Cruzadas
Capítulo III: As cruzadas do século XIII: desvios e impotência
CAPÍTULO III
AS CRUZADAS DO SÉCULO XIII:
Após a tomada de Jerusalém pelos muçulmanos, as cruzadas mudaram de sentido ou, pelo
menos, de conteúdo: ainda que a libertação da Cidade Santa permanecesse no centro das
preocupações, a realização desse objetivo admitiu a partir de então todo tipo de meios. O
realismo havia tomado conta das cruzadas: a aventura espiritual e material, cujo resultado
dependia apenas da vontade divina, tornava-se agora uma obra política e estratégica,
preparada e organizada por um longo tempo. Mesmo que as monarquias inglesa e francesa
tivessem perdido o interesse nelas (São Luís de França foi uma exceção em muitos sentidos),
as cruzadas haviam entrado nos costumes da cavalaria ocidental e se tornado, especialmente
no século XIII, ao mesmo tempo um ritual e uma iniciação. Contudo, uma vez que era possível
dispor de numerosas tropas graças à convocação de uma nova cruzada, tornou-se grande a
tentação de utilizá-las contra outros “infiéis” além dos muçulmanos da Terra Santa. Tais
desvios dispersavam suas forças materiais, enfraqueciam suas forças espirituais e
constituíram a causa direta de sua final impotência.
I. O desvio da Quarta Cruzada e a criação dos estados latinos na Grécia
A primeira dessas novas expedições foi a cruzada projetada pelo imperador do Sacro
Império Romano-Germânico Henrique VI, que herdou simultaneamente as possessões de seu
pai Frederico I Barba-Ruiva e do reino da Sicília (1194) e, mediante tais heranças, as
tradições messiânicas da Cruzada Imperial e também as ambições mediterrâneas dos
normandos. Os preparativos foram unicamente políticos: os príncipes de Chipre e da Armênia
reconheceram sua suserania e, em troca, receberam coroas e os títulos de reis. Heinrich VI
exigiu a participação de Bizâncio na cruzada e depois a prestação de um tributo anual bastante
elevado, para o pagamento do qual o imperador Aléxis III Angelos (1195-1203) foi forçado a
estabelecer um imposto extraordinário (alamanikon) e até mesmo a retirar os adornos das
sepulturas imperiais de seus predecessores. A cruzada já se dobrava às ambições disfarçadas
sob o pretexto da justiça: Heinrich VI, que promovera o casamento de seu irmão Phillip von
Schwaben com Irene, filha de Isaac Angelos, se apresentou como o vingador do imperador
destronado. Foram necessários os pesados pagamentos dos bizantinos e a oposição do papa
para desviar a cruzada de Constantinopla para Jerusalém. Os primeiros contingentes a chegar
como vanguarda do imperador retomaram Sidon e Beirute e restabeleceram assim as
comunicações terrestres entre São João d’Acre e Trípoli (1197), mas a morte de Heinrich VI
provocou a dispersão da expedição.
A derrota da Cruzada Imperial de Heinrich VI, que se seguia à de Frederico Barba-Ruiva,
forneceu os argumentos de que necessitava o novo papa, Inocêncio III (1198-1216), um jurista
que fora eleito às prerrogativas da Santa Sé e que desejava aproveitar a ocasião da crise
imperial para estender seu poder político, decidindo, então, proclamar uma cruzada de
inspiração puramente pontifícia. O legado papal Pedro Capuano e Foulque, o cura de Neuilly-
sur-Marne, pregaram a nova cruzada ao redor da França com sucesso crescente; seguindo a
mesma linha de argumentação dos pregadores populares e dos fundadores dos movimentos eremíticos do século XII, Foulque insistiu na tecla da reforma moral, na luta contra o luxo, a
prostituição e a usura, exaltando as virtudes purificadoras da cruzada justamente no momento
em que os problemas financeiros mais pesavam sobre ela. De fato, o papa havia decretado um
imposto de 2,5% sobre todas as rendas eclesiásticas para financiar sua cruzada. Os cruzados
champanhenses e flamengos, que elegeram como chefe Thibaut de Champagne e, por morte
deste, Boniface de Montferrat, enviaram plenipotenciários para concluir um tratado com
Veneza para o transporte do exército, calculado em 4.500 cavaleiros, nove mil escudeiros e
vinte mil “sargentos” de infantaria, além de seu aprovisionamento durante um ano, o qual foi
assinado mediante o pagamento de 85 mil marcos de prata.
No ponto de encontro fixado, na primavera de 1202, a cruzada tinha sido abandonada pelos
borguinhões e provençais, que já haviam embarcado em Marselha, e estava formada por um
terço dos efetivos previstos, mal conseguindo entregar cinqüenta mil marcos aos venezianos.
Estes concederam uma moratória do restante sob a condição de que os cruzados ajudassem
Veneza a retomar o porto dálmata de Zara, que lhes havia sido conquistado pelo rei da
Hungria. A tomada dessa cidade cristã (novembro de 1202) levantou grandes protestos no seio
do próprio exército; o papa excomungou os venezianos e cruzados que participaram do ataque,
mas logo suspendeu a pena destes últimos. Durante a invernada, o jovem Aléxis IV Angelos
chegou a Zara e pediu aos cruzados que restabelecessem no trono imperial seu pai Isaac II,
destronado e cegado por Aléxis III em 1195. Em troca de sua ajuda, ele prometeu pagamentos
elevados, a contribuição do Império bizantino para a continuação da cruzada e a união da
igreja ortodoxa com a católica. Apesar da oposição de uma parte do exército e do legado
papal, o projeto foi adotado: na primavera de 1203, a cruzada conquistou a ilha de Corfu e
estabeleceu o cerco de Constantinopla (24 de junho de 1203). Em 17 de julho, um primeiro
assalto às muralhas da cidade provocou a fuga de Aléxis III; com a reentronização de Isaac II,
este associou seu filho Aléxis ao poder, com o título de Aléxis IV Angelos. Incapazes de
cumprir as promessas feitas aos cruzados, cuja impaciência aumentava dia a dia, ao mesmo
tempo que a população grega se lhes tornava progressivamente mais hostil, ambos foram
derrubados por uma revolta popular, que colocou no trono Aléxis V Dukas, um antilatino
convicto. Em março de 1204, foi concluído um tratado entre o doge de Veneza, Enrico
Dandolo, que participava pessoalmente da expedição, e os barões cruzados, no qual foi
decidida a partilha do Império bizantino, cuja posse foi assegurada por um novo ataque a
Constantinopla. Em 13 de abril, a cidade foi tomada e entregue à pilhagem: “Tudo o que foi
estocado aqui durante tantos séculos, tão grandes bens, nem os nobres, nem os ricos, ninguém
pôde impedir sua conquista”, escreveu Robert de Clari, enquanto o cronista bizantino Nicetas
Choniates, que também testemunhou os acontecimentos, comparava a bondade dos sarracenos
com as violências dos latinos, “que trazem a cruz de Cristo nas costas”. Assim, a cruzada
arruinou a “rainha das cidades” da cristandade e definitivamente provocou o cisma entre as
Igrejas e os fiéis do Oriente e do Ocidente.
Evidente aos olhos da cristandade grega vitimada pela cruzada, o escândalo só foi trazido
progressivamente à consciência ocidental. Inocêncio III de início aceitou o fato consumado,
mais ou menos justificado pela promessa da união das igrejas e pela ajuda a Jerusalém
garantida por um império agora latino. Mais adiante, informado sobre a violência dos assaltantes, instruído sobre os excessos cometidos e consciente das conseqüências nefastas da
expedição de 1204, ele foi o primeiro a reclamar do “desvio” da cruzada e acusar os
venezianos como tendo sido os principais responsáveis pela interferência:
Vós desviastes e fizestes desviar o exército cristão da boa rota e o colocastes na má. [...] Vós guiastes erroneamente um
exército tão numeroso [...] que tivemos tanta dificuldade para reunir, que custou tão caro para conduzir e no qual havíamos
fundado nossas esperanças não somente de reconquistar Jerusalém, mas ainda de capturar a maior parte do reino do Egito.
O conceito do “desvio” não é portanto uma criação da consciência histórica moderna, mas
é esta que tem a tarefa de determinar-lhe as responsabilidades. Aos poucos que defendem a
teoria do “acaso”, provocado por um puro e simples encadeamento dos fatos, tais como os
relata Villehardouin, respondem todos os que acreditam na premeditação de um ou de outro
dos protagonistas da cruzada.
As responsabilidades e interesses envolvidos no desvio da Quarta Cruzada não são
menos evidentes; a partir de 1202, Felipe da Suábia, cunhado de Aléxis IV Angelos, o acolheu
e propôs ao papa, caso ele fosse restabelecido em seu trono do “reino dos gregos”, a ajuda do
Império Bizantino para a nova cruzada; Boniface de Montferrat também se achava a par do
projeto desde esta época, e as relações de seus dois irmãos com o Oriente bizantino
explicavam perfeitamente que ele fosse favorável a tais propostas. É claro que Inocêncio III
desejava que a Igreja Grega se submetesse a Roma e que o Império bizantino auxiliasse a
cruzada em vez de contrariá-la, mas tudo leva a crer que nem por um momento ele tenha
planejado empregar a força reunida para atingir tais fins. Por outro lado, é evidente que o
papel de Veneza foi capital: de forma premeditada ou não, a república veneziana utilizou as
circunstâncias para favorecer seus melhores interesses. Desde 1082, Veneza havia recebido
privilégios comerciais consideráveis no Império, que haviam sido renovados por Isaac II e
por Aléxis III. Mas a república veneziana se sentia ameaçada pela concorrência de Gênova e
mais ainda pela de Pisa, a quem privilégios comparáveis haviam sido concedidos, além de
pela recrudescência da pirataria no Mediterrâneo oriental, que Bizâncio não se esforçava para
reprimir e quiçá até mesmo favorecesse e também pela crescente hostilidade da população
grega. Tanto em 1171 como em 1182, por ocasião de revoltas populares anti-latinas, os
mercadores italianos haviam sido expulsos, quando não massacrados. Além disso, o Império
se achava em vias de desintegração, como mostraram as secessões de Chipre, em 1182, e de
Trebizonda, em 1204, sem contar as revoltas dos búlgaros, valáquios e sérvios e a autonomia
assumida por certos “arcontes” tanto na Grécia como na Ásia Menor. Dentro desse clima
político instável, poderia parecer útil a eles consolidar ou mesmo melhorar sua situação. De
fato, a conquista de Constantinopla deu aos venezianos o livre acesso ao Mar Negro, até então
proibido aos barcos estrangeiros. O doge Enrico Dandolo, que participou pessoalmente da
expedição, dispunha de um meio de pressão (as promissórias devidas a Veneza) sobre os
cruzados. Os pretextos da defesa do “direito de herança direta” (porque Aléxis IV era
considerado o herdeiro legítimo do trono) e da necessidade de punir a cidade “infiel às leis de
Roma” serviram aos venezianos para apaziguar as consciências dos barões cruzados, ao
mesmo tempo que faziam cintilar aos olhos de todos as riquezas materiais e espirituais – as
relíquias dos santos – conservadas em Bizâncio. O determinismo econômico impulsionou Veneza a dominar Constantinopla; o apelo de Aléxis IV forneceu o pretexto e os cruzados, sua
massa de manobra. É óbvio que, sem a intervenção de Veneza, a cruzada não teria sido
“desviada”, justamente porque, sem a cruzada, Veneza nunca teria podido fundar seu império
nas terras do Oriente.
Dentre todos os estabelecimentos que se originaram com a Quarta Cruzada, o Império
veneziano deveria ser o mais durável. A partitio, aplicando os termos do tratado de 1202
sobre a partilha do Império bizantino – meio a meio entre os venezianos e os cruzados – ou
pelo menos sobre as conquistas efetivamente realizadas, acabou por conceder ao imperador
latino um quarto das terras, sendo os três quartos restantes divididos meio a meio entre Veneza
e os “peregrinos”. O imperador germânico decidiu receber Constantinopla, a Trácia e o
noroeste da Ásia Menor, territórios que teve a maior dificuldade de defender contra os
ataques dos búlgaros (derrota de Andrinopla, em 1205), do Novo Império Grego de Nicéia
(derrota de Poimanenon, em 1225) e depois contra a aliança de ambos os grupos (cerco de
Constantinopla, em 1236). A sobrevivência do Império latino, reduzido agora unicamente à
posse de Constantinopla, passou a depender exclusivamente dos desentendimentos de seus
adversários, de eventuais socorros vindo do Ocidente – ainda que os apelos do papa Gregório
IX em favor de uma cruzada em defesa do Império latino (em 1235 e 1237) tenham resultado
praticamente sem efeito – e, acima de tudo, do apoio da frota veneziana. Quando este foi
retirado, Constantinopla foi tomada praticamente sem combate, no ano de 1261.
Na Macedônia, Boniface de Montferrat fundou o efêmero reino de Tessalônica , que foi
conquistado pelo déspota do Épiro em 1222, depois retomado pelo imperador bizantino do
chamado Império de Nicéia, João Vatatzes, em 1242. A Ática e a Beócia constituíram o
Ducado de Atenas, fundado pelo cavaleiro borguinhão Otton de La Roche. Mas o ducado logo
passou às mãos dos mercenários catalães (1311), derrotados, por sua vez, ainda que décadas
mais tarde, pela dinastia florentina dos Acciajuoli (1387). No Peloponeso, o principado
francês da Moréia ou da Acaia, criado por Geoffroy de Villehardouin – sobrinho do
historiador da Quarta Cruzada –, passou à suserania dos príncipes angevinos de Nápoles
(1267) e foi progressivamente reconquistado pelos bizantinos instalados em Mistra.
Já o domínio veneziano foi a mais durável das aquisições da Quarta Cruzada: além de um
bairro de Constantinopla, a república possuía com exclusividade os portos de Corona e de
Modona, ao sul de Messênia, e a totalidade da ilha de Creta que, a partir do século XIV, foi a
principal fonte de madeira para a metrópole, além de enviar-lhe trigo e outros produtos
agrícolas. Veneza exercia, além disso, sua suserania sobre os senhores feudais da ilha de
Negroponte (Eubéia) e sobre as diferentes famílias patrícias estabelecidas como senhoras de
uma série de ilhas menores, que permaneciam mais ou menos ligadas à metrópole por meio de
sua cidadania veneziana.
A Romênia veneziana e franca foi puramente uma criação da cruzada, mas passou logo a se
desenvolver como um país independente, após se libertar de seus primeiros dominadores; no
decorrer do século XIII, as forças das cruzadas se consagraram efetivamente a duas tarefas: a
defesa da Terra Santa e a reconquista de Jerusalém, que permaneceram o objetivo principal,
além de uma série de outras expedições em território europeu, que seriam assimiladas sob o
título de “peregrinações da cruz”.