Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba
Desagregação social e embriaguez
A cachaça assume um duplo papel, ao mesmo tempo em que é apreciada e difundida, exaltada pelo efeito embriagador, também se transforma em catástrofe, ou instrumento de desagregação social, perturbador, desse modo, da ordem de pretensão civilizada. Cachaça é sinônimo de escravo, de marginalidade, moeda valiosa àqueles bárbaros da África, devendo ser controlado a todo custo seu consumo, pois o país, embora povoado por tantos negros, não poderia ser confundido como extensão do “continente negro”, mas sim, da Europa, nos modos de etiqueta ou etiquetagem de um mundo civilizado, pelo menos como projeto de elite. Em outras palavras, pode-se dizer que o controle da embriaguez, pela proibição direta ou por meios discriminatórios, na criação de tabus sobre o hábito de beber cachaça, sinaliza um fenômeno moderno, mais precisamente como elemento civilizatório no sentido apresentado por Elias (1994).
Nesse sentido, mais do que avanços tecnológicos, expansão marítima e comercial, civilização consiste num processo de regulamentação de comportamentos, de controle sobre sentimentos e emoções, significando um estado de afetividade baseada no adestramento dos impulsos instintivos pela repressão racional, na tentativa de fuga das compulsões belicosas em direção à vida pacífica, diplomática, controlada, enfim, por um padrão cortês, centrado e contido sobre as atitudes e pensamentos. Desse modo, segundo Elias (1994), a civilização se afirma no plano afetivo como processo psíquico que define estados comportamentais pela relação entre medos na forma de delicadeza e vergonha, impondo ao indivíduo regras de uso sobre o corpo e a mente.
O homem civilizado vive preso à ideia paranoica de controle e repressão dos instintos mais humanos, e a embriaguez propicia justamente o contrário por lançar, quem nela se abraça, a estados avessos ao controle e a padrões normais ou de pretensa civilidade. O controle sobre o consumo da cachaça revela essa preocupação civilizatória, focalizada no divórcio entre os estados lúcido e embriagado, entre água e cachaça, entre, enfim, o sóbrio, educado e civilizado, e o bêbado, preso aos prazeres, impulsos e devaneios.
Cascudo (1986) destaca que, já no século XIX, o Brasil era considerado o país da cachaça, mas não de cachaceiro, sendo a sobriedade um marco no país, principalmente como hábito da nobreza de não consumir bebida alcoólica, a exemplo de D. João VI e dos Imperadores seus descendentes, D. Pedro I e D. Pedro II. A abstinência da fidalguia lusitana contribuiu para a formação de uma imagem estereotipada sobre a cachaça, tornando-a fonte de desejo e exaltação pelo entorpecimento exclusiva a negro e a pobre. Ninguém se impõe socialmente embriagado. Assim sendo, beber cachaça, ainda mais, embriagar-se com ela, nunca foi bem-visto pela etiqueta dominante das elites ciosas a aparentarem ares europeus. Cachaça, portanto, para esse mito da sobriedade, não é coisa de homem de bem, educado, mas sim, própria aos rudes destemperados e alheios à ordem social.
Aos negros e aos índios, a cachaça foi uma revelação trágica. Usada como instrumento colonizador, pode-se afirmar que a bebida se converteu em mecanismo poderoso ao processo de colonização do Brasil, seja para incrementar a economia pela compra de escravos, seja para desarticular insurreições e impulsos de escravos “teimosos” de sua condição. Se o chicote, o tronco e outros artifícios torturantes da carne não resolvessem o desejo imperativo de liberdade, a cachaça servia perfeitamente já que ninguém dá crédito a um bêbado, muito menos aquele que se propõe a líder. Tornar o escravo alcoólatra era antes de qualquer coisa “amansá-lo”,
desacreditá-lo pela embriaguez9.
Com o índio não foi diferente. Os jesuítas, segundo Cascudo (1986), proibiam o consumo de álcool nas aldeias. Porém, com sua liberação, a bebida contribuiu para desagregar povos indígenas, agora, por um sofisticado antídoto que atinge diretamente a sociabilidade. O consumo intenso da cachaça serviu e serve como terapia entorpecente aos que lhe são dependentes, tal qual uma solução mágica, milagrosa que transfigura, mesmo temporariamente, o presente imediato. Se a embriaguez libera o indivíduo de certas repressões, tal qual ocorre no sono quando do inconsciente desejos recolhidos mostram sua forma, então, alcoolizar-se é, de certo modo, sonhar acordado, liberar, portanto, o que já está latente, ansioso para se expandir. O álcool oferece a oportunidade de o sujeito embriagado mexer nas feridas sentimentais e nos desejos reclusos em função de sua capacidade anestésica, ébria, que descortina, por seu efeito, vontades tidas.