Cruzadas

Cécile Morrisson · Capítulo 17 de 20

Páginas do PDF

Cruzadas

V. O “regime colonial” dos Estados Cruzados

defendiam posições-chave, como Saone e Baghrás ao norte de Antioquia, o Castelo Branco e

o Krak dos cavaleiros, que controlavam a estrada entre Homs e Trípoli. As fortalezas

construídas ou restabelecidas a partir dessa época eram de um tipo mais elaborado, planejado

para resistir a longos cercos: muralhas múltiplas empregando melhor os acidentes do terreno,

flanqueadas de torres a espaços regulares em todo o perímetro e protegidas por obras

avançadas, de que Margate e o Krak dos cavaleiros são os melhores exemplos. Tais modelos

provavelmente influenciaram a construção de castelos no Ocidente, como o Château-Gaillard

mandado construir em suas terras francesas por Ricardo Coração-de-Leão ao retornar da

Terceira Cruzada. No século XIII, todavia, as ordens haviam perdido a maior parte de suas

praças de guerra no interior, mas reconstituíram novas senhorias (por exemplo, Margate e

Sidon) compradas de seus antigos detentores empobrecidos, além de receber a guarda de

fortalezas construídas durante as primeiras cruzada: o Château-Pélerin, foi confiado aos

templários em 1217 e o Castelo de Montfort foi entregue aos cavaleiros Teutônicos em 1228.

Foram transformados em “estados dentro do Estado”, cujas dissensões, políticas de

engrandecimento pessoal e ostentação de riqueza (sobretudo no caso dos templários), eram

motivo de escândalo, mas nada disso impedia que fossem a única estrutura eficaz que

mantinha um exército permanente e uma frota a serviço da Terra Santa.

 

V. O “regime colonial” dos Estados Cruzados

O termo “colônia franca” aplicado aos Estados Cruzados não deve dar margem a ilusões:

mesmo em seu apogeu, o povoamento franco – que era constituído, pelo menos no século XII,

por uma grande maioria de franceses – nunca ultrapassou cem mil homens. Era mais um

estabelecimento político e militar do que uma colônia, e três quartos de seus membros

residiam nas cidades (no século XIII, Tiro, por exemplo, tinha entre 25 mil e 30 mil

habitantes, e os campos adjacentes no máximo mais dez mil). No princípio do século XII, a

falta de homens era tão grande que Balduíno I mandou buscar os cristãos não-católicos da

Transjordânia para repovoar Jerusalém. É difícil avaliar a importância do povoamento

latino 38 estabelecido em certas villes franches (cidades isentas de alguns impostos), como

Bethgibelin, em que os Cavaleiros hospitalários instalaram, em 1168, 32 famílias originadas

da região central da França, cada uma das quais recebeu duas jeiras de terra como tenure en

bourgeoisie (dependência burguesa); ou como as 21 fundações dos Cônegos do Santo

Sepulcro, como Grande Mahomerie, que contava, em 1156, com mais de noventa burgueses. É

em parte a esses colonos que se aplicava o célebre texto de Foucher de Chârtres:

 

Alguns dos nossos já possuem neste país casas e criados. [...] O que era estrangeiro se tornou nativo; o peregrino passou a

ser habitante. [...] Aqueles que eram pobres em suas terras natais ficaram ricos aqui pela graça de Deus.

 

Arqueólogos escavaram e trouxeram à luz do dia algumas dessas aldeias situadas ao norte

de Jerusalém. Seu traçado geométrico, típico das villeneuves [cidades planejadas] do

Ocidente, demonstra igualmente a relativa segurança gozada entre os anos de 1120 e 1160.

A população rural era formada majoritariamente por sírios, tanto cristãos como

muçulmanos. Os muçulmanos deviam um imposto pessoal de um besante, proporcional ao tamanho da família, mas os dízimos somente eram pagos pelos cristãos latinos, isto é, de

origem européia. Todos os camponeses deviam ao senhor da terra uma percentagem sobre

suas colheitas, que variava de acordo com a natureza da plantação e a qualidade das terras (de

um quarto à metade), denominada terrage, e três vezes por ano deveriam fornecer donativos

em espécie (exenia). Ao expulsarem os antigos proprietários muçulmanos, os cruzados

empobreceram a classe dirigente, mas não modificaram a situação dos camponeses, que

parecem ter ficado indiferentes a essa troca de senhores. Os francos não modificaram os

métodos de exploração rural: as terras de cultivo de cada aldeia, chamadas de casal, foram

divididas em unidades fiscais (charruées ou aráveis); as reservas senhoriais eram quase

inexistentes, por falta de mão-de-obra; as raras corvéias eram utilizadas quase sempre,

segundo a tradição bizantina, para o transporte dos produtos agrícolas correspondentes às

contribuições em espécie ou para trabalhos de interesse público. Os métodos e os tipos de

cultura tradicionais foram conservados; os francos unicamente encorajaram o plantio de

vinhedos e de olivais, estes nas zonas costeiras, além da cana-de-açúcar e de outras culturas

comerciais, cujo produto era destinado à exportação.

Um dos resultados das cruzadas foi a criação de uma nova rota para o comércio do

Levante, mas seu desenvolvimento a partir do século XII não pode ser atribuído somente a

essa causa. Os portos italianos, que até então comerciavam principalmente com Bizâncio e

Alexandria, viram aumentar seu tráfico em conseqüência da criação dos estabelecimentos

cruzados: é através daqueles que estes importavam suas provisões e mantimentos a partir do

final do século XII (trazidos de Chipre, da Sicília ou de mais longe ainda) e artigos duráveis

(armas da Europa, madeira do Líbano e da Cilícia), tecidos da Champanha ou de Flandres. Em

troca, os estados latinos exportavam açúcar, carvão e o sabão das fábricas de Tiro, além dos

produtos da indústria local, cuja tecnologia logo seria adquirida pelos italianos (seda e

vidro), de produtos de luxo trazidos do interior da Síria – brocados de Bagdá, tecidos de

Damasco (os damasquinos), peças de algodão fino de Mossul (as musselinas) – e as

especiarias do Extremo-Oriente.39 Mas esses artigos transitavam mais por Alexandria

(porque o transporte através do mar Vermelho era menos dispendioso do que por meio das

caravanas que os levavam a Damasco e Alepo e dali aos portos latinos) ou por

Constantinopla. No século XIII, surgiu a rivalidade dos portos da Ásia Menor, especialmente

Trebizonda (no mar Negro) e Lajazzo (Alexandreta ou Hathay Devlet) no Mediterrâneo

oriental, depois de terem atravessado em caravanas toda a Ásia central unificada pelos

mongóis.

Não foram os cruzados que abriram as rotas da Ásia para o comércio cristão: Veneza já se

estabelecera no Império bizantino e em Alexandria desde o final do século XI; de fato, por

razões comerciais, as cidades italianas não foram em nada favoráveis ao lançamento das

cruzadas; bem ao contrário, prejudicaram muitas vezes as suas relações comerciais com o

Egito. 40 Mas a existência dos estabelecimentos cruzados e de um fluxo constante de viajantes

para a Terra Santa criou um campo de atividades bastante frutífero para essas cidades. O

transporte de peregrinos ou de exércitos41 favoreceu o desenvolvimento das frotas de Pisa,

Gênova e mesmo de Marselha, na França, e trouxe somas consideráveis para os cofres dos

mercadores, que eles passaram a empregar para a compra de novos produtos no Oriente. Por outro lado, as cruzadas aumentaram as trocas comerciais do Ocidente com a Síria, que tivera

anteriormente um lugar apenas secundário no comércio do Mediterrâneo. Contudo, a queda

dos estabelecimentos cristãos não teve efeitos sensíveis sobre o comércio entre Oriente e

Ocidente: ele simplesmente se transferiu para outros portos. Os italianos e os provençais

simplesmente haviam explorado o trânsito (de viajantes e de mercadorias) provocado pelas

cruzadas e por peregrinações pacíficas, cujo número aumentara muito durante o século XIII,

no momento em que o desenvolvimento econômico do Ocidente crescera o suficiente para

permitir o destino de recursos importantes para essas viagens religiosas e militares. Ao

mesmo tempo, os portos sírios se haviam transformado, no decorrer do século XIII, no centro

de um verdadeiro “comércio das cruzadas” e haviam atraído igualmente uma parte do

comércio de trânsito, o que permitiu o estabelecimento de filiais das companhias italianas ou

empresas locais receptoras de suas franquias.

A partir do século XII, as cidades italianas, cujas frotas tinham auxiliado na conquista dos

portos sírios, haviam recebido em troca certos privilégios jurídicos e econômicos, mas a

monarquia de Jerusalém conservou suas prerrogativas e, em certos casos, conseguiu restringir

tais privilégios. Do mesmo modo, concedia de boa vontade permissão a Gênova e Veneza

para se estabelecerem na condição de feudos: a família dos Embriacci, por exemplo, recebeu

em caráter feudal o direito à administração dos bens das comunidades genovesas em Acre,

Antioquia e Lataquiê e recebeu em caráter definitivo a senhoria de Djibelete no condado de

Trípoli. Após 1187, o apoio dos italianos, provençais e catalães se tornou indispensável para

a reconquista de cidades costeiras; a realeza se enfraquecera e foi forçada a conceder

privilégios que acabaram por transformar as antigas filiais em verdadeiras colônias

independentes. Isentas do pagamento de certos impostos em todo o reino, essas comunidades

privilegiadas possuíam nos grandes portos um quarteirão cercado por muralha própria, com

sua própria igreja, suas termas, entrepostos (fonda, fondaco), moinho e padaria, matadouro,

açougue etc. e, dentro desses, domínios exerciam os direitos de justiça e de polícia. Para

controlar tais estabelecimentos, as comunidades-sede originais criaram uma administração

central “para toda a Síria” (Gênova e Pisa mantinham cada uma o seu cônsul-geral, a que

correspondia o bailio dos venezianos) e exportaram para lá os conflitos que opunham essas

cidades-estado comerciais através de todo o restante do Mediterrâneo.

As lutas das comunas no século XIII, essas rixas de quarteirões que degeneravam em

revoltas e depois em guerras civis, eram um sinal dos tempos; os interesses econômicos

tinham precedência sobre as necessidades de defesa, e as condições básicas de sobrevivência

dos estabelecimentos cruzados foram negligenciadas. Os ideais das cruzadas simplesmente já

haviam desaparecido da Terra Santa.

 

25. Numerosos estudos foram consagrados a esses ou aqueles aspectos institucionais, políticos ou militares das cruzadas. Os volumes V e VI da History of the Crusades (The Impact of the Crusades on the Near East and on Europe) tratam da maior parte dessas questões por meio de contribuições dispersas e desiguais. (N.A.)

26. “A respeito da pregação da cruz”, em latim no original.

27. O interdito significava a suspensão de todas as atividades religiosas em determinado território; enquanto a excomunhão penalizava apenas o infrator, o interdito era estendido a todo um território, de uma senhoria a um reino inteiro, tendo sido mesmo aplicado ao Império Romano-Germânico. Isso se destinava a fazer o povo e os nobres pressionarem o infrator para que se submetesse ao papado, como acabou por fazer Henrique IV em Canossa, quando o imperador teve de subir ao mosteiro em burel de monge, caminhando descalço sobre a neve, e esperar do lado de fora por dois dias até que o papa se dignasse a recebê-lo. Aos poucos, a lei foi sendo abrandada, especialmente com relação aos nobres e aos ricos. (N.T.)

28. Que não tinham condições de se armar, porque as armas e equipamentos eram muito dispendiosos. (N.T.)

29. Rutebeuf, Complainte de Constantinople [A queixa de Constantinopla] “Que sont les deniers devenus / Qu’entre Jacobins et Menus / Ils ont reçu de testament... / Et de clercs aussi faitement / Dont ils ont grand rassemblement / Dont l’ost de Dieu fut maintenu? / Mais ils le font tout autrement / Qu’ils em font leur grande fondement / Et Dieu reste là, outre nu...” (N.A.)

30. Veja o mapa da Batalha de Arsufe, p. 56. (N.A.)

31. Nome que atribuíam ao Egito. (N.T.)

32. Codificação das decisões tomadas pelo rei e por sua corte e depois do conjunto de jurisprudência, que reúne e compila muitas outras obras escritas ao longo do século XIII, das quais a mais importante é Le Livre de Jean d’Ibelin [O livro de Jean d’Ibelin], concluído em 1265; de fato as Assises [os Assentamentos] são mais uma teoria dos direitos da nobreza do que uma descrição real da aplicação desses direitos. (N.A.)

33. Veja quadro genealógico, na p. 73. (N.A.)

34. No século XIII, com o enfraquecimento dos poderes reais nos diversos países europeus, os senhores locais se arrogaram o direito de cunhar moedas. (N.A.)

35. Divã, no sentido turco de conselho de governo. (N.T.)

36. Assentamento de um ano e um dia, determinação do rei Balduíno II ou III. (N.T.)

37. “Sobre os louvores à nova milícia”, em latim no original. (N.T.)

38. Prawer avalia que o reino de Jerusalém abrangia 1.200 povoações, das quais somente sessenta eram aglomerações “francas”, isto é, de população de origem predominantemente européia. (N.A.)

39. Em geral trazidas em caravanas ou por via marítima desde o Oriente Médio, particularmente da Índia. (N.T.)

40. Entretanto, é possível que as ameaças militares que as cruzadas representavam para o Egito tenham contribuído para aumentar as importações de equipamentos (madeira, ferro, armas e escravos), do mesmo modo que para reverter a balança comercial em favor do Ocidente. (N.A.)

41. Veja nas p. 92-93. (N.A.)