Cruzadas

Cécile Morrisson · Capítulo 16 de 20

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Cruzadas

IV. A influência das necessidades militares sobre as estruturas políticas dos estados cruzados ⠀爀攀最椀洀攀 昀攀甀搀愀氀 攀 搀攀昀攀猀愀 搀愀 吀攀爀爀愀 匀愀渀琀愀 瀀攀氀愀猀 漀爀搀攀渀猀 洀椀氀椀琀愀爀攀猀):

estabelecidos na Palestina logo se adaptaram a esse tipo de luta, passando a copiar o exemplo

dos bizantinos e empregando uma cavalaria ligeira formada por mercenários de origem turca,

os turcópolos, aquartelados em Bizâncio ou na Síria, ou por mercenários oriundos dos reinos

cristãos que empregavam armamento e táticas semelhantes. Finalmente, a partir da Terceira

Cruzada, os cavaleiros passaram a ser acompanhados por importantes tropas de infantaria. Os

“peões” são em geral duas vezes mais numerosos que os homens montados – arqueiros ou

balestreiros que protegem os movimentos da cavalaria e são muitas vezes os verdadeiros

responsáveis pelas vitórias, como ocorreu em Mansurá. Ainda que os enfrentamentos militares

ocorridos durante as cruzadas possam ter favorecido a exportação de certas técnicas

ocidentais (especialmente as máquinas para o assédio de fortalezas) ou de militares

profissionais (mercenários francos, tanto cavaleiros como balestreiros) para o Oriente, de fato

isso não chegou a modificar muito os métodos tradicionais dos dois campos em luta.

 

IV. A influência das necessidades militares sobre as

estruturas políticas dos estados cruzados (regime feudal e defesa da Terra Santa pelas

ordens militares):

A Primeira Cruzada permitiu a fundação na Terra Santa de alguns Estados relativamente

independentes, cuja defesa ou reconquista foram o objetivo da maior parte das cruzadas que se

seguiram até o século XIV. Tais circunstâncias teriam exercido alguma influência sobre as

estruturas políticas desses Estados? Era o que se acreditava antigamente, uma vez que, a

partir da leitura das 32 Assises de Jerusalém, via-se no reino de Jerusalém, e por extensão

abusiva em todos os demais principados, um Estado feudal perfeito, criado sobre a tabula

rasa da terra conquistada e no qual a soberania pertencia mais à nobreza do que ao rei,

Godefroi de Bouillon – simples primus inter pares eleito pelos barões cruzados e não por

seus vassalos, encarregado de guardar Jerusalém e que apenas tomara o título de procurador

do Santo Sepulcro, que lhe conferia, como ocorria nas terras imperiais, a proteção da Igreja e

de seus bens. O patriarca Daimberto de Pisa tentou em vão, com base nesses “assentamentos”,

instaurar uma senhoria eclesiástica em Jerusalém. Contrariando tais pretensões, Balduíno I,

coroado rei de Jerusalém no ano de 1100, em Belém, fundou a monarquia. Independentes dos

patriarcas, que eles mesmos escolhiam dentre uma lista elaborada pelos cônegos do Santo

Sepulcro, os reis de Jerusalém passaram a transmitir a coroa hereditariamente, aplicando o

direito de primogenitura ou de idade, sem excluir as filhas, diferentemente do que acontecia no

Ocidente. 33

O mesmo direito hereditário se aplicou nos outros estados cruzados, mas com maiores

dificuldades, porque os reis de Jerusalém, particularmente Foulque e Balduíno III, buscavam

exercer uma certa autoridade e algumas vezes até procuravam obter a regência; contudo, não

havia uma suserania sequer teórica do rei de Jerusalém sobre os príncipes independentes. O

poder destes variava de acordo com o estado, influenciados pelas respectivas tradições dos

cruzados que os haviam fundado. Em Antioquia, como ocorria na Itália meridional governada

pelos normandos, o regime feudal era mais centralizado, e os vassalos menos autônomos. Em

Edessa ou em Trípoli, o domínio e o poder dos condes eram menos importantes.

No século XII, os reis de Jerusalém possuíam quatro baronias (Jerusalém, Naplusa

[Nablus], São João d’Acre e Tiro) e numerosas aldeias localizadas nessas senhorias. A maior

parte de seus recursos derivavam dos impostos sobre o comércio , dos direitos de venda

(chamados droitures de la fonde [direitos territoriais] sobre os mercados, também chamados

de fondouk ou fonduque) e dos direitos de trânsito (a taxa ad valorem de um vigésimo-quarto

exigido das caravanas que iam do Egito ou da Arábia à Síria ou faziam o percurso contrário

através dos territórios do “Ultra-Jordão” [Transjordânia]; e dos direitos de importação ou de

exportação (a corrente que fechava a entrada do porto de São João d’Acre e que só era

retirada após o pagamento, deu nome à alfândega e depois ao imposto). Eles possuíam também

a renda de vários monopólios industriais (tinturaria, curtumes, fábricas de sabão etc.), o

direito de cunhagem (que, diferentemente dos países do Ocidente, era reservado ao rei)34, que

produzia moedas de ouro com legendas árabes (os “besantes sarracenos”), além de moedas de

prata no modelo ocidental.

Eram esses recursos que permitiam ao rei conceder feudos em besantes ou feudos de

soldo, na base de quinhentos besantes anuais para cada cavaleiro, algumas vezes mais

numerosos em uma senhoria que os feudos em terra, constituindo a estrutura econômica e

política mais original dos estados cruzados. Na realidade, os cruzados encontraram no Oriente

uma economia monetária muito mais desenvolvida do que a do Ocidente. Isso explica por que

foram estabelecidas nos estados latinos, muito antes que no Ocidente, taxas indiretas

importantes, aluguéis de feudos e cunhagem de moedas de ouro.

Nesse sentido, a influência das estruturas anteriores à chegada dos cruzados se

manifestou firmemente. É claro que eles importaram preferencialmente para o Oriente as

estruturas e organizações que conheciam na Europa do século XI; por exemplo, a

administração rudimentar dos grandes “oficiais da coroa”, cujos poderes permaneceram fixos

nas terras cruzadas, em vez de evoluírem como no Ocidente. Mas também copiaram costumes

do Oriente bizantino: em Antioquia, um duque administrava a cidade (submetido ao príncipe,

mas como poderes decisórios) na qualidade de “pretor da Polícia”. Em Jerusalém, alguns

órgãos administrativos, sobretudo de caráter financeiro, eram copiados de modelos

muçulmanos. Assim, o secrète (do grego sekreton, escritório financeiro) correspondia de fato,

se não de direito, ao 35 diwan: servia ao mesmo tempo de tesouro, escritório de contas e

arquivos em que eram conservadas as cartas de doação, o cadastro e a lista de feudos com

suas obrigações, consultados quando o rei precisava de alguma informação mais precisa.

Algumas instituições judiciárias respeitavam os costumes locais: o Tribunal do chefe da

aldeia podia julgar as pequenas causas em que só estavam envolvidos os habitantes naturais

da terra; e o Tribunal da Terra era um tribunal misto destinado a julgar causas comerciais ou

demandas que envolviam apenas cidadãos da Síria ou da Palestina. Por outro lado, era o

Tribunal da Alfândega que julgava processos marítimos, enquanto o Tribunal dos Burgueses e

mais ainda o Tribunal Superior, o único com permissão para julgar os nobres, eram

compostos unicamente por francos e destinados a resolver as disputas que envolvessem os

europeus ou seus descendentes. Desse modo, as influências orientais foram bastante reduzidas;

a s necessidades militares impostas à feudalidade dos estados da Terra Santa são as

características mais originais desse sistema judicial.

A escassez de tropas dominou a história desses estados: a maioria dos cruzados retornava

para a Europa tão logo seu voto tivesse sido cumprido. Dos que vinham para a Terra Santa, só

permaneciam os filhos mais moços sem perspectiva de herança ou cavaleiros pobres em busca

de fortuna, como Bohémond, Balduíno du Bourg, Renaud de Châtillon, os Lusignan e a maior

parte dos fundadores das “linhagens de ultramar”, de nascimento ainda mais obscuro, como os

d’Ibelin, os italianos do norte ou os normandos do sul da Itália, cuja origem exata é até

desconhecida. No princípio do século XII, Balduíno I conferiu o título de cavaleiro a todos os

“sargentos” de infantaria que possuíssem um cavalo. Para todos esses homens, na maioria

imigrados durante o século XII, a cruzada e sua instalação na Terra Santa representaram

incontestavelmente uma promoção social. Mas a defesa da Terra Santa exigia um serviço

militar muito mais pesado do que no Ocidente: todo vassalo entre quinze e sessenta anos

deveria apresentar-se totalmente equipado imediatamente após qualquer convocação do rei e

servir em suas tropas sem restrição de tempo ou de lugar. Por outro lado, a raridade dos

cavalos no Oriente provocou, a partir do século XII, muito antes que essa prática fosse

instaurada na Europa, a instituição do restour [devolução], mediante a qual o rei era obrigado

a restituir aos cavaleiros o valor dos cavalos perdidos em campanha. Foram estabelecidas

regras estritas para fixar as obrigações do feudo e as condições de sua transmissão, a fim de

que o serviço militar nas tropas do rei fosse assegurado custasse o que custasse. A Assise de

l’An et jour, Établissement du roi Balduíno II (ou III) 36 autorizava o rei a deserdar qualquer

um de seus vassalos por motivo de traição, fuga ou renegação, obrigava as viúvas a casarem

novamente apenas com o assentimento do rei, proibia dividir a caballaria, centro do feudo

sob o qual recaía o peso do serviço militar, além de constituir a legislação inicial que proibia

a alienação de terras em favor de estabelecimentos religiosos. No século XII, tanto Jerusalém

como Antioquia dispunham, cada uma, de quinhentos cavaleiros e cinco mil “sargentos”, a que

reuniam algumas vezes tropas de mercenários. Mas a defesa do reino incumbia sobretudo ao

rei que, no final do século, obteve o consentimento de seus súditos para a cobrança de

impostos destinados ao financiamento de seu exército; foi cobrado um dízimo em 1167 e uma

talha em 1183, que gravava as rendas em 2% e ainda instituía o imposto de forragem sobre os

estabelecimentos rurais.

No transcurso do século XIII, a realeza se achava empobrecida e, além disso, era exercida

por soberanos não-residentes (Frederico II da Alemanha, Charles d’Anjou ou os reis de

Chipre foram muitas vezes os “senhores do reino de Jerusalém”), acabando por perder sua

função diretora. A nobreza, cujas posses vinham sendo progressivamente reduzidas, refugiou-

se nas cidades costeiras ou mesmo em Chipre. Na segunda metade do século, a função dessa

aristocracia guerreira na defesa da Terra Santa tornou-se mínima, porque ela se achava

totalmente absorvida por suas lutas políticas internas. Passou a ser necessário contar, para

esse fim, com os contingentes assalariados e enviados por soberanos franceses do Ocidente

(comandados por Geoffroi de Sergines, cujas tropas permaneceram na Síria entre 1254 e

1291), ingleses e tropas papais, ou com a ação constante das ordens militares. No século XII,

os principados francos da Síria mereceram realmente o nome de Estados Cruzados em função

de suas ações militares, mas no século XIII, toda a iniciativa passou a depender dos socorros

vindos do Ocidente e das ordens militares que substituíram a nobreza local na função de cruzados permanentes.

As ordens militares nasceram da necessidade de proteger os peregrinos que percorriam a

estrada de Jaffa a Jerusalém, que não era muito segura no começo do século XII. A

comunidade destinada a “servir aos pobres” no albergue de São João de Jerusalém, a partir de

1050, militarizou-se pouco a pouco sob o comando de seu grão-mestre Raymond du Puy

(1120-1154), embora conservasse as funções caritativas originais e o nome de Cavaleiros

hospitalários. Os templários eram, em seus primórdios (1118), um pequeno grupo de

cavaleiros originários da região da Champanha que protegiam os peregrinos e que haviam

sido alojados em uma parte do palácio construído no lugar do antigo Templo de Jerusalém –

sendo esta a origem de seu nome – e obtiveram do papa, em 1128, uma “regra” que fundou a

“Milícia de Cristo”, da qual São Bernardo [Bernard de Clairvaux] logo escreveu um elogio

( 37 De laude novae militiae). As duas ordens se distinguiam das demais comunidades

religiosas por meio de sua hierarquia: a Ordem do Templo, sob a autoridade de um grão-

mestre assistido por “grandes oficiais”, por exemplo, reunia “irmãos capelães” (padres

ordenados), “cavaleiros templários”, recrutados exclusivamente na aristocracia, e “sargentos”

recrutados entre homens livres, embora plebeus. A partir de 1130, os efetivos e o poder das

ordens aumentaram consideravelmente: elas passaram a reconhecer exclusivamente a

autoridade do papa e a receber numerosos donativos tanto no Oriente como no Ocidente. Suas

grandes residências européias (as commanderies ou quartéis) eram agrupadas em priorados

ou langues (províncias organizadas de acordo com a nacionalidade), administravam os bens

da ordem, convocavam homens e reuniam dinheiro para o socorro da Terra Santa. Munidas de

grandes quantidades de dinheiro dos dois lados do Mediterrâneo, a partir do século XII as

ordens se tornaram os banqueiros das cruzadas, praticando o transporte marítimo real de

moeda (como ocorreu com as somas legadas por Henrique II Plantageneta da Inglaterra para a

defesa do reino de Jerusalém, em 1182) ou executaram funções de compensação (veja

descrição deste tipo de operações na p. 94). Também exerceram suas ações através do

Ocidente. Na Espanha, talvez pelo exemplo dos ribates da dinastia almorávida (fortes

defendidos por comunidades de ghâzis, ou combatentes voluntários em defesa da fé

muçulmana), as ordens militares receberam a guarda de castelos de fronteira antes mesmo que

qualquer um lhes fosse confiado na Terra Santa. Na Alemanha, os Cavaleiros do Gládio e

logo depois os Cavaleiros Teutônicos, organizados segundo o modelo dos Hospitalários e

apoiados pela dinastia dos Hohenstauffen a partir da Terceira Cruzada, abandonaram aos

poucos a Terra Santa e, durante o século XIII, dirigiram uma série de “cruzadas” para a

evangelização dos pagãos bálticos e eslavos, especialmente os prussianos e os lituanos,

criando nos territórios conquistados um estado guerreiro de caráter religioso.

Na Terra Santa, durante todo o século XII, as ordens podiam fornecer, tão logo fosse

solicitado, um exército de quinhentos cavaleiros e um número igual de turcópolos, sempre

prontos a entrar em campanha; logo a seguir, passaram a exercer um papel crescente na

guarda, conservação e construção de fortalezas. Durante a primeira metade do século XII,

estas imitavam ou utilizavam totalmente o modelo das construções bizantinas anteriores

(muralhas quadradas com uma torre em cada canto, servindo como base para uma defesa ativa

que era reforçada por ataques inesperados sobre os sitiantes). A partir de 1160, as ordens já possuíam um terço das praças de guerra do reino de Jerusalém e, na Síria setentrional,