Cruzadas
Capítulo V: As cruzadas no mundo medieval
CAPÍTULO V
AS CRUZADAS NO MUNDO MEDIEVAL
Ainda que somente tornadas possíveis pela expansão econômica do Ocidente medieval,
não foram as cruzadas somente uma manifestação direta do espírito comercial. Foi por isso
que as mentalidades que acompanhavam as expedições, o estado da cristandade de que elas
serviram como testemunhas, a civilização que criaram na Terra Santa e seu papel na
confrontação do Ocidente cristão com o Oriente muçulmano constituíram os principais temas
das pesquisas históricas mais recentes. 42
I. A consciência das cruzadas
através da cristandade ocidental
1. A doutrina eclesiástica – Os princípios básicos da cruzada foram apresentados pelo
papa Urbano II no Concílio de Clermont e em suas cartas excitatórias posteriores, cujos
temas foram depois desenvolvidos pelas bulas pontifícias do século XII: o propósito inicial
de socorrer os cristãos do Oriente oprimidos pelos turcos rapidamente foi suplantado pelo
ideal da libertação do túmulo de Cristo, sua defesa ou sua reconquista. Essa guerra de
“defesa” era considerada uma obra pia.43 O papa prometia a remissão dos pecados de todo
cruzado que morresse em trânsito ou em combate; quem cumprisse seu voto de cruzado e
retornasse seria liberado de todas as penitências temporais impostas sobre seus pecados. A
partir de Inocêncio III, o maior teórico da cruzada, os canonistas, compiladores da lei
canônica da igreja católica, tomaram conta do assunto, fazendo comentários sobre as decisões
pontifícias ou conciliares cada vez mais numerosas e elaborando uma doutrina coerente. Aos
críticos que contestavam a legitimidade de uma guerra santa porque ela contradizia o ideal
evangélico, responderam que os infiéis haviam ocupado a Terra Santa consagrada pela vida e
morte de Cristo e maltratavam seus súditos cristãos. Quando recebiam a objeção de que uma
guerra de conquista era injusta e que as conversões forçadas dos muçulmanos eram totalmente
condenáveis, os juristas respondiam que os sarracenos proibiam a entrada de missionários e
que era preciso primeiro submetê-los para depois lhes poder pregar livremente a Palavra de
Deus.
A partir de então, os textos canônicos fixam com precisão as condições de obtenção de
indulgências, “hierarquizadas” a partir do final do século XII. As indulgências eram
proporcionais aos serviços prestados durante a cruzada e plenárias para quem passasse dois
anos na Terra Santa ou em alguma outra expedição guerreira a que fossem concedidos os
mesmos privilégios. O número das expedições para as quais foram sendo prometidas as
mesmas indulgências concedidas a quem fosse lutar na Terra Santa foi crescendo. Uma
cruzada servia sobretudo para unificar toda a cristandade sob o comando do papa e em busca
da salvação. Desde o início do século XIII, quando o papado propôs a todos os fiéis que
participassem delas indiretamente, por meio de rezas, procissões, oferendas e apoio
financeiros aos que partissem, foi inaugurado um movimento de espiritualização da cruzada
que culminou, no século XIV, pela substituição do iter hierosolymitanum, o itinerário a Jerusalém, real por um caminho da cruz simbólico que dispensava a viagem.
No entanto, os abusos cometidos na concessão de dispensas do voto antes constringente de
cruzado em troca de compensações financeiras, ou seja, sua comutação econômica cada vez
mais fácil, acabaram reduzindo as indulgências a um expediente político e financeiro desde a
metade do século XIII.
2. O espírito “cavalheiresco” das cruzadas – Desde suas origens, as cruzadas foram um
empreendimento feudal, um ato da cavalaria, uma classe social formada pela pequena nobreza
que já estava constituída desde o final do século XI nas regiões da Europa que enviaram mais
homens para a Terra Santa (particularmente a França). Do mesmo modo que a cristandade
empreendeu uma ação comum através das cruzadas, manifestando uma unidade frágil que só
fora criada no século XII, a cavalaria realizava uma obra santificada ao colocar a serviço de
um ideal cristão suas virtudes guerreiras de origem pagã. As cruzadas foram portanto o local
em que o encontro da religião e da classe militar feudal provocou a “feudalização” do
Cristianismo e a cristianização da cavalaria. É claro que esse movimento não nasceu com as
cruzadas: já a precedera e é sua existência anterior que explica, pelo menos em parte, a
reverberação tão fácil do apelo de Urbano II no concílio de Clermont. Mas foi através das
cruzadas que o espírito cavalheiresco encontrou sua manifestação mais majestosa. A
realização do “voto da cruz” (votum crucis) se tornou indispensável para o perfeito cavaleiro.
Deus, ou mais particularmente Cristo, passara a ser o Senhor por excelência, a serviço do qual
o cavaleiro deve sacrificar todo o resto. 44 Sob a influência desse conceito, as imagens do
Velho Testamento predominavam nos relatos das cruzadas, e as Canções de Gesta, anônimas,
da Primeira Cruzada evocavam muitas vezes o nome de um Deus “todo poderoso e
guerreiro”. 45 46 As crônicas freqüentemente comparavam os cruzados ao Povo Escolhido; de
fato, escreveram uma nova história santa paralela ao Velho Testamento. 47 Deus dará aos
soldados que defendem seus direitos e sua “herança” o socorro que esperam receber Dele: os
anjos, arcanjos e os Santos de Cristo (particularmente os santos militares da tradição
bizantina) virão combater lado a lado com os cruzados em suas fileiras. Em Antioquia
(1098),
... foram vistos descendo das montanhas tropas inumeráveis de guerreiros montados em cavalos brancos. [...] Os nossos
não podiam compreender [...] quem eram esses guerreiros; mas, finalmente, acabaram por reconhecer que era um exército
enviado por Cristo para socorrê-los, comandado por São Jorge, São Mercúrio e São Demétrio.48
Consoante a obrigação de um senhor para com seus vassalos (uma das canções das
cruzadas realmente diz que o cavaleiro se “recomendou” a ele), o próprio Cristo garantia a
proteção de Seus cruzados.
Todo cavaleiro cruzado tornava-se, portanto, um miles Christi [soldado de Cristo]; a cruz
que ele trazia às costas era o sinal de que o Senhor o investira com o reino dos Céus. Os
conceitos teológicos das indulgências e das recompensas celestes foram transportados em
termos de feudos, salários e soldos; a vida eterna era prometida aos que morressem na
cruzada e a glória aos sobreviventes. De modo semelhante, os pregadores e o próprio Urbano II não hesitavam em fazer alusões às riquezas materiais que esperariam pelos cruzados na
Terra Santa. Ao lançar seu apelo pela Quarta Cruzada, o abade Martin de Pairis evocava o
reino dos Céus como um “soldo garantido” e como uma “rica esperança” a “felicidade
terrestre” em uma terra “mais rica e mais fértil que nossa pátria”.
As canções das cruzadas, muitas vezes inspiradas diretamente em prédicas religiosas,
acrescentavam o amor cortesão aos temas religiosos. Conon de Béthune, que participou tanto
da Terceira como da Quarta Cruzadas, escreveu sobre a Síria:
Lá, onde se deve exercer a cavalaria,
Onde se conquistará o Paraíso e a honra
E prêmios e louvores e o amor de sua amiga...49
A partir do século XII, de fato, mas principalmente ao longo do século XIII, o conflito entre
o amor da dama e o amor de Deus se achava no centro da maioria das canções das cruzadas
escritas para os cavaleiros ou por eles mesmos. A “separação” era dura e o conflito não se
resolvia sem dificuldades, mas acabava favorecendo o serviço de Deus. Nos melhores casos,
o amor cortesão, sob a influência da tomada da cruz, se transformava diretamente no amor de
Deus50; mas com o tempo, alguns já não mais hesitavam em se recusar a participar de uma
nova cruzada em nome do amor humano, símbolo poético dos bens materiais (bens, família,
conforto) que foi evocado com realismo no relato do descruzamento de Rutebeuf.
3. O espírito “popular” das cruzadas – Necessariamente livres de todos esses
compromissos cortesãos das classes da nobreza feudal, os “pobres” responderam aos
primeiros apelos da cruzada com ainda maior fervor do que os outros grupos sociais e,
segundo parece, mantiveram viva até o começo do século XIV a chama de um ideal que cada
vez encontrava menos eco entre as classes superiores. Sem exagerar a separação entre os
barons e os pobres do exército – com os quais se misturavam freqüentemente os cavaleiros
pobres cuja origem social fazia com que algumas vezes fossem eleitos chefes dos bandos
irregulares –, podemos reconhecer certos traços específicos de um espírito “popular” nas
cruzadas. As manifestações dessa mentalidade não foram exclusivas de um grupo social
definido, mas os menos privilegiados eram, indubitavelmente, mais sensíveis à atração do
maravilhoso em função de suas condições miseráveis de vida. Além disso, à medida que a
estrutura religiosa e feudal das cruzadas os punha à margem ou os excluía totalmente das
expedições, afirmava-se o ideal de uma “nova religião” da cruzada, que só iria realmente ser
vencida pelos pobres, o novo povo eleito.
Desde sua origem, sinais e prodígios anunciavam ou acompanhavam os apelos e pregações
autorizados, provocando um entusiasmo muito maior nas massas do que estes. De fato, quando
Bernard de Clairvaux pregou, através da Alemanha, o sucesso que alcançou junto às multidões
se devia muito mais a seus milagres do que à sua incontestável eloqüência. É claro que o
homem medieval permanecia sempre atento aos fenômenos em que acreditava ler a vontade de
Deus, mas as cruzadas possuíam seus sinais particulares: alguns deles serviam como
metáforas das migrações, como chuvas de estrelas cadentes, cometas com caudas de fogo,
migrações de animais, nuvens de gafanhotos (um presságio que também foi percebido no Oriente, conforme escreveu Anna Comneno); outros convidavam à partida, como cartas
entusiásticas que simplesmente caíam do céu; e ainda havia aqueles que marcavam os
escolhidos, especialmente cruzes, que apareciam na carne dos cruzados mortos ou mesmo
como manchas, hematomas ou feridas na carne dos vivos.51 Cada cruzada – especialmente a
Primeira, a Segunda e a Quinta – era acompanhada pelo mesmo cortejo de sinais reveladores
de uma vontade divina requerendo o socorro dos homens ou então condenando os pecados dos
que haviam sido derrotados em combate. A tais prodígios se acrescentavam as costumeiras
profecias anunciando o fim dos tempos. A tradição milenarista logo tomou conta da Primeira
Cruzada: muitos partiam em direção a uma Jerusalém terrestre, de cuja localização não faziam
a menor idéia – como nos dão testemunho os relatos das constantes indagações dos filhos dos
cruzados pobres que lhes perguntavam se já haviam chegado em Jerusalém cada vez que
avistavam uma nova cidade ou mesmo uma nova aldeia –, ou esperavam o cumprimento dos
tempos e o sucesso das nações cristãs, quando os judeus seriam convertidos e um rei
messiânico reuniria todos os homens sob sua égide para esperarem com ele o próximo retorno
do Senhor. Essa espera pela Parusia, que se pensava que ocorreria em breve, era colorida por
tradições políticas: havia o rei dos Últimos Dias que seria coroado sobre o Gólgota, sem a
menor dúvida um franco; ou as lendas de inspiração carolíngia que colocariam sobre esse
trono um rei famoso ressuscitado, às vezes Carlos Magno, às vezes Godofredo de Bulhões, às
vezes Frederico Barba-Ruiva. No final do século XII, circulam por toda parte as profecias
sobre “o rei Louro do Ocidente” que entraria em Constantinopla e restauraria para todos a
Terra Prometida. A submissão do rei dos gregos se encontra em todas as tradições (nas
canções de gesta, como “A peregrinação de Carlos Magno”, nas profecias sibilinas etc.) como
sendo a condição do retorno à unidade do Império Cristão e o prelúdio da plenitude dos
tempos. Sob os muros de Damieta, durante o cerco de 1219, eram anunciadas alternadamente a
vinda desse rei Louro do Ocidente, o retorno do rei Davi e a chegada do Preste João, vindo
das Índias com seu exército, cuja figura legendária simboliza, a partir do século XIII, a
esperança de reconquista sobre o Islã, que estaria apenas temporariamente vitorioso.52
São essas crenças que provavelmente impulsionavam a maior parte dos integrantes dos
exércitos. Ao mesmo tempo, o ideal de pobreza e de pureza que era pregado a todos deveria
ser imposto também aos grandes. Diante de Antioquia e de Jerusalém, as multidões exigiram
que os nobres fizessem penitência, como sendo a única forma de capturar as cidades e, a partir
da Terceira Cruzada, regras estritas tentaram refrear o luxo dos poderosos; mas foi o próprio
Luís IX que fez reverter as regras do jogo em favor de seus irmãos. Desse modo, sempre que
ocorria uma derrota, a partir da Segunda Cruzada, a opinião popular facilmente acusava como
causa direta os pecados dos grandes senhores (dissensões, luxo, orgulho), e foi nascendo
pouco a pouco a idéia de uma Cruzada Pacífica, a ser formada exclusivamente pelos pobres,
que marchariam desarmados. Foulque de Neuilly pregava aos pobres que eram, segundo ele,
chamados por eleição a imitar Cristo, e condenava principalmente os dois vícios mais comuns
em uma sociedade em que o dinheiro começava a se tornar abundante: a usura e a luxúria.
Quanto mais se exaltavam as virtudes da pobreza, tanto mais o dinheiro se tornava
indispensável para a realização das expedições: assim, as cruzadas dos pobres, sem outras
armas que a pureza e a oração, eram descartadas pelas cruzadas oficiais. Entretanto, quanto mais os ricos se afastavam das cruzadas, tanto mais os pobres partiam nelas e, mais pobres do
que todos, as crianças. Em 1212, os pastores da região francesa de Vendômois se juntaram às
crianças de Colônia e se puseram a caminho de Jerusalém, a fim de libertarem o túmulo e a
cruz de Cristo, garantindo que, como já acontecera com os hebreus, o mar se abriria e deixaria
que todos passassem a pé. A Terra Santa era o objetivo dos pastores conduzidos pelo mestre
da Hungria, em 1251, que pretendiam libertar o rei Luís IX do cativeiro egípcio. Em 1320, os
Pastoureaux percorreram a França, pilhando e matando os judeus. Esta última “Cruzada das
Crianças” se transformou em uma 53 jacquerie, mas as anteriores, cujos participantes eram
acolhidos favoravelmente pelos habitantes das terras que atravessavam, manifestavam a
sobrevivência de um ideal que a sociedade estabelecida já havia abandonado.
4. A crítica das cruzadas – Muito antes que Voltaire escrevesse seu Tratado sobre os
costumes, muitas vozes se elevaram para criticar as cruzadas e até mesmo contestar que em
qualquer momento tivessem sido necessárias. Desde a Primeira Cruzada existem relatos de
que algumas pessoas consideravam loucos todos os que nelas partiam. Contudo, os textos do
século XII conservam poucos vestígios de objeções, mesmo simples com estas. Não obstante,
as críticas de todo o tipo se multiplicaram no século XIII, após o aparecimento das “cruzadas
desviadas” contra os heréticos, cismáticos e inimigos políticos do papado. 54 Ao atacar o
Languedoc, a cruzada desencadeou a hostilidade dos trovadores, sendo um bom exemplo as
canções denominadas sirventés de Guillaume Figueira contra “a Roma traidora e
enganadora”. Este poeta natural de Toulouse, que depois se dedicou ao serviço do imperador
Frederico II, não foi o único trovador a condenar as cruzadas realizadas em terras européias
sob o pretexto de uma preocupação com a Terra Santa que era influenciada principalmente
pelo espírito gibelino. 55 A defesa da “verdadeira cruzada” acabou por se tornar tema de
propaganda política: os poetas acusavam o papa de ter sacrificado a cruzada de Luís IX em
favor de suas dissensões com o imperador germânico.
Em nome da Terra Santa, os teóricos políticos contestavam a autoridade temporal e secular
do papado e proclamavam que os poderes materiais da Igreja deveriam ser absorvidos pelo
Estado que assumisse a direção da cruzada.56
Acima de tudo, os impostos cobrados para o financiamento de todas as cruzadas, inclusive
as dirigidas à Terra Santa, provocaram um anticlericalismo geral, que o relato do
descruzamento de Rutebeuf expressou com até certa moderação:
Clérigos e prelados são quem deve vingar
A vergonha de Deus que lhes dá sua renda
Para que possam beber e se alimentar,
Se não se importam que ele chore ou que suspire.57
Finalmente, a alegação eclesiástica de que as derrotas repetidas das cruzadas no ultramar e
a perda da Terra Santa pudessem ser explicadas somente pelos pecados da cristandade,
particularmente pelas falhas da Igreja e os pecados das ordens militares, acabou por provocar
um ceticismo generalizado: se a cruzada era útil para alguma coisa, por que o próprio Deus não lhe prestava Seu apoio? Salimbene relata que, diante de franciscanos que pediam esmolas
antes de partirem para uma das cruzadas, o povo preferia dar dinheiro a um outro mendicante
que suplicava em nome de Maomé, porque este “era mais forte do que Cristo”.
Uma crítica ainda mais radical provém dos próprios clérigos, que estavam tão conscientes
quanto os leigos dos abusos provocados pela organização das cruzadas58, mas que se
achavam preocupados acima de tudo com o mal causado à fé cristã pelo emprego constante da
violência:
A guerra não serve de nada contra eles (os infiéis). [...] Não é desse modo que eles serão convertidos [...] seus filhos que
sobreviverem às guerras ficarão tanto mais revoltados contra a fé cristã [...] as conversões se tornarão impossíveis [...]
sobretudo no ultramar e na Prússia.59
De forma semelhante, o dominicano Guillaume de Trípoli preconizava a conversão dos
sarracenos em vez de sua destruição e o envio de missionários para a Terra Santa, de
preferência às tropas de soldados. A partir do começo do século XIII, quando o próprio São
Francisco tentou converter o sultão Alcamil em Damieta, o espírito da missão pacífica se
expandiu cada vez mais no seio da Igreja. Mas, segundo a maneira de pensar daqueles que a
propunham, a Missão não era o oposto da cruzada: novamente, o próprio São Francisco não
condenava esta última; Raymond de Peñafort desaprovava as conversões forçadas, mas sua
pregação era totalmente a favor da Cruzada Espanhola durante o reinado de Gregório IX; até
mesmo Raymond Lulle (1232-1315), que sonhava em colocar a cristandade inteira em um
estado de “missão permanente”, escreveu em 1309 um tratado, Sobre a conquista da Terra
Santa, dentro dos termos mais tradicionais. Na realidade, essa tradição já era uma
sobrevivência arcaica; foi nessa mesma data que os franciscanos construíram seus primeiros
conventos na Palestina e começaram a guardar os lugares santos com a autorização do sultão,
ainda que só obtida oficialmente em 1333. Novamente, as peregrinações tomavam o lugar das
cruzadas, principalmente com a “cruzada espiritual” dos frades menores: a militia Christi
[exército de Cristo] poderia ser vitoriosa todos os dias através da renúncia aos bens materiais
e da prática dos ensinamentos do evangelho. Foi desse modo que sobreviveu a idéia das
cruzadas.
5. A civilização dos Estados Cruzados – Os Estados francos da Síria e da Palestina não
mantinham relações particularmente íntimas com os ideais anteriores das cruzadas, e as
atitudes dos francos a esse respeito são um pouco difíceis de explicar, já que não se
encontram muitos depoimentos escritos por eles nesse sentido. Como vimos anteriormente, a
oposição entre os cruzados recém-chegados da Europa e os 60 poulains, muito mais
preocupados com seus interesses políticos e econômicos, se manifestou em muitas ocasiões.
Jacques de Vitry, bispo de São João d’Acre, descreve a hostilidade que sua pregação de uma
nova cruzada encontrou entre a população de origem européia. Segundo seu ponto de vista, a
causa desse estado de espírito era a imoralidade que grassava na cidade, em que havia
encontrado refúgio um aglomerado de criminosos originados do Ocidente. No século XIII, sem
dúvida, o braço secular da Igreja condenava muitos réus ao exílio temporário ou perpétuo na
Terra Santa61, e os registros do arcebispo de York entre 1274 e 1276 incluíam somente onze
voluntários em um total de trezentos homens que haviam tomado o voto de cruzados nesse
período.
Sua relativa indiferença às intenções militares das cruzadas facilitava, então, os
relacionamentos dos francos com as diversas comunidades autóctones? As melhores
informações de que dispomos são as do setor eclesiástico. A hierarquia religiosa latina foi
constituída, no princípio, mais para preencher a ausência dos prelados gregos, mas em breve
se encontrou em situação de concorrência com a hierarquia ortodoxa. E a atitude dos clérigos
latinos com relação à Igreja Grega foi rapidamente determinada pelas relações políticas dos
Estados Cruzados com o Império Bizantino. Mesmo que, teoricamente, os padres gregos
estivessem colocados sob a autoridade dos bispos latinos, parece que eles obedeceram de
preferência aos prelados gregos que reapareceram na Palestina no decorrer do século XIII.
Contudo, uma certa coexistência pacífica, bem mais fácil que na Romênia e em Chipre, parece
ter reinado na Terra Santa entre gregos e latinos. O respeito pelas comunidades cristãs
orientais não-ortodoxas sempre foi maior do que o mostrado com relação à Igreja Ortodoxa
Grega. As Igrejas Siríaca e Armênia (monofisitas), os nestorianos e os maronitas do Líbano
conservaram suas hierarquias e seus bens e gozaram da tolerância dos francos, numa situação
comparavelmente bem melhor que a de suas disputas anteriores com a hierarquia bizantina. A
partir de certa data, uma série de negociações com Roma conduziu a uma união relativamente
bem aceita de parte a parte: de início, a aliança com os maronitas (por volta de 1179), que foi
a mais duradoura; depois com os armênios, em 1197 e, finalmente com os jacobitas (a Igreja
Siríaca), em 1246. Apesar de seus resultados incertos, esses diálogos ecumênicos permitiram
que a Igreja Romana adquirisse um melhor conhecimento do Oriente cristão.
No plano social, como no plano religioso, as diversas comunidades mais coexistiram 62 do
que se fundiram. O único testemunho contemporâneo que é invocado em favor da fusão é o de
Foucher de Chârtres (primeira metade do século XII): – “Alguns dos nossos desposaram
mulheres que não eram suas compatriotas, sírias ou armênias, ou até mesmo alguma sarracena
que aceitou a graça do batismo... [...] aquele que era estrangeiro agora se tornou indígena...” –,
e não parece ser suficiente. Ao contrário, existe um registro de Ousama que afirma: “Os
francos só se casam com pessoas de sua própria raça”. É provável que o primeiro depoimento
se refira a pessoas de condição social inferior e o segundo à nobreza, que somente se aliava
com gregos e armênios, embora desse preferência a estes últimos. Com os muçulmanos, os
relacionamentos são ocasionais: havia uma política de boa vizinhança entre os emires de
Shaizar, a família de Usamá e os senhores francos ou armênios, e o próprio Usamá mantinha
relações de amizade com diversos francos, entre eles um templário; quando Balduíno IV
adoeceu gravemente, Amaury mandou buscar um médico no Cairo. Esses exemplos
constantemente citados são exceções que justificam a regra. Do mesmo modo, ainda que Ibn-
Jobair, um andaluz em peregrinação à mesquita da Rocha (al-Aqsa) em Jerusalém (1183),
tenha admitido que os muçulmanos estavam autorizados a partilhar duas mesquitas em São
João d’Acre com os cristãos, só o fez após lastimar que “as mesquitas tenham sido
transformadas em igrejas”. Era o caso da referida mesquita de al-Aqsa, que tinha um anexo no
qual Usamá sempre ia fazer suas preces, segundo ele mesmo escreveu, graças à proteção dos templários.