Cruzadas

Cécile Morrisson · Capítulo 7 de 20

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Cruzadas

IV. A Terceira Cruzada e o estabelecimento de um status quo ⠀㄀㄀㠀㜀ⴀ㄀㄀㤀㌀)

ele se lançou ao ataque dos principados do norte: uma frota siciliana o impediu de completar

seu assédio a Trípoli, mas conseguiu cercar Antioquia, desistindo do assédio desta última

após a conclusão de uma trégua de oito meses. A essa época, os estabelecimentos dos

cruzados estavam reduzidos a Tiro e Beaufort, os últimos remanescentes do reino de

Jerusalém e ao norte, a Trípoli, à Fortaleza (Krak) dos cavaleiros, Antioquia e Margate.

 

IV. A Terceira Cruzada e o estabelecimento

de um status quo (1187-1193)

A partir do verão de 1187, quando a notícia dos primeiros desastres chegou a Roma, o

papa foi impelido a lançar tanto apelos à paz como à cruzada; a pregação desta última foi

confiada ao legado papal Enrico d’Albano e ao arcebispo de Tiro, enviado por Conrad de

Montferrat com cartas destinadas aos maiores príncipes do Ocidente. A iniciativa dos

soberanos foi essencial para o lançamento da nova cruzada, que justapôs exércitos feudais

bem estruturados e não mais colunas desorganizadas e carregadas de não-combatentes. Sem

esperar pelos outros, o rei normando Guilherme da Sicília chamou imediatamente da Grécia

seu almirante Margarit e o enviou para o Oriente com cerca de cinqüenta vasos de guerra e

duzentos cavaleiros. Esse apoio naval foi o que permitiu a defesa de Tiro, Trípoli e Margate e

garantiu o aprovisionamento das últimas praças-de-guerra dos francos, abastecendo-os com

armamentos e homens de armas. No verão de 1189, com a ajuda de contingentes

dinamarqueses, frísios e saxões e de cavaleiros flamengos, franceses e ingleses, Guy de

Lusignan começou o cerco de São João d’Acre.

Desde 1188, os três maiores soberanos ocidentais haviam tomado a cruz. Já no final de sua

carreira política – a paz reina tanto na Itália como na Alemanha, e a oposição do partido dos

guelfos21 havia sido derrotada – o imperador Frederico I Barba-Ruiva pôs-se a caminho à

frente de um dos mais poderosos exércitos que participaram das cruzadas (cem mil homens,

como se afirmou; na realidade, era composto, no mínimo, por vinte mil cavaleiros). Apesar de

negociações prévias, a travessia do Império Bizantino deu margem a verdadeiras hostilidades,

muito além de quaisquer incidentes das cruzadas anteriores: Frederico tomou Filipópolis e

Adrianópolis e marchou contra Constantinopla. Sob pressão, o imperador Isaac Angelos foi

obrigado a assinar a paz e garantir a passagem segura do exército para a Ásia. A penosa

travessia da Anatólia tinha sido quase completada depois da importante vitória de Icônio

sobre os turcos (maio de 1190), quando Frederico se afogou na travessia do rio Salefe, na

Cilícia. Já esgotado pelas dificuldades do caminho e depois por uma epidemia que grassava

em Antioquia, especialmente desencorajado pela perda de seu imperador e chefe, o exército

se dispersou; somente algumas centenas de cavaleiros, sob o comando de Frederico da Suábia

chegaram até a Palestina a tempo de participar do cerco de São João d’Acre.

Os reis da França e da Inglaterra também haviam tomado a cruz desde 1188, mas um novo

conflito retardou sua partida; somente em 1190 Felipe Augusto e Ricardo Coração-de-Leão

saíram de Vézelay, um por Marselha e o outro por Gênova, mas ainda precisaram passar o

inverno na Sicília. Em Chipre, Isaac Comneno – que conquistara a ilha em 1184 – tratou mal

os cruzados que tempestades lançaram na sua costa. Ricardo Coração-de-Leão tomou-lhe Chipre com a ajuda de Guy de Lusignan, que foi coroado rei da ilha em 1192. Por puro acaso,

a cruzada se assenhoreou de uma base próxima ao reino de Jerusalém e de uma fonte de

aprovisionamento segura. A chegada de Felipe Augusto, seguida pela de Ricardo, fez triunfar

o cerco de São João d’Acre, que durara dois anos e custara grande número de vidas; a cidade

se rendeu em 12 de julho de 1191. Felipe Augusto retornou à França e Ricardo se tornou o

chefe único da cruzada. Essa autoridade lhe permitiu resolver o problema da sucessão

dinástica do reino de Jerusalém. Guy de Lusignan, cuja esposa, Sibylle, falecera, conservou

pessoalmente a dignidade real. Conrad de Montferrat, que acabara de desposar Isabelle, a

herdeira do trono, aceitou anuir a suserania de Guy de Lusignan, sob condição de ser

reconhecido como seu sucessor e herdeiro do reino. Embora comandasse um poderoso

exército, este era obrigado a permanecer nas proximidades da costa para que a frota pudesse

assegurar-lhe o reabastecimento, o que significou que Ricardo não pôde recuperar diretamente

Jerusalém. Apesar das vitórias obtidas sobre Saladino em Arsufe em setembro de 1191 e em

Jaffa no mês de agosto de 1192, as comunicações com Ascalon eram demasiado inseguras e

freqüentemente ameaçadas para que o exército pudesse aventurar-se a avançar para o interior.

O exército comandado por Ricardo Coração-de-Leão marchou ao longo da costa marítima,

acompanhado pela frota cristã; foi atacado de surpresa pelo exército de Saladino à altura do

bosque de Arsufe. Imediatamente, a coluna evoluiu ordenadamente para transformar-se em

uma massa bem escalonada em profundidade. Seguiu-se uma vigorosa carga que pôs em

debandada os muçulmanos. A coesão das chamadas “batalhas”, unidades que compreendiam

compatriotas, exerceu um papel capital nessa vitória. Os templários combateram como se

fossem todos “filhos de um único pai”. As fileiras dos cruzados estavam tão cerradas “que

uma maçã lançada ao meio deles não chegava a cair no solo”.

 

Figura 4 – Batalha de Arsufe (1191) – Citado de Verbruggen, em De Krijgkunst in Westjen Europa (A arte militar da

Europa Ocidental)

Apesar de duas tentativas, ele foi forçado a interromper a marcha a vinte quilômetros de

Jerusalém. As hostilidades não haviam impedido negociações constantes com Saladino; este

dispunha na ocasião somente de suas tropas pessoais e de alguns contingentes egípcios e

damascenos que ele tinha a maior dificuldade para conservar em campanha. O zelo pela jihad

se havia abrandado consideravelmente depois da tomada de Jerusalém pelos muçulmanos. Em

2 de setembro de 1192, foi concluída uma trégua que deveria durar três anos; Ascalon, que

estava praticamente demolida, foi entregue a Saladino, mas os francos conservaram a costa

marítima de Tiro a Jaffa e a liberdade de peregrinação foi garantida a todos os cristãos que se

dirigissem a Jerusalém, do mesmo modo que a todos os muçulmanos que se dirigissem a

Meca.

A Terceira Cruzada impediu a queda da Síria franca e contribuiu para o estabelecimento do

segundo reino de Jerusalém, embora a monarquia franca devesse acertar longas contas com as

comunidades mercantis italianas que, a partir desse momento, passaram a gozar de privilégios

consideráveis (veja a seguir, na p. 111) em recompensa por seu apoio. O também chamado

reino de Acre certamente fora reduzido a uma fímbria costeira, mas esta era muito mais fácil

de defender do que os territórios anteriores, bem mais extensos. Os estabelecimentos latinos

passaram a ser um elemento aceito de bom grado pela dinastia dos ayubidas, sucessores de

Saladino (falecido em 1193), que renovaram a trégua em diversas ocasiões. O status quo

estabelecido pela intervenção da Terceira Cruzada iria durar ainda quase um século.

 

13. Veja adiante, no Capítulo V. (N.A.)

14. História anônima da Primeira Cruzada. (N.A.)

15. “Campo de sangue”, em latim no original. (N.T.)

16. Embora pouco conhecida, Bilbeis permanece até hoje com o nome árabe de Bilbes e copta de Felbs, sendo um baluarte desse ramo do cristianismo; a cidade é de pequenas dimensões, mas densamente povoada, com trezentos mil habitantes. (N.T.)

17. Veja o quadro genealógico mais adiante, na p. 73. (N.A.)

18. Originário do Poitou francês. Leia-se “poatevino”. (N.T.)

19. Hoje o noroeste do Iraque. (N.T.)

20. “Pretexto para a guerra”, em latim no original. (N.T.)

21. Favorável às pretensões materiais do papado. (N.T.)