Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba

José Luciano Albino Barbosa · Capítulo 21 de 23

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Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba

Produção de rapadura no Serra Preta

Conhece todos os lugares e todas as pessoas da região. Por muito tempo, trabalhou em engenhos, mas preferiu seguir a profissão do pai, pedreiro, da qual se orgulha muito, para viver fora, no Rio, fazer e mandar dinheiro à sua família e para a oficina de marcenaria que pretende concluir o quanto antes. Amizade com Reboco, abastecimento de sua moto e modesto reembolso financeiro pelos seus serviços, o qual se negou a receber, resumem a estratégia ao reconhecimento do Brejo em estradas que em muitos trechos não passavam de veredas ou sequência de buracos escondidos de poeira vermelha que nos pintava os olhos e em tosse se fazia quando de noite.

O Serra Preta serviu para esta pesquisa como quartel general, lugar de estudo, repouso e conversas, mas também o ponto de partida ao percurso rizomático, à visita de outros engenhos acessos a estradas de barro dos municípios de Alagoa Nova e Areia. Foram aproximadamente 100 km rodados sobre a moto de Reboco, sem as pretensões de um “Diários de Motocicleta” do Comandante, mas que criaram um roteiro pessoal muito significativo para este trabalho. Conhecer pessoas, engenhos e principalmente, constatar in loco a realidade em complexo construída ali foi o que restou de significativo ao registro do trabalho em pretensão.

 

Produção de rapadura no Serra Preta

À noite, quando começa o fabrico da rapadura no Serra Preta, por volta das vinte e duas horas, inicia-se um misto de festa e de muito trabalho braçal, como queimar caieira de tijolos manuais e dançar um baile ao mesmo tempo. Geralmente ocorre, à noite, para proveito do frio, pois o calor dos tachos é muito grande e incomoda os trabalhadores.

Da casa-grande ao engenho, a passos lentos nesses horários noturnos, dava-se o acesso. O celular/lanterna cumpriu sua função que se acabava em noite de lua, que do alto brilha, como no poema de Fernando Pessoa, à companhia de muitas estrelas a sugerirem a sensação de infinito. Tantas em quantidade naquela noite, invisíveis nas cidades, pois outras luzes, combinadas à perda do hábito de contemplar coisas tão simples ofuscam lumens que só o escuro da fazenda permite o olho no seu pouso nu, capturar.

Dentro do engenho fiz do meu juízo o mesmo que os homens com a cana, quer dizer, moer e cozinhar. Depois dos devaneios e contemplações no caminho, sistematizei em escrita descritiva a produção de rapadura e as relações híbridas patrimoniais no lidar e capitalistas nas leis do mercado e da Justiça do Trabalho atuantes. O respeito a Dona Eliane demarca a principal lei do engenho. Sem ela, não se corta cana, nem se cozinha nada. Dona Eliane é o principal produto do engenho, no sentido mais terno e objetivo do termo.

O processo de fabricação de rapadura se inicia com o corte da cana e depois a cambitagem. Quer dizer, transporte da cana no lombo de burros do canavial para o engenho.

Figura 41 Cambitagem.

 

Um motor elétrico gira as moendas de modo a extrair da cana madura seu caldo com cilindros que comprimem num espaço entre si o caule. Com esse tipo de maquinário, é preciso a ação conjunta de 05 (cinco pessoas). Dois que alimentam a boca da moenda, outro na saída da máquina para reintroduzir o bagaço para segunda moagem e 02 (dois) para retirada e transporte do bagaço através do

banguê 44.

Figura 42 – Motor

Figura 43 – Banguê

 

Em forma de “L” 08 (oito) tachos estão dispostos, 05 (cinco) recebem fogo na base, fornecido pela fornalha, e 03 (três) ao resfriamento. Das moendas, o caldo segue canalizado para um tanque chamado de “Parol” onde é peneirado, quando cheio, a moagem é parada.

Figura 44 – Cozimento do caldo em três tachos.

 

Cozimento do caldo em três tachos.

Figura 45 – Espuma do caldo sendo retirado

 

Com o calor o caldo ferve e espuma. Com a ajuda de uma cuia,

retira-se a sujeira que nela se concentra e é arremessada numa bica

à frente.

O mestre, Sr. Antônio Espinha, trabalha em engenho desde criança e hoje tem 61 anos, porém, aparenta bem mais. Sua função consiste em dar o ponto no mel da rapadura que, como qualquer doce, requer cuidados especiais no cozimento.

Todo o fabrico depende dos seus conhecimentos, de saberes adquiridos na prática e não registrados em lugar algum. O modo como mexe o caldo, o cheiro que exala do mel e sua textura, a quantidade de cal e de mamona para apurar o cozimento, não respeitam a tabelas ou cronometragens prefixadas, mas somente à sensibilidade do mestre.

O caldo tem uma espécie de gordura chamada “cera” a ser removida no processo de cozimento. Para tanto, utiliza-se cal que, segundo o mestre, concentra a impureza na espuma. Com uma cuia, a espuma suja é retirada.

Figura 46 – Processo de limpeza do caldo

 

Pequenas quantidades de cal, diluídas em água, e semente de

mamona triturada auxiliam na limpeza. As manchas escuras são

removidas e jogadas na bica, essa “esborra”.

Figura 47 – Tacho de cozimento, “o apurador”

 

Tacho de cozimento, o “apurador”, nele, a espuma clara, limpa,

indica que o caldo, em cozimento, chega aos poucos à forma de

mel.

Outro ingrediente importante ao fabrico da rapadura é a mamona. Para o cozimento de 160 cargas de cana, tritura-se 1,5Kg de mamona e mistura em água. Sempre que a espuma tende a derramar, um pouco desse caldo é arremessado no tacho, fazendo com que a espuma diminua e possa o caldo ser cozido por mais tempo. Sem a mamona, o caldo espuma como leite fervendo e derrama por todo canto. Sua função, portanto, consiste em prolongar o tempo de cozimento ao necessário, mel limpo, licoroso e já com o cheiro típico de rapadura. Para a boca, último tacho onde trabalha o mestre, vai o mel limpo para o cozimento final.

Figura 48 – Caldo no processo de apuração

 

Apurador

O mel cozido é lançado no tacho de resfriamento para ser mexido e transformado em massa de rapadura. Do último tacho, a boca, o mestre, com o auxílio de uma cuia, joga o mel nos tachos de resfriamento onde dois homens, um para cada tacho, mexem o mel até que a fricção com o metal e a oxigenação alterem sua consistência até que vire massa semelhante a barro. Mel vira barro que enche os ternos de rapadura, formas de madeira como de tijolo.

Figura 49 – Mel

Figura 50 – Massa de rapadura

 

A massa está pronta para encher as formas de rapaduras chamadas ternos.

Figura 51 – Formas de rapaduras

 

Em seguida, os ternos vão ao tendar, ao resfriamento final para serem batidos e transformados, enfim, em rapadura.

Figura 52 – Resfriamento das rapaduras

 

Os ternos são colocados de baixo para cima, da direita para a esquerda. Quem ensinou os portugueses o fabrico de açúcar foram os árabes. Isso pode ser percebido, por suposição, no modo de funcionamento do engenho, pois, como a escrita árabe, as etapas de fabricação seguem uma lógica da direita para a esquerda: o fogo, o resfriamento da rapadura. Quando a massa chega à forma sólida, os primeiros ternos são retirados e batidos na bancada acima.

Figura 53 – Rapaduras

 

O mel endurecido nas formas vira rapadura que, em seguida, é embalada em fardos de 25 unidades.

Em resumo, a fornalha aquece na sequência da direita para a esquerda as duas primeiras tachas (boca e apurador); na boca, o mestre coloca água para ferver e limpar o tacho, uma espécie de esterilização. Em seguida, no apurador, há caldo fervendo que começa a ser trabalhado, à medida que ferve. Nele, são jogadas cal e mamona para limpeza e controle do cozimento.

A noite fria do Brejo ameniza o calor do galpão. Assim, noite adentro, caldo cozido e com espuma clarinha chega ao ponto de rapadura. A primeira fornalha termina duas horas da manhã. Antes de começar tudo de novo, Chiquinho, um trabalhador faz de tudo, parou para fazer um cigarro de fumo de rolo. Com ele, fumei e conversamos na bagaceira.

Vive o serviço de engenho desde criança, mas já foi para o Rio de Janeiro trabalhar na construção civil como servente de pedreiro. Teve que voltar porque a filha mais nova queria casar, e ele disse por carta ao pretendente que se ele “bulice” (fazer sexo) com ela antes do casamento, os dois se atracavam na ponta da faca. Fizeram o casamento no civil. O religioso, de gasto, como ele disse, ficou para depois. Hoje trabalha no seu sítio e no Serra Preta, mas vez por outra, pensa em voltar para o Rio de Janeiro para fazer dinheiro.

É comum na região a migração para o Sudeste do país. Muitos vão passar pouco tempo, outros criam laços e raízes mais fortes, coisas que não os trazem, com frequência, para seu lugar de origem. No geral, querem fazer dinheiro para voltar logo. Lembram as migrações de outros brasileiros para os EUA.

Rio de Janeiro e São Paulo são as terras dos sonhos, promessas e vida de trabalho mais seguro, embora haja os problemas de violência no Eldorado. De maneira temporária ou definitiva, a migração ainda é um fenômeno recorrente, naquela região, e faz com que as pessoas se sintam em trânsito, ora de um lugar, ora de outro, seja pela história de cada um, seja pelo destino que familiares tomam. De todo modo, o engenho, Rio de Janeiro e o sítio particular formam os ambientes de trabalho e de convívio, uma rede de relações definida por parentes e amigos a concretizar laços de solidariedade e cooperação.

A destilação

A cana cortada, moída, que forneceu o caldo ao cozimento e produção do mel e da rapadura assume, no Serra Preta, o primeiro momento de um processo maior. Na limpeza do caldo, ou melhor, na retirada da impureza, concentrada na espuma fervilhante, pela cuia do caldeireiro, a esborra, o resto impuro e indesejado à rapadura escorre pela bica encostada nas tachas de cozimento.

Esse resto contém, e muito, sacarose que, antigamente, segundo Dona Eliane, era destinado aos burros. Com o tempo, passou a ser fermentado para a destilaria. Assim, logo após a moagem da cana para rapadura, acumula-se a esborra em cubas (tanques) de fermentação. Esta etapa é a principal para a produção de cachaça.

Sem a adição de qualquer produto químico, as leveduras presentes na cana “trabalham” na transformação de açúcar em álcool. O tempo da fermentação quem dá é a levedura. Quando o caldo “cai”, quer dizer, quando o líquido não tem mais açúcar, chega-se a hora de bombear o vinho ou “garapa azeda” para o alambique.

Figura 54 – Fermentação natural da “esborra” e do caldo

Figura 55 – Leveduras “trabalhando”

 

A garapa azeda é cozida no alambique com capacidade para 850 litros, os quais rendem uma “alambicada” de aproximadamente 100 litros de cachaça.

Figura 56 – Alambique de cobre(b)

 

O processo segue o mesmo descrito em outros engenhos. Primeiro líquido, cabeça, depois coração e por fim, calda ou caxixi.

Figura 57 – Destilação

 

A destilação retira o álcool do mosto no choro da bica no balde.

Figura 58 – Cabeça (instrumento de medição)

 

Cabeça

Figura 59 – Medidor do teor de álcool

 

Medidor do teor de álcool.

A “Cabeça” a quase 70% V (a cada litro 70% é álcool), segundo instrumento apropriado para medir o teor alcoólico: alcoolômetro de Gay-Loussac e Cartier. No Serra Preta, é produzida uma aguardente de 49% V a vinte graus Celsius.

O trabalho do alambiqueiro, Seu João, consiste no controle do fogo no alambique. Com mais fogo, a destilação acontece mais rápida. Logo, seu trabalho requer paciência e controle do tempo de fogo para a devida graduação alcoólica.

Seu João trabalha de noite na companhia de um rádio e do pesquisador naquela ocasião. De madrugada, sintoniza a emissora Sociedade da Bahia que canta de Luiz Gonzaga a Amado Batista, mas, às cinco horas, começa o enfraquecimento do sinal radiofônico soteropolitano e outra emissora logo a substitui. O trabalho do destilador é solitário. Seu João, homem de poucas palavras, balbucia, canta “Moranguinho do Nordeste” e, de vez em quando, fala alguma coisa, puxa assunto, reclama da demora do alambique e do sono.

Lembrou-se do medo que teve quando o bagaço pegou fogo. O vento fez a fornalha cuspir brasa para a bagaceira. As chamas logo alcançaram o telhado e derreteram o encanamento que bombeia cachaça para as pipas. Daí, a cachaça alimentava as chamas e o desespero aumentou ainda mais.

Nesta hora, como em todas as situações de sufoco, entrou em cena a figura do administrador do engenho, Homim. Homem de temperamento calmo e seguro de si, enquanto Sr. João não tinha mais voz para gritar, providenciou água, isolou a cachaça dos alambiques e combateu o incêndio. A experiência é o gelo do sangue. Homim sabia que o bagaço compacto e seco queima de cima para baixo e fica mais na superfície o fogo. Seu controle emocional e a disciplina reconhecida puseram termo às chamas e à desordem. O assunto virou chacota e mangação, e Seu João conta ainda com medo a lembrança ruim.

Engenho é isso, trabalho duro, paciência, controle emocional, nas horas difíceis, e o principal, pessoas hábeis e de confiança para tocarem o serviço. A senhora de engenho não sai do Serra Preta e acompanha tudo, seja com os olhos fitos, saudosos e empreendedores ao mesmo tempo, como o híbrido de Latour (1994), seja através de seus funcionários, fiéis e experientes, a exemplo de Homim, o homem mais calmo que já conheci.

O trabalho na destilaria segue e o sono me castiga. Não fosse a promessa que fiz de não beber durante a pesquisa, tomaria naquela hora uma “lapada” daquela cabeçada a 70% V com café. Às seis e trinta, o ciclo se fecha, quer dizer, do corte da cana ao fabrico da rapadura, depois para a fermentação e destilação.

O Serra Preta caminha da rapadura para a aguardente, há décadas, porém investe agora no turismo para canalizar ao engenho mais fôlego econômico. Dona Eliane projetou um restaurante para receber visitantes curiosos da cultura de engenho.

Sua teimosa insistência no fabrico tradicional acabou por dar vida a uma indústria que pode ser chamada de arcaica em relação às outras vizinhas, mas ao mesmo tempo, que mantém processos e relações vivos característicos daqueles descritos em Casa-Grande & Senzala. No contexto capitalista contemporâneo, o Serra Preta, analisado isoladamente na perspectiva econômica, pode ser considerado um engenho decadente. Porém, por outro lado, ao se observar em perspectiva, sua forma peculiar o transformou em atrativo ponto turístico, uma vez que história vivida e as formas cristalizadas em móveis, tachos e relações agregam valor, no momento em que há o estímulo dessa tradição.

O Serra Preta passa por um processo de modernização na medida em que congela seu modo arcaico e o transforma em informação, em imagem turística. Em outros termos, a manutenção de tecnologias consideradas antiquadas e a valorização da cultura do açúcar de ares bucólicos, da infância de Dona Eliane, tornam-se valioso espaço de exploração turística e gastronômica.

A Senhora de Engenho modernizou o patriarcalismo. O Serra Preta não funciona na impessoalidade, pois toda a sua rotina, a continuidade com o passado permanece no fazer cotidiano e ritualiza os fabricos de aguardente e rapadura, num processo que reproduz uma tradição (HOBSBAWN, 2008). As práticas e técnicas do engenho não são apenas repetição de operações, mas rituais vividos mediante certo costume, principalmente aquele baseado na autoridade de Dona Eliane. O salário, a relação comercial, as carteiras de trabalho, a gestão, enfim, da empresa dependem diretamente da pessoa dela, como se fosse o pilar que sustenta todos os acordos.

No engenho Serra Preta, aparentemente o mais atrasado do ponto de vista técnico e estético, ocorre um arrojado processo de modernização, mesmo aparentemente o contrário seja visto, no sentido de que a preservação de saberes e da tradição tem função mais que material, simbólica.

O sentimento misantropo de Dona Eliane em relação aos seus vizinhos empreendedores se converte em estratégia de mercado, pois sua estrutura dissonante dos demais, antiquada e anticapitalista, classificada mesmo por tradicional, revela seu outro lado da moeda, justamente aquele que usa a própria imagem da tradição e de bucolismo como atrativo para outro setor do mercado, o de turismo.

Sua ideia de construir um espaço de recepções no Serra Preta, devidamente projetado para atender clientela curiosa do exótico. Quem sai da cidade para ver indústria? Qualquer engenho por mais bem aparelhado que seja não chega a ser novidade para qualquer citadino, a não ser a peculiaridade do fabrico. O restante é manufatura nos moldes da organização capitalista.

Já no Serra Preta, há burros carregados de cana que atendem ao sinal de voz do cambiteiro; há moendas e processos de fabricação herdados de seus avôs, bisavós, móveis e outros objetos da mesma época que atraem o visitante curioso.

O Serra Preta, aparentemente em decadência, “levanta a cabeça” no poço de areia movediça, “encontra terra nos pés” que pode lhe arremessar para o alto, onde estão os bem-sucedidos neste novo ciclo da cana-de-açúcar.

O industrial que teima em produzir suas mercadorias com máquinas do século passado está fadado à falência, afirma Durkheim (1996). Por que então o Serra Preta teima em não se modernizar, na compra de novas aparelhagens, falta de recursos? Parece não ser o caso. A compreensão é outra, pois muitas linhas de crédito foram abertas e um sem número de aventureiros, nos termos de Holanda (1997), correu à sua busca e o malogro foi o destino de vários.

Mais uma vez vem à tona o personagem Dr. Luís da São Felix (REGO, 2008). Paciente, temperado, ofensivo na hora certa, assim é Dona Eliane. Sua intuição inconsciente, talvez, de não se endividar, de manter o Serra Preta a todo custo para em seguida explorá-lo de outro modo, no turismo, revela sua astúcia de Senhora de Engenho, empreendedora e paciente ao mesmo tempo.

A construção do restaurante, com recursos próprios, começou no fim de 2009, após a visita do arquiteto para as primeiras observações técnicas no local da obra. Em 2010, na festa da Cachaça e da Galinha em Alagoa Nova/PB, Dona Eliane teve, na sua previsão, outra estrutura aos visitantes. Nenhum engenho, dos visitados na pesquisa, possui a combinação tradição e modernidade como o Serra Preta.

Noutros, há espaços para degustação, restaurantes e por que não dizer, estrutura mais arrojada. O Serra não é exclusividade, mas a combinação do antigo engenho, em cristalizações culturais nas moendas, tachos e alambique, como na forma cordial e de reciprocidade em que as relações interpessoais se assentam. São bem visíveis nele.

Na obra de José Lins, de Menino de Engenho (2003) a Fogo Morto (2003), há, em detalhes sentimentais e sociológicos, um amalgama estético, o apogeu e a decadência da família patriarcal baseada no trabalho servil nos engenhos paraibanos. Engenhos pequenos, banguês, grandes e sofisticados e de fogo morto, sem funcionar, existem ainda hoje no Estado.

Este livro pretende mostrar que aquela realidade descrita por José Lins não é coisa do passado, perdida como romance regionalista dos anos trinta do século XX, nem sua conservação, como querem aqueles que falam em originalidade, tradição, preservação cultural, resistência, mas coisa reinventada. Todo regionalismo, toda busca pelo genuíno e autêntico, toda tentativa de resgate da cultura como se ela fosse um brinquedo que a qualquer hora será destruído pelo novo ou invasores bárbaros, é sinônimo de facismo. Isto mesmo, nazismo. Busca da pureza, conservação da originalidade e crítica ao diverso é coisa de nazista. Pura aqui, só a cachaça.

Sustentar o Serra Preta na sua condição atual, manter a folha de pagamento em dia, garantir décimo terceiro, férias e pagar todos os outros direitos trabalhistas são obrigações impossíveis devido à baixa produtividade do engenho. Por vezes, confidenciou Dona Eliane, que reservas financeiras do seu marido, Sr. Geová Weiner, ajudaram-na para que ela não visse seu engenho em fogo morto.

Em nenhum momento, a sentimentalidade da Senhora de Engenho foi posta à prova, uma vez que, desde a infância, vive de forma plena seu lugar, suas memórias e heranças. O respeito e a consideração por ela devem ser destacados, mais ainda por tocar, por assim dizer, tudo aquilo sozinha com 62 anos de idade, com vitalidade incrível. No entanto, todo esse empreendimento de manter certo modelo produtivo, mesmo arcaico, que às vezes lhe dá prejuízo, faz parte de um processo maior de reificação, de utilizar a informação do tradicional como estratégias de valorização do seu engenho, agora para fins turísticos.

O Serra Preta possui, no atual momento, condições concretas para o oferecimento de um serviço rentável como o turismo. Os produtos são consumidos ou vendidos nas suas dependências, já que os mesmos não são como as outras marcas, que necessitam logística de vendas ao escoamento da produção.

Quão interessante seria se José Lins do Rego estivesse vivo para ver, por ele mesmo, uma mulher sozinha na administração de seu engenho. Do plantio ao atendimento do restaurante vindouro, Dona Eliane é tudo o que ele não pôde ser em vida. Enquanto o menino não se definia como do engenho ou da cidade, da promotoria ou da usina, a menina tem no engenho seu espaço de rejuvenescimento.

Todo o movimento em torno da cachaça, acompanhado nesses últimos quatro anos, revela a busca de estratégias de sobrevivência num mercado cada vez mais seletivo e dinâmico. Se num certo momento, cachaça foi sinônimo de vagabundagem, bebida desqualificada, hoje, com o investimento na produção e na imagem, a dinâmica entre produção e consumo da bebida inventou uma nova tradição (HOBSBAWN, 2008). Se para esse autor a decadência do costume modifica a tradição, certamente a equação invenção do costume é igual a nova tradição.

Nem de longe, os engenhos do Brejo paraibano se parecem com aqueles de José Lins e Gilberto Freyre. Escravos, depois moradores servis de trabalho alugado e subserviência ao Senhor de Engenho. Os atuais engenhos são pingos d’água em relação aos oceanos de terras que os antigos concentravam; não são também concorrentes das usinas que ainda existem no Estado, espacialmente no litoral. São, certamente, novos empreendimentos munidos de estratégias cooperativas, orientação de mercado através do SEBRAE e principalmente muito empreendedorismo e trabalho duro combinados ao sucesso de marcas que se consolidam no mercado de cachaça do Brasil. Dão à Paraíba, não somente destaque, mas principalmente selo de identificação como lugar onde se produz cachaça de qualidade.

Em A Cultura do Novo Capitalismo (SENNETT, 2008), o autor examina a fabricação de automóveis e confirma que há uma plataforma global, onde gigantes como a Volkswagen e a Ford produzem peças e motores os quais não se diferenciam em nada. Porém, há uma laminagem a ouro, manipulação de detalhes sobre o design, fechaduras das portas, informações sutis, enfim, que são os principais elevadores dos preços desses carros de estrutura semelhante. Lembra que entre nós humanos e os chimpanzés, há aproximadamente 96% de DNAs iguais, no entanto, homem é homem, macaco é macaco.

De certo modo, ocorre o mesmo com as cachaças da Paraíba. Embora cada uma se apresente com suas particularidades, faz parte de uma mesma estrutura e processo produtivo que não as diferencia em quase nada. Os detalhes, porém, na limpeza do engenho, no uso de produtos orgânicos no plantio, na seleção do coração da cachaça, no controle da acidez, no tempo e nas madeiras das pipas de armazenamento etc. são variáveis que podem modificar em muito uma cachaça da outra. Essa laminagem a ouro sobre a cachaça faz com que haja competição entre as principais marcas ao ponto de se constatar na Paraíba, hoje,

segundo a Revista Veja 45, 03 (três) das 05 (cinco) melhores cachaças de alambique não envelhecidas do país (Volúpia, Serra Limpa e Serra Preta). Duas com a maior nota e a Serra Preta em quinto. É bom lembrar que no Brasil se estima o número de 30.000 produtores e 5.000 marcas. Assim, as paraibanas estão mais que reconhecidas nesse universo.

Não somente na produção, mas principalmente no âmbito simbólico, há também essa laminagem de outro. No caso do engenho Serra Preta, por exemplo, Dona Eliane inconscientemente utiliza a tradição como propaganda de seus produtos e faz isso de forma bastante eficiente. O que vai fidelizar o consumidor é o conceito atrelado à cachaça, embora as mesmas tenham preços semelhantes e processos produtivos também. Será o apelo que cada uma vai fazer para atrair seu público que definirá seu espaço no mercado, seja com o chamado da tradição, da qualidade, ou outro.

 

36 Fundação Centro de Tecnologia Industrial da Paraíba – FUNCETI. Perfil dos Engenhos de Cana-de-Açúcar do Brejo Paraibano. Série Estudos e Pesquisas, nº 1 – Edições FUNCETI, João Pessoa/PB, 1995.

37 Ver relação dos engenhos em anexo.

38 Material mais usado por não liberar resíduos tóxicos ao ser humano.

39 Estudo realizado pelo SEBRAE indica que a tributação chega a 83,07% sobre o produto final. Ver:

<http://www.sebrae.com.br/uf/espirito-santo/areas-de-

atuacao/agro/cachaca/integra_bia?ident_unico=1433>. Disponível em: 26 fev. 2009.

40 In: <http://trago-brasil.blogspot.com/2007/02/tributao-da-

cachaa.html>. Acesso em: 26 fev. 2009.

41 Através de e-mail e telefonemas ao presidente da Associação Mineira – Marco Antônio de Magalhães – e de visitas ao site foram obtidas informações sobre a produção de cachaça naquele Estado.

Cf. <http://www.ampaq.com.br>

42 O padre Cristiano Joosten, da Ordem Redendorista Nordestina, atuante decisivo na luta pela reforma agrária e pelos direitos humanos durante a Ditadura Militar concedeu entrevista de grande valor ao entendimento do processo de desapropriação de terras na região do Brejo Paraibano.

43 Mais informações: balaionordeste@yahoo.com.br. Presidente:

Joana Alves joanitasilva2006@hotmail.com

44 Espécie de maca à base de cipó encarregada pelo transporte do bagaço da cana. A expressão engenho banguê é usada para os engenhos antiquados ou de tecnologia superada. No Serra Preta, por mais que o bagaço seja reintroduzido na moagem, a máquina não extrai com precisão o caldo e assim, desperdiça muita sacarose.

45 BUCHALLA, Anna Paula. Guia Veja: Cachaça para degustar. Veja. Edição 2152, v. 43, n. 7, 17 fev. 2010.