Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba

José Luciano Albino Barbosa · Capítulo 1 de 23

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Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba

Apresentação

 

O livro: “Cultura de Engenho de Cana na Paraíba: por uma Sociologia da Cachaça”, de autoria do querido amigo e hoje colega de profissão, José Luciano Albino Barbosa, que tenho o prazer de apresentar, é um convite e uma viagem pelos caminhos e trilhas que conduz a um cenário que teima em permanecer tradição, convivendo ora harmônica, ora conflitivamente, com outro que se autodenomina moderno.

O livro etnografa uma espécie de “dois mundos”: o “mundo do engenho Serra Preta”, do cheiro da cana-de-açúcar, do mel, da rapadura, do melaço e da cachaça, que provoca tantas sensações e subjetividades ancoradas nas lembranças de um nostálgico tempo que não morreu, comandado pela carinhosamente denominada pelo autor, menina de engenho, Sra. Eliane, uma mulher de força e fibra, uma “sobrevivente” e representante dos lugares e pessoas tão bem narrados na obra de José Lins do Rego, para quem o autor desde já se afirma admirador e seguidor, e que produz a cachaça em pequena escala, cerca de vinte mil litros por ano, e um “outro mundo”, o mundo do mercado, da lógica do consumo e do lucro, da lógica industrial de produção e comercialização da cachaça, aqui representados pelos engenhos que produzem as cachaças São Paulo, com cerca de cinco milhões de litros por ano e Volúpia, com a produção de trezentos mil litros por ano.

Mas esse livro é também, e, sobretudo, uma viagem etílica, tal como o efeito causado pelo álcool, que embriaga e dá prazer; esse livro pode ser lido como e com uma profunda e saudável embriaguez, pois ele trata de uma viagem em busca da arqueologia desse líquido tão apreciado pelo povo brasileiro e marca de nossa identidade nacional.

A cachaça, essa “marvada”, é o pretexto para o nosso autor propor o que muito sabiamente chamou de “Sociologia da Cachaça”, Sociologia da Cachaça!? Quando ele, certo dia, procurou-me e me falou de seu intento em pesquisar a cachaça, inicialmente levei um susto e, de imediato, indaguei para mim mesma: “qual o sentido de se pesquisar a cachaça?” Até então a minha familiaridade com tal tema era muito mais prática do que teórica.

Não esqueço como esse líquido marcou meus primeiros anos de vida universitária, quando ainda pelos idos da década de oitenta, reuníamo-nos, cerca de seis a sete amigos do Curso de Ciências Sociais e na companhia de muitos “quintinhos” e várias porções de caldo de peixe, brincávamos de porrinha para ver quem engolia de um só gole uma dose de cachaça enquanto tramávamos a revolução socialista e discutíamos efusivamente Marx, Lênin, Durkheim, Weber e tantos outros teóricos a embalarem nossos sonhos juvenis.

Mas em meus devaneios e rasgos de memória, voltei meus olhos e sentidos para refletir no que efetivamente um tema sobre a cachaça poderia trazer de inovador, de interessante para a academia e, particularmente, para um programa de Pós-Graduação em Sociologia. Foi aí, caro leitor, que se descortinou para mim a riqueza de tal estudo.

Luciano Albino, com muita clareza e competência, propõe e realiza uma Sociologia da Cachaça, descortina um cenário de cheiros, sons e sentidos que certamente apaixonará o leitor ávido em também querer experimentar tantas sensações.

O seu texto é claro, objetivo e profundamente emocional, talvez seu maior talento e contribuição acadêmica seja a sensibilidade construída para narrar o tema. Seu estilo de escrita é romancístico, e a forma como analisa a produção e comercialização da cachaça deixa clara a sua intenção: promover uma interseção entre a Sociologia e a Literatura, e isso é um grande mérito de sua produção.

Para escrita de seu texto, ele parte de uma constatação: o processo de ressignificação da cachaça a partir dos anos 90, com particular e especial atenção para as transformações de sua imagem. Assim, o tema desse livro, a cachaça, é um pretexto não só para nos embriagar de vontade de ler tal escrito, mas principalmente é o tema principal de uma trama que está por se descortinar, e que até então, até que eu saiba, não havia sido notada e investigada: a mudança ética e estética da cachaça em nosso país.

Até pouco tempo atrás, até mesmo na minha época juvenil, que acima relatei, consumir cachaça era coisa de pobre, por essa ser uma das bebidas menos caras, se comparadas com outros destilados; era coisa de revolucionário reacionário que até para beber preferia “a bebida da terra” para não agradar ou favorecer o capital internacional, era coisa de cachaceiro sem vergonha, caído na sarjeta das ruas, largado à própria sorte; ou seja, a cachaça era um produto altamente estigmatizado, e quem tomava cachaça, não era uma “pessoa do bem”, do ponto de vista moral, era um desqualificado, um “João Ninguém, sem eira, nem beira”. Um estigmatizado como marginal, desqualificado, “pobre coitado”.

Esteticamente, o recipiente que continha tal líquido, parecia ser o que menos importava; bastava um nome no rótulo para identificar o fabricante, uma garrafa de um litro e estava resolvido o problema. Algumas pessoas compravam a garrafa e a dividiam em outras garrafas pet ou qualquer outro utensílio que pudesse transportá-la para ser consumida.

A partir da década de 90, há todo um processo de reinvenção ética e estética da cachaça, o que se observa é que paulatinamente a cachaça passa a ser classificada como um produto tão nobre quanto outros destilados, como o wisk ou a vodca; do ponto de vista comportamental e da mudança dos costumes, há uma profunda transformação: os consumidores já não sentem vergonha ou nenhum tipo de inibição em transportar e consumir a cachaça. São criados espaços especiais para o consumo da referida bebida: a cachaçaria, e parece que todo mundo resolve ser seu apreciador. Aquele que consome cachaça já não sofre o estigma de ser um “cachaceiro”, uma pessoa “menos nobre e refinada”, pelo contrário. Do ponto de vista estético, a transformação da imagem da cachaça de engenho é total, ela passa por toda uma reconfiguração: novos processos de engarrafamento, tamanhos das garrafas, rótulos, sabores, características de pureza, tradicionalidade no modo de produção da mesma etc. Tais transformações estimuladas pelo marketing e por toda uma “indústria sem chaminés”, o turismo incrementa tal ressignificação estética transformando a cachaça de engenho em souvenir, em peça para presentear amigos e parentes, em peça para colecionar, criando um novo sentido para o antiquário, enfim, um novo ambiente para o incremento do ecoturismo, da descoberta e reencontro de meninos e meninas de engenho, das Casas Grandes e das Senzalas, tão bem descritas por Gilberto Freyre e revividas e reatualizadas nesse texto.

Por tudo isso, este é um livro para ser lido não de um gole só, é preciso degustá-lo, gole a gole, descobrindo seus vários sabores que passeiam por um profundo e competente estudo teórico, onde autores e categorias teóricas são atualizados e utilizados para guiar o autor em sua empreitada; por um exaustivo estudo sobre a genealogia da produção da cachaça de engenho na Paraíba e por uma maravilhosa etnografia, que descortina sons e imagens de dentro da Casa Grande secular, que tantos segredos e mistérios guarda, tantas histórias de amor e ódio vividas entrecortadas pelo cheiro da cana, pelo barulho das máquinas de moer, pelos suores e odores dos trabalhadores.

É um lindo texto que o autor nos presenteia. Embriaguemo-nos todos nós com esse tema que nos faz viver reminiscências de um passado entrecortado pelo barulho de um mundo moderno, que reconfigura, repagina, reinventa, o tempo todo, nossos sentimentos e sensações, mas que não consegue, a despeito de toda modernidade e transformações, fazer com que não queiramos mais nos embriagar de vida, de recordações, de lembranças carregadas em nossa existência. Uma boa leitura!

Elizabeth Christina de Andrade Lima

(antropóloga).