Cruzadas
III. O Islã retoma a iniciativa ⠀㈀㔀ⴀ㠀㠀)
dispuseram a lhe pagar tributos; ele construiu as fortalezas do Vale de Moisés e do monte Real
e, em 1116, ocupou o porto de Ailá no mar Vermelho. Cortando, desse modo, as
comunicações entre a Síria e o Egito, o rei de Jerusalém assegurou a posse de uma posição
estratégica importante e os recursos consideráveis que eram obtidos através dos impostos
cobrados das caravanas de comércio. A tomada de Tiro (1125) completou o domínio do
litoral da Palestina. Apenas Ascalon permaneceu nas mãos dos egípcios, a única ameaça à sua
fronteira sul. A instalação dos cruzados ao longo da costa mediterrânea e de uma parte das
terras circunjacentes, depois de ter privado as cidades muçulmanas do interior da Síria de
seus acessos ao mar e dos recursos que lhes eram proporcionados por essas regiões mais
ricas, começou a ameaçar tais cidades. Alepo e Damasco se tornaram as chaves de uma
política complexa que ocupou o segundo quarto do século XII.
III. O Islã retoma a iniciativa (1125-1188)
1. Os atabegs de Mossul e a guerra santa contra os francos (1125-1145) – No próprio
momento em que os francos tentaram, em diversas ocasiões, apoderar-se de Alepo ou de
Damasco, com a cumplicidade de certos elementos locais (em Damasco, principalmente da
seita dos Assassinos), sua própria expansão e em parte a violência que perpetraram deram
origem a um movimento de protesto e a uma reorganização militar e política que deslocou o
centro de gravidade do Oriente muçulmano em direção ao oeste. A atitude ambígua e as
constantes trocas de aliança dos príncipes da Síria, que buscavam, acima de tudo, a
preservação de seus domínios, acabaram por provocar a hostilidade das populações
muçulmanas (sunitas) que denunciavam a cumplicidade dos heterodoxos (xiitas moderados, a
seita dos Assassinos ismaelitas e os fatímidas do Egito) com os francos e culpavam a
indiferença de seus soberanos pelas vitórias daqueles. Os atabegs do Mossul, tanto por
convicção como por interesse, conseguiram, aproveitando-se desse sentimento de revolta,
realizar a unificação parcial da região de Djazirá e da Síria contra os francos. Já em 1125,
Alepo, que se achava sob cerco dos francos, apelou para Mossul, mas o atabeg Bursuki, que
havia unificado ambas as cidades sob sua autoridade, foi morto pelos Assassinos. A união foi
restabelecida em 1128 por seu sucessor Zengi que, a partir de 1130, começou a apelar para
que Damasco “participasse a guerra santa” juntamente com ele, apoderando-se de Hamá e, em
1135, das praças-fortes do Ultra-Orontes, que representavam uma ameaça constante para
Alepo. Em 1137, chegou a obter do novo rei de Jerusalém, Foulque d’Anjou (1131-1143),
cercado na fortaleza de Mont-Ferrand, a rendição desta praça, juntamente com a de Rafanéia.
A campanha comum contra Alepo e Shaizar de João II Comneno e dos francos do condado de
Antioquia, que haviam reconhecido a suserania do imperador, fracassou por falta de uma
verdadeira colaboração entre os aliados (1138), e Zengi novamente reocupou as praças-fortes
da região do Ultra-Orontes. Em 1139, Zengi cercou Damasco que, mesmo sendo muçulmana,
apelou para os francos. Foi firmado um tratado, e a fortaleza de Pânias foi entregue aos
francos em troca de seu apoio. A aliança com Damasco garantiu, durante algum tempo, a
tranqüilidade do reino de Jerusalém. Zengi, expulso da Síria, dedicou-se a lutar contra os
turcomanos ortóquidas e contra os curdos que se haviam apossado de regiões de seu próprio
sultanato próximas a Mossul. Quase por acaso, durante uma campanha contra um líder ortóquida aliado aos francos, ele conquistou Edessa, que havia sido deixada desprotegida
(1145) porque a maioria dos seus defensores haviam partido para uma batalha em outra frente.
Foi essa conquista que estabeleceu sua reputação de mudjahid, “defensor da fé” no mundo
islâmico, no qual o acontecimento teve uma repercussão tão grande quanto no Ocidente.
2. A derrota da Segunda Cruzada (1148) – Bispos armênios e outros vindos de Antioquia
obtiveram bons resultados em sua viagem através do Ocidente com a notícia da queda de
Edessa e seus pedidos de socorro: se essa tomada não foi a causa direta da partida da
Segunda Cruzada, foi pelo menos um dos principais argumentos de sua pregação. A principal
iniciativa foi a atitude do rei da França, Luís VII, que tinha desejo de partir em peregrinação a
Jerusalém como expiação por violências que recentemente cometera; ele obteve do papa a
nova promulgação de uma segunda bula de cruzada que até então não alcançara efeito (1º de
março de 1146). A pregação da nova peregrinação armada foi confiada principalmente a São
Bernardo de Clairvaux que, em 31 de março, após um sermão em Vézelay, incitou numerosos
nobres franceses a tomarem a cruz, chegando mesmo a convencer o imperador Conrado III da
Áustria a assumir o comando de uma expedição (Speyer, 27 de dezembro). Na Alemanha, a
pregação popular de Raul, um antigo monge da abadia de Clairvaux, provocou as mesmas
violências contra os judeus que haviam sido cometidas no início da Primeira Cruzada, mas
mesmo assim causou a partida de uma expedição, novamente sobrecarregada por uma
multidão de não-combatentes.
A indisciplina do elemento popular, sobretudo nessa cruzada alemã, provocou uma série de
incidentes durante a passagem do exército através dos Bálcãs; porém, as maiores dificuldades
com Bizâncio foram de ordem política. O imperador Manuel I não se preocupava muito com a
passagem desordenada destes exércitos mal-organizados e mal-aprovisionados através do
Império Bizantino; o que ele temia, principalmente, é que eles reforçassem o principado de
Antioquia, sobre o qual ele pretendia, como fizera seu pai, João II, restabelecer sua suserania;
além disso, suspeitava que eles pudessem enfraquecer a aliança germano-bizantina contra
Rogério II, o rei normando da Sicília. De fato, enquanto Conrado III e Luís VII se recusavam,
cada um por sua vez, a prestar a homenagem que o imperador bizantino lhes exigira, no outono
de 1147, Rogério II, o rei normando da Sicília, se aproveitou das circunstâncias que retinham
o exército bizantino na vigilância dos cruzados para se apoderar das ilhas de Corfu e de
Cefalônia, além de saquear Corinto e Tebas. A Segunda Cruzada, por outro lado, demonstrou
seu apoio ao ataque normando, o que obrigou Manuel a concluir um tratado com o sultão de
Rum. Sem o apoio bizantino, a travessia da Ásia Menor se tornou muito difícil; por outro lado,
franceses e alemães não se entendiam bem e marchavam separadamente. O exército de
Conrado foi batido em Doriléia e o imperador [do Sacro Império Romano-Germânico]
reconciliou-se com Manuel, o imperador bizantino, conseguindo chegar até São João d’Acre a
bordo de embarcações bizantinas. Luís VII seguiu avançando ao longo do litoral, porém,
assediado no vale do rio Meandro, acabou por se decidir a abandonar os não-combatentes em
Adália, onde eles foram massacrados pelos turcos, enquanto o rei embarcava para Antioquia
com seus cavaleiros. Os maus relacionamentos entre os cruzados e Bizâncio e entre os
próprios cruzados já haviam reduzido os efetivos da Segunda Cruzada de mais ou menos três
quartos.
Por outro lado, o desentendimento entre os cruzados e os francos do Oriente levou a
Segunda Cruzada à derrota. Luís VII se recusou a participar da expedição contra Alepo que
lhe fora proposta pelo príncipe de Antioquia, na época Raymond de Poitiers, e foi, em vez
disso, reunir-se a Conrado III em Jerusalém. O objetivo da peregrinação o fez desprezar as
necessidades de defesa do Oriente latino, cuja situação era totalmente desconhecida pelos
novos cruzados. Cumprido seu voto, alguns dos cruzados retornaram à Europa, enquanto os
dois soberanos, recusando projetos mais moderados, se deixaram seduzir pelos barões mais
belicosos de Jerusalém a empreender uma expedição nefasta contra Damasco, justamente com
quem eles deveriam ter estabelecido alguma espécie de entendimento contra Nur ad-Din, o
filho de Zengi. A aproximação das tropas de Nur ad-Din fez com que abandonassem o cerco
que, de fato, vinha sendo mal conduzido desde o início e que não obtivera qualquer sucesso
até então. A Segunda Cruzada, em meio a suspeitas e ignorância recíprocas, foi simplesmente
uma peregrinação principesca que, apesar de todos os recursos militares de que dispunha,
terminou sem obter o mínimo resultado.
3. Ofensivas e contra-ofensivas: A luta contra Nur ad-Din (1148-1175) – Os atabegs de
Mossul já tinham transformado em questão de honra a temática do jihad (guerra santa) contra
os francos, embora de fato buscassem utilizar a necessidade dessa luta como pretexto para
estender sua influência sobre a Síria. Com a morte de Zengi, seu filho Nur ad-Din, herdeiro de
Alepo e de Homs (Emesa), retomou a política de seu pai, assegurando a posse definitiva de
Edessa – temporariamente retomada por Jocelin II (1146) – e, a seguir, do condado inteiro
(1151). Vencendo Raymond de Poitiers, em 1149, ele tomou ao principado de Antioquia as
últimas praças de guerra localizadas na região de Ultra-Orontes (Apaméia, Albara e Artá).
Encorajado por essa vitória, ele se apresentou a partir de então como o único mudjahid,
defensor e campeão do Islã contra seus inimigos externos e internos; como defensor da
ortodoxia sunita, ele tomou medidas contra os xiitas de Alepo, fundou escolas para o ensino
do Corão (madrasas) e favoreceu a fundação de comunidades de sufis, enquanto pregadores e
poetas muçulmanos denunciavam o conluio dos heterodoxos com os francos. Damasco, visada
nesse sentido, foi tomada por ele em 1154; Baalbek, em 1155; e Shaizar, em 1157. A
campanha do rei de Jerusalém, Balduíno III, com o auxílio do novo cruzado Thierry de
Flandres obteve como único resultado a retomada de Harim, em 1158. Toda a Síria
meridional passou então a pertencer a Nur ad-Din.
Todavia, a Síria setentrional encontrou durante algum tempo um equilíbrio precário por
influência bizantina. Chegando à Cilícia em 1158, Manuel I obteve a submissão de Thoros, o
príncipe armênio. Em Antioquia, Renaud de Châtillon foi forçado a apresentar “desculpas de
honra” por sua expedição pirata contra Chipre (1153) e a reconhecer a suserania bizantina, ao
mesmo tempo que Balduíno III negociou uma aliança, cujas tratativas haviam começado um
ano antes, por meio de seu casamento com uma sobrinha de Manuel. Mas a má vontade mútua
dos aliados fez abortar a expedição planejada contra Alepo; Manuel assinou um tratado de paz
com Nur ad-Din, cuja ameaça mantinha os francos na dependência do auxílio dos bizantinos e
ainda continha os seljúcidas.
Durante o reinado de Amaury I (1163-1174), Jerusalém permaneceu aliada a Bizâncio e buscou estabelecer uma cabeça-de-ponte no Egito, a fim de impedir sua união com a Síria. Os
diferentes vizires, que exerciam o poder real em nome dos califas fatímidas, ora apelavam
para os Sírios, ora para os francos, tentando manter seu regime por meio de um jogo de
equilíbrio. Desse modo, em 1164 uma expedição franca comandada por Amaury assediou
Shirku, o comandante curdo de Nur ad-Din, e o sobrinho deste, Salah-ad-Din (Saladino), que
haviam invadido o Egito e atacavam Bilbeis (Felbs).16 Ao mesmo tempo, Nur ad-Din
aprisionou os condes de Antioquia e de Trípoli e tomou Harim e Pânias, o que forçou Amaury
a se retirar do Egito, tendo obtido somente a retirada provisória de Shirku para a Síria. Porém,
em 1167, Shirku retornou ao Egito; Amaury, chamado pelos egípcios, outra vez cercou
Saladino em Alexandria e o obrigou a evacuar o Egito com suas tropas; o país tornou-se
temporariamente tributário dos francos. No ano seguinte, uma nova tentativa de Amaury, que
pretendia aumentar o seu controle sobre o Egito, provocou, bem ao contrário, uma intervenção
decisiva de Saladino. Uma expedição franco-bizantina mal-coordenada não conseguiu sequer
tomar-lhe Damieta. Saladino se tornou vizir do último dos califas fatímidas e, após a morte
deste, tornou-se governador de todo o Egito, em nome de Nur ad-Din, restabelecendo entre os
muçulmanos egípcios a ortodoxia sunita (1169).
4. Saladino e o fim do primeiro reino de Jerusalém (1175-1188) – No apogeu de seu
poder, tendo realizado, pelo menos formalmente, a união do Egito e da Síria e retomado
Mossul, Nur ad-Din faleceu, deixando um único filho de menoridade, cuja guarda foi
intensamente disputada. Por isso, os pretendentes a tutores se aliaram com os francos ou
contra eles, consoante as necessidades do momento. Apresentando-se como o herdeiro moral
de Nur ad-Din, Saladino capturou sucessivamente Damasco, Homs e Hamá, forçando o califa
de Bagdá a investi-lo como governador do Egito e da Síria (1175). Em nome da jihad, ele
denunciou a coalizão dos zengidas com os francos, que fora a causa real que o impedira de
conquistar Alepo em 1176. Com o apoio da frota egípcia, ele passou a ameaçar a costa da
Síria e a praticar incursões no sul do reino de Jerusalém. Em 1180 uma trégua foi assinada,
mas os pedidos de socorro dirigidos pelo rei ao Terceiro Concílio de Latrão permaneceram
ignorados.
Ao mesmo tempo, a grave doença de que sofria Balduíno IV, então rei de Jerusalém, e o
problema de sua sucessão 17 dividiram a classe dirigente em dois partidos: o partido da corte,
favorável à rainha-mãe Agnès, à princesa Sibylle e a seu marido, o cavaleiro poitevino18 Guy
de Lusignan; e o partido dos barões, que preferiam conferir o cargo de bailio [regente ou
primeiro-ministro] ao conde de Trípoli, então Raymond III, um homem de maior experiência.
Enquanto isso, Saladino se aproveitou da trégua com os francos, renovada em 1185, para
assumir o controle das cidades muçulmanas de Alepo (1183) e de Mossul (1186); segundo ele
afirmava, precisava do apoio da Síria, porque não poderia prosseguir a guerra santa apenas
com as forças egípcias.
“A pequena Djazirá” – a Alta Mesopotâmia 19 – “é o centro da resistência” – escreveu ele
ao califa de Bagdá na ocasião. “Portanto, assim que ela ocupar o seu lugar na rede de
alianças, toda a potência militar do Islã poderá ser reunida na luta contra as forças dos infiéis.”
Toda a sua política foi baseada neste único objetivo: ele nomeou como atabegs e
governadores os membros de sua própria família, a fim de garantir o leal fornecimento dos
contingentes de combate de que iria necessitar para dar prosseguimento à sua jihad. Desse
modo, conseguiu colocar à sua disposição um exército numeroso que reunia contingentes
sírios, curdos e turcomanos aos mamelucos do Egito, apoiados por uma frota reconstruída –
em grande parte graças a materiais trazidos pelos italianos, com os quais havia concluído
tratados (com Pisa desde 1173). Alcançou pleno sucesso no isolamento dos francos de
Jerusalém ao concluir uma aliança com o sultão seljúcida em 1179, com Bizâncio após a
morte de Manuel I, em 1181, e com Isaac Comneno, o rei de Chipre. Bizâncio, que fora
vencida pelos seljúcidas na batalha de Miriocefalônia (1176), atacada pelos Sérvios, pelos
Húngaros e principalmente pelos normandos da Sicília em 1185, não podia e nem queria mais
socorrer os seus aliados latinos. O recuo da potência militar Bizantina na Ásia Menor deixou
os estados cruzados sem proteção ao norte, ao mesmo tempo em que eles sofriam constantes
incursões terrestres e marítimas egípcias ao sul. A insegurança aumentou no país, que já
perdera diversas praças-de-guerra importantes nas fronteiras (a do vau de Jacó foi perdida em
1179). Os pedidos de socorro dirigidos ao Ocidente acabaram por trazer à Terra Santa, nesse
mesmo ano de 1179, um grupo de cavaleiros comandados por Philippe de Flandre, um cruzado
ineficiente que, em vez de lutar, desejava principalmente apresentar-se como árbitro das
disputas constantes dos francos em torno da conquista do poder; o patriarca de Jerusalém e o
grão-mestre da Ordem dos hospitalários tampouco recebiam qualquer auxílio da Europa, com
exceção dos subsídios financeiros enviados pelo rei da Inglaterra.
Privado de apoio exterior, ainda assim o reino de Jerusalém teria sido capaz de se
defender por meio de suas próprias forças, comparáveis em coragem e mesmo em número com
as tropas de Saladino. Todavia, suas tropas formavam um conjunto desconexo, mal-controlado
e indisciplinado, em que muitos dos soldados detentores de um iqtá (posse territorial
concedida em troca do serviço militar) não sentiam a menor atração por campanhas muito
prolongadas. Foram essas dissensões interiores que mais favoreceram a ofensiva de Saladino.
“Estes ódios e estes descasos levaram à perda do reino de Jerusalém”, escreveu o cronista
continuador do relato de Guillaume de Tiro. Balduíno IV havia confiado ao conde Raymond
III de Trípoli a regência, em nome de seu sobrinho Balduíno V (1185-1186), mas, por morte
deste, Sibylle e Guy de Lusignan conseguiram ser coroados com o apoio do grão-mestre da
Ordem do Templo. Despeitado, Raymond III solicitou o apoio de Saladino. Uma guerra civil
estava a ponto de estourar, mas foi acertada uma trégua de quatro anos com Saladino em 1185
que ainda protegeu o reino por algum tempo. O belicoso Renaud de Châtillon, contudo,
forneceu a Saladino um 20 casus belli; já em 1182 ele fora até a Arábia, onde atacara uma
caravana que se dirigia a Meca e, em 1183, enviara uma esquadra para pilhar as costas do
Hedjaz [ao norte do Mar Vermelho]; de modo semelhante, em 1187 ele destroçou uma
caravana que se dirigia a Damasco e se recusou a devolver o produto da pilhagem, apesar de
uma ordem direta do rei. A trégua foi rompida; e a guerra santa, proclamada novamente.
Figura 3 – As rotas tomadas pelos cruzados (séculos XII e XIII)
No reino de Jerusalém, foi proclamada a arrière-ban, convocação de toda a nobreza para a
guerra, que reuniu assim aqueles que deviam um serviço feudal regular, além de todos os
homens em idade de combater (1.200 cavaleiros, quatro mil “sargentos” e muitos milhares de
soldados irregulares de infantaria). O conde Raymond III aceitou render homenagem a Guy de
Lusignan e a Sibylle, mas essa reconciliação de última hora não apagou os ódios anteriores e
suas conseqüências; por instigação do grão-mestre dos templários, Guy se recusou a adotar a
estratégia prudente recomendada por Raymond III e, com a intenção de defender Tiberíades,
que estava sob cerco, lançou o exército através do planalto da Galiléia. Cercadas em Hattim e
esmagadas pelo calor reinante, as tropas francas sofreram uma das derrotas mais graves de
sua história; o rei e quase todos os cavaleiros foram capturados e só libertados mediante
pagamento de resgate ou cessão de seus castelos; Renaud de Châtillon e duzentos templários e
hospitalários foram mortos; os sargentos e infantes, massacrados ou vendidos como escravos.
As praças-fortes interiores, desguarnecidas de tropas, renderam-se uma após outra a Saladino
ou a seus lugares-tenentes, embora as fortalezas das fronteiras, melhor defendidas e
aprovisionadas, Castelnovo, Safete, Beauvoir, o Krak de Moabe e o Krak de Monte Real,
resistissem por mais tempo – algumas até 1189. Demonstrando uma generosidade que alguns
consideraram excessiva, Saladino autorizou que os defensores sobreviventes e os habitantes
civis se refugiassem em Tiro para retornar ao Ocidente. Em Jerusalém, depois de ter resistido
a um assédio de seis dias, Balian d’Ibelin negociou uma rendição honrada e o resgate de um
terço da população em troca de trinta mil besantes (2 de outubro de 1187). Com a permissão
dada aos latinos para que a evacuassem, Jerusalém não passou por quaisquer violências que
pudessem ser comparadas com as cometidas pelos cristãos em 1099.
No outono, Saladino já se apoderara também de grande número de praças-fortes costeiras
(São João d’Acre, Toron, Sidon, Beirute e Ascalon), mas fracassara em seu assalto a Tiro,
defendida por Conrad de Montferrat, que chegara inesperadamente de Constantinopla.
Desapontados por essa derrota e inquietos pela aproximação do inverno, os contingentes orientais abandonaram o exército de Saladino. Em 1188, com forças reduzidas, mesmo assim