Cruzadas
Capítulo I: As origens das cruzadas
CAPÍTULO I
AS ORIGENS DAS CRUZADAS
O entusiasmo coletivo provocado pela pregação da Primeira Cruzada surpreendeu até
mesmo seu iniciador, o papa Urbano II, e ainda hoje continua a causar espanto. Durante os
últimos trinta anos, numerosas pesquisas dedicadas à questão da origem das cruzadas
desvendaram seus elementos essenciais, salientando muitas vezes o objetivo principal de cada
pesquisa com exclusão dos outros. Podemos, de forma plenamente justificada, salientar as
condições sociais e econômicas do final do século XI: alto crescimento demográfico, falta de
terras cultiváveis, crescimento da economia monetária e das trocas comerciais, início da
expansão italiana pelo Mediterrâneo. Em parte, elas explicam e, por outro lado, tornam
possível o movimento que impulsiona para o Oriente alguns ocidentais (nobres relativamente
desprovidos de terras e multidões de pobres em busca de melhores condições materiais e
espirituais). Embora nem de longe neguemos a existência dessas condições, não pretendemos
tratar delas aqui. Preferimos salientar o valor dos fatores específicos que explicam por que
esse entusiasmo pelo Oriente assumiu o formato das cruzadas. Inicialmente, as causas
afastadas: as constantes peregrinações individuais a Jerusalém e, igualmente, a doutrina e a
prática da “justiça” das guerras contra os sarracenos. A idéia de cruzada nasceu do encontro
dessas duas tradições. Mas, para de fato provocá-la, era preciso algum tipo de catalisador:
uma causa próxima ou um pretexto, e esta foi a idéia, amparada em uma profunda ignorância
do Oriente, de levar socorro aos cristãos orientais que estavam sendo oprimidos pelos turcos,
segundo se acreditava.
I. As causas afastadas
1. As peregrinações a Jerusalém – Durante muito tempo a figura do cruzado foi referida
nos textos medievais como a de um peregrino (peregrinus), alguém que realizava uma viagem
à cidade santa de Jerusalém. A peregrinação aos lugares santos foi, portanto, um dos
elementos primordiais das cruzadas e as definiu quase inteiramente. A Jerusalém terrestre, a
“montanha santa”, a “cidade de Deus”, “colocada no meio das nações” (Ezequiel, 2:2), a “mãe
dos povos” (Salmo 87:5) permaneceu para os cristãos como o centro do mundo espiritual.
Esse lugar se tornou ainda mais santo porque a essa tradição hebraica se acrescentou o desejo
de buscar, como escreveu Orígenes, “os vestígios de Cristo”: a gruta da Natividade, o
Calvário e o Santo Sepulcro foram redescobertos na época do imperador Constantino, e sobre
esses lugares foram edificadas basílicas, ao mesmo tempo em que a Verdadeira Cruz, a
relíquia mais preciosa de todas, se tornou o objeto de um culto particular. Todavia, a
peregrinação não era uma obrigação religiosa: São Jerônimo a considerava como um ato de
fé, mas reconhecia que não era indispensável; segundo a maneira de pensar de Santo
Agostinho, era até mesmo nociva, e a moda que impulsionou algumas damas da corte imperial
a passarem uma espécie de férias na Terra Santa foi objeto das críticas mordazes dos padres
gregos. Mas a corrente que levava os fiéis à Palestina não foi em absoluto afetada por essas
opiniões. Nem o fim do mundo romano e a insegurança que daí surgiu e nem sequer a
conquista árabe conseguiram interromper esse movimento; ele persistiu, ainda que atenuado, durante os séculos VII e VIII. As dificuldades sofridas durante a viagem a partir de então
pareceram até mesmo fazer parte e reforçar a espiritualidade das peregrinações. Depois de se
desfazer de seus bens materiais, o fiel estava preparado para o sofrimento e até para a morte,
em uma missão que os hagiógrafos freqüentemente identificavam como a marcha dos hebreus
para a Terra Prometida ou, mais ainda, como uma participação na Paixão de Cristo. A partir
do século VII, a peregrinação figura entre as penitências canônicas, e os manuais de penitência
da igreja irlandesa contribuíram para difundir o ritual sobre o continente, que os missionários
celtas novamente buscavam evangelizar. Devido a uma confusão compreensível, apesar de
condenações oficiais (Concílio de Châlons, em 813), firmou-se a crença de que a
peregrinação lavava os pecados. O primeiro dos peregrinos penitentes conhecido foi
Fromond, um nobre francês que realizou a peregrinação durante a metade do século IX. Foi
seguido por muitos outros, dos quais os mais célebres, Roberto, o Diabo, duque da
Normandia, e Foulque Nerra, conde de Anjou, fizeram diversas vezes a viagem até a Terra
Santa como expiação por seus graves pecados. De fato, durante o século XI, a peregrinação já
estava sendo imposta como penitência aos nobres mais desordeiros que quebravam a paz que
a Igreja se esforçava por instaurar no seio da cristandade latina.
A partir do final do século X, a instauração da paz no mar Mediterrâneo favoreceu o
movimento dos peregrinos, que aumentava sem cessar. O final da pirataria muçulmana na
Provença (972) e em Creta (961), o controle do Mediterrâneo oriental pela marinha bizantina,
a cristianização da Hungria e a expansão da autoridade bizantina, que passou a abranger desde
a Bulgária até a Síria setentrional, tornaram menos perigosas tanto as rotas marítimas como
terrestres em direção à Terra Santa, nas quais os sultões da dinastia fatímida davam toda a
liberdade aos peregrinos desde que pagassem um pedágio. A perseguição – dirigida também
contra os judeus – ordenada pelo califa Al-Hakim e que culminou com a destruição da
basílica do Santo Sepulcro (1009) foi apenas um episódio excepcional, logo seguido por um
acordo entre os fatímidas e o governo de Bizâncio, que permitiu a restauração do santuário. A
cristandade se revoltou por algum tempo, mas sua única reação efetiva foi a conversão
forçada ou o massacre de algumas comunidades judaicas estabelecidas na Europa, que foram
responsabilizadas pelos funestos acontecimentos.
No começo do século XI, as condições materiais da Jerusalém terrestre não eram de grande
importância: para muitos peregrinos, ela era apenas uma imagem imperfeita da Jerusalém
celeste, ainda que fosse um lugar em que se buscava a morte a fim de ingressar imediatamente
na beatitude da cidade que espelhava, como fez um certo Liébaut d’Autun, cuja prece foi
atendida. Por volta de 1033, com a aproximação do milenário da morte de Cristo, “uma
multidão inumerável convergiu do mundo inteiro para o sepulcro do Salvador em Jerusalém.
Inicialmente, foi gente pobre das classes inferiores, depois pessoas de condições medianas e,
finalmente, todos os grandes, reis, condes, marqueses, prelados [...] grande número de
mulheres, as mais nobres junto com as mais pobres. [...] A maioria compartilhava o desejo de
morrer em algum ponto dos santos lugares em vez de retornar para seus próprios países”
(Raoul Glaber).
A numerosa fundação de monastérios em Jerusalém durante o século XI materializa o
desejo de encerrar na Cidade Santa uma vida regenerada.
A tranqüilidade que se estabeleceu após a passagem do milênio não suspendeu o afluxo de
peregrinos ao Oriente; ao contrário, o movimento se organizou: ao longo das rotas e na
própria Jerusalém se multiplicaram os albergues, muitas vezes criados e mantidos por monges
originados da Abadia de Cluny. Os grandes personagens viajavam com um séqüito armado e
eram muitas vezes seguidos por uma multidão de peregrinos que aproveitavam a proteção
oferecida por essa escolta; estes grupos formavam, em alguns ocasiões, verdadeiras
expedições com organização hierárquica. Robert da Normandia levava consigo muitas
centenas de pessoas, e o bispo alemão Günther von Bamberg, em 1064, provavelmente tenha
levado muitos milhares. A peregrinação individual, realizada sem armas e com despojamento
espiritual e material, havia se transformado em um esforço coletivo, acompanhado por uma
demonstração de força, quiçá de luxo. A passagem para o Oriente, muitas vezes realizada por
meio de Constantinopla, provocou efetivamente, através da contemplação da riqueza bizantina,
o desejo ingênuo de rivalizar com ela ou, caso isso fosse impossível, afirmar superioridade
mediante uma demonstração de coragem. Se os pobres continuavam a realizar sua
peregrinação com um ascetismo imposto por sua condição social, que de fato não era de sua
escolha, mas se tornava transfigurada pelo mérito do empreendimento, os guerreiros viam nela
mais uma aventura do que um exercício de religião. 6 Mas a riqueza dos grupos de peregrinos
cada vez mais numerosos provocou a cobiça, e os cristãos – como naquela expedição de
alemães perto de Ramalá, no ano de 1065 – foram obrigados algumas vezes a realmente
empregar suas armas em combate com bem menos má vontade do que dão a entender os
cronistas eclesiásticos. Em pouco tempo, o emprego das armas passou até mesmo a ser
abençoado pela Igreja.
2. A legitimidade da guerra contra os infiéis – De fato, em oposição direta à tradição
cristã primitiva, que condenava o uso das armas, com base em duas citações do Novo
Testamento, uma do evangelho segundo São Mateus, capítulo 26, versículo 52 (“Quem viver
pela espada, pela espada perecerá”) e a outra da Segunda Epístola de São Paulo aos
Coríntios, capítulo 10, versículo 4 (“As armas de nosso combate não são materiais”), a igreja
do Ocidente formulou, já desde o século IV, uma teoria da “guerra justa”: Santo Agostinho,
que inicialmente fora fiel ao pensamento paulino, viu-se forçado a admitir a necessidade da
guerra contra os heréticos que as armas espirituais não pudessem convencer, do mesmo modo
que reconheceu a legitimidade da guerra defensiva. Com a promessa de recompensas celestes
aos combatentes, foi fácil passar da noção de guerra justa para a de “guerra santa”. No século
IX, quando Roma se achava exposta às incursões húngaras, normandas e sarracenas, os papas
se esforçaram para criar uma “milícia de Cristo” para a defesa da “pátria cristã”, e João VIII
garantiu aos bispos francos que “aqueles que combaterem valentemente contra os pagãos e os
infiéis, se perecerem dentro da piedade da fé católica, entrarão diretamente no repouso da
vida eterna” (878 d.C.).
No final dos séculos X e XI, a Igreja se esforçou para cristianizar os costumes da
sociedade militar, propondo aos cavaleiros o ideal de proteger os fracos e oprimidos e de
defender a paz através da luta contra os salteadores. A Trégua de Deus e os movimentos pela
paz destinados a fazer respeitar esse ideal iniciaram e, por um certo tempo, se limitaram ao sudoeste da França. O Concílio de Narbonne (1054) decretou que “aquele que mata um
cristão, derrama o sangue de Cristo”. Sob a égide do papado, se organizou uma ação armada
ao serviço da Igreja; em terras cristãs, sua função era manter a ordem e estabelecer a justiça;
nas fronteiras, se destinava a combater os sarracenos. Em 1063, Alexandre II declarou como
sendo justa a luta contra aqueles “que perseguem os cristãos e os expulsam de suas cidades” e,
mais ainda, concede o perdão dos pecados aos combatentes em tais empresas. Os cavaleiros
franceses (na sua maioria borguinhões), atraídos assim à ajuda de Aragão, não obtiveram
sucessos duradouros, e a Reconquista é, acima de tudo, o resultado dos esforços do reino de
Castela obtidos com suas próprias forças. Mas as conseqüências dessas expedições
ultrapassam o domínio espanhol: a Igreja adquiriu o hábito de encorajar as guerras contra os
muçulmanos e de atrair os franceses para esses combates por meio do desenvolvimento da
peregrinação para o santuário de Compostela. Tais expedições prepararam, portanto, até certo
ponto, a resposta dos nobres ao apelo de Clermont.
Por outro lado, em troca de seu apoio à Igreja, os soberanos desses reinos fronteiriços
receberam o título papal de “Fiéis de São Pedro”, entre eles o rei de Aragão e o conde
normando Rogério da Sicília, em 1063. Deste modo, a guerra santa pôde parecer o
instrumento mais útil de uma política que forneceria ao papado vassalos e protetores em luta
contra o Império. 7 Herdeiro dessa política, Urbano II talvez tenha pensado – embora não
existam provas concretas nesse sentido – que poderia criar da mesma forma no Oriente um
novo estado cristão que lhe seria diretamente submisso.
3. A imagem do Oriente de acordo com a mentalidade européia no final do século XI –
Os projetos do papa Urbano II, fossem eles declarados ou inconfessos, se explicam pelo seu
desconhecimento do Oriente. Nesse ponto, ele apenas partilhava da ignorância da sociedade
européia de seu tempo com relação tanto a Bizâncio como ao mundo muçulmano. Um largo
fosso separava a civilização bizantina do século XI e a cultura filosófica de um Psellos, por
exemplo, dos conhecimentos de um Gerbert d’Aurillac, que abrangiam somente alguns
fragmentos de Aristóteles. Muito raros eram aqueles que conheciam um pouco de grego nessa
época, mesmo os mais eruditos. Aos olhos dos ocidentais, a ciência bizantina era uma farsa, e
a repugnância pela guerra manifestada por um povo rico e relativamente desenvolvido era
confundida com fraqueza pelos que se dedicavam ao ofício das armas. Seguros de sua força
em conseqüência dos primeiros sucessos obtidos contra os bizantinos na Itália meridional, os
normandos contribuíram para expandir a imagem dos gregos ardilosos, mas sobretudo ricos e
mandriões. Foi desse modo que se começaram a gravar na mentalidade ocidental, a partir de
então, as imagens da sedução das riquezas e da fraqueza militar de Bizâncio, o que explicaria
em parte a atitude ulterior dos cruzados com relação ao Império.
A cristandade ocidental se mostrava ainda mais ignorante com relação ao Oriente
muçulmano: os itinerários, ou seja, os relatos escritos pelos peregrinos, não se podiam
comparar com as obras dos geógrafos muçulmanos e se detinham mais em estabelecer
comparações com lembranças referentes às Escrituras do que no estado presente das terras
visitadas. Ao mesmo tempo, os autores eclesiásticos se interessavam mais pelo lugar dos
sarracenos dentro da história bíblica e sua filiação a partir de Ismael do que por seu enfrentamento real e material com os cristãos. Na Espanha muçulmana, como reação contra a