Cruzadas
Conclusão
Poucos fenômenos históricos despertaram tantas paixões quanto as cruzadas,
constantemente invocadas quando se acha em causa o conceito da “guerra santa” em geral ou
qualquer outro conflito entre o Oriente e o Ocidente, revestido sempre de uma forma bastante
sumária de desconhecimento de seu contexto histórico e às vezes de uma ignorância total a seu
respeito. Apreciar seu “impacto” ou fazer um balanço de seus lucros e perdas será, portanto,
um tanto desconfortável, mas algumas observações nesse sentido não serão inúteis.
A curto prazo, elas ajudaram a Europa a atenuar as constantes desordens que reinavam
entre os cristãos, mas por outro lado favoreceram freqüentes manifestações de anti-semitismo,
ao mesmo tempo em que empobreceram de forma mais ou menos durável muitos daqueles que
partiram para a Terra Santa. A médio prazo, seus custos consideráveis (transporte de tropas,
manutenção de guarnições, construção de defesas) estiveram na origem das cobranças
permanentes de impostos pelos fiscos reais e pontifícios. Seu financiamento, se não foi a
causa principal, certamente acentuou um importante fluxo monetário para o levante, tanto em
lingotes como em moedas de ouro e de prata.
No Oriente, tiveram o efeito de interromper por algum tempo o avanço dos turcos,
conseguiram criar uma “colônia” original, no sentido de que não tinha uma metrópole definida,
e contribuíram, pelo menos parcialmente, para o desenvolvimento do comércio com o levante
que, mesmo desviado da Síria após a queda final de São João d’Acre, haveria de permanecer
vivo durante vários séculos.
A longo prazo, além de seu fracasso final na conservação da Terra Santa, elas acentuaram
no Oriente a ruptura entre Cristãos e Muçulmanos, provocada pela desconfiança dos cristãos
que se difundiu entre os países árabes, e sobretudo causou o surgimento de um largo fosso
entre os latinos e os ortodoxos, uma divisão duradoura, que até os dias de hoje não pôde ser
fechada. Por outro lado, mesmo que hoje em dia seja necessário relativizar a função das
cruzadas no estabelecimento de contatos intelectuais entre as duas culturas, já que estes foram
muito mais ativos e fecundos nas “fronteiras” da Espanha e da Sicília, tampouco se pode
minimizar excessivamente sua influência direta ou indireta sobre a transmissão e
desenvolvimento através do Ocidente de certas técnicas (por exemplo, de navegação) ou de
processos administrativos e econômicos, ou ainda de produção industrial, que eram até então
desconhecidos.
Permaneceu sobretudo o ideal específico das cruzadas, que não representa uma guerra
santa universal nem uma empresa deliberada de conversão, mas uma guerra “justa”, limitada à
libertação do Santo Sepulcro: a convicção de que o “Caminho da Cruz”, empreendido a
serviço de uma empresa comum e capaz de transcender divisões e separações territoriais e
ideológicas entre os cristãos, constituía o meio de uma penitência real e de uma conversão
duradoura do crente – em resumo, uma contribuição decisiva para a constituição da
cristandade ocidental em termos de sua espiritualidade.
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Cécile Morrisson
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