Cruzadas

Cécile Morrisson · Capítulo 5 de 20

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Cruzadas

II. O sucesso dos cruzados perante um inimigo dividido

fundado desse modo, com o nome de condado de Edessa. Nem por um momento se considerou

a possibilidade de devolver a Bizâncio essa cidade que lhe pertencera anteriormente à

chegada dos turcos.

As dificuldades sofridas durante o cerco de Antioquia, exploradas em proveito próprio por

Bohémond, conduziram a um resultado semelhante. O bloqueio da cidade foi completado em

novembro, com o apoio do material e dos barcos de uma frota genovesa. Mas o inverno

tornava o aprovisionamento cada vez mais difícil. Apesar de diversas vitórias obtidas sobre

os exércitos enviados de Damasco e depois de Alepo em socorro de Antioquia (entre

dezembro de 1097 e fevereiro de 1098), o moral dos sitiantes chegou a um nível bastante

baixo. As deserções foram numerosas: inicialmente Pedro, o Eremita foi em frente com seus

seguidores, um pouco depois afastou-se o bando comandado por Étienne de Blois, logo a

seguir o chefe do contingente bizantino também se afastou, após ter sido facilmente persuadido

por Bohémond de que a bem da paz era preferível que tomasse a estrada, porque havia

suspeitas de que Aléxis estava conspirando com os turcos em vez de trazer mais tropas em

socorro dos cruzados. Explorando o ressentimento já existente contra os bizantinos, Bohémond

conseguiu que os demais chefes lhe prometessem a posse da cidade, desde que ele fosse o

primeiro a ingressar nela com suas tropas, sob a condição de que o imperador não viesse

pessoalmente reclamar sua posse. Tendo obtido a cumplicidade de um dos defensores, ele

pôde de fato entrar em Antioquia no dia 3 de junho, sendo seguido por outros regimentos de

cruzados; mas logo se transformaram de sitiantes em sitiados, apertados entre os turcos que

permaneciam na cidadela central e um grande exército de socorro chefiado por Kerbogha, o

emir de Mossul. Foi necessário que os padres tivessem uma série de visões enviadas por

Deus, que conduziram à descoberta da mais preciosa das relíquias, a Lança Sagrada, para

impedir que o derrotismo tomasse conta de todo o exército; tal milagre levou os principais

comandantes a jurar que “jamais abandonariam Antioquia e nem sairiam de suas muralhas,

senão por consentimento comum de todos”. Contudo, os fugitivos anteriores, persuadidos de

que a queda da cidade era iminente, foram reunir-se com Aléxis, que já chegara à altura de

Filomélia, comandando um exército que vinha em socorro dos cruzados; seus relatos

pessimistas, o desejo de consolidar as recentes conquistas feitas pela cruzada (Esmirna,

Éfeso, Sardes e uma parte da antiga Lídia) e o medo de medir forças com Kerbogha,

considerado um grande general, levaram Aléxis a desistir. Desse modo, a segunda condição

apresentada fora satisfeita, Bohémond conduziu o exército cruzado à vitória sobre as forças de

Kerbogha (28 de junho) e se tornou o senhor incontestado de Antioquia. Apenas Raymond de

Saint-Gilles, mais por inveja do que por fidelidade, insistiu que os direitos do imperador

deveriam ser respeitados. Mas como Aléxis não trouxera a ajuda prometida a seus vassalos,

eles se consideraram desligados de seus compromissos para com o suserano e esse foi o sinal

para o rompimento definitivo entre a cruzada e Bizâncio.

 

II. O sucesso dos cruzados perante um inimigo dividido

1. A divisão do Oriente Próximo – Apenas a multiplicidade de divisões políticas do

Oriente Próximo muçulmano no final do século XI explica o sucesso inicial da Primeira

Cruzada. Dois grandes grupos dividiam o domínio dessas regiões: ao sul, o califado da dinastia fatímida do Cairo se estendia sobre o Egito e uma parte da Palestina, mas todo o

restante do Oriente Próximo se achava sob o controle dos turcos seljúcidas. Originários do

norte da Transoxiana (Turquestão Ocidental, além do rio Óxus), estes turcos nômades,

convertidos ao Islã por volta do final do século X por missionários sunitas, tornaram-se

inicialmente mercenários a serviço dos principados iranianos, depois senhores da região de

Khorassam e a seguir “libertaram” o califa da dinastia Abássida de Bagdá da tutela dos

vizires persas considerados heréticos (porque eram xiitas), no ano de 1055. Tughril Beg,

genro do cã Seldjuk, recebeu daquele o título de sultão, que lhe confiava o poder, em nome do

Islã e a serviço do califa, e a missão de fazer triunfar a ortodoxia muçulmana sunita. Sob seus

sucessores, no final do século XI, o império da dinastia seljúcida se estendeu do Irã à Síria,

conquistada em parte dos fatímidas do Egito, e à Ásia Menor, tomada dos bizantinos. As

incursões dos turcomanos na Anatólia, a vitória de Alp Arslan sobre o imperador bizantino

Romano IV na batalha de Mantzikert (1071) e as guerras civis que então grassavam no Império

bizantino permitiram aos turcos avançar até o estreito do Bósforo.

As lutas dinásticas que se seguiram à morte do sultão Malik Shah, em 1092, levaram à

divisão do Império seljúcida em uma série de principados rivais, em que o poder pertencia

aos atabegs (regentes em nome de um príncipe menor de idade). Na Ásia Menor, Kilidj

Arslan tornou-se senhor de um sultanato independente, chamado por eles de Rum (corruptela

de “romano”, o nome que davam a si mesmos os bizantinos), cuja capital, inicialmente Nicéia,

foi transferida para Icônio (Konya) depois da vitória dos cruzados que resultou na tomada

daquela cidade. A leste da Anatólia, uma série de principados turcomanos se opunha aos

esforços de unificação do sultanato de Rum. Os turcos danismendidas da Capadócia se

coligaram tardiamente ao sultanato para tentar deter o avanço dos cruzados, embora

permanecessem seus rivais durante todo o decorrer do século XII.

A Alta Mesopotâmia (chamada pelos turcos de Djarbequir ou Diyar-Bekir) era dominada

por outros grupos turcomanos que jamais se haviam submetido ao governador turco de

Mossul; os principais dentre eles eram os ortóquidas, que, sabendo contrabalançar em seu

favor as outras potências, permaneceram autônomos até o século XV. A Síria, conquistada por

Tutush, irmão de Malik Shah, fragmentou-se rapidamente: os filhos de Tutush, Ridvan e

Dukak, se assenhorearam um de Alepo e o outro de Damasco; cádis locais, em Trípoli,

Apaméia ou Shaizar, tornaram-se a seguir independentes. Finalmente, a dinastia dos fatímidas

do Egito, depois de ter sido expulsa da Síria setentrional e até mesmo da Palestina pelos

seljúcidas, aproveitou a cruzada para retomar Jerusalém do chefe turco que se havia

apoderado da cidade.

A essas divisões políticas se acresciam as rivalidades religiosas ou étnicas: os turcos

sunitas constituíam uma classe militar pouco numerosa, que dominava uma população árabe de

caráter bastante heterodoxo (principalmente xiitas ou ismaelitas) e grupos que haviam

permanecido cristãos. Na Síria setentrional, em que os cristãos eram pouco numerosos, os

armênios exerceram um papel preponderante na instalação dos primeiros cruzados, que eles

guiaram, informaram, aprovisionaram e, em certos casos, como em Edessa, até mesmo

chamaram em seu socorro. No resto da Síria, as minorias cristãs (ortodoxos, melquitas e

sobretudo monofisitas) viviam submetidas ao regime da 13 dhimma . Na administração fatímida do Egito, os cristãos coptas (monofisitas) ainda ocupavam numerosos cargos públicos. Os

seljúcidas não tinham piorado em nada a sorte dos cristãos da Palestina, os quais não haviam

absolutamente apelado para a instauração da cruzada. Desse modo, ela não foi percebida no

Oriente Próximo muçulmano sob seu aspecto religioso, mas simplesmente como uma

expedição militar semelhante às que haviam invadido a Síria desde o final do século X sob o

comando dos imperadores bizantinos Nicéforo Focas e Ioannes Tzimisces. A chegada dos

“francos” apenas serviu para introduzir mais um grupo de atores no jogo político complexo

das regiões periféricas do Oriente muçulmano.

 

2. A Primeira Cruzada e suas primeiras conquistas (1099 a 1125) – A partir da tomada

de Antioquia surgiram os primeiros problemas do estabelecimento dos cruzados. Já em

novembro de 1098, Raymond de Toulouse disputava com Bohémond sua conquista de

Antioquia, invocando o respeito devido aos direitos do imperador bizantino. Durante o verão,

quando uma epidemia grassou em Antioquia e causou a morte do legado papal, Adhémar de

Monteil, os chefes cruzados se espalharam pelas regiões vizinhas e se apoderaram de cidades

localizadas mais ao sul, como Lataquiá e Marrate, consolidando assim as posições adquiridas

na Cilícia. As discussões contínuas no conselho dos barões com referência à posse de

Antioquia e ao comando supremo, na ausência de um legado, irritaram o restante do exército,

que destruiu as fortificações de Marrate, conquistada por Raymond de Saint-Gilles, para

forçá-lo a ir embora. Em 13 de janeiro de 1099, finalmente o exército tomou o caminho de

Jerusalém, acompanhando o vale do rio Orontes, sem ser importunado pelos emires árabes da

região. Voltando-se em direção ao mar, os cruzados conquistaram Tortosa e Maracléia, mas

Raymond de Toulouse foi obrigado a levantar o cerco de Arca, cidade que ele pretendia

tornar o centro de suas futuras possessões, pela pressão de seu próprio exército. Seguindo a

costa até Jaffa, os cruzados entraram em Belém em 6 de junho e, no dia seguinte, iniciaram o

assédio de Jerusalém. A cidade, cercada de ravinas, salvo pelo norte, era fortificada e

esperava socorro do Egito, ao mesmo tempo que os sitiantes, com falta de água e de madeira e

até mesmo de armas, não se consideravam numerosos o suficiente para atacar as muralhas da

cidade. Uma expedição a Samaria e a chegada de uma frota genovesa em Jaffa forneceram por

sorte o material necessário para a construção de máquinas de ataque. Foi realizada uma série

de jejuns purificadores e foi feita uma procissão ao redor da cidade que terminou com a

ascensão ao monte das Oliveiras, o que contribuiu para devolver à cruzada o seu sentido de

peregrinação e ao exército o seu espírito de ofensiva. Após um assalto difícil, que durou dois

dias, a cidade foi tomada em 15 de julho.

 

Após entrarem na cidade, os peregrinos perseguiram e exterminaram os sarracenos até o Templo de Salomão [...] onde

ocorreu um tal massacre que os nossos tinham de chapinhar em uma lagoa de sangue que lhes chegava até os tornozelos.

[...] Logo os cruzados se espalharam por toda a cidade, pilhando ouro e prata, cavalos e mulas e saqueando todas as casas,

que estavam cheias de riquezas. Depois disso, felizes e chorando de alegria, os nossos foram adorar no Santo Sepulcro de

Nosso Salvador Jesus Cristo e tiveram quitada a sua dívida para com Ele.14

 

Depois de três anos de privações, o desencadeamento dos piores instintos, lado a lado com

a exaltação religiosa, conduziu a esse massacre. Acompanhada de mais violência do que as

perseguições de Al-Hakim, a tomada de Jerusalém se revelou para o Islã o sinal mais claro da intolerância cristã.

Para os cruzados, a captura da cidade marcou a um só tempo a realização do objetivo de

sua peregrinação e a sua transformação na guarda do túmulo de Cristo. Na verdade, satisfeitos

por terem atingido seu alvo, realizado suas devoções na Cidade Santa e se purificado com a

água do Jordão, um certo número dos peregrinos, acreditando sinceramente ter cumprido seus

votos, partiu de volta para o Ocidente nos meses seguintes e difundiu pelas terras européias a

notícia do triunfo da cristandade. Eleito príncipe pelos eclesiásticos e pelos chefes militares

da cruzada, seus pares, que lhe deram preferência sobre Raymond de Toulouse porque sua

personalidade era mais fraca, Godefroi de Bouillon assumiu o título de procurador [judicial]

do Santo Sepulcro, reservando assim os direitos preponderantes da Igreja sobre o estado

recém-fundado. A ajuda dos outros príncipes também lhe permitiu surpreender o exército

egípcio em Ascalon (julho de 1099) e assegurar com a vitória a sobrevivência de sua jovem

nação. Mas em setembro ele descobriu que se achava sozinho, com apenas trezentos

cavaleiros e cerca de dois mil infantes de suas próprias tropas para defender todas as

conquistas recentes (Jerusalém, Jaffa, Lidda, Ramalá, Belém e Hebron), às quais logo

acrescentou a conquista da Galiléia. Os “estabelecimentos” cruzados não eram nesse

momento, portanto, mais que um grupo de cidades perigosamente isoladas – cerca de

setecentos quilômetros separavam Jerusalém de Antioquia ou de Edessa –, além de disporem

de pouco acesso ao mar, a sua única linha de comunicação com o Ocidente.

Mas a cruzada continuava a ser pregada de cidade em cidade através do Ocidente, e o

anúncio da queda de Jerusalém contribuiu para incitar a partida de novas multidões, enquanto

o papa Pascoal II pronunciava a excomunhão contra aqueles que, segundo seu ponto de vista

não haviam cumprido seus votos, reenviando para Jerusalém os desertores, entre eles Étienne

de Blois e Hughes de Vermandois. Formaram-se muitos exércitos regionais, freqüentemente

compostos por mais de mil homens. Os lombardos, sob o comando do arcebispo de Milão,

chegaram a Constantinopla na primavera de 1101 e, em lugar de esperarem a chegada de

outros grupos, recusaram os conselhos de Raymond de Saint-Gilles, que fora nomeado seu

guia pelo imperador Aléxis, dirigindo-se para a Anatólia setentrional na esperança de libertar

Bohémond, que a essa altura fora derrotado, capturado e aprisionado pelos turcos

danismendidas. A leste do rio Hális, cercados em território hostil pelas forças conjugadas dos

turcos e do exército de Ridvan de Alepo, eles foram quase inteiramente massacrados. Ao

mesmo tempo, os exércitos conduzidos por Guillaume II de Nevers, Guillaume IX da

Aquitânia e Welf IV da Baviera foram sucessivamente destruídos perto de Heracléia. Devido

à sua falta de união, os “cruzados da retaguarda”, de fato compostos por exércitos tão

numerosos quanto os da Primeira Cruzada, fracassaram na Anatólia diante da unidade

provisória dos turcos, reunidos temporariamente para rechaçar o inimigo comum.

Isso deixou bastante claro que os socorros somente podiam chegar à Terra Santa por via

marítima, sendo encaminhados ou fornecidos pelas cidades italianas. As frotas genovesas já

haviam ajudado muito, tanto na tomada de Antioquia como na de Jerusalém. No ano de 1100, o

arcebispo Daimberto de Pisa, conduzindo uma esquadra de 120 navios, contribuiu para a

fortificação de Jaffa. Mas as forças de que dispunha foram utilizadas principalmente para

satisfazer suas próprias ambições: ele conseguiu desse modo ser nomeado patriarca de Jerusalém, obteve o reconhecimento de sua suserania sobre o principado de Antioquia e o

reino de Jerusalém e até mesmo alcançou a doação de um quarto da Cidade Santa, depois de

uma parte e, finalmente, da totalidade da cidade e do porto de Jaffa. Talvez tenha sido para

contrabalançar sua influência que Godefroi prometeu aos venezianos, cuja frota acabara de

chegar e tomara Caifás (Haifa), um terço de todas as cidades que o ajudassem a conquistar,

além de privilégios importantes. Com a morte de Godefroi nesse mesmo ano, as conquistas

previstas foram realizadas por seu irmão Balduíno I (1100-1118), chamado à sucessão em

virtude dos costumes dinásticos das terras de que provinha. Ele abandonou seu condado de

Edessa, confiando sua defesa a seu primo Balduíno de Bourg e exigiu sua coroação como rei

de Jerusalém, o que foi realizado em Belém pelo patriarca no Natal do ano de 1100. Em 1101,

ele capturou Arsufe e Cesaréia; em 1104, tomou São João de Acre com a ajuda dos genoveses;

em 1105, derrotou em Ramalá uma nova ofensiva fatímida apoiada pelo atabeg de Damasco;

apoderou-se de Beirute em 1109 e conquistou Sidon em 1110, com o apoio das frotas trazidas

por Sigurd, o rei da Noruega.

Também foi necessário o apoio das frotas genovesas para conquistar as principais cidades

do futuro condado de Trípoli, a ser fundado por Raymond de Toulouse, que retornara de

Constantinopla e logo conseguiu tomar Tortosa (1102), onde construiu, com a ajuda dos

bizantinos, a fortaleza do monte dos Peregrinos, uma fortificação destinada a bloquear o

acesso a Trípoli pelo lado da terra (1103). Conquistou, ainda, Djibelete nesse mesmo ano,

com a ajuda do genovês Ugo de Embriacci. Em 1109, Trípoli foi tomada depois de um longo

cerco, com a ajuda de uma nova frota mista, genovesa e provençal, comandada por Bertrand,

filho de Raymond, e auxiliada em terra pelas forças de outros príncipes cruzados.

Na verdade, o problema da sucessão após a morte de Raymond de Toulouse havia reunido

sob os muros de Trípoli todos os barões em um conselho presidido por Balduíno I. A paz foi

restabelecida e a cidade tomada somente depois que um compromisso foi alcançado (a

partilha do condado entre os dois pretendentes, Guillaume Jourdain, vassalo do conde de

Antioquia, e Bertrand, vassalo do rei de Jerusalém). Pouco depois, o assassinato de

Guillaume Jourdain permitiu a unificação do condado de Trípoli sob a égide de Bertrand, para

proveito indireto do rei de Jerusalém, que se tornou seu suserano. Balduíno I, árbitro entre os

demais príncipes cruzados, havia adquirido uma autoridade moral que ele empregaria,

sempre que houvesse necessidade, em defesa de toda a Síria franca e igualmente na defesa dos

demais estados cruzados.

Os condados de Antioquia e de Edessa passaram realmente por uma evolução interior e

exterior bem mais perturbada que a do reino de Jerusalém. Tão logo foi libertado, Bohémond

de Antioquia, aliado a Balduíno de Edessa, que fora ameaçado pelo atabeg de Mossul e pelo

emir de Mardim, foi novamente derrotado perto de Harran (1104). Balduíno foi feito

prisioneiro. Ridvan de Alepo retomou Artá e outras praças que dominavam o desfiladeiro que

conduzia à planície de Antioquia, ao mesmo tempo que os bizantinos ocupavam as cidades da

Cilícia. Deixando a regência de seu condado nas mãos de Tancredo, Bohémond partiu para o

Ocidente a fim de originar uma nova cruzada, desta vez dirigida contra os bizantinos

“traidores” da causa cristã. A expedição que ele empreendeu contra a Grécia fracassou diante

de Dirraquion e, segundo os termos do tratado que Bohémod foi forçado a assinar com Aléxis

I, ele prometeu lhe prestar homenagem em função de Antioquia e comprometeu-se como vassalo contra seus inimigos (1108). Mas Tancredo se recusou a reconhecer o tratado e, na

ausência de Bohémond, retomou tanto dos bizantinos como dos governantes de Alepo quase

todos os territórios perdidos.

A vitória turca em Harran, no ano de 1105, foi a primeira das contra-ofensivas lançadas

contra os francos pelo novo sultão, senhor do Irã ocidental e de toda a Mesopotâmia, que

enviou novamente Madude, o atabeg de Mossul, contra Edessa (1110). A cidade só foi salva

pelas tropas francas trazidas por Balduíno I, mas tornou-se necessário evacuar as populações

do leste do Eufrates que dela dependiam, o que não impediu que boa parte delas fossem

massacradas durante a fuga. Em 1113, uma nova campanha de Madude, dirigida então contra o

reino de Jerusalém, fracassou graças ao socorro trazido a Balduíno por Tancredo de

Antioquia e Bertrand de Trípoli. O que ocorria era que os príncipes sírios muçulmanos

temiam que a guerra contra os francos não passasse de um pretexto do sultão para dominar a

todos: por ocasião de sua quarta campanha, Madude foi assassinado em Damasco por

instigação do atabeg Toghtekin; em 1115, o novo atabeg de Mossul, ao comando de um

exército iraquiano, se lançou contra a coalizão dos francos e dos Sírios. Em uma emboscada

em Tell Danith, seu exército foi destruído por Rogério de Antioquia. Il-Ghazi, príncipe da

dinastia ortóquida, retomou a ofensiva em 1119, por sua própria conta e risco, conquistando

Alepo, que ainda era muçulmana, e derrotando o exército de Antioquia perto de Artá. Rogério

morreu em combate e o número de cristãos mortos foi tão grande que o lugar da batalha

passou a ser conhecido pelo nome de 15 ager sanguinis . Balduíno II (1118-1131) ou Balduíno

de Bourg, que sucedera a Balduíno I em Jerusalém depois de tê-lo substituído em Edessa,

assumiu a regência e acorreu em defesa de Antioquia, alcançando sucesso depois de várias

campanhas. Entretanto, na ocasião em que marchava em socorro de Edessa, cujo conde Jocelin

tinha sido capturado, ele próprio foi feito prisioneiro pelos turcos ortóquidas, já no ano de

1123.

Apesar da ausência de seus príncipes prisioneiros, os Estados cruzados se mantiveram. O

segundo decênio do século XII marcou mesmo o ponto culminante de sua expansão. Ao norte,

o condado de Edessa teve de abandonar aos turcos algumas de suas praças mais avançadas

(Gárgara, por exemplo, em 1118), mas por meio de Samosata e de Marache ao norte e graças

às duas fortalezas de Ravendel e de Turbessel ao sul protegeu a fronteira setentrional do

condado de Antioquia. Este se estendia agora desde a Cilícia (que fora reconquistada dos

bizantinos em 1108) ao norte até Djabala e Marcabe ao sul. No interior, ele já possuía os

territórios do Ultra-Orontes em que as fortalezas de Alataribe (Aintabe), Cafartabe e Marrate,

que podiam ameaçar a Alepo muçulmana, eram freqüentemente disputadas. Os principados do

norte constituíram assim uma barreira que impediu as comunicações diretas entre os turcos da

Anatólia e os da Mesopotâmia até o século XIII.

O condado de Trípoli ocupava a costa libanesa de Tortosa a Djibelete e toda a região

montanhosa do interior. Essa posição estratégica permitiu-lhe exigir dos damascenos, a partir

de 1109, a partilha das receitas da rica planície que formava o vale do rio Bêcaa (situado

entre os montes do Líbano e os do Anti-Líbano). O último dos estados latinos a ser criado

assegurava as comunicações entre o norte e o reino de Jerusalém. Este último abrangia então

toda a Galiléia e o planalto da Judéia até a depressão do rio Jordão. Ao sul, Balduíno I tivera sucesso em conquistar uma cabeça-de-ponte do outro lado do rio; os beduínos do deserto se