Cruzadas

Cécile Morrisson · Capítulo 11 de 20

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Cruzadas

IV. Entre mongóis e mamelucos: O fim dos estabelecimentos cruzados na Síria-Palestina ⠀㄀㈀㔀 ⴀ㄀㈀㤀㄀)

práticos, já não mais existiam estados cruzados na Terra Santa, mas sim “estabelecimentos”

isolados, cuja impotência era aumentada pela rivalidade mútua; diferentemente do século XII,

agora a ajuda dos novos cruzados ocidentais se havia tornado indispensável para sua defesa.

 

5. A Sétima Cruzada (1248-1249) – Na Europa, a disputa entre o império e o papado

absorvia todas as forças da Itália e da Alemanha; ao mesmo tempo, a luta do rei Henrique III

contra seus barões ocupava as forças inglesas. Desse modo, o apelo do papa Inocêncio IV no

Concílio de Lyon (1245) teria ficado sem grande efeito se as condições da França não lhe

fosse favoráveis nesse momento. Desde 1244, no transcurso de uma grave doença, o rei Luís

IX fez o voto de tornar-se cruzado. A paz e a prosperidade do reino lhe permitiram preparar

minuciosamente o financiamento e o recrutamento de uma expedição que, somada aos

contingentes da Moréia, de Chipre e de Acre, reuniu quase três mil cavaleiros. Partindo de

Aigues-Mortes e de Marselha, a frota invernou em Chipre e, tão logo desembarcou no Egito,

já se apoderou de Damieta, que fora desertada pelas tropas do sultão (6 de junho de 1249).

Mas esta “Sétima Cruzada”22 reiterou, logo a seguir, os erros da Quinta. Após haver recusado

a oferta do sultão do Cairo, que lhe propusera a entrega de Jerusalém, de Ascalon e da

Galiléia Oriental em troca da liberação de Damieta e da partida dos cruzados, o exército

marchou para o Cairo, só conseguindo atravessar para a margem leste do Nilo em La Mansura

à custa de duros combates. A retirada estava sendo feita em boa ordem quando o exército foi

assolado por uma epidemia, do que se aproveitaram para assediá-lo tanto as tropas de

infantaria como a frota egípcias. Em 6 de abril de 1250, o exército foi forçado a se render.

Luís IX obteve sua liberação pessoal em troca de Damieta, mas foi obrigado a pagar

quatrocentos mil besantes como resgate dos cruzados sobreviventes. A expedição ao Egito

fracassou e a revolta que ocorreu no Cairo logo a seguir modificou, dentro de pouco tempo,

todo o equilíbrio das forças no Oriente Próximo em prejuízo dos cruzados.

 

IV. Entre mongóis e mamelucos: O fim dos estabelecimentos cruzados na Síria-Palestina

(1250-1291)

Após a morte de as-Salih Ayub e o assassinato de seu filho (maio de 1250), o poder passou

para a mão dos antigos escravos, chamados mamelucos. Esse regime militar foi contestado

inicialmente pelo sultão ayubida de Damasco, suserano de todos os príncipes da Síria.

Aproveitando-se dessas dissensões, Luís IX, que permanecia na Terra Santa, concluiu, em

1253, um tratado com os mamelucos por meio do qual os últimos prisioneiros franceses foram

libertados, além de prometer a restituição de Jerusalém, Belém e de quase todo o antigo

território cisjordaniano em troca de uma aliança contra os ayubidas da Síria. Entretanto, antes

de que qualquer tratado definitivo tivesse sido assinado, o conselho dos mamelucos fez as

pazes com os sírios por insistência do califa de Damasco (1253). Luís IX ocupou-se durante o

restante de sua estadia na Terra Santa (1250-1254) com a restauração das fortificações das

praças-fortes costeiras que pertenciam aos francos (Acre, Cesaréia, Jaffa e Sidon), com o

restabelecimento da aliança entre os barões rivais no principado de Antioquia, dividido mais

por brigas familiares do que por motivos políticos, e com a reconciliação do principado inteiro com os seus vizinhos armênios.

O equilíbrio precário entre os mamelucos e os ayubidas, que havia sido relativamente

favorável aos francos – já que estes o aproveitaram para assinar uma nova trégua com os

ayubidas (1256) –, foi rompido pela chegada dos mongóis. Começada no início do século

XIII, a expansão mongol ocorrida sob Genghis Khan, entre os anos de 1206 e 1227, que

ocupou a China, o Khorassan e a Rússia do Sul, foi continuada por seus filhos, que

conquistaram o Irã, a Ucrânia, a Polônia e a Anatólia seljúcida, esta reduzida à condição de

um protetorado, em 1243. Fundador do estado Il-Khanida do Irã, o cã Hulagu prosseguiu com

o avanço em direção à Mesopotâmia e à Síria. Em 1256, conseguiu vencer a seita dos

Assassinos, que dominavam a província de Alamute, também na Pérsia; em 1258, conquistou e

eliminou do mapa o califado de Bagdá e, em 1260, assenhoreou-se dos principados ayubidas

na Síria. Os estabelecimentos cristãos latinos ainda não haviam despertado o interesse da

aliança mongol; as devastações dos assim chamados “tártaros” na Europa central, bem ao

contrário, estão registradas até hoje em todas as memórias. Luís IX lhes enviou uma

embaixada, que retornou sem resultados; o papa condenou o príncipe de Antioquia, que

seguira o exemplo dos armênios durante o movimento dos mongóis e conquistara Djabalá e

Lataquiê, no litoral da Síria. Também em 1260, os francos do reino de Jerusalém observaram

uma neutralidade favorável aos mamelucos, que reabasteceram de provisões. Vitorioso sobre

os mongóis na batalha de Ain-Jalut (na Galiléia), o novo sultão mameluco do Egito tornou-se

o senhor da Síria.

De repente, os estabelecimentos cruzados descobriram que estavam cercados pelas

possessões do sultanato mameluco, uma situação que persistiu por bastante tempo. Além do

mais, a constante ameaça dos mongóis provocou um endurecimento dessa ditadura militar,

que exercia um controle firme sobre seus oficiais detentores de iqtá, isto é, o comando de

praças-fortes. A partir de então, o título passou a representar uma simples designação fiscal

sem caráter feudal, o que permitiu ao sultão dispor de um exército forte e permanente. O

regime desconfiava de todo possível aliado dos mongóis, tanto dos latinos como dos cristãos

asiáticos. A idéia constantemente retomada era a da jihad, a guerra santa. No decorrer dos dez

anos seguintes, o sultão Baibars instalou um califado no Cairo, tornando seu estado o centro

político e cultural do Oriente Próximo, conquistou todas as praças-fortes ainda mantidas pelos

francos no interior da Palestina – Nazaré, a fortaleza do monte Tabor, Belém, Safete, Beaufort,

o Castelo Branco e o Krak (a Fortaleza) dos cavaleiros (1271) – e, ao longo da costa, tomou

Cesaréia, Arsufe, Jaffa e Antioquia (1268). Algumas vezes, chegou a ser chamado a intervir

pelos próprios cristãos, cujas divisões interinas aumentavam cada vez mais.

Entre 1256 e 1258, uma verdadeira guerra civil (chamada a Guerra de São Sabá) em

função de um monastério existente em São João d’Acre, que era disputado pelos dois partidos,

lançou dentro do condado de Acre os genoveses, apoiados por Philippe de Montfort e pelos

Cavaleiros hospitalários, contra os venezianos, que estavam aliados ao conde de Jaffa e aos

Cavaleiros Templários. A guerra naval se travou por meio de assaltos dos venezianos contra

Tiro e dos genoveses contra Acre até que um acordo definitivo foi concluído por intervenção

de Luís IX, em 1270. Mas a armada de Pisa permaneceu em luta contra a de Gênova até 1288.

Em Trípoli, Bohémond IV foi forçado a combater ao mesmo tempo contra os templários e seus

vassalos genoveses, os embriacci, senhores de Djibelete. Ao mesmo tempo, a morte de Conradino (Conrado III), em 1268, imperador do Santo Império e rei titular de Jerusalém,

reanimou as querelas dinásticas. O rei Hughes III de Chipre, regente desde 1264, conseguiu

que seus direitos à coroa fossem reconhecidos pela maioria dos barões, mas foram

contestados por Maria de Antioquia, que acabou por vender os seus a Charles d’Anjou em

1277. Por morte de Charles d’Anjou em 1285, o direito à coroa foi devolvido a Chipre, mas

durante oito anos as diferentes autoridades da Terra Santa permaneceram divididas entre si

por duas obediências feudais, e toda política em comum se tornou impossível.

Os estabelecimentos da Palestina dependiam portanto, sempre e cada vez mais, do socorro

do Ocidente. Mas a Oitava Cruzada, novamente dirigida por Luís IX, em lugar de atacar o

Egito, desembarcou em Tunis, onde morreu o rei (1270); seu irmão, Charles d’Anjou, rei da

Sicília desde 1268, retirou a expedição e retornou para a Europa, depois de haver assinado

um tratado favorável aos interesses sicilianos. A última das grandes cruzadas ofereceu assim

um novo exemplo de desvio. Sozinho, o príncipe Eduardo da Inglaterra, recém-chegado a

Tunis, sabendo da conclusão da paz, levantou âncora para a Terra Santa e obteve do sultão

Baibars a renovação da trégua. Só que agora os estabelecimentos cristãos ocupavam apenas

uma pequena faixa costeira que ia do castelo dos Peregrinos até Lataquiê; os próprios

territórios das senhorias que ainda se mantinham eram algumas vezes partilhados com o

sultão; a construção e mesmo restauração das fortalezas estava proibida, e haviam sido feitas

promessas de advertir o sultão por ocasião da chegada de qualquer nova cruzada. Eleito papa

enquanto se achava em peregrinação em São João d’Acre, Gregório X fez tudo que se achava

a seu alcance para renovar as cruzadas. Opondo-se aos projetos anti-bizantinos de Charles

d’Anjou, ele obteve justamente o contrário; por ocasião do concílio de Lyon (1274),

promoveu a união da Igreja Grega com Roma e fez com que os grandes soberanos do Ocidente

aceitassem tomar a cruz, esperando além disso, graças a alianças estabelecidas tanto com os

bizantinos como com os próprios mongóis, lutar de forma eficaz contra os mamelucos. Mas,

após sua morte, seus sucessores favoreceram mais os planos de Charles d’Anjou, que

desejava assumir a hegemonia de todo o mar Mediterrâneo. As Vésperas Sicilianas (1282)

foram o único acontecimento que terminou por abortar a cruzada anti-bizantina, que mais uma

vez havia desviado o objetivo de levar socorro à Terra Santa.

Em 1281, uma nova invasão mongol na Síria reanimou, pelo menos no espírito de alguns,

os projetos de aliança apresentados por uma série de embaixadas pontifícias ou dos países

ocidentais, os quais se sucediam em vão desde 1264. Mas o bailio angevino estabelecido em

São João d’Acre permaneceu neutro, favorecendo assim a vitória dos mamelucos em Homs. A

trégua foi renovada entre o Egito de um lado e Acre e Trípoli do outro. Todavia, os armênios

e os Cavaleiros hospitalários haviam apoiado abertamente os mongóis; desse modo, o novo

sultão Kalaum decidiu acabar definitivamente com os estabelecimentos cristãos da costa,

sempre propensos a servir de base aos mongóis contra seu próprio reino, e iniciou, a partir de

1285, um projeto de conquista sistemática. Começando pelos territórios que não estavam

cobertos pela trégua, ele conquistou Marcabe dos Cavaleiros hospitalários (1285) e a seguir

Lataquiê (1287); logo após, rompendo a trégua, tomou Trípoli (1289) para onde, segundo se

afirma, fora chamado pelos próprios venezianos. Em 1290, Veneza e o rei de Aragão

enviaram socorros a Acre, aonde chegou também uma tropa indisciplinada de lombardos e de toscanos; esses aventureiros, que afirmavam ser cruzados, começaram a massacrar os