Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba
Imagem e o uso da cachaça
minerais de uma alimentação incompleta, imposta pela
monocultura da cana. (CASTRO, 2001, p.140).
A monocultura da cana-de-açúcar é a principal responsável pelo desequilíbrio social e alimentar da população na Região da Cana. Povo carente de dieta saudável para seu bem-estar físico e emocional. A valentia, típica das pessoas da região, revela a falta de nutrientes e a fraqueza nervosa, ou simplesmente, a bravura é um sinal da miséria de nervos desvitaminados e superexcitados.
A leitura de Josué de Castro sobre a Zona da Mata do Nordeste brasileiro é a de percebê-la como área de fome, uma região de contrastes definida por uma monocultura sedenta de açúcar e devoradora de tudo o que se oponha à expansão canavieira. Como resultado disso, desequilíbrio econômico, social e alimentar, cultura que mói cana e homem.
Foi a produção extensiva da cana o instrumento econômico por excelência adotado pelo português para ocupação do território, pois possibilitou ao mesmo tempo inserção e fixação, domínio e lucro, estabilidade econômica e permanência. A definição de uma ordem social se estabelece nessa empreitada, de tal modo que, no Brasil, a cultura da cana vai além do canavial. Estabelece-se num leque maior de relações, o que evidencia a eficiência colonizadora do português nos trópicos.
Imagem e o uso da cachaça 19
O possível enriquecimento rápido com o comércio das drogas das Índias muito inspirou as grandes viagens nos séculos XVI e XVII. Na época, por droga se denominavam várias especiarias como pau-brasil, açúcar e tabaco ou simplesmente produtos secos usados na alimentação, na medicina e na tinturaria, todos, portanto, derivados de produtos naturais ou substâncias classificadas como fonte de prazer.
De acordo com Carneiro (2005), nos séculos XVI e XVII, as drogas brasileiras mais importantes eram o pau-brasil e o açúcar e, nesse contexto, droga era sinônimo de saúde, disposição e prorrogação da vida.
Antes, portanto, de designarem os produtos vegetais, animais
ou minerais usados como remédio, a palavra droga
representou, no contexto colonial, um conjunto de riquezas
exóticas, produtos de luxo destinados ao consumo, ao uso
médico e também como ‘adubo’ da alimentação, termo pelo
qual se definiam o que hoje chamamos de especiarias.
(CARNEIRO, 2005, p.14).
Não havia, no período colonial, uma diferenciação precisa entre comida e droga; entre comida e remédio, diferente da contemporaneidade quando há toda uma preocupação em se diferenciar um do outro. Distinção dos conceitos, diga-se de passagem, para fins médicos, juristas, políticos. Álcool, açúcar e café, do ponto de vista do consumo no período colonial, são da mesma categoria, já que cada um, ao seu modo nutre, dá prazer, além de combater as dores físicas e também as psíquicas. O estado entorpecente gerado por algumas drogas serviu ao uso noutros campos como êxtase religioso por ser um alimento espiritual (CARNEIRO, 2005, 15).
As drogas passam a ser usadas como instrumento de poder. Percebe-se que seu monopólio é reivindicado no Ocidente pela medicina e seu negócio, especialmente de açúcar e álcool, favorece o desenrolar da escravidão no tocante ao deslocamento de negros cativos às colônias americanas. A própria formação econômica brasileira tem, no álcool e no tabaco, a moeda desejada na África para o escambo de escravos.
A Regulação Estatal sobre o consumo de drogas, especialmente de álcool, revela o intento de controlar o prazer e o corpo, indício de uma sociedade que tem, na ordem disciplinar, seu farol de orientação definida na relação de poder sobre o autocontrole individual. O consumo de drogas é estimulado e proibido ao mesmo tempo sob o olhar regente das autoridades médica e jurídica como estrutura à busca da sobriedade como referência de conduta.
É importante destacar o elemento cultural do ato de beber ou como em cada contexto próprio, a bebida está carrega de variado significado. Enquanto no Ocidente, no âmbito daquilo por que se convém denominar de moderno, a embriaguez é considerada estado de desequilíbrio e excesso; noutro contexto, como o
analisado por Raminelli (2005), 20 beber fazia parte da cultura canibal ou da culinária indígena com roupagem e percepções bem distintas da convencionada pelos castos defensores da sobriedade.
O trabalho mencionado consiste na análise das visões dos missionários e colonos sobre os rituais tupis do período quinhentista. Consta que o uso da mandioca era base da alimentação indígena em todo o país, assim como fonte da embriaguez que costumeiramente precedia o canibalismo.
Aos missionários, a bebida feita da mandioca, mas também do milho e do caju, o cauim, era a fonte do desregramento. Virgens belas ou mulheres castas, durante o período do preparo, eram as responsáveis em garantir o ponto certo do cauim a começar de suas salivas, a partir das quais, a fermentação da mandioca ocorria. Em resumo, bebia-se o resultado do cuspe de virgens com o sumo da mandioca, quer dizer, um néctar de sensualidade e misticismo.
O cauim era bebido em várias cerimônias espirituais e sociais como no trabalho coletivo, nos rituais de passagem e na antropofagia. Em geral, os índios bebiam muito e quando o faziam nada comiam. Apenas ingeriam o máximo de cauim possível até a embriaguez, o vômito e o recomeço da beberagem.
O bom vinho era aquele que logo embriagava e provocava
vômito, melhor pretexto para continuar a beber. De fato, os
índios bebiam durante três dias e três noites e, depois de
saciados e completamente bêbados, vomitavam e colocavam
tudo pra fora. (RAMINELLE, 2005, p.38).
O consumo era proibido às crianças e a embriaguez servia para reativar a memória dos feitos guerreiros, da bravura, um momento de êxtase quando se bebia de morada em morada da aldeia até todos fazerem parte daquele instante coletivo de beber.
Para os jesuítas, a embriaguez é um problema à conversão das almas, pois era obra do demônio. A expansão da cristandade demarca a tentativa de pôr fim à beberagem, fonte de todos os males, principalmente da desonra e do desequilíbrio social.
Do mesmo modo que no universo indígena, entre os negros do Brasil colonial, o consumo de bebida alcoólica era grande. Era a cachaça a principal fonte de embriaguez. A presença da cachaça,
na sociedade colonial mineira,21 foi marcante, principalmente como mecanismo de comunicação entre os quilombos e os centros urbanos.
A cachaça criou um vínculo entre a produção e o consumo nos quilombos através do comércio clandestino. Desse modo, afirmou-se como meio de relação entre os negros fugidos e a sociedade da época. Além de consumida pelos negros, a cachaça também era usada pelas tropas de repressão como combustível estimulante.
Como bebida mais requisitada pela elite africana, a cachaça destruiu o hábito do consumo do vinho de palma e passou a representar, ao mesmo tempo, desagregação social e tráfico de escravos que induzia conflitos à captura de homens para o cativeiro. No Brasil, o consumo elevado de aguardente pelos negros sofre grande recriminação oficial e estimula a produção nos quilombos, segundo Guimarães (2005, 103). A cachaça passa a ser vista como responsável pela morte e doença de escravos e estimulante da desordem, por um lado, ao mesmo tempo em que se tornou apoio indispensável à conservação da estrutura escravagista. Um freio à rebeldia, pois curava males espirituais e angústias, como também, inversamente, estopim ao desabrochar dos sentimentos mais íntimos de liberdade.
A Metrópole passa a proibir o consumo por ser um dano à saúde pública e à economia dos senhores, por causar prejuízo pela morte e alcoolismo dos escravos. O Ministro Melo e Castro, da então Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos queria estimular o consumo do vinho de Portugal no Brasil e, portanto, impedir a produção e consumo da cachaça que era a principal concorrente do produto lusitano.
Para Valadares (2005),22 Melo e Castro queria enrijecer o mercantilismo sem levar em conta o desenvolvimento do capitalismo. Visão tradicional baseada na sua formação no Direito Canônico e da Escolástica que, em consequência, pretendia manter o pacto de subserviência da colônia para com a Metrópole, principalmente pelo controle fiscal.
A cachaça quebrava o pacto colonial porque viabilizava a concorrência dos produtos da terra (cachaça) com os da Metrópole, neste caso, o vinho. Chegou até ao Conselho Ultramarino a proibir, em 12 de junho de 1743, a construção de engenhos a fim de diminuir o consumo de cachaça e estimular a importação do vinho metropolitano.
Muito já foi dito sobre a cachaça como bebida concorrente do vinho, como moeda na aquisição de escravos. Historicamente, pode-se
falar no embate 23 vinho versos cachaça ou mais detidamente na importância da cachaça brasileira ao tráfico de escravos de Luanda: cidade mais importante da Costa Ocidental da África Central entre os séculos XVII e XIX.
De acordo com o trabalho citado, de 1600 a 1830, quando da proibição do comércio de escravos, a cachaça foi a bebida alcoólica mais importada e nas relações comerciais entre Brasil e Angola, no século XVIII, foi o elemento econômico mais significativo. Bebida dominante até o final desse século, mesmo com a concorrência do vinho português.
Em 1640, quando os holandeses ocuparam Angola, ocorreu uma “crise” de escravos ao Brasil. Neste caso, para suprir a demanda crescente de mão-de-obra e garantir uma fonte regular e abundante de escravos, os portugueses deveriam dominar o porto de Luanda. Para tanto, capital e pessoal foram recrutados para expedições de reconquista e expulsão dos holandeses, assim como, o envio de representantes comerciais para a construção de casas comerciais ou pontos de aquisição e venda de escravos.
A troca comercial era bastante satisfatória para os comerciantes brasileiros porque tabaco e cachaça de má qualidade eram os produtos centrais nessas transações. A extensa produção no interior da Bahia e em Pernambuco, por trabalho escravo, mais barato que o vinho português, aliado ao tempo de navegação Brasil/Angola ser menor, tornou o negócio muito vantajoso. Em resumo, a grande quantidade de cachaça produzida no Brasil favoreceu, em termos comerciais, as condições para o domínio e liderança do tráfico naquela parte do continente africano.
O tabaco cede espaço ao produzido localmente, na África. Já a cachaça continua valiosa, pois sempre desejada e vantajosa sobre o vinho, por oferecer teor alcoólico mais elevado, predileto no paladar dos fornecedores de escravos, além de mais resistente como destilado ao transporte e à estocagem.
O certo é que cada vez mais africanos começaram a pedir
cachaça como parte do comércio de seus cativos. Essa
mudança permitiu aos representantes das casas comerciais
brasileiras a aquisição de um número de escravos que variava
de 10.000 a 12.000, anualmente exportados de Luanda na
década de 1650. (CURTO, 1999, p.77).
A apreciação da jeribita, como era chamada a cachaça, favoreceu a crise do vinho e o consequente ataque dos portugueses à bebida brasileira. Passou a ser vista como bebida de má qualidade e responsável pela morte de muitas pessoas, fato que se tornava necessário, para os lusitanos, a urgente proibição do comércio e do consumo.
De todo modo, o doce da jeribita e seu preço barato eram mais atrativos. Assim, o vinho amargo e a proibição da cachaça, aliada à demanda pela bebida, impulsionaram o preço para alto. Resultado: desenvolveu-se um negócio ilícito ainda mais lucrativo através do contrabando.
Uma vez descarregada, a cachaça era misturada com água do mar e pimenta para aumentar o volume e, assim, os lucros. Em seguida, transportada em frasqueiras com capacidade de trinta e um litros por escravos, ao interior de Angola, onde era trocada por cativos.
Após anos de petição ao fim da proibição do consumo e pela legalidade da cachaça, laudos médicos afirmam que a ofensa ocorre pela quantidade inserida, não necessariamente a bebida em si. O comércio clandestino e a predileção dos africanos impuseram à Coroa portuguesa uma mudança de foco sobre a cachaça, sobre sua relevância para a captação de escravos para sua principal colônia. No final do século XVII, com a descoberta de minas de pedras preciosas no Brasil, a demanda por escravos aumenta e, desse modo, mais um elemento favorável ao comércio da cachaça veio à tona obrigando o fim da proibição.
A cachaça, resultado do processo produtivo do engenho de açúcar, seja como droga, alimento ou simplesmente bebida, está presente no cotidiano do Brasil, nos mais diversos espaços, como se tentou demonstrar aqui. Cada gole de cachaça irriga de início a boca, depois o resto do corpo, até no juízo se prestar de pé todo o elemento colonizador primeiro. Sua complexidade se esvai no sangue de quem a toma, de modo que cada trago remonta o espírito viajante português escravocrata e devoto de Nossa Senhora das Dores. O Brasil é uma extensão dos engenhos de purgar, não só açúcar, mas também bêbados.