Engenho de cana-de-açúcar na Paraíba
A cachaça como bebida polarizada ou a relação pendular entre o genuíno e o marginal
A cachaça como bebida polarizada ou a relação
pendular entre o genuíno e o marginal
A cachaça esteve sempre associada ao extrato social mais baixo, especialmente aos negros escravos e aos índios cada vez mais excluídos aos confins do país. Como seu consumo se popularizou em larga escala, a bebida se brasilizou no sentido de se tornar comum, presente no cotidiano, na forma ordinária como as pessoas a consumiam nos lugares mais diversos, distantes dos cerimoniais abastados dos salões imperiais com seus requintes nobres de vinhos europeus conduzidos em garrafas e taças apropriadas para cada evento e refeição.
Ao contrário das etiquetas “civilizadas” dos palácios com hábitos protocolares de encontros elitizados, está presente a cachaça em todo boteco da esquina, no barraco do mais pobre, na hora do almoço, antes de abrir a marmita para posteriormente encarar a lida diária, no final do dia, quando o frio da noite e a fome apertam. O gole é o consolo remoto de quem vive na rua, no velório do conhecido, aliviando a saudade pela lembrança de goles outrora
tragados, 10 bebendo o defunto , como falou Jorge Amado.
Bebida notória em extensão e profundidade no país inteiro, segundo denominação pendular, ora como referência pejorativa de pobreza e de falta de requinte, ora como parâmetro de genuinidade à definição do que seria brasileiro. Surtos de brasilidade apoiados em insurgências tupiniquins no período da Independência foram comemorados com cachaça, segundo Cascudo (1986), destacando-se como reverso polar daquela imagem denegrida, agora sinônimo de nacionalidade ou sua representante identitária.