Cruzadas

Cécile Morrisson · Capítulo 20 de 20

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Cruzadas

Conclusão

Poucos fenômenos históricos despertaram tantas paixões quanto as cruzadas,

constantemente invocadas quando se acha em causa o conceito da “guerra santa” em geral ou

qualquer outro conflito entre o Oriente e o Ocidente, revestido sempre de uma forma bastante

sumária de desconhecimento de seu contexto histórico e às vezes de uma ignorância total a seu

respeito. Apreciar seu “impacto” ou fazer um balanço de seus lucros e perdas será, portanto,

um tanto desconfortável, mas algumas observações nesse sentido não serão inúteis.

A curto prazo, elas ajudaram a Europa a atenuar as constantes desordens que reinavam

entre os cristãos, mas por outro lado favoreceram freqüentes manifestações de anti-semitismo,

ao mesmo tempo em que empobreceram de forma mais ou menos durável muitos daqueles que

partiram para a Terra Santa. A médio prazo, seus custos consideráveis (transporte de tropas,

manutenção de guarnições, construção de defesas) estiveram na origem das cobranças

permanentes de impostos pelos fiscos reais e pontifícios. Seu financiamento, se não foi a

causa principal, certamente acentuou um importante fluxo monetário para o levante, tanto em

lingotes como em moedas de ouro e de prata.

No Oriente, tiveram o efeito de interromper por algum tempo o avanço dos turcos,

conseguiram criar uma “colônia” original, no sentido de que não tinha uma metrópole definida,

e contribuíram, pelo menos parcialmente, para o desenvolvimento do comércio com o levante

que, mesmo desviado da Síria após a queda final de São João d’Acre, haveria de permanecer

vivo durante vários séculos.

A longo prazo, além de seu fracasso final na conservação da Terra Santa, elas acentuaram

no Oriente a ruptura entre Cristãos e Muçulmanos, provocada pela desconfiança dos cristãos

que se difundiu entre os países árabes, e sobretudo causou o surgimento de um largo fosso

entre os latinos e os ortodoxos, uma divisão duradoura, que até os dias de hoje não pôde ser

fechada. Por outro lado, mesmo que hoje em dia seja necessário relativizar a função das

cruzadas no estabelecimento de contatos intelectuais entre as duas culturas, já que estes foram

muito mais ativos e fecundos nas “fronteiras” da Espanha e da Sicília, tampouco se pode

minimizar excessivamente sua influência direta ou indireta sobre a transmissão e

desenvolvimento através do Ocidente de certas técnicas (por exemplo, de navegação) ou de

processos administrativos e econômicos, ou ainda de produção industrial, que eram até então

desconhecidos.

Permaneceu sobretudo o ideal específico das cruzadas, que não representa uma guerra

santa universal nem uma empresa deliberada de conversão, mas uma guerra “justa”, limitada à

libertação do Santo Sepulcro: a convicção de que o “Caminho da Cruz”, empreendido a

serviço de uma empresa comum e capaz de transcender divisões e separações territoriais e

ideológicas entre os cristãos, constituía o meio de uma penitência real e de uma conversão

duradoura do crente – em resumo, uma contribuição decisiva para a constituição da

cristandade ocidental em termos de sua espiritualidade.

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