Cruzadas
II. O encaminhamento: Aquisição de provisões e equipamentos e transporte das tropas e do dinheiro
1268 também lhe entregaram o produto das décimas. Mas, em certos casos, determinadas
autoridades empregaram tais somas para seus próprios objetivos. Os próprios papas
desviaram os recursos recolhidos para outros fins em determinadas ocasiões. O resultado da
cobrança das décimas aos eclesiásticos franceses, destinada a financiar a cruzada contra os
albigenses, foi empregado por Gregório IX para pagar uma parte das despesas de sua guerra
contra Frederico II. Assim, o próprio papado, empregando o produto das décimas em
“cruzadas políticas” confirmou a idéia corrente na opinião pública, se é que não deu origem a
ela, de que os fundos eram desviados para outros fins, e contribuiu de certo modo para
enfraquecer a causa das cruzadas.
II. O encaminhamento: Aquisição de provisões e
equipamentos e transporte das tropas e do dinheiro
As necessidades de uma expedição a lugares tão longínquos impunham encargos
financeiros crescentes: de fato, os primeiros cruzados tomaram o caminho de terra, pouco
seguro, mas também pouco oneroso; mas a partir do final do século XII, quase todos
preferiram o transporte marítimo, uma solução mais segura, porém bastante mais dispendiosa.
A principal rota terrestre , que era seguida tradicionalmente pelos peregrinos, descia pelas
margens do Danúbio até Belgrado e subia pelas do rio Morava até Niš [Niche]. A partir daí,
tomava-se a estrada para Tessalônica e seguia-se pela costa marítima até a Trácia; ou então,
começando ao norte de Ródope, seguia-se por Sófia, Filipópolis e as margens do rio Maritza
até chegar a Andrinopla e Constantinopla, em que as duas rotas se reuniam. Os cruzados do sul
da Europa também atravessavam os Bálcãs pela Via Egnatia, uma antiga estrada romana, que
liga Dirráquion (Durazzo) a Tessalônica. Os exércitos das duas primeiras cruzadas e o de
Frederico I atravessaram assim todos os territórios europeus do Império Bizantino, cujo
imperador se comprometera a lhes garantir acampamentos e provisões. Além dos conflitos
originados pelas promessas de provisões que não foram sempre cumpridas ou que, algumas
vezes, foram recusadas como represália pelos saques e outros excessos realizados por parte
das tropas, os cruzados também encontravam dificuldades em questões de câmbio. Munidos
das moedas cunhadas no Ocidente – muitas vezes foram encontrados pequenos tesouros em
moedas ocidentais dos séculos XII e XIII, enterrados por um motivo ou outro ao longo das
rotas que eles seguiam através dos Bálcãs –, eles só conseguiam trocar suas moedas por
dinheiro bizantino a taxas desfavoráveis, embora algumas vezes fossem feitos acordos com as
autoridades para fixar taxas de câmbio aceitáveis. A marinha bizantina garantia o transporte
das tropas para o outro lado dos estreitos. Na Ásia Menor, a rota principal passava por
Doriléia, Amório e Icônio, atravessando território turco, e era necessário carregar víveres
para vinte dias. Freqüentemente as provisões eram insuficientes, havia falta de água e os
cavalos e burros morriam em grande número. A Primeira Cruzada e Frederico I seguiram essa
rota, ao preço de perdas consideráveis devidas à fome e aos ataques turcos. Na Segunda
Cruzada, Luís VII e Otto von Freising escolheram uma rota menos direta, mais próxima do
mar, em que barcos ou aldeias bizantinas ainda os podiam aprovisionar, pelo menos
parcialmente, mas as perdas sofridas na passagem das montanhas infestadas por
destacamentos turcos entre Laodicéia e Atália e a falta de cavalos obrigaram Luís VII a embarcar para Antioquia com seus cavaleiros.
Essas dificuldades, que podiam provocar o fracasso de uma cruzada muito antes de chegar
à Terra Santa, levaram a maioria a preferir a rota marinha a partir do final do século XII,
apesar do medo que a navegação inspirava a muitos – justificadamente, naqueles tempos. A
partir do final do século XI, peregrinos e cruzados da Europa setentrional, especialmente da
Escandinávia e da Inglaterra, se dirigiam à Terra Santa por via marítima, desde o mar do
Norte, contornando a península Ibérica, em que desembarcavam algumas vezes, consoante
suas necessidades. De fato, o único sucesso da Segunda Cruzada foi a tomada de Lisboa por
uma frota de cruzados ingleses e flamengos. A partir do começo do século XII, as armadas das
cidades comerciais italianas, primeiro Gênova, depois Pisa e Veneza, se encarregaram de
aprovisionar os cruzados e ajudaram na tomada das cidades das costas palestinas, além de
transportarem regularmente os peregrinos em duas passagens anuais, na primavera e no
outono. No fim do século, foram suas frotas que transportaram as “passagens gerais”; ainda
que Ricardo Coração-de-Leão tivesse se valido exclusivamente de barcos anglo-normandos e
bordaleses, Felipe Augusto precisou apelar para Gênova, que se comprometeu a garantir a
travessia de 650 cavaleiros, 1.300 escudeiros e a quantidade correspondente de cavalos, além
de garantir-lhes o abastecimento durante oito meses, em troca de 5.850 marcos de prata (1.400
quilos), o que correspondia a mais ou menos 1,8 milhão em “dinheiro” de cobre. O tratado
concluído por Villehardouin em Veneza previa a passagem de 4.500 cavaleiros com suas
montadas, nove mil escudeiros e vinte mil “sargentos” de infantaria e a garantia de seu
aprovisionamento durante nove meses, ao preço de quatro marcos de prata por cavalo e dois
marcos por pessoa, em um custo total de 85 mil marcos (cerca de vinte toneladas de prata). Os
venezianos construíram uma frota especialmente para esse fim; esta era formada por dromos
(navios de guerra a remo e vela), galés (galeras), nefs ou naves (grandes navios, capazes de
transportar várias centenas de passageiros) e huissiers [transportes] para a travessia dos
cavalos. No século XIII, os tratados de passagem dependeram mais do aluguel de um certo
número de navios a preço pré-fixado. Luís IX alugou dezesseis barcos em Gênova e vinte em
Marselha no ano de 1246 e um número semelhante em 1269. No primeiro caso, a frota era
comandada por dois almirantes genoveses, no segundo por um único almirante francês e os
tratados deixavam ao rei inteira liberdade de manobra. As experiências anteriores, portanto,
haviam aperfeiçoado a organização do transporte das passagens gerais e, principalmente, seus
meios de financiamento.
Efetivamente, no século XII, os cruzados levavam consigo moedas ocidentais e as trocavam
ao longo da estrada com um certo grau de dificuldade. No século XIII, somas importantes
ainda são transportadas para o Oriente Próximo, com freqüência nas próprias embarcações
das ordens militares, que garantem sua guarda, juntamente com a de fundos particulares que
lhes eram confiados por cruzados. Em 1250, entretanto, o almirante Joinville precisou obrigar
o tesoureiro da Ordem do Templo a pagar, por conta desses fundos, o resto da soma devida
para o resgate do exército. Na mesma cruzada, ocorreram verdadeiras operações bancárias:
durante a estadia do rei Luís IX na Terra Santa, os genoveses lhe emprestaram mais de cem
mil libras tornesas, em troca de ordens de pagamento assinadas pelo rei contra seu tesouro em
Paris. As ordens de pagamento enviadas a Gênova eram resgatadas por uma companhia
sediada em Placência que, por intermédio de seus representantes nas feiras de Champanha, fazia a cobrança em Paris. Os placentinos pagavam imediatamente aos genoveses contra a