. A cruzada de Luís IX, em 1248, contava com cerca

de quinze mil homens, dos quais 2.500 eram cavaleiros. As maiores cruzadas raramente

incluíram mais de dez milhares de combatentes. A impressão de “multidões inumeráveis”

deixada pelas duas primeiras cruzadas era devida à grande proporção de não-combatentes

(peregrinos pobres, sem armas ou mal equipados, irregulares como os chamados Ribauds

[Lascivos] ou Tafurs [Patifes]), que só serviam para atrapalhar, retardando o avanço ou

mesmo comprometendo a cruzada pelos desmandos que cometiam.

Depois da Segunda Cruzada, as autoridades se esforçaram para impedir a partida dos não-

combatentes. No século XIII, as cruzadas eram compostas, em sua maioria, de militares por

vocação – cavaleiros de todas as camadas da nobreza, dos “grandes homens” aos “cavaleiros

pobres”, como Robert de Clari – ou profissionais, os “sargentos” de cavalaria ou de

infantaria, os balestreiros e outros infantes que combatiam por soldo. O elemento popular não

mais era integrado nas cruzadas, a não ser na qualidade de mercenários. As únicas cruzadas

“populares” dos séculos XIII e XIV são os movimentos “selvagens”, como a “Cruzada das

Crianças” francesas e alemãs, em 1212, as tropas de pastores franceses de 1250 e de 1320 e

outras “emoções” que conduzem “para Deus” multidões fracas e desarmadas, mais desejosas

de viver e morrer com Cristo do que libertar a Terra Santa.

Os exércitos das cruzadas não têm estruturas originais. Sempre foram exércitos feudais, reunindo os contingentes vindos de uma senhoria, de um principado ou de uma determinada

monarquia, que conservavam suas individualidades até mesmo em batalha.30 Chegou a

acontecer, durante o século XIII, a imposição de um legado papal pelo uso de cruzes de cores

diferentes de acordo com as nacionalidades, simbolizando uma oposição que, de fato, já se

havia manifestado muitas vezes anteriormente. Atiçadas pela presença de seus soberanos,

disputas sangrentas já haviam separado franceses e alemães em 1149 ou franceses e ingleses

em 1190; uma verdadeira batalha chegara a ocorrer entre franceses e venezianos durante a

tomada de Zara, e os diversos contingentes da Quinta Cruzada, que passavam às turras,

tiveram de ser alojados em acampamentos separados durante a campanha de Damieta. Os reis

ou imperadores cruzados se consideravam chefes de exércitos independentes e somente um

acordo acertado entre eles podia permitir a realização de operações conjuntas. Durante a

Primeira Cruzada, a direção do exército dependia do Conselho dos Barões, que raramente

conseguia conciliar os pontos de vista opostos de Bohémond e de Raymond de Saint-Gilles,

especialmente após a morte do legado papal, Adhémar de Monteil, cuja autoridade moral

ultrapassava os poderes espirituais que o papa lhe confiara. O Conselho dos Barões

permaneceu sendo o centro das decisões, mesmo quando haviam eleito um chefe, como

ocorreu na Quarta Cruzada; Luís IX ainda consultava os pareceres de seu conselho, mas

depois passou a seguir as opiniões de uma minoria de sua maior confiança, até que, em 1250,

somente Joinville e o conde de Jaffa lhe haviam “aconselhado que permanecesse”. Na Quinta

Cruzada, o conselho, agora formado por representantes dos cruzados de todos os países cujos

contingentes se achavam envolvidos, reconheceu inicialmente a autoridade do rei de

Jerusalém; mas, a seguir, o legado papal Pelayo quis impor-se a ele, assumindo a total

autoridade em nome da Igreja. Sua atitude intransigente fez com que lhe atribuíssem, e com

plena razão, a responsabilidade pelo fracasso da cruzada. Na verdade, com exceção dele, os

legados papais que acompanhavam as expedições, em geral dois, nunca ultrapassaram assim

as funções espirituais que o papa reinante lhes atribuíra, deixando a condução militar da

cruzada nas mãos dos leigos.

Os objetivos militares das cruzadas foram, inicialmente, bastante simples: encorajados ou

mesmo forçados pelos “peregrinos pobres”, os barões da Primeira Cruzada só pretendiam

marchar o mais depressa possível à conquista de Jerusalém, sem ao menos se preocupar com a

garantia de suas linhas de comunicação com Antioquia. Seu progresso e seu reabastecimento

dependiam então da boa vontade dos emires árabes, que lhes permitiram a passagem sem

combate, mas principalmente do socorro que os navios italianos lhes traziam. Todavia, depois

da conquista de Jerusalém, foi difícil conservar os homens a seu serviço: realizada a

peregrinação e a conquista da cidade santa, os cruzados se consideraram liberados de seus

votos. Já no princípio do século XII, passou a ser necessário conceder uma indulgência

especial àqueles que se dispunham a passar um ano inteiro em serviço militar na Terra Santa.

De um modo geral, os cruzados se submetiam às ordens do rei de Jerusalém ou de outros

soberanos; a ajuda do rei Sigurd da Noruega foi necessária para a captura do porto de Sidon.

A colaboração foi bastante inconstante entre os soberanos que participaram da Segunda

Cruzada; em lugar de atacarem Alepo, como lhes pedira o príncipe de Antioquia, os cruzados

marcharam diretamente para Damasco, onde surgiram novos desentendimentos em razão da atribuição eventual da cidade a um dos novos cruzados ou a um dos barões que já se achavam

na Síria. No século XIII, quando as condições políticas reinantes no Oriente Próximo já eram

mais bem conhecidas, as cruzadas deixaram de ser simples peregrinações armadas para se

tornarem reais expedições militares cujos objetivos eram sabidos por todos de antemão. Em

1201, os cruzados e os venezianos concordaram que “iriam primeiro à Babilônia31, porque

seria mais fácil destruir os turcos a partir de Babilônia do que a partir de outras terras”.

Efetivamente, os cruzados que tomaram Damieta logo receberam a oferta de uma troca do

porto egípcio pela devolução de Jerusalém; essa estratégia, que teria sido tão bem

fundamentada, fracassou por eles terem abandonado as negociações em troca da impossível

conquista do Cairo. Os principais resultados obtidos no século XIII foram os das negociações

de Frederico II em 1229 e de Richard de Cornualha em 1241: as cruzadas à Palestina se

haviam transformado em um meio de dissuasão a serviço da diplomacia. As sucessivas

alianças com os mongóis exerceram a seguir uma função muito importante com os projetos de

cruzadas do final do século: uma série de embaixadas mongóis (entre 1267 e 1338) buscaram

organizar campanhas comuns contra os mamelucos, mas nenhuma delas teve o resultado

desejado.

Após Inocêncio III, os papas exigiram a obtenção de informações sobre “os costumes e as

forças dos sarracenos” e pediam conselhos precisos sobre como organizar as cruzadas; muitos

dos relatórios obtidos insistiam a respeito da superioridade naval da cristandade, que

facilmente poderia levar as tropas ao Egito e submeter o país por força de um bloqueio

marítimo. Muitas das cruzadas do século XIV utilizaram e demonstraram essa superioridade

sobre os mamelucos ou sobre os emirados turcomanos da Ásia Menor (foi assim que o emir de

Aydin perdeu Esmirna, conquistada pelos Cavaleiros hospitalários, que a conservaram de

1344 a 1402). Mas essa estratégia marítima sempre foi aplicada apenas parcialmente, e

somente nos raros casos em que favorecia a defesa dos interesses econômicos do Ocidente.

No Oriente, os exércitos cruzados encontraram adversários e problemas novos aos quais a

tática militar ocidental teve de se adaptar. Freqüentemente atacados durante as jornadas, os

cruzados tiveram de organizar sua ordem de marcha a partir da Primeira Cruzada, protegendo

os flancos, defendendo a massa de peregrinos desarmados, que eram colocados no centro.

Rapidamente aprenderam a abandonar o avanço em colunas em favor da formação em

“escalas”, organizadas como batalhões de combate e capazes de avançar com sucesso contra

os atacantes, a fim de desbaratá-los. A vitória de Arsufe oferece o melhor exemplo dessa

tática (veja o mapa na p. 52).

As cargas da cavalaria franca, pesadamente encouraçada e armada de lanças,

permaneceram sendo o elemento essencial de uma tática freqüentemente decisiva contra as

tropas árabes e egípcias, cuja cavalaria também era encouraçada, porém mais leve e com

armamento inferior. Por outro lado, os turcos, que a partir da metade do século XII compõem a

maior parte das tropas que se opunham aos cruzados, são em sua maioria arqueiros montados,

com armamento leve e de grande mobilidade, que faziam reides contra seus adversários e

procuravam atrair alguns deles para longe do grosso da tropa por meio de fugas simuladas.

Muitos cruzados do Ocidente, cuja ambição era a realização de proezas, muito mais do que a

obediência militar ou a estratégia eficaz, como Robert d’Artois, na batalha de Mansurá, caíram nesse tipo de armadilha, vendo-se cercados de repente. Os exércitos dos francos