Cruzadas
III. A organização militar das cruzadas ⠀攀昀攀琀椀瘀漀猀Ⰰ 挀漀洀愀渀搀漀Ⰰ 攀猀琀爀愀琀最椀愀Ⰰ 琀琀椀挀愀猀)
recepção das ordens de pagamento: este é o primeiro exemplo de desconto de duplicatas
conhecido na história econômica européia. Durante o câmbio se acrescentava o juro do
empréstimo, e se calculou que os genoveses ganhavam da França cerca de 20% em cada
operação. Já na Segunda Cruzada, os templários haviam emprestado a Luís VII, durante sua
estada na Síria, somas que lhes eram pagas em Paris e, a partir da metade do século XII, os
“peregrinos” depositavam somas em dinheiro nas tesourarias das residências européias dos
templários e recebiam somas correspondentes na Terra Santa. As riquezas de que a Ordem do
Templo dispunha dos dois lados do Mediterrâneo lhe permitiam evitar a sempre arriscada
transferência real da moeda por via marítima. Desse modo, as cruzadas com certeza
favoreceram o desenvolvimento das práticas bancárias e principalmente deram origem pela
primeira vez e já em grande escala ao uso da caixa de compensação para a regulação dos
pagamentos internacionais.
III. A organização militar das cruzadas
(efetivos, comando, estratégia, táticas)
Não se podem comparar as pequenas tropas de algumas centenas de homens conduzidas por
grandes senhores que se haviam tornado cruzados com as passagens mais importantes, que
agrupavam muitas dezenas de milhares de cavaleiros e infantes. O estudo dos cronistas da
Primeira Cruzada nos leva a estimar os efetivos chegados em Constantinopla na ordem de
doze mil cavaleiros, acompanhados por cerca de cem mil soldados a pé (os “sargentos”, como
eram chamados os soldados de infantaria), além de quinze mil não-combatentes, um conjunto
considerável, que fora reduzido de dois terços quando de sua chegada a Jerusalém. Os
tratados concluídos depois para o transporte de tropas nos informam melhor sobre os efetivos
engajados. Felipe Augusto leva consigo 650 cavaleiros e 1.300 escudeiros. Ricardo Coração-
de-Leão conduz um número equivalente. A cruzada de Luís IX, em 1248, contava com cerca
de quinze mil homens, dos quais 2.500 eram cavaleiros. As maiores cruzadas raramente
incluíram mais de dez milhares de combatentes. A impressão de “multidões inumeráveis”
deixada pelas duas primeiras cruzadas era devida à grande proporção de não-combatentes
(peregrinos pobres, sem armas ou mal equipados, irregulares como os chamados Ribauds
[Lascivos] ou Tafurs [Patifes]), que só serviam para atrapalhar, retardando o avanço ou
mesmo comprometendo a cruzada pelos desmandos que cometiam.
Depois da Segunda Cruzada, as autoridades se esforçaram para impedir a partida dos não-
combatentes. No século XIII, as cruzadas eram compostas, em sua maioria, de militares por
vocação – cavaleiros de todas as camadas da nobreza, dos “grandes homens” aos “cavaleiros
pobres”, como Robert de Clari – ou profissionais, os “sargentos” de cavalaria ou de
infantaria, os balestreiros e outros infantes que combatiam por soldo. O elemento popular não
mais era integrado nas cruzadas, a não ser na qualidade de mercenários. As únicas cruzadas
“populares” dos séculos XIII e XIV são os movimentos “selvagens”, como a “Cruzada das
Crianças” francesas e alemãs, em 1212, as tropas de pastores franceses de 1250 e de 1320 e
outras “emoções” que conduzem “para Deus” multidões fracas e desarmadas, mais desejosas
de viver e morrer com Cristo do que libertar a Terra Santa.
Os exércitos das cruzadas não têm estruturas originais. Sempre foram exércitos feudais, reunindo os contingentes vindos de uma senhoria, de um principado ou de uma determinada
monarquia, que conservavam suas individualidades até mesmo em batalha.30 Chegou a
acontecer, durante o século XIII, a imposição de um legado papal pelo uso de cruzes de cores
diferentes de acordo com as nacionalidades, simbolizando uma oposição que, de fato, já se
havia manifestado muitas vezes anteriormente. Atiçadas pela presença de seus soberanos,
disputas sangrentas já haviam separado franceses e alemães em 1149 ou franceses e ingleses
em 1190; uma verdadeira batalha chegara a ocorrer entre franceses e venezianos durante a
tomada de Zara, e os diversos contingentes da Quinta Cruzada, que passavam às turras,
tiveram de ser alojados em acampamentos separados durante a campanha de Damieta. Os reis
ou imperadores cruzados se consideravam chefes de exércitos independentes e somente um
acordo acertado entre eles podia permitir a realização de operações conjuntas. Durante a
Primeira Cruzada, a direção do exército dependia do Conselho dos Barões, que raramente
conseguia conciliar os pontos de vista opostos de Bohémond e de Raymond de Saint-Gilles,
especialmente após a morte do legado papal, Adhémar de Monteil, cuja autoridade moral
ultrapassava os poderes espirituais que o papa lhe confiara. O Conselho dos Barões
permaneceu sendo o centro das decisões, mesmo quando haviam eleito um chefe, como
ocorreu na Quarta Cruzada; Luís IX ainda consultava os pareceres de seu conselho, mas
depois passou a seguir as opiniões de uma minoria de sua maior confiança, até que, em 1250,
somente Joinville e o conde de Jaffa lhe haviam “aconselhado que permanecesse”. Na Quinta
Cruzada, o conselho, agora formado por representantes dos cruzados de todos os países cujos
contingentes se achavam envolvidos, reconheceu inicialmente a autoridade do rei de
Jerusalém; mas, a seguir, o legado papal Pelayo quis impor-se a ele, assumindo a total
autoridade em nome da Igreja. Sua atitude intransigente fez com que lhe atribuíssem, e com
plena razão, a responsabilidade pelo fracasso da cruzada. Na verdade, com exceção dele, os
legados papais que acompanhavam as expedições, em geral dois, nunca ultrapassaram assim
as funções espirituais que o papa reinante lhes atribuíra, deixando a condução militar da
cruzada nas mãos dos leigos.
Os objetivos militares das cruzadas foram, inicialmente, bastante simples: encorajados ou
mesmo forçados pelos “peregrinos pobres”, os barões da Primeira Cruzada só pretendiam
marchar o mais depressa possível à conquista de Jerusalém, sem ao menos se preocupar com a
garantia de suas linhas de comunicação com Antioquia. Seu progresso e seu reabastecimento
dependiam então da boa vontade dos emires árabes, que lhes permitiram a passagem sem
combate, mas principalmente do socorro que os navios italianos lhes traziam. Todavia, depois
da conquista de Jerusalém, foi difícil conservar os homens a seu serviço: realizada a
peregrinação e a conquista da cidade santa, os cruzados se consideraram liberados de seus
votos. Já no princípio do século XII, passou a ser necessário conceder uma indulgência
especial àqueles que se dispunham a passar um ano inteiro em serviço militar na Terra Santa.
De um modo geral, os cruzados se submetiam às ordens do rei de Jerusalém ou de outros
soberanos; a ajuda do rei Sigurd da Noruega foi necessária para a captura do porto de Sidon.
A colaboração foi bastante inconstante entre os soberanos que participaram da Segunda
Cruzada; em lugar de atacarem Alepo, como lhes pedira o príncipe de Antioquia, os cruzados
marcharam diretamente para Damasco, onde surgiram novos desentendimentos em razão da atribuição eventual da cidade a um dos novos cruzados ou a um dos barões que já se achavam
na Síria. No século XIII, quando as condições políticas reinantes no Oriente Próximo já eram
mais bem conhecidas, as cruzadas deixaram de ser simples peregrinações armadas para se
tornarem reais expedições militares cujos objetivos eram sabidos por todos de antemão. Em
1201, os cruzados e os venezianos concordaram que “iriam primeiro à Babilônia31, porque
seria mais fácil destruir os turcos a partir de Babilônia do que a partir de outras terras”.
Efetivamente, os cruzados que tomaram Damieta logo receberam a oferta de uma troca do
porto egípcio pela devolução de Jerusalém; essa estratégia, que teria sido tão bem
fundamentada, fracassou por eles terem abandonado as negociações em troca da impossível
conquista do Cairo. Os principais resultados obtidos no século XIII foram os das negociações
de Frederico II em 1229 e de Richard de Cornualha em 1241: as cruzadas à Palestina se
haviam transformado em um meio de dissuasão a serviço da diplomacia. As sucessivas
alianças com os mongóis exerceram a seguir uma função muito importante com os projetos de
cruzadas do final do século: uma série de embaixadas mongóis (entre 1267 e 1338) buscaram
organizar campanhas comuns contra os mamelucos, mas nenhuma delas teve o resultado
desejado.
Após Inocêncio III, os papas exigiram a obtenção de informações sobre “os costumes e as
forças dos sarracenos” e pediam conselhos precisos sobre como organizar as cruzadas; muitos
dos relatórios obtidos insistiam a respeito da superioridade naval da cristandade, que
facilmente poderia levar as tropas ao Egito e submeter o país por força de um bloqueio
marítimo. Muitas das cruzadas do século XIV utilizaram e demonstraram essa superioridade
sobre os mamelucos ou sobre os emirados turcomanos da Ásia Menor (foi assim que o emir de
Aydin perdeu Esmirna, conquistada pelos Cavaleiros hospitalários, que a conservaram de
1344 a 1402). Mas essa estratégia marítima sempre foi aplicada apenas parcialmente, e
somente nos raros casos em que favorecia a defesa dos interesses econômicos do Ocidente.
No Oriente, os exércitos cruzados encontraram adversários e problemas novos aos quais a
tática militar ocidental teve de se adaptar. Freqüentemente atacados durante as jornadas, os
cruzados tiveram de organizar sua ordem de marcha a partir da Primeira Cruzada, protegendo
os flancos, defendendo a massa de peregrinos desarmados, que eram colocados no centro.
Rapidamente aprenderam a abandonar o avanço em colunas em favor da formação em
“escalas”, organizadas como batalhões de combate e capazes de avançar com sucesso contra
os atacantes, a fim de desbaratá-los. A vitória de Arsufe oferece o melhor exemplo dessa
tática (veja o mapa na p. 52).
As cargas da cavalaria franca, pesadamente encouraçada e armada de lanças,
permaneceram sendo o elemento essencial de uma tática freqüentemente decisiva contra as
tropas árabes e egípcias, cuja cavalaria também era encouraçada, porém mais leve e com
armamento inferior. Por outro lado, os turcos, que a partir da metade do século XII compõem a
maior parte das tropas que se opunham aos cruzados, são em sua maioria arqueiros montados,
com armamento leve e de grande mobilidade, que faziam reides contra seus adversários e
procuravam atrair alguns deles para longe do grosso da tropa por meio de fugas simuladas.
Muitos cruzados do Ocidente, cuja ambição era a realização de proezas, muito mais do que a
obediência militar ou a estratégia eficaz, como Robert d’Artois, na batalha de Mansurá, caíram nesse tipo de armadilha, vendo-se cercados de repente. Os exércitos dos francos