Cruzadas

Cécile Morrisson · Capítulo 8 de 20

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Cruzadas

Capítulo III: As cruzadas do século XIII: desvios e impotência

CAPÍTULO III

 

AS CRUZADAS DO SÉCULO XIII:

 

Após a tomada de Jerusalém pelos muçulmanos, as cruzadas mudaram de sentido ou, pelo

menos, de conteúdo: ainda que a libertação da Cidade Santa permanecesse no centro das

preocupações, a realização desse objetivo admitiu a partir de então todo tipo de meios. O

realismo havia tomado conta das cruzadas: a aventura espiritual e material, cujo resultado

dependia apenas da vontade divina, tornava-se agora uma obra política e estratégica,

preparada e organizada por um longo tempo. Mesmo que as monarquias inglesa e francesa

tivessem perdido o interesse nelas (São Luís de França foi uma exceção em muitos sentidos),

as cruzadas haviam entrado nos costumes da cavalaria ocidental e se tornado, especialmente

no século XIII, ao mesmo tempo um ritual e uma iniciação. Contudo, uma vez que era possível

dispor de numerosas tropas graças à convocação de uma nova cruzada, tornou-se grande a

tentação de utilizá-las contra outros “infiéis” além dos muçulmanos da Terra Santa. Tais

desvios dispersavam suas forças materiais, enfraqueciam suas forças espirituais e

constituíram a causa direta de sua final impotência.

 

I. O desvio da Quarta Cruzada e a criação dos estados latinos na Grécia

A primeira dessas novas expedições foi a cruzada projetada pelo imperador do Sacro

Império Romano-Germânico Henrique VI, que herdou simultaneamente as possessões de seu

pai Frederico I Barba-Ruiva e do reino da Sicília (1194) e, mediante tais heranças, as

tradições messiânicas da Cruzada Imperial e também as ambições mediterrâneas dos

normandos. Os preparativos foram unicamente políticos: os príncipes de Chipre e da Armênia

reconheceram sua suserania e, em troca, receberam coroas e os títulos de reis. Heinrich VI

exigiu a participação de Bizâncio na cruzada e depois a prestação de um tributo anual bastante

elevado, para o pagamento do qual o imperador Aléxis III Angelos (1195-1203) foi forçado a

estabelecer um imposto extraordinário (alamanikon) e até mesmo a retirar os adornos das

sepulturas imperiais de seus predecessores. A cruzada já se dobrava às ambições disfarçadas

sob o pretexto da justiça: Heinrich VI, que promovera o casamento de seu irmão Phillip von

Schwaben com Irene, filha de Isaac Angelos, se apresentou como o vingador do imperador

destronado. Foram necessários os pesados pagamentos dos bizantinos e a oposição do papa

para desviar a cruzada de Constantinopla para Jerusalém. Os primeiros contingentes a chegar

como vanguarda do imperador retomaram Sidon e Beirute e restabeleceram assim as

comunicações terrestres entre São João d’Acre e Trípoli (1197), mas a morte de Heinrich VI

provocou a dispersão da expedição.

A derrota da Cruzada Imperial de Heinrich VI, que se seguia à de Frederico Barba-Ruiva,

forneceu os argumentos de que necessitava o novo papa, Inocêncio III (1198-1216), um jurista

que fora eleito às prerrogativas da Santa Sé e que desejava aproveitar a ocasião da crise

imperial para estender seu poder político, decidindo, então, proclamar uma cruzada de

inspiração puramente pontifícia. O legado papal Pedro Capuano e Foulque, o cura de Neuilly-

sur-Marne, pregaram a nova cruzada ao redor da França com sucesso crescente; seguindo a

mesma linha de argumentação dos pregadores populares e dos fundadores dos movimentos eremíticos do século XII, Foulque insistiu na tecla da reforma moral, na luta contra o luxo, a

prostituição e a usura, exaltando as virtudes purificadoras da cruzada justamente no momento

em que os problemas financeiros mais pesavam sobre ela. De fato, o papa havia decretado um

imposto de 2,5% sobre todas as rendas eclesiásticas para financiar sua cruzada. Os cruzados

champanhenses e flamengos, que elegeram como chefe Thibaut de Champagne e, por morte

deste, Boniface de Montferrat, enviaram plenipotenciários para concluir um tratado com

Veneza para o transporte do exército, calculado em 4.500 cavaleiros, nove mil escudeiros e

vinte mil “sargentos” de infantaria, além de seu aprovisionamento durante um ano, o qual foi

assinado mediante o pagamento de 85 mil marcos de prata.

No ponto de encontro fixado, na primavera de 1202, a cruzada tinha sido abandonada pelos

borguinhões e provençais, que já haviam embarcado em Marselha, e estava formada por um

terço dos efetivos previstos, mal conseguindo entregar cinqüenta mil marcos aos venezianos.

Estes concederam uma moratória do restante sob a condição de que os cruzados ajudassem

Veneza a retomar o porto dálmata de Zara, que lhes havia sido conquistado pelo rei da

Hungria. A tomada dessa cidade cristã (novembro de 1202) levantou grandes protestos no seio

do próprio exército; o papa excomungou os venezianos e cruzados que participaram do ataque,

mas logo suspendeu a pena destes últimos. Durante a invernada, o jovem Aléxis IV Angelos

chegou a Zara e pediu aos cruzados que restabelecessem no trono imperial seu pai Isaac II,

destronado e cegado por Aléxis III em 1195. Em troca de sua ajuda, ele prometeu pagamentos

elevados, a contribuição do Império bizantino para a continuação da cruzada e a união da

igreja ortodoxa com a católica. Apesar da oposição de uma parte do exército e do legado

papal, o projeto foi adotado: na primavera de 1203, a cruzada conquistou a ilha de Corfu e

estabeleceu o cerco de Constantinopla (24 de junho de 1203). Em 17 de julho, um primeiro

assalto às muralhas da cidade provocou a fuga de Aléxis III; com a reentronização de Isaac II,

este associou seu filho Aléxis ao poder, com o título de Aléxis IV Angelos. Incapazes de

cumprir as promessas feitas aos cruzados, cuja impaciência aumentava dia a dia, ao mesmo

tempo que a população grega se lhes tornava progressivamente mais hostil, ambos foram

derrubados por uma revolta popular, que colocou no trono Aléxis V Dukas, um antilatino

convicto. Em março de 1204, foi concluído um tratado entre o doge de Veneza, Enrico

Dandolo, que participava pessoalmente da expedição, e os barões cruzados, no qual foi

decidida a partilha do Império bizantino, cuja posse foi assegurada por um novo ataque a

Constantinopla. Em 13 de abril, a cidade foi tomada e entregue à pilhagem: “Tudo o que foi

estocado aqui durante tantos séculos, tão grandes bens, nem os nobres, nem os ricos, ninguém

pôde impedir sua conquista”, escreveu Robert de Clari, enquanto o cronista bizantino Nicetas

Choniates, que também testemunhou os acontecimentos, comparava a bondade dos sarracenos

com as violências dos latinos, “que trazem a cruz de Cristo nas costas”. Assim, a cruzada

arruinou a “rainha das cidades” da cristandade e definitivamente provocou o cisma entre as

Igrejas e os fiéis do Oriente e do Ocidente.

Evidente aos olhos da cristandade grega vitimada pela cruzada, o escândalo só foi trazido

progressivamente à consciência ocidental. Inocêncio III de início aceitou o fato consumado,

mais ou menos justificado pela promessa da união das igrejas e pela ajuda a Jerusalém

garantida por um império agora latino. Mais adiante, informado sobre a violência dos assaltantes, instruído sobre os excessos cometidos e consciente das conseqüências nefastas da

expedição de 1204, ele foi o primeiro a reclamar do “desvio” da cruzada e acusar os

venezianos como tendo sido os principais responsáveis pela interferência:

 

Vós desviastes e fizestes desviar o exército cristão da boa rota e o colocastes na má. [...] Vós guiastes erroneamente um

exército tão numeroso [...] que tivemos tanta dificuldade para reunir, que custou tão caro para conduzir e no qual havíamos

fundado nossas esperanças não somente de reconquistar Jerusalém, mas ainda de capturar a maior parte do reino do Egito.

 

O conceito do “desvio” não é portanto uma criação da consciência histórica moderna, mas

é esta que tem a tarefa de determinar-lhe as responsabilidades. Aos poucos que defendem a

teoria do “acaso”, provocado por um puro e simples encadeamento dos fatos, tais como os

relata Villehardouin, respondem todos os que acreditam na premeditação de um ou de outro

dos protagonistas da cruzada.

As responsabilidades e interesses envolvidos no desvio da Quarta Cruzada não são

menos evidentes; a partir de 1202, Felipe da Suábia, cunhado de Aléxis IV Angelos, o acolheu

e propôs ao papa, caso ele fosse restabelecido em seu trono do “reino dos gregos”, a ajuda do

Império Bizantino para a nova cruzada; Boniface de Montferrat também se achava a par do

projeto desde esta época, e as relações de seus dois irmãos com o Oriente bizantino

explicavam perfeitamente que ele fosse favorável a tais propostas. É claro que Inocêncio III

desejava que a Igreja Grega se submetesse a Roma e que o Império bizantino auxiliasse a

cruzada em vez de contrariá-la, mas tudo leva a crer que nem por um momento ele tenha

planejado empregar a força reunida para atingir tais fins. Por outro lado, é evidente que o

papel de Veneza foi capital: de forma premeditada ou não, a república veneziana utilizou as

circunstâncias para favorecer seus melhores interesses. Desde 1082, Veneza havia recebido

privilégios comerciais consideráveis no Império, que haviam sido renovados por Isaac II e

por Aléxis III. Mas a república veneziana se sentia ameaçada pela concorrência de Gênova e

mais ainda pela de Pisa, a quem privilégios comparáveis haviam sido concedidos, além de

pela recrudescência da pirataria no Mediterrâneo oriental, que Bizâncio não se esforçava para

reprimir e quiçá até mesmo favorecesse e também pela crescente hostilidade da população

grega. Tanto em 1171 como em 1182, por ocasião de revoltas populares anti-latinas, os

mercadores italianos haviam sido expulsos, quando não massacrados. Além disso, o Império

se achava em vias de desintegração, como mostraram as secessões de Chipre, em 1182, e de

Trebizonda, em 1204, sem contar as revoltas dos búlgaros, valáquios e sérvios e a autonomia

assumida por certos “arcontes” tanto na Grécia como na Ásia Menor. Dentro desse clima

político instável, poderia parecer útil a eles consolidar ou mesmo melhorar sua situação. De

fato, a conquista de Constantinopla deu aos venezianos o livre acesso ao Mar Negro, até então

proibido aos barcos estrangeiros. O doge Enrico Dandolo, que participou pessoalmente da

expedição, dispunha de um meio de pressão (as promissórias devidas a Veneza) sobre os

cruzados. Os pretextos da defesa do “direito de herança direta” (porque Aléxis IV era

considerado o herdeiro legítimo do trono) e da necessidade de punir a cidade “infiel às leis de

Roma” serviram aos venezianos para apaziguar as consciências dos barões cruzados, ao

mesmo tempo que faziam cintilar aos olhos de todos as riquezas materiais e espirituais – as

relíquias dos santos – conservadas em Bizâncio. O determinismo econômico impulsionou Veneza a dominar Constantinopla; o apelo de Aléxis IV forneceu o pretexto e os cruzados, sua

massa de manobra. É óbvio que, sem a intervenção de Veneza, a cruzada não teria sido

“desviada”, justamente porque, sem a cruzada, Veneza nunca teria podido fundar seu império

nas terras do Oriente.

Dentre todos os estabelecimentos que se originaram com a Quarta Cruzada, o Império

veneziano deveria ser o mais durável. A partitio, aplicando os termos do tratado de 1202

sobre a partilha do Império bizantino – meio a meio entre os venezianos e os cruzados – ou

pelo menos sobre as conquistas efetivamente realizadas, acabou por conceder ao imperador

latino um quarto das terras, sendo os três quartos restantes divididos meio a meio entre Veneza

e os “peregrinos”. O imperador germânico decidiu receber Constantinopla, a Trácia e o

noroeste da Ásia Menor, territórios que teve a maior dificuldade de defender contra os

ataques dos búlgaros (derrota de Andrinopla, em 1205), do Novo Império Grego de Nicéia

(derrota de Poimanenon, em 1225) e depois contra a aliança de ambos os grupos (cerco de

Constantinopla, em 1236). A sobrevivência do Império latino, reduzido agora unicamente à

posse de Constantinopla, passou a depender exclusivamente dos desentendimentos de seus

adversários, de eventuais socorros vindo do Ocidente – ainda que os apelos do papa Gregório

IX em favor de uma cruzada em defesa do Império latino (em 1235 e 1237) tenham resultado

praticamente sem efeito – e, acima de tudo, do apoio da frota veneziana. Quando este foi

retirado, Constantinopla foi tomada praticamente sem combate, no ano de 1261.

Na Macedônia, Boniface de Montferrat fundou o efêmero reino de Tessalônica , que foi

conquistado pelo déspota do Épiro em 1222, depois retomado pelo imperador bizantino do

chamado Império de Nicéia, João Vatatzes, em 1242. A Ática e a Beócia constituíram o

Ducado de Atenas, fundado pelo cavaleiro borguinhão Otton de La Roche. Mas o ducado logo

passou às mãos dos mercenários catalães (1311), derrotados, por sua vez, ainda que décadas

mais tarde, pela dinastia florentina dos Acciajuoli (1387). No Peloponeso, o principado

francês da Moréia ou da Acaia, criado por Geoffroy de Villehardouin – sobrinho do

historiador da Quarta Cruzada –, passou à suserania dos príncipes angevinos de Nápoles

(1267) e foi progressivamente reconquistado pelos bizantinos instalados em Mistra.

Já o domínio veneziano foi a mais durável das aquisições da Quarta Cruzada: além de um

bairro de Constantinopla, a república possuía com exclusividade os portos de Corona e de

Modona, ao sul de Messênia, e a totalidade da ilha de Creta que, a partir do século XIV, foi a

principal fonte de madeira para a metrópole, além de enviar-lhe trigo e outros produtos

agrícolas. Veneza exercia, além disso, sua suserania sobre os senhores feudais da ilha de

Negroponte (Eubéia) e sobre as diferentes famílias patrícias estabelecidas como senhoras de

uma série de ilhas menores, que permaneciam mais ou menos ligadas à metrópole por meio de

sua cidadania veneziana.

A Romênia veneziana e franca foi puramente uma criação da cruzada, mas passou logo a se

desenvolver como um país independente, após se libertar de seus primeiros dominadores; no

decorrer do século XIII, as forças das cruzadas se consagraram efetivamente a duas tarefas: a

defesa da Terra Santa e a reconquista de Jerusalém, que permaneceram o objetivo principal,

além de uma série de outras expedições em território europeu, que seriam assimiladas sob o

título de “peregrinações da cruz”.