Cruzadas
II. As causas próximas
sedução exercida pela cultura árabe e pela religião dos vencedores, certos cristãos do século
IX descreviam Maomé como um falso profeta dedicado aos prazeres carnais. Eles
interpretavam o islamismo em termos apocalípticos e viam em seu reino e sua vitória sobre os
gregos ou os francos um castigo divino e um sinal do fim dos tempos. Na França setentrional,
mais afastada do mundo muçulmano, os sarracenos não entram tão diretamente no pensamento
escatológico; é certo que Paschase Radbert (falecido por volta de 865) os cita em seu
comentário sobre o capítulo 24 do evangelho segundo São Mateus como gente belicosa que
submeteu pela força muitas regiões anteriormente cristãs e que têm como objetivo a
dominação do mundo inteiro. Ele não os distinguia absolutamente dos pagãos que ignoravam
totalmente o evangelho, mas tampouco os considerava a todos como os precursores do
anticristo. A exemplo de São João Damasceno, consciente de uma certa comunidade de
pensamento, ele os considera mais como hereges. Mas A canção de Rolando apresenta os
infiéis como verdadeiros pagãos, adoradores de falsos deuses (Maomé, Apolo e Tervagante)
e de suas imagens de escultura. Esses estereótipos foram amplamente difundidos na época da
Primeira Cruzada, em que os cronistas descreviam, além disso, uma estátua do anticristo
Maomé, que estaria entronizada no “Templo de Jerusalém” (confundido com a Mesquita de al-
Aqsa, que fora construída havia pouco no mesmo local). Assim, as cruzadas favoreceram a
passagem da ignorância para a deformação caricatural.
II. As causas próximas
1. Bizâncio na origem das cruzadas – um mal-entendido – Às vésperas da primeira das
cruzadas, os ocidentais não eram desconhecidos em Bizâncio: sem se preocuparem nem um
pouco com as distinções étnicas desse conjunto de “bárbaros”, os autores gregos os
designavam pelo nome genérico de francos ou mesmo, levados pelo desejo de evitar
arcaísmos, os chamavam de celtas – um nome que abrangia bem melhor tanto os franceses
como os normandos. Estes últimos, no decorrer do século XI, passaram a encarnar quase
exclusivamente a realidade humana do Ocidente latino para os bizantinos.
Figura 1 – Oriente Próximo e Ásia Central na época das cruzadas
Na verdade, os peregrinos de todas as origens que se dirigiam a Jerusalém não se
demoravam por muito tempo em Constantinopla; os mercadores italianos (venezianos ou
amalfitanos) constituíam na época somente uma colônia reduzida, cujas atividades pacíficas
não provocavam ainda qualquer hostilidade generalizada, apesar dos privilégios comerciais
concedidos a Veneza pela chamada “crisobula imperial” de 1082. São apenas os normandos
que ocupam um lugar de destaque na consciência histórica bizantina devido à sua condição
ambígua de inimigos ou mercenários. O primeiro grupo de normandos que penetrou na Itália
do Sul no começo do século XI se dirigia em peregrinação à basílica de São Miguel no monte
Gargano. Contratados pelos príncipes lombardos e depois por um general bizantino, esses
mercenários logo desenvolveram suas próprias políticas em favor de seus interesses. A partir
da tomada de Bari (1071), toda a Itália meridional passou a lhes pertencer. Os bizantinos
expulsos buscaram então a ajuda de seus antigos inimigos. O tratado de aliança concluído em
1074 com Robert Guiscard não visava apenas a descartar a ameaça de um possível ataque,
mas também a comprar, em troca da outorga de dignidades e recompensas financeiras, os
eventuais serviços dos soldados normandos. Aliás, eram serviços apreciados havia bastante
tempo porque, desde a metade do século, os contingentes normandos que formavam uma tropa
de elite no exército bizantino eram empregados na Armênia em defesa da fronteira contra as
incursões dos turcos seljúcidas. A reputação desses cavaleiros pesadamente armados, os
chamados “homens de ferro”, é grande: sua coragem e sua coesão durante os ataques lhes
conferem até mesmo a fama de serem invencíveis. Mas também são caracterizados pela
indisciplina, pelo “espírito do lucro” – em outras palavras, por se revoltarem quando os
soldos se atrasavam – e pelo gosto da aventura: mais cedo ou mais tarde, cada um dos
comandantes normandos das tropas mercenárias acabou por se revoltar. Essa cupidez, bem
explicável da parte de soldados vindos do Ocidente menos desenvolvido, é utilizada em
proveito próprio pelo imperador bizantino por ocasião do ataque normando, dirigido dessa
vez contra a própria Grécia, de 1081 a 1085. No momento em que Guiscard é forçado a
retornar à Itália para combater uma revolta fomentada por instigação do imperador, a maior
parte dos tenentes de seu filho Bohémond, que permanecera na Grécia no comando da tropa,
se tornam trânsfugas, isto é, passam para o campo bizantino contrário, atraídos pela promessa
de soldos elevados. A partir da metade do século XI, o Império bizantino já havia, portanto,
adquirido experiência no recrutamento de mercenários ocidentais.
Para resistir às ameaças exteriores ou interiores – penetração dos turcos seljúcidas na Ásia
Menor a partir de 1067, revoltas dos sérvios e dos croatas, incursões das tribos dos
petchenegos ou dos cumanos na margem ocidental do Danúbio – o Império Bizantino tinha
necessidade de assegurar uma fonte regular de recrutamento dessas tropas de elite. A única
forma seria apelar para as potências ocidentais; por volta de 1090, o conde de Flandres,
Robert le Frison, retornando de sua peregrinação a Jerusalém pela via terrestre que passava
por Constantinopla, prometeu a Aléxis I o envio de quinhentos cavaleiros, que efetivamente
colaboraram na luta contra os turcos e depois contra os petchenegos. Além disso, a partir do
reino de Miguel VII Dukas (1071-1078) surgiu a idéia, segundo parece, de se solicitar ao papa
reinante que incitasse os cavaleiros ocidentais a se engajarem a serviço do Império bizantino. Após uma troca de embaixadas entre o papa e Miguel VII, no ano de 1074, Gregório VII
dirigiu a alguns dos “fiéis de São Pedro” um apelo para se lançarem em socorro do “Império
Cristão”, afirmando que os pagãos “devastaram o país quase até Constantinopla e
massacraram milhares de cristãos como ovelhas”. O pedido de socorro foi escutado, porém,
mal interpretado, provocou uma resposta desproporcionada. Gregório VII projetou,
efetivamente, uma expedição em socorro dos cristãos do Oriente, cuja chefia seria assumida
por ele próprio, confiando a defesa dos interesses da Igreja ao imperador [do Sacro Império
Romano-Germânico], mas cujo objetivo ou recompensa seria o controle do túmulo de Cristo.
Mas surgiu uma disputa com o Império Bizantino que conduziu ao abandono do projeto e
mesmo à inversão da política pontifícia em favor dos normandos, cuja intervenção na Grécia
foi aprovada pelo mesmo Gregório VII. As negociações só foram retomadas em 1089, entre o
papa Urbano II e o imperador Aléxis I Comneno, cada um dos quais buscava garantir o apoio
do outro – o primeiro contra o imperador Henrique IV 8 e o segundo contra os normandos. Nos
anos que se seguiram, o papa conseguiu afirmar o seu poder temporal, retornou a Roma e
convocou um concílio em Placência (Piacenza, Itália, no ano de 1095), durante o qual uma
embaixada bizantina veio requerer a ajuda de guerreiros ocidentais para a defesa da Igreja do
Oriente. Durante um sermão, o papa “se comprometeu seriamente a prestar essa ajuda e
chegou mesmo a prometer mediante juramento que eles [...] levariam socorro ao imperador
bizantino contra os pagãos”.
É claro que Bizâncio não apelou para a organização de nenhuma cruzada; a luta contra os
árabes e depois contra os turcos se limitava à defesa do império, sem que fosse qualquer tipo
de guerra santa. Mas essas solicitações de mercenários contribuíram para desenvolver na
mente dos papas reformadores a idéia de uma expedição para o Oriente. De fato, as conquistas
dos turcos seljúcidas não foram a causa das cruzadas: os cristãos da Síria não estavam
solicitando sua “libertação”; os peregrinos ocidentais não estavam sofrendo quaisquer maus
tratos nas mãos dos turcos na Palestina e evitavam as dificuldades da Ásia Menor viajando
por mar. A responsabilidade bizantina se encontra, assim, na apresentação dos argumentos que
desenvolveu em apoio de suas solicitações de mercenários: ela evocava a solidariedade entre
os cristãos e descrevia com um certo grau de exagero retórico as dificuldades reais por que
passavam os que permaneciam fiéis ao Cristianismo na Ásia Menor ou mesmo as supostas
perseguições que estavam sendo realizadas na Terra Santa, cuja importância para os latinos
era bem conhecida pelos gregos. Através do Ocidente mal informado, os temas desenvolvidos
pelas embaixadas bizantinas e as notícias difundidas por alguns peregrinos que haviam
passado por dificuldades formaram os principais argumentos que provocaram a instauração da
Primeira Cruzada.
2. O apelo de Urbano II no concílio de Clermont e a pregação da Primeira Cruzada –
Cerca de seis meses após o concílio de Placência, o papa Urbano II, que se encontrava na
França desde o verão de 1095, convocou um novo concílio para Clermont, do qual deveriam
participar todos os bispos franceses e que se destinava, como o precedente, a tratar
essencialmente de problemas de disciplina eclesiástica. Os cânones, adotados entre 18 e 26
de novembro de 1095, se referiam à investidura dos clérigos por leigos, à simonia e à retomada, com maior precisão, dos decretos conciliares anteriores. Dois cânones somente se
referiam direta ou indiretamente às cruzadas: o primeiro estendia o âmbito da “Paz de Deus”,
até então imposto somente em caráter regional, à totalidade dos territórios controlados pela
Igreja; o segundo prometia indulgência plena – isto é, a isenção da penitência imposta
anteriormente para a concessão do perdão dos pecados e não a remissão pura e simples destes
– a todos aqueles que partissem para lutar pela libertação da Igreja de Deus em Jerusalém. No
encerramento do concílio, esperava-se que Urbano II fizesse um sermão na presença de uma
multidão de eclesiásticos e de leigos reunidos em um campo situado nos arredores da cidade.
A repercussão ulterior desse sermão e do apelo que nele foi feito e o sucesso da Primeira
Cruzada influenciaram os relatos em graus diversos, mas os principais temas do discurso de
Urbano II só podem ser identificados nos relatos mais imediatos – os de Foucher de Chârtres e
o do Anônimo da Primeira Cruzada. Depois de ter descrito os sofrimentos por que passavam
os cristãos do Oriente, o papa exortou os cristãos do Ocidente a que cessassem suas guerras
fratricidas, esquecessem seus ódios e se unissem para combater os pagãos e libertar seus
irmãos do Oriente. Sem esconder os desconfortos que encontrariam os peregrinos em sua
estrada, o papa apelou para a renúncia e o sacrifício, empregando as palavras do evangelho
segundo São Mateus (16:24): “Quem quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua
cruz e siga-me”. Perante tal apelo, a multidão entusiasmada, gritando “Deus o quer” (Deus
vult!), decidiu-se, na mesma hora, de acordo com o bispo de Puy-en-Velay, Adhémar de
Monteil, nomeado legado papal e chefe da expedição, a “tomar sua cruz” e fazer o voto de
partir para Jerusalém. Como símbolo do voto que haviam feito, os primeiros voluntários
mandaram costurar nas costas de suas vestes uma cruz de pano, o que fez com que fossem
denominados os 9 cruce signati.
A cruz não era somente o símbolo da renúncia, mas também o sinal de que se pertencia a
uma nova comunidade de peregrinos armados e dotados de certos privilégios. 10 Urbano II
pretendia favorecer assim a partida de cavaleiros que formariam uma expedição organizada e
eficiente e se esforçou para limitar os efeitos de um entusiasmo irrefletido: os padres não
podiam partir sem o consentimento de seu superior eclesiástico, nem os fiéis sem se
aconselharem primeiro com um clérigo, nem um recém-casado sem o assentimento de sua
esposa; todavia, a partir do momento em que fora pronunciado, o voto se tornava irremissível
e quem não o cumprisse seria excomungado. A partir de 1º de dezembro, a cruzada já contava
com a participação garantida de Raymond de Saint-Gilles, conde de Toulouse e da Provença,
provavelmente já informado sobre o projeto antes mesmo de sua proclamação no concílio.
Urbano II permaneceu ainda por oito meses na França e pregou a cruzada em Limoges, em
Angers, na Aquitânia e no Languedoc. Escreveu cartas aos flamengos, mandou Robert
d’Arbrissel pregar ao longo do vale do rio Loire e enviou outros padres para a Normandia,
Inglaterra e Gênova. Seu apelo se dirigia principalmente à classe social a que foi inicialmente
proclamado – os nobres franceses do sul do Loire – mas no verão de 1096, data fixada para a
partida, os contingentes reunidos tinham ultrapassado em muito o âmbito proposto
inicialmente: aos provençais se haviam reunido Godofredo de Bulhões, o duque da Baixa-
Lotaríngia (Lorena) e seu irmão Balduíno de Boulogne; Hughes de Vermandois, irmão do rei
da França, Felipe I, com cavaleiros franceses e da Champanha, além do grupo conduzido por Roberto da Normandia e por Étienne de Blois. Ao escutar as novas sobre a partida de toda
essa gente para o Oriente, Bohémond, o filho de Guiscard, decidiu também se tornar cruzado e
atravessou o mar Adriático à frente de um pequeno exército.
O sucesso, portanto, aparenta ter ultrapassado de longe as expectativas do papa e parece
difícil de explicar. A evolução das condições materiais e do ideal cavalheiresco no decorrer
do século XI devem ter servido para aumentar a repercussão do apelo de Urbano II por terem
contribuído para criar um certo estado de disponibilidade. A partida para o Oriente, primeiro
como mercenários e agora como cruzados, era um dos meios de que dispunham os nobres de
se livrar das restrições causadas por sua linhagem, em um tempo no qual o movimento pela
paz favorecido pela Igreja e o estreitamento dos laços de vassalagem limitavam as ocasiões
de buscar fortuna através de aventuras. Por outro lado, o cavaleiro (em sua condição
primordial de miles [guerreiro] agora transformado em miles Christi [soldado de Cristo]
cumpria assim, a serviço de Cristo e da Igreja, o seu dever de vassalagem. A cruzada
realizava então a fusão do espírito feudal com os preceitos cristãos. Nas versões mais tardias
do discurso de Clermont, ou nas excitatoria, as cartas enviadas a locais mais longínquos,
percebem-se os temas que dominavam as consciências dos cavaleiros cristãos: a eleição dos
francos11 e a evocação de Jerusalém e da Terra Prometida “onde mana leite e mel”. Os
cruzados deixavam o espaço estreito e pobre do Ocidente na certeza de uma recompensa que
os tornaria os herdeiros de Cristo (Colossenses, 3:24). A retribuição celeste não excluía,
entretanto, as vantagens materiais.
O apelo de Clermont recebeu também uma grande difusão entre as camadas populares. O
nome de Pedro, o Eremita permaneceu ligado a essa pregação das cruzadas entre as multidões;
mas ele não é o único destes “profetas” que, por toda parte, chefiavam bandos de peregrinos
partindo para Jerusalém sem esperar a data oficial. Ao lado da cruzada “dos Barões”,
hierarquizada e estruturada, que também incluía numerosos não-combatentes, surgiu uma
espécie de cruzada “selvagem”. O tempo era propício a tal êxodo porque, já havia cerca de
dez anos, uma série de calamidades naturais, fomes e epidemias havia atingido as regiões
renanas e o norte da França. A efervescência popular, o entusiasmo contagioso dos leigos, que
exortavam uns aos outros a ir para Jerusalém, eram acompanhados de sinais e presságios.12
Muitos dos viandantes, assustados por essas imagens do Apocalipse (9:1-12), partiam sem a
menor idéia de retornar, vendiam os poucos bens que tinham mesmo ao preço mais baixo e
carregavam suas mulheres e filhos em carros-de-boi.
Os bandos partiram do norte da França e da Renânia a partir de abril de 1096, comandados
primeiro por Gautier-Sans-Avoir e depois por Pedro, o Eremita e chegaram alguns meses
mais tarde em Constantinopla sem sofrer graves incidentes, especialmente no caso dos
primeiros. As violências mais graves foram executadas por grupos germânicos que, logo após
a partida, se encarniçaram contra as comunidades judaicas da Renânia querendo converter os
judeus à força ou os massacrando, apesar da oposição de certos bispos, particularmente em
Speyer, Worms, Mainz e Colônia. De fato, em conseqüência das depredações que continuaram
realizando durante o caminho, a maior parte desses grupos de desordeiros nem sequer chegou
a Bizâncio, mas foi aniquilada ou dispersada pelas tropas regulares húngaras. Misturando
temas apocalípticos e escatológicos, especialmente o da conversão dos judeus que anunciaria o fim dos tempos, a pregação das cruzadas contribuiu para desencadear, sem que isso
necessariamente tivesse sido desejado, um incêndio de anti-semitismo oficialmente reprovado
pela Igreja. Foi a partir dessa época que a opinião do povo comum europeu começou a
considerar os judeus como inimigos de Cristo e blasfemadores da Cruz. As cruzadas marcam
o início da degradação da situação jurídica e prática dos judeus do Ocidente, que até essa
época eram tolerados e relativamente integrados na população em geral.
6. Os soldados escandinavos, que começaram a partir para o Oriente após o final do século X, pensavam em juntar inicialmente um pecúlio ao serviço dos príncipes de Kiev e dos imperadores de Bizâncio antes de empreender a peregrinação a Jerusalém, que era a etapa final, mas não o único objetivo de sua viagem. (N.A.)
7. O “Império Romano do Oriente”, ou Império Bizantino, cujos soberanos não somente eram partidários da Igreja Ortodoxa, como não queriam se submeter à autoridade temporal do papado e estavam em constante atrito e rivalidade com a política espiritual e material dos papas. (N.T.)
8. Do Sacro Império Romano-Germânico, basicamente centralizado na Áustria, que aceitava a orientação religiosa, mas recusava a submeter-se ao domínio temporal do papa, o que ocasionava querelas e atritos constantes. (N.T.)
9. “Assinalados pela cruz”, em latim no original. (N.T.)
10. Veja adiante, no Capítulo IV. (N.A.)
11. Como os defensores escolhidos da Igreja. (N.T.)
12. Veja adiante, no Capítulo V. (N.A.)