Cruzadas

Cécile Morrisson · Capítulo 12 de 20

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Cruzadas

V. Projetos e tentativas de cruzadas no decorrer dos séculos XIV e XV

comerciantes muçulmanos que viviam na cidade e forneceram assim um pretexto para a

intervenção decisiva. Após um assédio de quatorze dias, apesar da resistência corajosa das

ordens militares, dos contingentes franceses e ingleses e de reforços enviados de Chipre, a

cidade foi tomada em 18 de maio de 1291; a própria cidadela, defendida ferozmente pelos

templários, foi conquistada dali a dez dias, em 28 de maio. Todos os cristãos que não

puderam fugir nos barcos venezianos ancorados no porto foram mortos ou reduzidos à

escravidão. As últimas praças-fortes francas (Tiro, Sidon, Beirute, Tortosa e o castelo dos

Peregrinos) capitularam ou foram evacuadas durante o verão e a seguir arrasadas. Aos

cristãos do Ocidente restou somente a base de Chipre, que haveria de resistir constantemente

aos mamelucos e só acabou por ser conquistada em 1571 pelos turcos, embora conservassem

o apoio da Armênia Ciliciana (conquistada pelos egípcios em 1375). Nunca mais os cristãos

conseguiram fincar pé na Terra Santa: as cruzadas passaram à terra das lendas e da utopia.

 

V. Projetos e tentativas de cruzadas no decorrer

dos séculos XIV e XV

Nunca se falou tanto em cruzadas como depois da queda das derradeiras bases cristãs na

Terra Santa. Já no final do século XIII, o franciscano Fidêncio de Pádua, que redigiu um

“conselho” ao papa reinante, havia sugerido o bloqueio comercial do Egito, que seria

supervisionado por uma frota européia internacional, e o desembarque de um exército na Síria

Setentrional, que uniria forças com os mongóis. A expedição armada, que formava até então o

coração das cruzadas, se havia tornado apenas mais um elemento de uma política mais vasta.

Uma série de projetos posteriores constituíam somente variações sobre os mesmos temas.

Carlos II de Nápoles (1291), o missionário dominicano Guillaume Adam e Henrique II de

Chipre (1311), além do veneziano Marino Sanudo, em seu manuscrito Secreta fidelium crucis

[Segredos dos fiéis da cruz], também propuseram o bloqueio do Egito por uma frota –

exclusivamente veneziana segundo Sanudo, internacional e pontifícia de acordo com os outros

autores. Também foi feita finalmente a necessária fusão das ordens militares, cujas rivalidades

haviam causado tanto mal às cruzadas até então. O documento de união, redigido pelos juristas

do rei da França, Guillaume de Nogaret e Pierre Dubois, não foi composto sem segundas

intenções, o que fez com que nunca chegasse a ser assinado; mas outros efetivamente

sonhavam com uma nova religio [religião renovada], uma ordem única, forte o bastante para

realizar os objetivos de uma nova cruzada.23 Esse mito inspirou a criação de numerosas

ordens de cavalaria, como a Ordem da Espada, fundada por Pierre de Lusignan, a Ordem da

Paixão, criada por Philippe de Mézières, e finalmente grupos mais românticos, como a Ordem

do Tosão de Ouro. 24 Mas os votos cavalheirescos passaram a ser simplesmente divertimentos

cortesãos: no Banquete do Faisão, em Lille, realizado em 1454, os cavaleiros borguinhões

rivalizaram em proezas verbais contra os turcos ou os sarracenos, sinal de que o tema da

cruzada se tornara um simples divertimento.

Todavia, no decorrer do século XIV, os temas evocados não eram simplesmente letra

morta, e as três grandes idéias da cruzada (bloqueio comercial do Egito, aliança com os

mongóis e fusão das ordens) correspondiam algumas vezes à realidade. De fato, desde 1179, o papa havia proibido o comércio com os muçulmanos sob pena de interdito; ao longo do século

XIV, a proibição do comércio com o Egito – acima de tudo, a exportação de material de

guerra – foi renovada sem cessar e de novo permitida abertamente, graças a dispensas

concedidas por novos pontífices.

De fato, a “nova cruzada”, ainda que conservasse as formas jurídicas das cruzadas

anteriores e permanecesse teoricamente destinada à defesa dos cristãos do Oriente oprimidos

pelos muçulmanos, servia apenas como ocasião para uma coalizão, em geral provisória, dos

estados cristãos para a defesa de seus interesses comuns, comerciais e políticos, no mar

Mediterrâneo. Em 1310, uma cruzada, pregada e financiada pelo papa de então, conquistou a

ilha de Rhodes – base estratégica tão importante quanto o Chipre –, cuja defesa foi confiada

aos Cavaleiros hospitalários. A partir da ilha, sua frota lutou firmemente contra a pirataria

turca e, em 1345, sustentou a “Cruzada do Arquipélago”, uma liga marítima de estados

italianos que conseguiu conquistar o porto e a cidade de Esmirna, na Turquia. Em 1365, o rei

de Chipre, Pierre I, conseguiu capturar Alexandria, no Egito, mas sua “cruzada” só teve o

efeito de prejudicar os interesses dos comerciantes europeus e sobretudo dos cristãos

asiáticos que residiam nas terras dominadas pelos mamelucos. Uma ação conjunta com os

mongóis talvez tivesse tido melhores possibilidades de sucesso: o Il-Khanida Argum, que

estabelecera seu canato no Irã, havia efetivamente trocado uma série de embaixadas com o

papa Nicolau IV (1288-1292); seu sucessor, apoiado pelos armênios, pelos Georgianos, pelo

rei de Chipre e pelos Cavaleiros hospitalários, empreendeu uma série de expedições na Síria,

entre 1299 e 1302, porém sem conseguir sucessos duráveis. Finalmente, toda esperança de

recuperar uma base na Síria acabou por ser abandonada. Pouco tempo depois, os Cavaleiros

Templários, condenados por heresia pelos tribunais eclesiásticos franceses, foram suprimidos

pelo Concílio de Vienne, França, em 1311, mas as riquezas da ordem, em vez de serem

entregues a seus rivais, os Cavaleiros hospitalários, como estes esperavam, com o objetivo de

financiarem outra cruzada, foram confiscadas pelo tesouro real francês.

No século XIV, as cruzadas se transformaram em um pretexto fiscal para os reis da França

e da Inglaterra e um elemento central da ideologia monárquica francesa, que retomou nesse

ponto as pretensões dos imperadores germânicos. A partir dessa época, todos os reis da

França, de Felipe, o Belo a Felipe Sexto, tomaram a cruz, mas sem jamais partirem para o

Oriente, contentando-se em apoiar os projetos antibizantinos de Charles de Valois, até o

momento em que as hostilidades com a Inglaterra impediram verdadeiramente qualquer

partida. O avanço dos turcos otomanos na Ásia Menor (tomada de Brussa em 1326; de

Nicomédia, em 1328; de Nicéia, em 1330), seguido por conquistas na Europa (Andrinopla, em

1362), encerrou os projetos antibizantinos. A partir do final do século XIV, a cruzada deixou

de ser concebida como uma guerra de libertação da cristandade oriental, tornando-se uma

guerra defensiva da cristandade européia ameaçada pelos turcos. Em 1396, uma cruzada

formada por contingentes recrutados em toda a Europa veio em socorro do rei da Hungria, mas

a imprudência dos cavaleiros ocidentais, mais interessados em realizar proezas do que em

estratégia ou cumprimento de ordens, acabou por provocar a derrota de Nicópolis. Um

pequeno contingente francês, sob o comando de Boucicaut, conseguiu retomar Gallipoli e

desbloquear Constantinopla (1399) mas, de fato, foi apenas a vitória do cã mongol Tamerlão

sobre o sultão turco Bajazet, em Ancara, que retardou a conquista turca. Na esperança de receberem socorros efetivos do Ocidente, os últimos imperadores bizantinos buscaram a união

[da Igreja Ortodoxa] com Roma. Tal união, proclamada enfim no concílio de Florença (1439),

foi rejeitada pelo clero grego e, de fato, não serviu em nada para impedir a queda de

Constantinopla (1453). A última cruzada, vinda em socorro da Hungria, que derrotara os

turcos em Niš [Niche], no ano de 1443, foi esmagada no ano seguinte em Varna (1444). Os

apelos posteriores do papado, principalmente de Pio II (1458-1464) ou de Leão X (1512-

1517), para uma “passagem geral” contra os turcos, permaneceram praticamente sem efeito.

Todavia, de certo modo, a cruzada foi recuperada na Espanha (tomada de Granada, em 1492)

e depois pelo imperador Carlos V e a dinastia dos Habsburgos (defesa de Viena, Áustria, em

1529 o cerco de Tunis, em 1535). A palavra e alguns dos mecanismos da cruzada

sobreviveram momentaneamente na batalha naval de Lepanto (1571), nos cercos de Cândia,

em Creta (1579) e no segundo cerco de Viena, Áustria (1683), mas estavam longe de obter o

imenso apoio popular prestado ao movimento em suas origens.

 

22. De acordo com a numeração tradicional entre os autores franceses. Outros não contam a cruzada contra Damieta, porque não se dirigiu diretamente à Terra Santa e outros ainda tanto a omitem como deixam de fora a cruzada de Frederico II, composta exclusivamente por tropas do Sacro Império Romano-Germânico. Seja como for, qualquer escolha é arbitrária: durante os séculos XII e XIII houve muito mais “passagens” ou “peregrinações” do que as numerações habituais deixam transparecer. (N.A.)

23. Até a época da Reforma religiosa do século XVI, o termo “religião” era empregado em seu sentido estrito de “nova ligação”, isto é, um conjunto de regras para levar os homens de volta à união com Deus; cada ordem religiosa possuía a sua Religião, que era um sinônimo corrente para “Regra”, e era comum franciscanos, beneditinos, dominicanos e outros se referirem aos monges ou seculares de outras ordens como “não sendo da nossa religião”, sem que isso implicasse por um só momento que duvidavam que os outros fossem católicos. (N.T.)

24. Alusão ao Tosão ou Velocino de Ouro, objetivo da expedição lendária dos Argonautas da Grécia pré-histórica ao mítico reino da Cólquida, um pelego de lã de ouro que era guardado por um dragão de sete cabeças. (N.T.)