Cruzadas

Cécile Morrisson · Capítulo 4 de 20

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Cruzadas

Capítulo II: Da primeira à terceira cruzada: a criação e a defesa dos estados latinos na terra santa

CAPÍTULO II

 

DA PRIMEIRA À TERCEIRA CRUZADA:

 

I. A Primeira Cruzada e Aléxis I Comneno

Formada por contingentes feudais sobrecarregados por não-combatentes marchando

isoladamente, a cruzada não correspondia em absoluto à vontade do papa, que havia desejado

uma expedição unificada, dirigida espiritualmente por seu legado religioso e secularmente por

um comandante militar leigo. Ela correspondia ainda menos aos desejos do imperador

bizantino, que havia triunfado sobre os invasores petchenegos ao norte, derrotara Tzachas, o

emir de Esmirna, e estabelecera por meios diplomáticos um relacionamento pacífico com o

sultão dos turcos seljúcidas de Rum, Kilidj-Arslan, que estabelecera sua capital em Nicéia. A

chegada da cruzada apresentava ao Império graves problemas de abastecimento e de

vigilância. Anna Comneno – escrevendo cerca de vinte anos após os acontecimentos, mas

relatando, sem a menor dúvida, os pensamentos de seu pai, o imperador Aléxis I – não

colocava em questão a sinceridade dos “peregrinos pobres”, mas suspeitava que os barões

tinham intenções bem menos pacíficas. De fato, como poderiam não sentir receio ao verem

reaparecer seu antigo adversário Bohémond, mesmo depois de quinze anos e usando a túnica

de um cruzado, já que o haviam conhecido anteriormente como invasor? Todavia, Aléxis I,

informado de antemão, havia mandado preparar depósitos de provisões e garantiu aos

cruzados que lhes facilitaria a passagem através de seus territórios, sob a condição de que

respeitassem seus compromissos de um trânsito pacífico.

Os primeiros incidentes ocorreram por causa da cruzada “popular”, muitas vezes incapaz

de comprar seus mantimentos e inclinada à pilhagem até mesmo nos arredores de

Constantinopla. Segundo relata Anna Comneno, os bandos comandados por Walter Sem Terra

e Pedro, o Eremita exigiram, em agosto de 1096, que lhes dessem transporte para a costa

asiática. Tão logo cruzaram os estreitos, começaram a assaltar as aldeias cristãs, iniciaram

incursões sobre os territórios pertencentes aos turcos e acabarem sendo, em grande parte,

massacrados por eles (outubro de 1096), embora os sobreviventes fossem reconduzidos a

Constantinopla por embarcações bizantinas. Justamente nessa época, as primeiras tropas

regulares estavam chegando à capital sem encontrar grandes dificuldades, mesmo porque eram

pouco numerosas. Os incidentes começaram a surgir com a chegada de tropas mais

importantes e ocorreram entre os soldados de Raymond de Toulouse e os mercenários

petchenegos que os escoltavam, e entre as tropas de Bohémond e os habitantes da cidade de

Castória, que lhes haviam recusado provisões, tendo aumentado principalmente com a difusão

entre os últimos contingentes, ainda em marcha pelas estradas, de notícias imprecisas sobre o

fracasso das negociações entabuladas em Constantinopla pelos comandantes da vanguarda e

também sobre as condições negativas sob as quais os primeiros batalhões estariam sendo

recebidos.

O primeiro comandante importante, Hughes de Vermandois, havia prestado juramento a

Aléxis, sem lhe apresentar grandes objeções, nos mesmos termos que este esperava obter de

todos os chefes da cruzada: devolver ao império todas as terras que lhe pertenciam antes da invasão turca, prestar juramento de vassalagem ao imperador por conta dos feudos formados

por todas as outras terras que viessem a conquistar no Oriente e lhe prometer fidelidade. Essa

foi a maneira descoberta pelo imperador de utilizar os costumes ocidentais para garantir a

futura colaboração dos cruzados; porém, Godofredo de Bulhões, que já era vassalo do

imperador germânico, recusou-se a prestar juramento de vassalagem a um segundo suserano.

Só depois que o imperador bizantino mandou cortar os víveres anteriormente fornecidos a

suas tropas é que ele acedeu. Raymond de Saint-Gilles, pretextando que não poderia servir a

outro suserano que não fosse o próprio Cristo, limitou-se a jurar respeitar a vida e a honra do

imperador. Bohémond assumiu de boa vontade o compromisso exigido, mas solicitou, em

troca, que o imperador o nomeasse “grande doméstico” do Oriente, um posto que lhe daria o

comando das forças imperiais na Ásia Menor e, em conseqüência, o comando de toda a

expedição cruzada. Tal demanda revela as verdadeiras intenções do chefe normando, ou seja,

de tornar-se um grande mercenário a serviço do imperador, o que significava igualmente que,

mais adiante, em caso de necessidade, ele usaria em proveito próprio a força e as riquezas

assim adquiridas.

Leais em seus atos, mesmo que seus pensamentos fossem de teor diferente, os outros chefes

da Primeira Cruzada, que então estava inteiramente reunida na Ásia Menor, a partir de maio

de 1097, se comportaram como se fossem mercenários do imperador. Sitiaram Nicéia, o

exército mandado em socorro da cidade por Kilidj-Arslan foi vencido e, em 19 de junho, a

guarnição turca entregou a cidade aos bizantinos. Já nesse momento, apesar da generosidade

de Aléxis para com os cruzados, começaram a correr murmúrios contra o que chamavam de

sua astúcia, e a sua benignidade para com os infiéis que se haviam rendido foi taxada de

“conluio”. Mas os relacionamentos oficiais não foram alterados e a cruzada se pôs em

movimento para o leste, acompanhada por um contingente de tropas regulares bizantinas. A 1º

de julho, a vitória na batalha de Doriléia sobre o exército de Kilidj-Arslan abriu a estrada

para a Anatólia, mas o exército passou a progredir com dificuldade, sofrendo fome e sede,

perdendo grande número de cavalos e responsabilizando os guias gregos por todos os seus

percalços. Vencedores dos turcos danismendidas e do emir da Capadócia na batalha de

Heracléia, os cruzados transpuseram os montes Taurus e chegaram na Cilícia, onde foram

acolhidos favoravelmente pelos cristãos armênios que se haviam instalado ali na metade do

século XI. Em 20 de outubro, depois de quatro meses de marcha, o exército finalmente fez uma

pausa diante das muralhas de Antioquia da Síria.

Figura 2 – Os países fundados pelos cruzados (as fronteiras indicadas são as dos feudos no momento de sua maior expansão,

na primeira metade do século XII)

 

O cerco de Antioquia, que fora bizantina até 1085, foi uma estratégia crucial no

desenvolvimento da Primeira Cruzada: nesse ponto começaram a se manifestar as ambições

territoriais dos barões cruzados e se completou a ruptura com Bizâncio. A essa altura,

Tancredo, sobrinho de Bohémond, e Balduíno de Boulogne já se haviam apoderado, por sua

própria conta e risco, das cidades cilicianas de Tarso e de Mamistra, mas as tinham

abandonado depois de uma série de dissensões. Balduíno se dirigiu então com suas tropas à

região do Alto Eufrates. Após conquistar as cidades de Ravendel e de Turbessel, ele as

entregou como feudo aos companheiros armênios que o haviam guiado; chamado a Edessa

pelo nobre armênio Thoros, que desejava retirar o jugo turco de seus ombros, tornou-se seu

filho adotivo e herdeiro. Mas logo se livrou do pai adotivo em conseqüência de uma revolta popular que não o desagradou nem um pouco (março de 1098). O primeiro Estado Cruzado foi