Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba
Fazenda Engenho Serra Preta: Aguardente Anel do Brejo e Dona Encrenca
A produção estilizada de cachaça, no respeito aos mínimos detalhes do plantio à divulgação, incluindo o turismo, sugere a Paraíba como promissora no negócio da cachaça ao dar à bebida um requinte sofisticado pelo casamento entre história, identidade regional, pureza e qualidade. Assim, a onda empreendedora à produção no Estado, segundo aqueles critérios há muito explorados em Minas Gerais, promoveu também a criação de consumidores diferenciados, próprios das classes mais altas, não só adeptos do “novo” produto, mas principalmente, construídos pelo próprio processo produtivo. O que ocorre na Paraíba é a construção de um mercado da cachaça de alambique por marcas semelhantes às de Minas, alimentado por consumidores especificados em grande medida pelo poder aquisitivo.
Fazenda Engenho Serra Preta: Aguardente Anel
do Brejo e Dona Encrenca
Figura 39 – Vista frontal da Fazenda Engenho Serra Preta
Entardecer no Serra Preta. Barriguda centenária na entrada do
engenho.
A proprietária é a quinta geração de senhores de engenho e procura manter a tradição da produção da cana e de seus derivados a partir dos ensinamentos dos seus antepassados. Neste caso particular, produz uma aguardente de cana 49% vol. segundo processo artesanal para o fabrico de um produto muito apreciado e de reconhecida qualidade.
Para Dona Eliane, não adianta somente produzir cachaça e rapadura. O engenho é muito mais que máquina moendo cana. Há, sem dúvidas, uma arte que o cerca, um encanto que lhe é próprio. Lembra-se, assim, das brincadeiras com as filhas dos trabalhadores na sua época de infância quando vinha do Colégio das Freiras em Guarabira Nossa Senhora da Luz passar as férias no engenho. Memórias que lhe trazem o apego ao lugar tão decisivo na sua vida e na de sua família, pois, mesmo distante, só pensava no engenho, afirmou.
Atualmente, faz questão de conduzir sozinha a empresa ao acompanhar tudo, desde a plantação até a venda, num convívio permanente na gerência de empregados e afazeres diários os mais diversos. Seus funcionários – de carteira assinada – e residentes nas proximidades do engenho, são filhos daquela região, que cresceram lá com os mesmos ares sob o comando dos senhores, parentes de dona Eliane.
Nas décadas de 1970 e 1980, muito em função da ação da igreja Católica e do Sindicato dos trabalhadores rurais, houve toda uma articulação dos pequenos agricultores à reivindicação dos direitos trabalhistas, já que na época não passavam de moradores. O bispo da Diocese de Campina Grande na época, Dom Manuel Pereira, conduziu, à luz dos ensinamentos de Dom Elder Câmara, a evangelização dos trabalhadores pela luta por seus direitos de forma pacífica. Porém, político e juridicamente orientada à reforma
agrária 42. A fazenda de Dona Eliane possuía quase 200 hectares. Mas, a partir da ação do sindicato, da Igreja e da mobilização dos trabalhadores, houve a desapropriação de 90 hectares para o assentamento dos antigos moradores. Cada família, no total de 40 (quarenta), recebeu um lote de terra entre 2,5 (dois e meio) e 04 (quatro) hectares segundo o tempo de moradia. Assim, criaram uma associação (Boa Esperança), construíram capela, casa de farinha e casas, com o apoio da proprietária do engenho como na compra de tijolos, por exemplo.
Hoje a região está definida por vários assentamentos rurais, seja como o que ocorreu nas terras de Dona Eliane, seja o decorrente da falência das usinas Tanques e Santa Maria para o pagamento dos direitos trabalhistas dos empregados. A pequena propriedade e a policultura demarcam a geografia da região, mas o que predomina é o plantio de banana e a criação de animais para a subsistência.
O Serra Preta combina a herança de antigo engenho e espaço de reforma agrária. Como seu bisavô, da família Baracuí – Pilões – que se abraçava às canas de tanto apego e dedicação ao fabrico de rapadura, cachaça e açúcar, assim também o faz Dona Eliane. Ela não é diabética, mas com certeza corre muito açúcar no seu sangue, para usar uma expressão bem popular.
O engenho hoje é empresa, no meu tempo era família. O
negócio de engenho é duro, requer muito investimento. Eu não
mudo nada, mantenho a tradição de meu pai”, afirma a menina
de engenho. (Dona Eliane, Proprietária da Fazenda Engenho
Serra Preta [Informação oral]).
Basicamente, só o engarrafamento foi aperfeiçoado para atender a certas exigências de mercado como rótulo, código de barras e marketing. No mais, tudo permanece orientado segundo critérios bem antigos, como por exemplo, a fermentação, que segue a mesma rotina de gerações. Plantio, colheita, transporte, moagem, fermentação, destilação (alambique de cobre) e embalagem compõem todas as etapas, e a aferição da qualidade requer vários testes como o de controle da acidez e do teor alcoólico, como também o visual para verificar a existência de algum resíduo na garrafa e, finalmente, o sensorial. A cachaça deve transparecer limpeza e cheiro de cana moída, de rapadura, com paladar suave quando colocada na boca, e queimor aromatizado no ato do gole.
Cachaça boa não queima na boca, nem dá ressaca. Para tanto, tudo influencia, desde a quantidade de sol, o tipo de solo, de levedura, a fermentação, o destilador e a armazenagem. O alambique deve ser cuidadosamente limpo e ao mestre alambiqueiro, cabe a definição do ponto certo da bebida. Quer dizer, aquele manejo do fogo que imprime na cachaça o seu parentesco com a rapadura.