Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba
Capítulo 2 - Cultura e cachaça de engenho da Paraíba: tradição e novas imagens
Capítulo 2 – Cultura e cachaça de
engenho da Paraíba: tradição e novas
imagens
“Bebo para tornar as outras pessoas interessantes.”
George Jean Nathan
No primeiro capítulo, foi analisado o processo de colonização do Brasil a partir da cana-de-açúcar, ou melhor, de como tal cultura agrícola decidiu a empreitada de conquista e de domínio português nos trópicos. Nos mais diversos aspectos, a cultura da cana de açúcar, além de ser decisiva na construção do país, fê-lo a partir de práticas sociais definidas segundo uma ordem patriarcal e personalista. No engenho, não se fabricou apenas açúcar e cachaça, mas hábitos e tradições.
Neste capítulo, pretende-se de início compreender os elementos que tipificam a tradição dos engenhos, os quais se tornaram objeto de análise sociológica e literária de Gilberto Freyre e José Lins do Rego, por exemplo, na construção de uma imagem sobre aqueles, a cachaça e também sobre o cachaceiro. O segundo objetivo é esclarecer o processo de desconstrução dessa tradição e a criação de outra, centrada no elogio da cachaça.
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Sedentos por terra e braços, os canaviais redefiniram paisagens, modos e processos sociais numa dinâmica entre nativos, conquistadores e escravos a tal ponto de sua complexidade caminhar para a definição de uma nação. A cana-de-açúcar, no sentido das relações formadas para produzir açúcar para exportação, foi sem dúvidas, o esteio da germinal sociedade brasileira, ao viabilizar, por assim dizer, condições econômicas (capital) e sociais (patriarcalismo, por exemplo) ao espírito aventureiro e empreendedor do português a desbravar sempre mais terras.
Como já foi exposto, o Estado da Paraíba sofreu o impacto, para sua formação, da expansão canavieira que partiu de Pernambuco. O domínio de terras e nativos para construção de engenhos e plantação de canaviais demarca sua origem, particularmente na Zona da Mata onde havia as condições naturais favoráveis ao cultivo. O engenho representava a base da sociedade colonial, tanto do ponto de vista econômico, quanto social de tal maneira que deve ser tomada com especial cuidado à análise da formação deste Estado, em particular.
O desenvolvimento dos engenhos e seu declínio frente ao potencial produtivo das usinas, no século XX, demarcam 400 anos de história forjada entre partidos de cana, conflitos de terra e outros ciclos econômicos, como o gado e o algodão expandidos em terras sertanejas. Com o fortalecimento das usinas, constata-se a falência de muitos engenhos, ou como passaram a ser conhecidos, engenhos fogo morto, aqueles que não produzem mais.
Porém, a partir dos anos 90, tanto velhos – em desuso – quanto novos começam a se fazer presentes na região do Brejo paraibano. Significa dizer que a Paraíba vive um novo ciclo da cana-de-açúcar, um momento econômico que tem como base os engenhos, porém, concentrados na produção de cachaça. Ainda há usinas e, diga-se de passagem, as responsáveis pela concentração de maior quantidade de terras e de capital no setor. Porém, o investimento num novo formato de engenho, aberto ao público, preocupado com a higienização do processo produtivo, interessado em turismo e no contínuo fortalecimento de marcas no mercado nacional de cachaças, é algo certamente novo e que merece devida atenção.
Uma investigação mais detida é fundamental para o entendimento desse processo, ao conferir in loco a teia de relações sociais criadas e significadas tanto no espaço de produção da bebida, quer dizer, no engenho. Entretanto, antes é necessário o estudo da tradição para em seguida, no trabalho de campo, contextualizar transformações e complexidades contemporâneas. Para tanto, a obra de José Lins do Rego serviu de fonte para tal investigação.
De fato, quem melhor demonstrou compreender o ambiente de um típico engenho paraibano nos seus contornos emocionais, nuances e formas de relacionamento às mais comezinhas, foi José Lins do Rego, e o fez literariamente. Embora o autor tenha ao seu dispor o requinte da ficção, percebe-se que sua obra deriva de lembranças, recordações de onde viveu quando criança, em outros termos, ficção regada de imagens vividas, memória.
A obra de José Lins do Rego é ao mesmo tempo doce e queimor, como rapadura e cachaça; feliz e saudosista ao remeter à infância brincalhona e livre, trágica e entorpecente, pela descrição de personagens tristes. Sua memória é muito útil ao entendimento dos papéis e atores sociais nos velhos engenhos: o senhor, o escravo, o trabalhador de eito, o morador, a sinhá, enfim, esclarecedor dos modos tão corriqueiros de gerações passadas. A leitura de cinco romances Menino de Engenho, Doidinho, Bangüê, Usina e Fogo Morto – revela seu investimento intelectual à análise daquilo que ele mesmo denominou Ciclo da cana-de-açúcar. Recuperou pensamentos, falas e posturas típicas da experiência de sua vida de menino de engenho.
Duas dessas obras (Usina e Fogo Morto) serão abordadas em miúdos como inspiração inicial ao entendimento da cultura dos engenhos de cana na Paraíba. A classificação, portanto, de ser ou não regional o trabalho de José Lins do Rego não será objeto de análise nesta tese. Pretende-se, tão-somente, capturar a leitura social que esse autor faz do seu momento histórico, de como entende a dinâmica de relações que vai de um apogeu na sua infância até a crise e malogro na fase adulta; de como o mundo onde nasceu paulatinamente se decompõe em ruínas. José Lins fez literatura, ficção, mas a construiu mediante a memória, um pensamento engajado resultante do empreendimento analítico e crítico sobre o mundo posto à sua frente. José Lins aplicou à
literatura os ensinamentos do seu amigo 24 Gilberto Freyre. Casa Grande & Senzala é um texto científico, Fogo Morto é literário, mas há em ambos uma mesma sociologia. Um se propõe a entender o Brasil a partir de categorias como patriarcalismo, sexualidade, casa grande, senzala; o outro faz valer esse mesmo plano teórico na forma de romance, ratificando a cada linha dos seus textos o pensamento do pernambucano. Sintonia entre sociologia e literatura, ambas como luvas e dedos acomodados.
Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala, transita por diversas fontes bibliográficas e demonstra sua exaustiva capacidade de investigação sobre o processo de formação da sociedade brasileira ao ponto de construir o monumento intelectual que é sua a obra.
A motivação para tantas incursões analíticas parte da problematização de como um país de dimensões continentais se tornou possível, não somente à garantia de fronteiras tão distantes, mas, sobretudo pela habilidade, no campo cultural que permitiu, no diverso, a delimitação de referenciais de identidade.
O brasileiro é híbrido. Pensá-lo, sentir-se sê-lo requer o exercício de encontrar lugar na mistura. Nesse livro, os matizes raciais ganharam vigor antropológico, mais que outro, propriamente genético que balizou tantas explicações pró-eugenia no século XIX. No Brasil, o apelo da pureza racial se esmiúça nos lugares mais comuns, seja nas cores de pele, seja nas outras que pintam sabores, expressões e sentimentalidades.
Alguns leitores mais desavisados evidenciam a tentativa freyriana de defender uma democracia racial, pois a partir do sexo despudorado do colonizador português com escravas índias e negras, há inter-relações em avalanche, senão na cor da pele, no falar ou no canto de ninar menino. Porém, o foco de Gilberto Freyre não é necessariamente este, uma vez que Casa-Grande & Senzala sinaliza muito mais que espaços de relações sexuais, mas uma categoria sociológica explicativa de um país de base escravocrata e patriarcal.
A elite aristocrática rural da casa-grande significa o que pode ser mostrado publicamente, o sofisticado, enquanto que a senzala, seu inverso, demarca o espaço dos odores, feiuras, dissabores, malfeitos e tudo o mais que deve ser recluso ao ambiente limpo e sadio da Casa-Grande. A relação entre tais espaços não é polar, mas complementar, pois ambos se completam de modo que não há um sem o outro, como faces de uma mesma moeda.
Enquanto Gilberto Freyre cria, a partir das ciências sociais, um texto científico, por mais ensaístico que seja seu estilo, quem o preenche de vida a partir de romances é José Lins do Rego com seu poder narrativo que esclarece de Menino de Engenho a Fogo Morto, naquilo que ele mesmo denominou de ciclo da cana-de-açúcar, a temática sociológica do patriarcalismo, da miscigenação. A sociologia e a literatura orbitam num mesmo eixo demarcado por pensadores afins, os dois, meninos de engenho.
Os romances de José Lins do Rego dão sangue, carne, ossos e principalmente alma à sociologia de Gilberto Freyre. O mundo dos engenhos, seu cotidiano, surge na forma textual em riqueza de detalhes que conduzem seus leitores aos tachos, moendas, cozinhas e canaviais de ficções resultantes da memória do menino que viveu esse cenário na sua infância na Paraíba.
Os textos de José Lins indicam pelo menos duas frustrações suas. A primeira delas se refere à decadência dos engenhos paraibanos engolidos pelas usinas que instauraram outras relações de trabalho e de convivência bem diversas da rotina personalista e patriarcal. A obra Fogo Morto coroa a decadência dos engenhos, finaliza um tempo. A outra frustração é a de como José Lins se entristece com o rebentar do mundo em que viveu e não se vê à altura de homens como seu avô para suportar o quadro. Enfim, vive no mundo urbano, no Recife ou no Rio de Janeiro, à companhia sempre presente de sua memória infantil, num desassossego melancólico de estar num lugar se sentindo de outro.
Como seria interessante ver José Lins constatar a revitalização dos engenhos paraibanos num formato contemporâneo. Qual sua reação diante de contexto diverso, agora de falência de usinas e de fortalecimento de engenhos que reencontram pujança econômica na produção de cachaça? Onde Casa-Grande & Senzala se atualiza? No momento em que a cachaça, foco de estudo desta tese, passa pela transformação cultural de ser consumida por novos públicos. A bebida ganha cidadania e assume a tez de sofisticação em rótulos e prêmios que a retiram da clandestinidade, de debaixo da mesa, para copos de degustadores exigentes bem diversos da imagem depreciativa do cachaceiro. A bebida sai da senzala e vai para a Casa-Grande, transita ao mesmo tempo no campo da tradição e da novidade.